Yu Yu Hakusho - A Saga dos Deuses
44 Quebrando as Regras
HIEI POV
Segui aquela mulher sem muitas expectativas. Esperava que ela fosse tentar alguma coisa a qualquer momento. Que aquela conversa de querer ajudar não passasse de um truque barato para nos enganar.
Mas tinha que admitir que ela fazia um enorme esforço para não parecer suspeita.
Andava na minha frente despreocupada, com a guarda baixa, como se confiasse em mim. Um erro que não teria nem tempo de corrigir. Se eu quisesse, mesmo carregando Kiara nas costas, não precisaria de muito para derrotá-la. Se estivesse nos levando para uma emboscada, faria com que se arrependesse de me subestimar.
Então, ela travou os passos diante de um portão alto, me obrigando a fazer o mesmo.
— Adiante estão as celas dos prisioneiros. O seu amigo deve estar na número 57.
— É bom que esteja mesmo.
Pela forma cautelosa com que ela me olhou, soube que tinha detectado a ameaça intencional no meu tom. Fiquei satisfeito. Me irritava a calma que mantinha estando perto de mim. Preferiria que sentisse medo e que soubesse das consequências de uma possível traição.
Eu não seria nenhum pouco tolerante.
— Não sei o que mais vamos encontrar aqui — ela continuou — Geralmente tem guardas de vigia, mas pode ser que encontremos mais alguém. Talvez algum membro do Esquadrão esteja a postos.
— Um dos seus colegas de equipe? Que surpresa.
Ela suspirou, irritada.
— Sei que você está desconfiado e não te culpo. Mas está enganado sobre mim. Assim que resgatarmos o seu amigo, vou levar vocês pra saída. Eu vou dar cobertura pro caso de acontecer alguma coisa.
Eu não acreditei em uma só palavra, mas queria ver até aonde a farsa chegaria.
Entramos em silêncio e eu logo me certifiquei de que não havia nenhuma ameaça ali. Era uma espécie de salão amplo e oval, com celas enfileiradas e enumeradas de uma extremidade a outra, acompanhando o formato arredondado do espaço. Na verdade, eram três andares de celas sobrepostas. Devia ter umas centenas de prisioneiros ali.
A ausência de vigias me deixou em estado de alerta. Aquela calmaria era suspeita demais na minha opinião.
— A cela 57 fica ali em cima — a mulher tomou cuidado ao controlar o volume de sua voz. Em seguida, tirou do bolso um cartão preto e o me entregou — Esse é o cartão de acesso que permite abri-la. Já a saída…
Uma gritaria repentina a interrompeu. A agitação de dentro das celas mais próximas cresceu e uma quantidade absurda de youkais se espremia nas janelas das prisões para nos espiar. Eles gritavam, não por minha causa, mas por causa daquela mulher.
Inconvenientes. Chamavam muita atenção. Entre gritos de insultos, ameaças e obscenidades, tentei abstrair tudo o que diziam. Alguns passavam tanto dos limites que, se não estivessem presos, eu mesmo faria questão de matá-los.
— Às vezes, eu esqueço de como nós do Esquadrão somos odiados — a mulher deu de ombros.
E então, um feixe luminoso correu em nossa direção. Um tiro? Pulei para trás, evitando ser atingido. A gritaria dos criminosos aumentou. Olhei pra cima e identifiquei, no terceiro andar, um dos membros de elite do Reikai.
— Ryohi, o que você pensa que está fazendo?
Ela não respondeu. Ergueu uma espécie de arma e atirou de volta contra ele.
Outro membro das forças especiais apareceu logo em seguida, acompanhado de mais atiradores do Mundo Espiritual. Uma sucessão de disparos veio em sequência. Com Kiara ainda desmaiada em minhas costas, não tive outra alternativa a não ser recuar para um lugar mais seguro, evitando que fosse atingida por descuido.
Nos coloquei atrás de uma coluna onde não pudessem nos ver. Aquela mulher chamada Ryohi continuava em meu campo de visão, lutando sozinha. A gritaria dos prisioneiros estava ensurdecedora e aquele lugar havia se transformado num maldito torneio para uma audiência sedenta de sangue. Um espetáculo grotesco para youkais.
Alguns disparos passaram perto demais, arranhando a estrutura atrás de mim. Eu precisava intervir, mas largar Kiara ali parecia uma ideia nada inteligente. Por outro lado, levá-la comigo parecia ainda mais estúpido. Foi então que senti a pressão em meus ombros. Ela se remexia, despertando lentamente, sem perceber que era eu quem a sustentava.
