Notas iniciais
Finalmente mais um capítulo concluído! O mais longo até então. O nome desse capítulo é uma homenagem a mim mesma, já que por culpa dele eu tive insônia. 😂 Fiquei pelo menos um mês travada sem conseguir escrever, mas quando comecei me empolguei tanto que chegou a hora de dormir e eu queria continuar escrevendo. Fiquei uns dois dias seguidos com insônia por culpa desse bendito capítulo. E não achei justo sofrer de insônia sozinha, então pq não fazer os personagens sofrerem junto? O capítulo como sempre não ficou exatamente como eu gostaria, mas vida que segue. Eu precisava postar logo pra poder me concentrar em outros assuntos. Apenas relevem qualquer coisa xD Boa leitura!

KURAMA POV

Atrás de mim, Maya estava de braços cruzados. A presença dela me pegou de surpresa e eu tive que me esforçar para lembrar que uma discussão não era a minha prioridade. Depois que todos entraram no chalé, passei reto por ela e fiz o mesmo.

Maya me seguiu, acompanhando cada um dos meus passos. Primeiro, fui até onde Kiara estava. Shizuru, Keiko e Yukina me ajudaram a verificar os ferimentos, em especial o da coxa, que estava mais grave. Fizemos os primeiros socorros mais básicos e deixei a tarefa de suturar o corte aberto em sua perna com Shizuru — que cismou que seria exatamente igual a remendar o rasgo de uma camiseta. Eu não discuti. Ainda precisava verificar Kuwabara e, estando impossibilitados de usarmos a nossa energia para não sermos detectados pelo Reikai, precisava agir o quanto antes dentro das nossas limitações.

Depois de examiná-lo, descobrimos que Kuwabara tinha duas ou três costelas quebradas, mas quanto a isso não tínhamos o que fazer. A única solução era o repouso. As poucas ervas medicinais do Makai que eu possuía apenas serviriam para acelerar o processo de recuperação.

Sabia que uma hora ou outra precisaria enfrentar o meu problema, então no fim da tarde eu saí do chalé, com Maya ainda em meu encalço. Já era ruim ter que lidar com aquilo, mas sem o mínimo de privacidade seria ainda pior.

Continuei de costas, evitando encará-la. Deixando claro o meu descontentamento.

— Você não vai dizer nada? — ela perguntou — Fingir que eu não existo não vai me fazer desaparecer.

— Como foi que me encontrou?

— É isso que te preocupa? Eu ter te encontrado? Por acaso a sua família sabe que você tem tipo uma vida dupla e que essas pessoas te conhecem por outro nome?

Me virei realmente incomodado com a pergunta e não precisei responder para ela saber que tocou num ponto delicado.

— Como me encontrou? — perguntei novamente.

— Eu segui algumas pistas — ela deu de ombros — Cheguei nos endereços desses seus amigos. Encontrei aquelas garotas, Keiko e Shizuru. Fiquei de olho nelas até que elas receberam um recado seu. Elas estavam sendo perseguidas e eu dei uma carona pra fugirem da cidade.

— Tem certeza que ninguém seguiu vocês até aqui?

— Claro que tenho. Eles estavam atrás delas, não de mim.

Me senti aliviado. Todo o esforço para manter Maya longe de qualquer tipo de perigo não tinha sido em vão. Pelo menos até agora.

— Você vai me explicar em que tipo de coisa você anda metido — ela exigiu — Por que estão seguindo essa gente? Tem pessoas feridas aqui e vocês chegaram cobertos de sangue. Eu nem sei o que pensar!

— Qualquer coisa que esteja pensando vai estar errada.

— Então me diz a verdade. Por que não começa me explicando o porquê te chamam de Kurama? Isso até parece coisa de filme de espionagem ou de agente secreto. Esse é o seu codinome ou algo assim?

— Não posso te explicar isso.

Ela colocou as mãos na cintura e soltou um riso irônico.

— Ah, não pode?! E o que eu devo fazer? Ir embora e fingir que não vi nada?

— Pra ser bem sincero, Maya, isso é exatamente o que você deveria fazer.

Seu olhar tremeu, mas sem desviar de mim.

— Se eu for embora, eu não vou te procurar de novo. A gente não vai se ver nunca mais. É o que você quer, Shuichi?

Não, não era. Mas o único jeito de mantê-la afastada era fazer com que ela acreditasse que sim.

— Já está ficando tarde e vai ser perigoso pegar a estrada agora. Espere até amanhã.

Precisei sustentar a frieza. Por mais que quisesse explicar tudo a ela, tinha feito um pacto comigo mesmo de não colocar ninguém em perigo por minha causa. Por mais que me custasse perdê-la, me contentaria em mantê-la viva e a salvo.

