Notas iniciais
Esse é um capítulo muito especial, devo dizer. Ele possui mais de quatro mil palavras por motivos bem óbvios que vocês presenciarão no final. Eu realmente gostei de escrevê-lo, e tentei meu máximo nele. Enfim, espero que gostem. Leiam as notas finais!

Josh terminou o suco, deixou o copo na mesa e andou até sua cama, onde Alexandra ainda dormia. Ela dormia de um jeito espaçoso, como se dominasse o lugar, e deixava os lençóis desarrumados de um jeito tão irritante que Josh tinha vontade de tirá-la dali só para arrumar tudo novamente.

– Alexandra, acorde. – Ele chamou, mexendo no braço da garota. – Sandra.

Ela grunhiu, se remexeu na cama e cobriu o rosto com a coberta. E Josh percebeu que aquele seria o lado mais natural e verdadeiro que veria dela: Um lado preguiçoso e cheio de manha, um lado que toda garota possuía.

– Mais cinco minutos. – Ela pediu.

Ele sorriu. Eram esses aqueles momentos em que Josh via que, bem lá no fundo, Alexandra era só mais uma garota que foi derrubada pela onda da vida várias vezes e tomou tanto caldo que cansou de se levantar para ser forte. Josh estava mais ou menos naquele nível, mas ainda conseguia cambalear um pouco e aguentar as ondas novamente.

– Sandra, nós precisamos conversar.

Depois de alguns minutos, ela sentou na cama e encarou Josh.

– Conversar sobre o que?

– Vamos lá fora e eu te digo.

Alexandra vestiu um agasalho, pois estavam em dezembro e começava a nevar levemente no exterior. E, mesmo no subterrâneo, ainda sentiam o frio e, por isso, mantinham um cuidado especial com o ambiente. Will deu uma coberta a mais a cada pessoa, depois distribuía antigos moletons e calças para que usassem quando fossem dormir, e saíam com menos frequência, evitando o ambiente, já que não estavam tão preparados quanto deviam estar.

De fato, ninguém na Zona B estava realmente preparado para o inverno. Os alimentos perecíveis estragavam mais rápido, o comércio fechava por conta da neve e as colheitas ficam improdutivas pelo solo congelado. O inverno era, de longe, a pior época do ano. Todos iam à falência, as pessoas passavam mais fome e, como não havia comida suficiente para todo mundo estocar, acabavam por utilizar alimentos congelados que não supriam quase nada. As casas esfriavam cada vez mais, conforme a temperatura do ambiente externo ia abaixando, e não havia aquecedores, lareiras ou outros meios de aquecimento em quase nenhuma das casas, pois o sistema de energia era péssimo e as árvores só podiam ser cortadas com licença da A, o que era quase impossível de acontecer. No fim, todos suportavam com dor e cansaço o inverno, esperando o verão chegar para que pudessem voltar à miséria normal.

Juntos, Alexandra e Joshua caminharam para fora do alojamento, subindo a escada e em seguida fechando o alçapão. Ela estremeceu por um momento e Josh sentiu a ponta do nariz avermelhar conforme respirava. Juntou as mãos próximas à boca e aqueceu-as.

– Sobre o que nós precisamos conversar? – Ela perguntou. Nuvens de respiração saíam de sua boca enquanto ela falava. – Você não quer me fazer treinar novamente, não? Sabe que eu não gosto.

Ele suspirou longamente. O ar ficou esbranquiçado perto de sua boca.

– Você precisa ir embora, Alexandra.

Contrariamente a sua imaginação, Alexandra não ficou assustada. No lugar, ela soltou um riso de escárnio e cruzou os braços abaixo dos seios, depois esboçando um sorriso cínico e estreitando os olhos.

– Você tá de brincadeira comigo, certo? Só pode estar!

– Alexandra, você...

Eu nada! Você! – Ela apontou para Josh, encostando o indicador no centro de seu peito. Por um momento, ela duvidou se sua presença era tão ruim assim para ele, mas concluiu que não era nada disso, que estava longe de ser isso. – Já entendi...