— Não se mexa — ordenei.
Ela congelou no mesmo instante. Pude sentir sua respiração quente bater na minha nuca, curta e irregular. A tensão em seu corpo era palpável, e os dedos dela se curvaram, agarrando minha roupa com força por instinto. Ela ergueu o rosto devagar, procurando entender onde estávamos e, nesse movimento, uma mecha de seu cabelo deslizou pela lateral do meu rosto.
Mais dois disparos vieram em nossa direção.
— Onde estamos?
Não sei porquê, mas ela sussurrou. O que era inútil, já que todos sabiam a nossa localização. Ryohi continuava a lutar, agora usando a própria energia espiritual para bloquear os golpes que vinham em nossa direção. Uma mistura de vozes comandava o ataque e tive a impressão que chamavam reforços. Senti que os membros do Reikai se aproximavam e tive a certeza que sozinha aquela mulher não conseguiria detê-los por muito tempo.
Eu precisava agir depressa.
Me abaixei atrás do pilar e deslizei Kiara até o chão, deixando que seus pés encontrassem o piso. No ângulo para evitar os disparos, o espaço era estreito. Ela se apoiou em mim buscando sustentação, mas alguma coisa atingiu a borda da coluna, destruindo a estrutura parcialmente.
Eu ainda estava com o joelho no chão quando tudo vibrou. Kiara se sobressaltou e perdeu o equilíbrio. O tremor súbito a fez forçar a perna errada, e seu corpo tombou contra o meu. Fui obrigado a segurá-la às pressas, contendo seu peso antes que eu mesmo desabasse para trás. Enlacei sua cintura com um dos braços e, com a mão livre, me apoiei no chão, ainda inclinado. Por um instante desajeitado, nossos rostos colidiram. Senti a boca dela esbarrar na minha num roçar suave, mas ela não recuou imediatamente.
É claro que não conseguia ser tão ágil — sequer era capaz de ficar em pé — mas a reação foi mais lenta do que deveria. Ficamos ali, com os rostos estritamente próximos, respirando o mesmo ar carregado. Ainda senti os seus lábios tremerem sutilmente contra os meus antes de finalmente se afastar, apenas alguns centímetros para trás.
Debruçada sobre mim, com as mãos apoiadas em meus ombros, o seu olhar ficou preso ao meu. E mesmo quando algo explodiu perto de nós, Kiara continuou imóvel. A sua respiração suspensa se misturava à minha de uma maneira incômoda e, também, embora eu detestasse reconhecer, estranhamente convidativa. Ainda tão perto que pude observar em detalhes o corte recém-aberto na lateral de sua face. Aquilo entorpeceu o meu raciocínio. O sangue martelava nas minhas veias de um jeito desagradável. Ou pior: agradável, mas na hora errada.
Foi estupidez deixar aquele momento se estender mais do que deveria, considerando o caos ao nosso redor. Como se eu tivesse tempo pra perder com algo tão irrelevante. Recuperando o controle, levantei logo em seguida, a puxando para cima junto comigo. Dessa vez, fiz questão de garantir que Kiara tinha os pés firmes no chão, embora a sua perna ferida continuasse ligeiramente flexionada.
Eu precisava retomar o foco.
— Consegue andar?
A resposta dela foi vaga.
— Não sei. Talvez. Acho que sim.
Ofereci a ela o cartão que Ryohi me entregou
— Kuwabara está no segundo andar. Cela 57.
Ela seguiu meu olhar até a escada que conectava os três andares. Percebi que evitava me encarar quando puxou o cartão da minha mão, apressada. Sua expressão já não era tão segura e os olhos desviavam de mim intencionalmente. Aquilo me incomodou, mas preferi não comentar nada.
Entreguei o cartão e parti para a batalha. Sem olhar para trás, saquei a katana. O som metálico da lâmina cortando o ar se misturou ao grito dos youkais ao redor. Fui rápido, tanto que o primeiro atirador caiu antes de entender o que o atingiu. O segundo ainda tentou recuar, mas era tarde.
Em instantes, o espaço se transformou em um redemoinho de sangue e energia. Mas mesmo no meio da precisão de cada corte, aquela sensação alarmante continuava me perturbando enquanto eu abria caminho com a espada.
A sensação de que algo estava errado, e eu não estava me referindo à batalha.
— x.x.x.x —
KUWABARA POV
Não dava pra ver nada. Eu estava quase dormindo quando a gritaria começou. Nós — eu e os meus parceiros de penitência — nos aproximamos da porta pra ver o que estava acontecendo, mas a agitação era tanta que eu estava sendo espremido enquanto tentava visualizar alguma coisa na janela retangular e estreita da cela.
A verdade é que nossa localização não tinha uma visão muito privilegiada. Consegui enxergar apenas alguns tiros brilhantes e outros golpes luminosos ricocheteando de um lado pro outro. Notei que o chão ao nossos pés tremia e eu achei que fôssemos ser soterrados ali. Os youkais presos nas outras celas vibravam como se estivessem assistindo um campeonato de futebol. O que diabos era aquilo, afinal?
— Que saco, não dá pra ver nada! O que tá acontecendo, Guren?
Perguntei ao youkai grandão ao meu lado. Depois de alguns dias de convivência, fazer amizades foi inevitável. Com quase três metros de altura, Guren com certeza enxergava mais do que eu.
— Os membros do Esquadrão Espiritual estão lutando entre si. Tomara que se matem!
E então eu entendi tanta euforia. O Esquadrão era odiado por todos. Afinal, os youkais foram capturados por eles. Depois de ouvir tantas histórias, eu confesso que também já estava com raiva daqueles soberbos do Reikai. Desejar o mal deles era, até certo ponto, inevitável. Não que eu desejasse a morte de alguém, mas seria bom se sofressem pelo menos um pouco do que sofri.
Graças a eles, há dias eu não sabia dizer se estava de manhã ou de noite e não tinha ideia do paradeiro de Kiara. A última vez que a vi tinha levado um tiro e Botan me disse que ela estava morta. Depois, eu fiquei tão revoltado por estarem me mantendo preso nesse lugar que fiz o possível para escapar, mesmo com as algemas espirituais que drenavam a minha força. Lutei como pude, ainda que sempre terminasse no chão com alguns ossos quebrados.
Sei que foi burrice, mas o que mais eu podia fazer? Eu nem devia ter sido preso, pra começo de conversa. Acatar aquela injustiça estava fora de cogitação.
Mas por que o pessoal do Reikai estava brigando entre si?
Que saco, eu só queria sair dessa prisão de uma vez por todas!
Chutei a parte sólida do portão e, em seguida, tentei pela milésima vez quebrá-la no soco. Era ridículo e inútil. Todos nós já tínhamos feito de tudo, mas o material era resistente demais. Nem unindo as nossas forças conseguimos sair dali. Mesmo assim, eu me recusava a desistir. Ia morrer tentando, se fosse necessário.
Só dei uma pausa quando a minha mão começou a latejar de dor, sangrando. E nessa hora alguém surgiu pela lateral da cela, uma figura que se arrastava usando o corrimão de apoio. Quando elevei o olhar para a janela, quase caí pra trás.
— Kiara?!
Eu levei um segundo para processar que era ela. Que estava viva, diante de nós, embora mais pra lá do que pra cá. Estava suja de sangue. Tinha um corte no rosto, vários arranhões e outros cortes nas mãos e braços e um ferimento na perna. Ela ameaçou se aproximar, mas os meus colegas de cela a repeliram com hostilidade na menor aproximação.
— Ei, quem é essa aí?! — gritou um deles.
— Se chegar perto, a coisa vai ficar feia pra você!
— Ei, ei! Calma, galera! — me meti entre eles com os braços abertos, tentando afastá-los — Ela é minha amiga, aquela que eu comentei! Ela está do nosso lado. Olhem, ela também está com algemas!
Os caras me olharam com estranheza por um instante, mas recuaram assim que perceberam que o que eu dizia era verdade. Pelo menos, eu já tinha conquistado algum respeito ali dentro. Kiara, por outro lado, parou onde estava; os olhos arregalados com uma certa desconfiança e claramente tensa com a recepção.
“Achei que ele tivesse inventado a história”, ouvi alguém cochichar atrás de mim quando me aproximei da janela retangular para falar com ela.
— Você tá bem? — analisei os inúmeros cortes nos seus braços — Olha só pra você. Parece que brigou com um gato e ele ganhou a briga!
— Já você, não parece tão mal quanto eu pensei que estaria — ela rebateu.
Aquilo era verdade. O Reikai me trouxe para essa prisão achando que eu levaria uma surra e acabou que os caras daqui me acolheram e me ajudaram a me recuperar dos machucados que adquiri lá em cima. Ser preso foi a melhor coisa que me aconteceu desde que me capturaram.