Alexandra descruzou os braços, colocando uma mão em cada lado da cintura. Aquela posição clássica feminina era tão irritante a Josh que, por um breve segundo, ele desejou com todas as forças que ela fosse embora logo.

– Você ainda a ama, não ama? Depois de todas as coisas que ela fez, o tanto que ela te fez sofrer, você ainda a ama. – Josh assentiu. Ela riu em desprezo. – Ela sabe do seu segredinho?

Foi naquele momento, aquela fala, aquela frase crucial, que Josh engoliu em seco e mostrou-se vulnerável à Alexandra. E foi naquele momento que ela viu a chance perfeita de manipulá-lo, de ter a sua presença naquele lugar confirmado de uma vez por todas. Josh piscou cerca de duas ou três vezes e crispou os lábios, em nervosismo. Ninguém o deixava assim há anos, muitos anos, quando ele ainda era um garoto.

– Você não ousaria...

– Contar? Você sabe que sim. – Alexandra alargou o sorriso, transformando-o em algo que podia ser considerado perverso, até mesmo maléfico. As pupilas dilataram-se com a sensação de controle e ela tombou a cabeça levemente para o lado. – Meu querido, eu posso tudo o que eu quero. Principalmente com você.

– Não conte a ela, por favor. – Ele colocou as mãos sobre seus ombros, num ato de desespero. – Se ela souber, vai estar tudo destruído entre nós.

Vagarosamente, Alexandra deslizou a mão pela lateral do rosto de Josh, olhando-o ameaçadoramente, como se ela fosse a líder de uma máfia e ele, o pobre coitado que resolveu se intrometer em seus negócios.

– Eu até posso não contar e sair, isto é, por uma pequena recompensa.

– O que você quer?

Ela pousou o indicador sobre os lábios, com um sorriso perturbador.

– Eu quero mil dólares, em dinheiro.

Josh arregalou os olhos e deu um passo para trás.

– Eu não posso pagar isso.

– Então nada feito. – Ela virou-se e voltou a caminhar em direção ao alçapão. – Aposto que Charmin vai adorar saber que...

Ele agarrou seu pulso.

– Não! Espera.

Alexandra olhou-o por sobre o ombro e arqueou as sobrancelhas.

– Eu posso... Posso te dar setecentos. E ainda te compro alimento suficiente pra uma semana.

– Feito.

Josh soltou sua mão do braço de Alexandra e colocou dentro do bolso da calça.

– Você tem até hoje à noite para sair. – Ele falou. Em seguida andou até o alçapão, agachou-se e abriu-o, colocando os pés para dentro e olhando para ela uma última vez. – E não me procure mais.

***

Por mais que não quisesse admitir, Julian estava incrivelmente... Sexy.

Ela usava um short grudado nas coxas, que eram excelentes por sinal, e um top que deixava à mostra os fartos seios. O cabelo estava preso num rabo de cavalo e, Jack notou, ela possuía vários piercings; Um no umbigo, com o pingente de caveira. Duas argolas na sobrancelha e mais três argolas na orelha esquerda. Por um momento, Jack comparou-a com Charmin, e percebeu que as duas não podiam ser comparadas de tão diferentes que eram.

– Quando vamos começar? – Perguntou ela, ajeitando faixas na mão. Ele não respondeu, somente continuou encarando-a de um modo certamente assustador. – Jack? Tudo bem?

Ela se aproximou de onde ele estava, sentado no banco, e tocou sua testa, debaixo do cabelo. Imediatamente, Jack abriu os olhos e parou de pensar no corpo de Julian, olhando para cima e vendo o dedo dela sobre sua testa, os seios dela estavam próximos demais a seu rosto.

Não que Jack não fosse forte com mulheres, ele era, e muito. Mas, depois de Charmin, ele pegou certo trauma de se apaixonar e tentava distanciar o máximo possível o pensamento feminino em sua mente. Então, quando ele resolvia brincar com uma garota, era só brincar e assunto acabado. Nunca mais a via, e logo ela percebia o quão cafajeste ele era e ia embora, pensando nele como um ser repugnante.

Mas, de um modo misterioso, Julian era diferente. Ela derrubava, bloco por bloco, as muralhas que protegiam Jack. Primeiramente, ela passou na muralha do afastamento, tomando outra iniciativa de contato com ele. Segundamente, o fato de ignorá-lo e trocar de assunto, deixando-o surpreso e até excitado, fazia tempo que as garotas não eram tão ousadas com ele. Então agora, mostrando o corpo sem nem se importar com o que ele pensava e comprovando, de uma vez por todas, que, além de personalidade, ela tinha muito mais que poderia ser atrativo.

– Vamos começar. – Ele se levantou, esfregando as mãos e depois prendendo o cabelo. – Primeiro: você vai treinar socos naquele saco ali. – Ele apontou para um lugar onde estava um saco de pancadas azul e uma estante cheia de luvas. – Escolhe a que caiba em você e começa a socar com a maior força possível, em sessões repetidas e atinja como se fosse realmente uma pessoa.

Ela correu até o local e pegou um par de luvas azul, colocou-as e começou a dar socos de força média no objeto. Jack aproximou-se dela e, agarrando cada pulso seu, instruiu-a a como socar de um modo que doesse menos.

– Soque duzentas vezes, sem parar. – Ele mandou, e assim ela fez: começou a contar em sequência a quantidade de acertos enquanto Jack pegava uma garrafa d’água e tomava um gole.

Ele a observava enquanto Julian acertava o saco cada vez mais forte. Geralmente, quando alguém sem treinamento chegava a cem socos, a força ia se perdendo a o acerto ia ficando cada vez mais fraco. Mas Julian não enfraqueceu ou vacilou nenhum soco sequer. Estava dedicada a sua função e, pelas contas de Jack, ela fez mais que duzentos.

– Pode parar. Agora você vai treinar comigo. – Informou, enfaixando as mãos e, em seguida, tirando a camisa. Julian o olhou por cerca de dez segundos, antes d’ele mesmo conseguir captar o olhar dela sobre sua barriga, e depois virou o rosto. – Aconteceu algo? Está tonta?

– N-não. Está tudo bem.

Ela mordeu os lábios, escondendo um sorriso, e aproximou-se dele.

– Me soca. Onde quiser. – Ele falou. Ela atingiu sua barriga com força, ele admitia a si mesmo que ela era mais forte que ele imaginava, mas ainda não era o bastante para enfraquecê-lo. – Mais forte, Julian.

Ela socou-o novamente e Jack chegou a sentir uma leve falta de ar. Então, quando ela ia atingi-lo novamente, Jack segurou sua mão, virou seu braço e a incapacitou, depois acertando a dobra de suas pernas e deixando-a ajoelhada.

– Quando alguém acertá-la, Julian, não fique parada e espere que alguém peça. Só soque.

Repentinamente, ela deitou no chão e deu uma rasteira em Jack, fazendo com que ele caísse em cima dela; Agarrou-lhe os pulsos e virou-se para cima dele, sentando em sua cintura e colocando os pulsos acima de sua cabeça. Ele não poderia mexer-se, estava totalmente imóvel. Os pés não se debatiam, pois ela pressionava as pernas, deixando-as dormentes.

Ele sorriu para ela. Um sorriso que não dava há muito tempo, um sorriso maravilhado e surpreendido. Então, ela encarou-o de um modo sério, e se aproximou conforme o sorriso dele sumia para uma expressão séria.

– Julian, o que está...

Ela encostou seus lábios nos dele, um beijo leve. Jack arregalou os olhos e tentou se mexer, mas ela continuou com a boca contra a sua e, pouco a pouco, ele se rendeu e fechou os olhos. O beijo se transformou em algo mais intenso e voraz, e Julian soltou-lhe os pulsos para que ele colocasse os braços em volta de sua cintura e a puxasse para mais perto, pressionando-a tanto que sentia os seios dela contra seu peito.

– Jack?

Ele abriu os olhos repentinamente e interrompeu o beijo, olhando para o lado e vendo Dilan parado ao lado da porta, com um sorriso malicioso e divertido nos lábios, claramente alegre em interromper o momento e enfurecer o amigo.

Julian imediatamente levantou-se, acenou para Jack e saiu porta afora, não respondendo nenhum e correndo até desaparecer da visão dos dois.