— Ô Kuwabara, essa sua amiga vai nos tirar daqui? — Yubu, outro dos meus colegas questionou.
— Abre logo essa porra! — outro exigiu com uma certa urgência e sem tempo para bons modos.
Eu olhei para Kiara esperando por uma confirmação.
Ela assentiu e então colocou um cartão no leitor ao lado da cela. Depois, recuou aos poucos conforme a porta se abria sozinha. Ao meu redor, todos os meus companheiros comemoraram com gritos de liberdade. Me aproximei de Kiara com a mesma euforia, mas ela apenas retribuiu com um meio sorriso tímido, lutando pra se manter em pé.
— Me desculpa — foi a primeira coisa que eu consegui dizer.
Ela me olhou confusa.
— Pelo quê?
— Por aquele dia. Ootake atirou em você e eu não consegui fazer nada.
— Não foi sua culpa. Aquele idiota enganou a gente.
— Como você está viva?!
Guren se aproximou de repente, exageradamente feliz. Sem cerimônias, deu um tapinha nas nossas costas. Mas a força não foi bem dosada e o que era pra ser leve quase fez Kiara cair no chão.
— Valeu, garota. Tô te devendo uma! Se alguém resolver ser problema pra você, me fala o nome dele que eu faço o problema sumir!
Ela ainda estava horrorizada quando ele gargalhou alto. Seus olhos caíram em mim com um teor de julgamento.
— Sei o que está pensando, mas eles não são assim tão ruins.
— São criminosos — ela sussurrou, evitando que a ouvissem.
— Alguns desses caras só estão aqui porque olharam torto pra algum figurão do Reikai, outros são apenas bode expiatórios. Você não tem nem ideia do que eles já passaram. E eles me ajudaram quando cheguei. Eu tava todo fodido, sabia? Nem todo mundo que tá aqui é criminoso! Eu mesmo fui preso sem ter feito nada!
— Tá, tem razão. E nem me importo mesmo com o que eles são. Eu só quero dar o fora daqui!
Algo cortou o ar em nossa direção. Foi tão rápido que nem tive tempo de pensar. Empurrei Kiara para trás e um dos caras se colocou na nossa frente, sendo atingido em nosso lugar. Ele caiu de joelhos, com sangue vertendo de seu abdômen.
Fiquei em desespero, enquanto todos os outros o socorriam. O alívio veio ao perceber que não era um ferimento fatal.
Em tempo de evitar um segundo ataque, alguém interceptou o nosso caminho quando outro raio foi disparado em direção a nós. Com a energia espiritual drenada, me senti patético e incapaz de acompanhar tudo o que acontecia à minha volta. Só percebi que era Hiei que nos protegia quando ele parou em cima do corrimão, rebatendo o golpe. Não deu dois segundos e ele desapareceu, contra-atacando o adversário.
Merda, eu teria que agradecer a ele por isso depois.
Olhei à minha volta e percebi que tinham pelo menos uns quatro membros do Esquadrão Espiritual ali, além de uns guardas aleatórios. Pessoas do Reikai lutando entre si, uma tremenda confusão por todos os lados.
— Mas que diabos…? Por que estão uns contra os outros? Por que o Hiei tá no meio dessa briga?!
— Porque nem todo mundo leva jeito pra fazer amigos como você — Kiara me respondeu.
— Mas essa briga nem é nossa!
— Eles literalmente estão lutando por nossa causa.
Então, eu entendi a nossa situação. Nem todos os membros do Mundo Espiritual estavam contra nós. Ela quis dizer que alguns deles queriam nos ajudar? Isso era bom. Ótimo, na verdade! Além de surpreendente. Talvez eu tenha me precipitado ao colocar todos no mesmo barco.
De repente, algo passou rente ao meu rosto. Rápido, como uma bala, deixando só um rastro de vento. Olhei para trás ao perceber que um grupo de atiradores armados vinha em nossa direção. Os tiros disparados estavam desgovernados, acertando sem mira qualquer coisa que estivesse no caminho. Nos abaixamos quando o perigo se tornou real. Senti o meu braço arder quando uma das balas me cortou de raspão. Ouvi Guren gritar alguma coisa e imaginei que tivesse sido atingido, mas quando fui checar, os atiradores nem estavam mais em posição de ataque. Caídos no chão, estavam aos pés de Hiei. A espada estava embebida em sangue. Na verdade, ele também estava e com um olhar mais demoníaco do que nunca.
E naquela hora eu só consegui pensar em quais seriam as consequências de tudo aquilo.