– Então... Parece que você estava gostando do treino. – Dilan falou, adentrando à sala e aproximando-se de Jack, estendendo a mão para ele. – Ela é gata. Mas acho que não é seu tipo.

Ele aceitou a mão, colocou a camisa novamente e soltou os cabelos.

– E qual é o meu tipo, Dilan?

– O tipo de garota que te beija e depois fica apaixonada por você. Essa aí parece que vai brincar com você até você ser o escravo dela. – disse. – Foi ela quem te beijou, certo? Ela tomou a iniciativa. Dava pra ver só pelo jeito como ela estava em cima de você.

A lembrança de Julian sobre ele fez Jack desviar o olhar de Dilan, virando-se para pegar água.

– Viu? Você ao menos responde só de lembrar.

– Não quer dizer nada.

Dilan sorriu.

– Quer dizer muita coisa.

***

– Preparados?

Will se posicionou à frente de todos, encostando-se à escada.

– Marc e Kyle?

Os gêmeos estavam acabando de colocar adagas dentro da bota, mas Marc se levantou e acenou positivamente para ele.

– Josh?

O mesmo acenou, colocando o arco nas costas e, sobre os ombros, um saco com flechas soníferas.

– James?

James assentiu para ele, estrelando as costas e o pescoço.

– Nick e gatinha?

Charmin estava sentada na cama de Nick enquanto o mesmo ajudava-a a colocar a capa para esconder o rosto, eles olharam para Will e ambos assentiram.

– Então vamos. – ele abriu o alçapão e todos se aproximaram; James subiu primeiro, em seguida os gêmeos, Josh, Charmin e Nick por último.

Alexandra estava dormindo. Josh deu a ela um remédio para que o sono chegasse mais cedo e um tranquilizante, caso ela resolvesse aprontar alguma enquanto eles estavam fora. O resultado é que ela dormiria até a tarde e não perturbaria ninguém a não ser que a chamassem.

Uma camada fina de neve cobria o chão da floresta, assim como pequenos flocos caíam em suas cabeças e roupas, molhando-as em seguida. Todos estavam muito bem agasalhados, usando o dobro ou triplo de roupas e colocando botas compridas para não escorregarem. Charmin usava uma calça jeans antiga de Josh, de quando ele era adolescente, por baixo de uma meia calça, pois Will só comprara saias a ela.

– Depois de anos, eu ainda me pergunto qual é o problema de vocês em resolver sair antes mesmo do pôr do sol. – Ela reclamou, cruzando os braços. Nick se aproximou e passou um braço por sua cintura, colando seu corpo lateralmente no dela. – Obrigada.

Nick sorriu para Charmin e beijou-lhe o topo de sua cabeça.

– A resposta é simples, gatinha. – Disse Will. – De madrugada, as pessoas estão mais desatentas às coisas, o que significa que é mais fácil derrotar pessoas cansadas.

– Mas eu estava dormindo. – Choramingou ela. – Isso não é justo.

– O mundo não é justo, gatinha. – Ele disse, em seguida bocejou. – Quanto mais cedo você aprender isso, menos vai se machucar.

Ela olhou para o lado e pôde ver Nick encarando-a. Charmin estreitou os olhos e, sussurrando, perguntou o que estava acontecendo.

– Só estava pensando... – Ele respondeu. – Você quer dormir comigo hoje?

Charmin enrubesceu.

– P-por quê?

Ele sorriu e bagunçou os cachos que formavam uma espécie de franja diagonal. Acariciou os cabelos negros dela e depois negou.

– Esquece. Não foi nada.

Charmin crispou os lábios, depois colocou uma mão no bolso traseiro de Nick, aproximando-o mais.

Eu quero.

Ele parou de andar. Olhou-a com um sorriso enorme e, mesmo no escuro, os olhos cinza brilharam.

– SÉRIO MESMO? – Ele gritou. Todos olharam pra ele como se Nick fosse algum estranho causando bagunça na rua, e, depois que ele balançou a mão no ar como se não houvesse acabado de gritar com um ar desesperadamente feliz. – Quer dizer, sério? Você quer mesmo? Tipo, mesmo? Não vai dormir com James hoje? Vai dormir comigo?

Ela riu baixinho.

– Vou dormir com você hoje, Nícolas.

Nick olhou para frente, onde todos estavam, e, após constatar que ninguém mais olhava pra eles e todos estavam distantes, beijou Charmin e puxou-a para um abraço, levantando-a no ar e girando-a. Ela riu entre o beijo e, após ver Will olhando para trás, pediu que Nick a descesse.

– Vamos roubar aquelas pulseiras. Eu quero chegar logo em casa. – Nick disse e a puxou pela mão, correndo até a frente e saltitando no final. – Eu amo minha vida.

***

– Nós já viemos aqui, não? – Josh perguntou. – Aqui é o primeiro lugar onde você esteve conosco, Charmin.

– Aquele que eu fiquei de guarda?

Josh assentiu.

– Foi fácil daquela vez, – Josh continuou. – mas não sei se será fácil nessa.

Os sete se aproximaram do local. Com o escuro, a casa não se destacava nem um pouco, mas ainda estava do mesmo jeito de meses atrás. A neve do clima de Dezembro cobria o telhado e o chão, impossibilitando uma vista completa de tudo.

– Vamos. – Disse Will.

Nick afastou-se de Charmin para pegar uma adaga e olhou pra ela, pedindo com os olhos que pegasse uma também. E assim ela o fez, pegou uma pequena adaga, sua favorita, e empunhou-a com cuidado, escondendo-a atrás do braço para não ferir ninguém.

Will, à frente de todos, andou lentamente até a porta principal da casa. Ele bateu pausadamente, como se falasse em código Morse, e uma pequena fresta se abriu, mostrando um homem de rosto encapado.

– Se afaste. – Ele mandou.

Will deu passos suficientes para ficar próximo aos outros.

– ATIREM NELES!

Um por um, todos foram imobilizados com dardos, atingidos em todos os lugares possíveis, rápido e subitamente. Marc caiu no chão, de joelhos, e conseguia movimentar somente os olhos, tentando ver os outros. Josh, Will e Kyle caíram um perto do outro, mas não conseguiam se mexer para afastar-se. Nick, que estava à frente de Charmin, caiu sentado no chão, com a garota deitada atrás.

Nenhum deles conseguia mexer sequer a boca para perguntar se todos estavam bem, só olhavam com desespero uns para os outros, torcendo para ficarem vivos.

Quatro homens saíram de dentro da casa, todos armados e protegidos. Um deles, o mais bem vestido, começou a falar.

– Então, nos encontramos novamente. – A voz dele soava cavernosa e assustadoramente grossa. – Mas, dessa vez, vocês não irão sair fácil. Sabem, daquela outra vez, nós estávamos fora, totalmente desprotegidos, porém agora queremos vingança sobre a trapaça de vocês. – Ele apontou para Will. – William, como vingança, você irá morrer.

O homem levantou Will pela camisa e olhou-o fixamente. Will devolvia o olhar com coragem, sem temer o que poderia acontecer.

Charmin arregalou os olhos, completamente em pânico. Will morreria? Não era possível. Ele era a rocha que sustentava a todos do alojamento. Sem ele, não haveria quem liderar, não haveria quem pudesse dar comandos, instruções, ajuda, nada.

– Eu...

Alguém murmurou alto o suficiente para que todos ouvissem. De canto, Josh tentava abrir a boca para falar. O líder do grupo olhou para o rapaz e, virando-se para ele e deixando Will cair no chão novamente.

– Você...? – Ele levantou Josh, deixando-o em pé. – Diga, garoto.

Josh engoliu a saliva que teimava em escorrer para fora, e abriu a boca.

– Mate-me no lugar dele.

O homem sorriu. Os dentes amarelos apareceram na visão de Josh.

– Pensando bem... Matar o irmão deve ser muito mais doloroso.

Por alguma razão, Will sorriu.

– Muito bem. – Disse o líder. – Eu mesmo quero te matar.

Felizmente, o efeito dos dardos estava acabando para alguns, e Marc já sentia a dormência pelo corpo passar. Enquanto tiravam os armamentos de Josh, Ele tentava levemente mexer a mão para ver se conseguia pegar uma faca, e de fato alcançou uma adaga.