— Cuidado, Kuwabara!
O alerta veio de um dos meus companheiros de cela. Ele apontava para trás de mim, o que me fez girar na mesma hora. Kiara acompanhou o meu movimento e fez o mesmo. Um atirador sorrateiro, que tinha vindo pelo caminho oposto, nos apontava a arma. Perto demais de nós dois. Paralisamos quando ele puxou o gatilho.
Não ia dar tempo de escapar.
Fechei os olhos instintivamente, esperando um impacto que nunca chegou. Não em mim, pelo menos. O barulho do disparo estatelando em algo foi abafado e contido. Um escudo invisível o havia bloqueado, conjurado por uma mulher do Mundo Espiritual. Não bastasse a defesa, ela devolveu o ataque, nocauteando o atirador com a sua própria arma.
— Não percam tempo, saiam logo daqui! A cela 199 é uma rota de fuga! Eu vou abrir para vocês!
Olhei ao redor, procurando pelo número em questão que, para a minha infelicidade, obviamente estava no primeiro andar. No centro de toda aquela luta insana e sangrenta.
Ela nos deu cobertura, usando o escudo como proteção, enquanto Kiara, os demais caras que estavam presos comigo e eu, tentávamos nos aproximar da saída. Uma missão lenta, considerando que eu precisava ajudar Kiara a andar e que os ataques não davam uma trégua sequer.
De repente, estava tudo tão abafado ali. Senti minha pele pegajosa e a minha roupa colando no meu corpo. Não sei o que mais me fazia suar, o calor que emanava das chamas negras que Hiei usava pra ter vantagem na luta, a fumaça que preenchia o ambiente deixando tudo escurecido ou a descarga de adrenalina que me forçava a correr no meio de um turbilhão de golpes.
Sabia que Hiei tentava bloquear todas as investidas contra nós, mas, ainda que fosse rápido, estávamos em desvantagem numérica, e nem mesmo com tanta velocidade ele podia dar conta de prestar atenção em tudo.
Foi então que aconteceu, bem quando chegamos onde queríamos. Mal havíamos aberto a porta da cela 199 quando algo colidiu com o escudo, não de forma explosiva, mas sim perfurante. Uma adaga envolta em energia, concentrada num único ponto. O escudo de energia simplesmente quebrou e a lâmina seguiu em direção à agente do Reikai.
Um esguicho de sangue espirrou no chão. O golpe a atravessou, abrindo um corte profundo nas costas.
— Merda… — murmurei.
Seus olhos arregalaram por um instante antes de cair de joelhos. Sem pensar duas vezes, arrastei a moça para dentro da cela, evitando que ficássemos expostos ali fora.
— Aguenta firme, Ryohi — Kiara disse a ela, agachando ao seu lado. A sua voz meio trêmula não disfarçava o nervosismo — Vamos te tirar daqui!
Ela negou com a cabeça, se remexendo ao encostar na parede como se procurasse uma posição menos desconfortável.
— Vocês vão e eu fico.
Olhei em volta da cela escura e vazia, procurando pela saída, mas não encontrei. Os meus colegas buscavam pela mesma coisa.
— Vão pra onde? — um deles perguntou.
Ela digitou algo no bracelete que usava. As luzes das paredes laterais começaram a piscar, mostrando um painel que antes estava escondido. Uma passagem secreta abriu adiante, no fundo da sala, revelando um túnel ainda mais escuro e sinistro.
— Kuwabara, consegue carregar ela?
Kiara me olhou numa expressão de súplica, mas eu nem tive chances de responder.
— Já disse que não vou com vocês! Nós do Esquadrão temos um rastreador. Se eu for, eles vão saber onde estão.
Kiara continuou com aquela expressão insatisfeita de quem gostaria de fazer alguma coisa, mas sabia que estava de mãos atadas. Eu confesso que também não gostei do desfecho daquela decisão, mas sabia que não podíamos correr o risco de sermos seguidos.
O ódio me subiu à cabeça. Ter que deixar para trás uma pessoa era com certeza a pior coisa que podia me acontecer.
Vi uma sombra de mexer do lado de fora e notei a aproximação repentina na entrada da cela. Levantei num pulo, pronto para enfrentar quem quer que fosse o desgraçado que estivesse vindo pra cima de nós. Mas quando fui de encontro à pessoa com o punho erguido, ela gritou assustada, se encolhendo de susto.
— Botan?
Contive o golpe assim que a vi. Por pouco não tinha feito uma bobagem.