– Alguma coisa a dizer antes de sua morte, Josh?

Josh suspirou pesadamente.

– Eu... Eu... – Ele começou. – Eu queria pedir desculpas a Charmin.

– Eu posso saber por quê?

Em pé, ele olhou para Charmin, que também olhava para ele. Josh sorriu tristemente, como se estivesse a ponto de dizer algo que acabaria com a sua vida em relação a ela. Josh crispou os lábios e assentiu para Charmin, despedindo-se. Ela o olhou, interrogativa, não estava entendendo nada do que estava acontecendo naquele momento. Por que ele estava pedindo desculpas?

– Charmin, fui eu quem denunciou Nick falsamente e mandou-o para o exército. Eu era a única pessoa a ver a cena, e eu sei o que realmente aconteceu, e confesso que delatei errado.

– VOCÊ O QUÊ? – Ela gritou um tanto tonta. A voz saiu levemente embebedada, mas mesmo assim o grito foi alto.

– Me perdoe, Charmin. – Ele virou-se, lágrimas desciam de seus olhos. – Eu não quis fazer isso.

Ela não respondeu, somente olhou para baixo e pensou em como nunca mais dirigiria a palavra a Josh novamente.

O homem, agora com uma arma, soltou um riso maléfico e encarou Josh.

– Você merece mesmo morrer, garoto. – Falou ele. – Muito bem. Mais alguma coisa?

Ele negou.

O homem aproximou a arma para a testa de Josh e uma gota de suor frio escorreu pela testa do louro. Ele fechou os olhos, agradecendo a Deus por tê-lo deixado viver tantos anos e pedindo perdão por todas as coisas, dizendo em pensamentos que amava a todos ali e desejava a eles tudo de melhor na vida, e que ela pudesse ser melhor para eles do que foi para ele até agora.

Foi então que, dobrando os joelhos com força e os pressionando para levantar as pernas, Marc, ainda algemado, correu e chutou a arma do líder, depois batendo uma cabeça à outra com força, fazendo com que o mesmo caísse no chão. Em seguida, Kyle e James se levantaram, dando rasteiras e chutes nos outros armados e impossibilitando a todos. Os três, juntos, atiraram os dardos nos inimigos, nas pernas e nos braços, e ajudaram Josh, Nick e Charmin a levantar.

– Obrigada, Marc. – Agradeceu ela, e se assustou quando o garoto se jogou em seus braços. — ... Marc?

Percebeu então que sangue escorria pela barriga dele.

– MARC! – Gritou ela, e os outros a olharam, assustados. Charmin fitou a parte atrás de Marc e pôde ver o líder da gangue com uma arma presa na boca, os dentes levemente pressionados no gatilho. – Seu desgraçado!

Pouco a pouco, Marc foi deslizando pelo corpo de Charmin, deixando um rastro de sangue na capa da garota. Ele caiu deitado no chão, e Charmin ajoelhou-se ao seu lado. O cabelo ruivo do garoto estava caído sobre a testa, com algumas partes grudando por suor, e os olhos dele lutavam por ficarem abertos, as íris verdes perdendo o brilho cada vez mais. Lágrimas grossas e rápidas começaram a escorrer pelo rosto de Charmin, pingando na bochecha cheia de sardas dele. Ela colocou a mão sobre o ferimento, tentando estancar a enorme quantidade de sangue que saía pelo local.

– Marc, fica comigo, por favor. – Ela sussurrava. Ao seu redor, os rapazes lutavam com outros membros da gangue, alguns quase sem força pelos dardos. Kyle vez ou outra olhava para trás, e o rosto dele estava vermelho pelo choro. – Não me deixe, Marc.

Com esforço, Marc sorriu para ela. Um sorriso fraco, um último sorriso.

– Eu serei sua irmã mais nova. – Charmin continuou. A voz dela saía fraca e presa pelo choro. – Montarei lego com você, faremos robôs, circuitos, tudo o que você quiser eu farei contigo. Eu vi sua mãe, Marc. Você não quer a ver? Fique vivo para isso, por favor! Nós iremos para a A e seremos ricos, então eu me certificarei de que você nunca se machuque. Nós podemos tudo, Marc. Tudo! Só não me deixe, Marc. É a única coisa que lhe peço.

Colocando a mão sobre de Charmin, Marc apertou-a com o máximo de força que conseguiu, e, tossindo e deixando sangue escorrer por sua boca, ele se sentou, aproximou o rosto da orelha de Charmin e sussurrou as últimas palavras.

O corpo sem vida desabou sobre o ombro de Charmin, a mão caiu no chão e os olhos se fecharam. Paralisada, Charmin chorava intensamente enquanto os outros corriam para ela, perguntando se estavam bem, como estava Marc, se o sangramento havia parado. Ela não respondeu, somente abraçou o ruivo fortemente, chorando calada e de olhos fechados.

Kyle se ajoelhou e abraçou Marc e Charmin, chorando alto. Ninguém nunca soube, mas Marc nasceu três minutos primeiro que ele, e isso considerava-o mais velho que Kyle. Desde pequenos, ele sempre ia à frente nas caminhadas, sempre era o primeiro a tomar iniciativa para algo, sempre agia primeiramente e sempre protegia Kyle. Ele era seu irmão mais velho, o único, e agora o perdeu para sempre.

Nick sentou ao lado de Charmin, acariciando-lhe os cabelos. A garota não deixava que ninguém a visse chorando, escondendo o rosto no peito do corpo de Marc. Mas, no fundo, ele sabia que ela estava aos prantos, mesmo silenciosamente. Nunca conviveu muito com Marc, mas, pelos meses que esteve com ele, sabia o quão incrível o rapaz era.

Will passou a mão pelos cabelos, caindo de joelhos no chão. Marc e Kyle foram os primeiros a participar do projeto para a A, lembrava-se de ter “adotado” ambos quando os ruivos tinham cerca de treze anos. Passaram-se seis, e agora um deles estava indo embora. Ensinou a eles tudo que sabia e, em todos esses anos, imaginava Marc como um grande líder, alguém que herdaria tudo de Will quando o mais velho morresse. De todos no alojamento, Marc era quem ele mais confiava. E agora, ele estava indo, partindo para sabe-se lá onde, e a única coisa que Will sabia sobre esse lugar era que ele não poderia estar lá com Marc, nem o mesmo com ele. Assim como Marc morreu, uma parte do coração de Will apodreceu, ele sentia isso.

James ficou parado. Não sabia como reagir a uma morte, só a abandonos. E mesmo que aquilo fosse um abandono, também, era de um jeito diferente, Um abandono que nunca mais voltaria; um abandono que não teria mais chances de voltar a ser convivência. Olhou para Josh, que estava estático com o saco de dinheiro na mão, e, por um momento, sentiu raiva por ele não ter morrido.

Todos murmuravam palavras que não combinavam, mas faziam sentido na ocasião. Todos ali perderam pessoas importantes em sua vida ou fizeram escolhas que os levassem a perdê-las. E aquilo não era novidade para ninguém: ver alguém ir embora. Mas era como sempre é, foi e será, uma ferida que cura-se lentamente e, nos momentos mais inesperados, abre-se, sangra, escorre, pinga e arde, causando um aperto no coração e uma perda de fôlego; um arrependimento por não ter tido mais cuidado na hora e, depois, outro arrependimento de não ter previsto que aquilo poderia acontecer. A ferida que sempre nos acompanha e nunca cura-se completamente, pois sempre há algo para abri-la novamente.

Notas finais
Não me matem, por favor. Já chega o Marc morto, não acham? Eu sei que muitos aí podem estar tristes com esse capítulo, eu também estou, o Marc era um dos meus personagens favoritos ;u; mas, vocês sabem como as coisas são, elas precisam acontecer para que outras coisas continuem. Eu só queria avisar que postei uma One-Shot chamada "Dor". É sobre... bem, sobre dor, mas uma dor diferente. É curta, dá pra ler em uns sete minutos, mas, para mim, ela ficou uma boa reflexão. Tomara que vocês gostem :3 Comentem sobre esse fim trágico, favoritem e acompanhem. Um beijinhu s2