— Você ficou maluco?! Por que me assustou desse jeito?
— Você é que me assustou! De onde foi que você veio, garota?!
— Kurama e eu chegamos aqui há alguns instantes. Vimos vocês entrando e eu os segui.
— Kurama tá aqui?
Espiei fora da cela. A luta continuava intensa, mas, agora, além de Hiei, Kurama também estava ali. Eu não consegui evitar um sorriso de alívio, embora parecesse que o Reikai inteiro estava contra eles. Era tanta gente no mesmo lugar que eu não sabia nem pra onde olhar.
— O Yusuke ainda não apareceu? — Botan perguntou, me tirando do torpor — Nem ele e nem o senhor Koenma?
— Como vou saber? Eu estava preso até alguns minutos atrás. Vocês não sabem onde eles estão?
A resposta veio, mas não de Botan. Um estrondo forte reverberou acima de nós. Não exatamente em cima da cela onde estávamos, mas acima do presídio inteiro. Começou um com um tremor leve que cresceu gradativamente até ficar tão poderoso a ponto de me obrigar a segurar em algum lugar para não cair.
Botan fez o mesmo. Na verdade, todos fizeram. A briga no presídio tinha parado. Com o abalo que fazia vibrar tudo ao nosso redor, muitos foram inesperadamente ao chão. Kurama e Hiei ficaram em pé, assim como outros membros mais poderosos do Reikai. Todos parados no mesmo lugar.
E então, arregalei os olhos quando vi a luz azul estourar o teto. Da cratera, duas pessoas saíram, ou melhor, foram arremessadas. E embora tenha sido tão rápido que nem sequer pude acompanhar direito, eu sabia que Yusuke era um deles.
— x.x.x.x —
YUSUKE POV
Talvez tenha sido meio exagerado, mas Ootake não facilitou as coisas. Por mais que eu quisesse dar uma lição nele, sabia que minha prioridade tinha que ser tirar Kuwabara, Kiara e Botan desse lugar. Mas as provocações dele me fizeram perder a cabeça, o que também não era muito difícil.
Mesmo com Koenma implorando para que eu parasse, eu não consegui dar ouvidos. Acabei exagerando quando, no meio do combate, ataquei Ootake com tanta força que seu corpo simplesmente foi atravessando o piso de cada um dos andares, descendo desenfreadamente até parar com um choque violento no subsolo. Meu punho o acompanhou até o fim, como se eu precisasse garantir que ele não escaparia. Acabei caindo em queda livre junto daquele idiota e só percebi que tinha exagerado quando notei que a estrutura inteira do prédio estava aos pedaços.
Eu estava ofegante quando levantei do chão. Já Ootake, continuou imóvel. Os olhos ainda abertos piscavam devagar sem desgrudar de mim. Olhei ao redor conforme a nuvem de poeira gerada pela minha energia assentava e foi aí que percebi que não era somente a atenção de Ootake que estava presa em mim. Uma multidão de pessoas me encarava, por todos os lados. Eu estava no centro de uma…sala? Não. Não era bem uma sala, mas sim uma prisão. Me lembrei do que Koenma tinha dito sobre o Mundo Espiritual ter uma penitenciária.
Num silêncio absoluto, homens do Reikai e pessoas do Esquadrão me olhavam em completo choque, verificando o estado do comandante derrotado aos meus pés. Youkais sussurravam de dentro de celas minúsculas. Ali, no meio daquela gente toda, encontrei Kurama e Hiei e, pelo estado dos dois, diria que eu não fui o único a quebrar as regras de Koenma. Pelo menos, eu com certeza não ia me dar mal sozinho.
E falando nele, Koenma chegou onde estávamos logo em seguida. Vindo do mesmo buraco que abri no teto daquele andar. Ele me chamou assim que desceu, sem imaginar o que estava acontecendo ali.
— Yusuke…! — sua voz morreu no instante em que notou a situação.
— Parece que interrompemos alguma coisa — eu disse a ele, antes de me virar pro público que nos observava — Podem continuar.
A reação do Reikai foi imediata. Os que estavam em condições de lutar, atacaram a distância. Eu nem fiz questão de desviar ou me defender. Deixei que golpes me atingissem em cheio. A resistência do meu corpo aumentava quando estava com a forma da tribo Mazoku ativada, então já sabia que não teria tantos danos com alguns golpes fracos. Só ameacei recuar quando um dos caras do Esquadrão me atacou, num nível mais elevado que os outros.
Quando tentei desviar, algo me impediu. Alguém, na verdade. O imbecil do Ootake agarrou meu tornozelo, me impedindo de sair do lugar. Ele me atrapalhou e tudo que consegui fazer foi proteger o rosto do golpe que me engoliu de uma só vez.
— Yusuke! — Koenma gritou novamente — Temos que sair daqui!
Minha mente estremeceu. Me reergui e de longe vi Koenma se aproximar de uma cela específica. Um lugar que Kurama e Hiei pareciam tentar proteger.
E então, outro golpe. Dessa vez, contra-ataquei. Chutei o braço de Ootake que ainda me segurava, obrigando-o a me soltar, e lancei o Leigan contra a energia que convergia na minha direção. A colisão provocou uma explosão e aquilo me deu uma ideia.
Ootake ainda tentava se levantar do chão e aquela insistência já tinha testado toda a minha paciência.
— Vou te dar outra coisa pra se preocupar — eu disse a ele.
Numa sucessão de disparos, lancei inúmeros Leigan por toda a extensão da prisão. Não tinha a intenção de atingir alguém em específico, mas sim as celas onde os prisioneiros estavam.
A tática funcionou. As pessoas se abaixaram, dando passagem aos meus disparos. Alguns gritos vieram dos criminosos, pelo susto quando as portas das celas foram destruídas. Tive cuidado ao dosar a força usada, já que não queria matar ninguém ali. Continuei atirando. Cinco, dez, quinze, vinte tiros... Não sei quantos foram ao todo, eu parei de contar em algum momento. Só finalizei quando vi a movimentação dos prisioneiros crescer, saindo de suas celas. Livres para fugir.
E fugir foi exatamente o que eles fizeram.
A gritaria foi ensurdecedora. Uma aglomeração enorme de youkais foi se unindo em uma só multidão, correndo em busca de uma saída, a mesma que eu também procurava. Percebi que Ootake estava em choque quando eles vieram em nossa direção. Com certeza aquilo ia estragar o seu precioso mandato como líder espiritual.
O prédio inteiro tremia, prestes a desabar.
Aproveitei para me misturar à multidão e seguir em frente. Alguns membros do Reikai tentaram minimizar os danos e contornar a situação, mas eram muitos fugitivos para deter e, com tantas perdas da batalha, eles jamais dariam conta de todos.
Foi uma fuga em massa.
Notei que Koenma e os outros tomaram a dianteira e saíram antes de mim, mas não tinha importância. O nosso ponto de encontro estava marcado e, com aquela confusão, ninguém ia conseguir me seguir. Ao atravessar o túnel que levava para fora do prédio, Kurama foi o primeiro que encontrei. Parecia me esperar, como se quisesse garantir que estava tudo bem.
Fomos juntos até onde a nossa van estava estacionada, deixando pra trás toda aquela bagunça. Em meio a uma floresta densa, os demais nos esperavam. Kuwabara cheio de hematomas, fingindo estar bem. Kiara sangrando, com feridas recentes e sem pretensão alguma de disfarçar a sua condição. Botan, felizmente bem, talvez apenas com um arranhão ou outro. Hiei um pouco ferido, como Kurama e eu. E Koenma com um olhar endurecido e meio fora de si. Sabia que estava realmente bravo quando veio de encontro a mim para tirar satisfação.
— Tem ideia do que fez, Yusuke? Você enlouqueceu?! Libertou uma horda de youkais perigosos no Mundo dos Humanos?
— E daí? Você mesmo deu permissão para que os youkais vivessem aqui com os humanos.
— Não esses youkais! Eles são perigosos. Estão em condicional há muito tempo e nem sabem mais viver em sociedade!
— Para de frescura, foi o único jeito de escaparmos! Além disso, estão detidos com essas algemas espirituais, não estão? Eles não tem energia pra fazer nada.
— Ainda — ele me corrigiu — As algemas têm prazo de validade. Tomara que o Reikai consiga capturá-los antes que o prazo termine. Senão, você acabou de colocar um monte de humanos em perigo.
— Tá na hora de você perceber que isso não é mais problema seu, Koenma. Você foi retirado do comando do Reikai! Nada disso é problema seu!
Ele estreitou os olhos pra mim, como se eu tivesse dito um absurdo.
— Isso sempre vai ser problema meu.
— Já chega, vocês dois! Precisamos ir pro chalé cuidar de Kuwabara e Kiara — Kurama se colocou entre nós — Yusuke, se concentre em diminuir a sua energia. Está muito alta ainda. Não podemos correr riscos de nos seguirem. Você também, Hiei. Kuwabara, Koenma e Kiara estão com as algemas espirituais, então os três possuem a energia basal de um humano comum. Botan e eu já estamos prontos. Só faltam vocês dois.
— Não preciso que me dê ordens, Kurama — Hiei retrucou — Eu sei o que devo fazer.
— Então, por que você ainda não fez?
— Nem sempre é tão fácil pra mim quanto é pra vocês. Ajudaria se calassem a boca.
Hiei se afastou, tentando ficar sozinho. Kurama voltou a atenção para mim.
— Yusuke, se concentre. As marcas dos Mazoku ainda estão no seu corpo.
— E vão ficar. Você sabe que não tenho a menor ideia de como desligar isso. Não consigo controlar totalmente.
— Devia se dedicar mais ao domínio de seus próprios poderes, senão as suas habilidades vão se deteriorar cada vez mais.
— Ele não pode evitar, Kurama — olhei pro lado quando a mão de Kuwabara pousou no meu ombro — Yusuke sempre foi um aluno preguiçoso. É o que a Genkai diria se estivesse aqui. Uma vergonha como discípulo. Preguiçoso e burro.
— Olha quem fala. Você é muito mais burro do que eu.
— Não mesmo. Na verdade, você pra ser burro precisa melhorar muito ainda.
— Não te bateram o suficiente, Kuwabara? Tá querendo apanhar mais?
Ele sorriu, dando de ombros. Eu sabia que estava tentando fazer com que eu esvaziasse a mente e até que estava funcionando. Ver ele ali, a salvo, realmente me tranquilizava. Porém, percebi que tentava parecer melhor do que realmente estava, mas não parava de massagear o tórax. Escondia algum machucado e eu tive a impressão que desabaria diante de nós a qualquer momento. Não perguntei o que era, apenas deixei que se apoiasse em mim e o ajudei a ir até a van.
Pisando fundo no acelerador, Kurama dirigia para longe dali, enquanto eu continuava na missão de reprimir a minha energia ao máximo no banco de passageiro. Com exceção de Hiei, que decidiu pegar carona literalmente deitado em cima do veículo para ficar distante de nós, os outros iam nos bancos de trás em completo silêncio. Às vezes, Kuwabara cochichava alguma coisa com Botan. Já Kurama, estava focado na estrada, tentando garantir que sumíssemos do mapa do Reikai. Kiara adormeceu em poucos minutos, ou talvez tenha desmaiado. Não sei dizer. Sua cabeça tombou no ombro de Botan e ali ficou até o fim da viagem.
“Hiei disse que ela perdeu bastante sangue”, Kurama me explicou. “Pedi pra Keiko e Shizuru levarem alguns itens de primeiro socorros…”. Eu nem sequer ouvi o que ele falou depois de mencionar a Keiko. De repente, eu só conseguia pensar nela. Fazia um tempo que não nos víamos e eu me sentia culpado por deixá-la para trás de novo. Como se ela não fosse a minha prioridade.
Fiquei ansioso para o reencontro, mais do que o normal. Sabia que ela estaria me esperando. Ela sempre me esperava. Mas eu merecia? Foi pensando na vontade de encontrá-la que a viagem voou. Quando percebi já estávamos em frente ao chalé alugado por Kurama e ela estava do lado de fora nos aguardando, como eu já sabia que estaria.
Keiko simplesmente correu pra me abraçar. Um abraço longo e apertado. Eu retribui, é lógico, puxando o seu rosto em seguida para um beijo que infelizmente não foi tão duradouro quanto eu gostaria. Nem tão intenso quanto eu ansiava, já que tive que soltá-la para ajudar Kuwabara.
— O que aconteceu com vocês? — ela perguntou com aquela expressão de preocupação que eu odiava ver — Você tá todo machucado, Yusuke.
— A história é longa. Precisamos primeiro cuidar deles. Pode ajudar com a Kiara?
Quando olhei pro lado, era Hiei quem levava Kiara pra dentro da casa, já que Kurama simplesmente tinha ficado paralisado onde estava. Segui o seu olhar penetrante até uma mulher que eu não tinha a menor ideia de quem fosse. Me virei para Keiko em busca da resposta que veio num sussurro praticamente inaudível.
“É a namorada do Kurama”, foi o que li nos seus lábios.
De todas as coisas bizarras que já tinham acontecido até aquele momento, nenhuma delas seria mais estranha do que ver o Kurama tendo uma DR.
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