— Você não pode estar falando sério.

— Mas eu estou. Vai embora, finja que não viu nada e simplesmente siga a sua vida. É pro seu próprio bem, Maya.

Ela deu um riso irônico e forçado, com uma expressão de deboche.

— Pelo visto você não tem a menor ideia do que me faz bem. Se eu não for, vai acontecer o quê? Você não pode me obrigar a ir!

Na verdade, eu podia e não descartava essa possibilidade. No passado, já tinha feito Maya se esquecer de mim. Nossos caminhos se cruzaram novamente por acaso, mas se eu quisesse poderia repetir a história. Só que dessa vez não seria tão fácil. Diferente de antes, agora estamos envolvidos demais, frequentando o mesmo círculo social. Alterar a memória dela não bastaria, já que outras pessoas sabiam do nosso relacionamento.

— Eu sou bem adulta pra decidir sozinha o que devo ou não fazer. Não quer me dar respostas? Tudo bem, eu vou atrás delas por conta própria.

Não pude conter um sorriso discreto. No fundo, já esperava por aquilo. Foi com essa personalidade totalmente sem noção do perigo que Maya conquistou a minha atenção.

E agora eu precisava pensar no que fazer com esse problema. Maya era esperta o suficiente para ir juntando as peças do quebra-cabeça. Ao ficar conosco, seria questão de tempo até descobrir a verdade. Uma verdade que eu tenho certeza que aumentaria o interesse dela por mim. Ela não teria medo, nem se afastaria. Ficaria fascinada. E assim, Maya se tornaria mais um dos meus pontos fracos, da mesma forma que a minha família humana se tornou.

Suspirei, ponderando as minhas possibilidades. Por ora, não tinha o que fazer a respeito.

— Faça como quiser.

Dei as costas a ela e caminhei de volta ao chalé, a deixando sozinha do lado de fora.

KURAMA POF

KIARA POV

Eu sabia que estava dormindo antes mesmo de acordar, já que estávamos só eu e ela. Aquela mulher que aparecia do nada pra mim como um fantasma que só eu era capaz de enxergar. Seus lábios se mexiam com clareza e dessa vez eu consegui ouvir a sua voz. Limpa, suave e jovial.

Eu ouvi ela dizer o seu nome, mas as palavras perderam o sentido quando a sua imagem virou um borrão. Ela continuou falando, mas a sua voz tinha sumido novamente. O único som que se seguiu foi um estrondo alto que me fez abrir os olhos no mesmo instante.

Com o coração disparado, eu me ergui assustada. A sensação de ter esquecido algo importante ficou presente, mas a única coisa que prendia a minha atenção era a garota que me olhava tão assustada quanto eu. Aos seus pés, havia uma caneca quebrada depois de uma queda violenta.

— Ai, que desastrada… — ela resmungou, enquanto tentava dar um jeito naquela bagunça.

Não tinha a menor ideia de quem era ela e, dando uma olhada ao meu redor, também não sabia onde estava. A janela do lado da cama mostrava um cenário verde fora do quarto e um dia ligeiramente nublado.

— Desculpa, não queria te acordar. Você está bem?

A encarei com desconfiança.

— Quem é você?

— Maya. Sou a namorada do Shuichi.

Pisquei algumas vezes, achando ter entendido mal. Estava tão confusa e com tantas dores no corpo que nada parecia estar fazendo sentido, muito menos o nome que ela tinha pronunciado.

— Quem?!

Ela revirou os olhos sutilmente.

— Do Kurama. Sou namorada dele.

Apesar de seu tom ter saído ríspido, fiquei aliviada com a menção de um nome conhecido.

— Ah, eu nem sabia que ele namorava. E você é humana.

Ela me olhou como se eu tivesse dito uma coisa estranha ou talvez até…ofensiva?

— Esperava que eu fosse o quê?

A conversa tomava um rumo esquisito. Ela fazia uma expressão de desentendida e eu retribuía na mesma moeda. Decidi que apenas precisava encerrar aquele contato o quanto antes e descobrir onde estavam todos.

— Esquece o que eu disse, eu só não me acostumei ainda com esse lance entre humanos e youkais. É bobagem minha.

Ela cruzou os braços com um ar de indignada, impaciente ou alguma outra coisa. Abriu a boca pra me responder, mas felizmente foi interrompida quando outra pessoa entrou no quarto. Melhor dizendo, não tão felizmente assim. A mulher que entrou em seguida eu também não conhecia, mas por algum motivo, ela agia como se fôssemos amigas há décadas.

Senti um cheiro forte de cigarro quando ela se aproximou de mim.

— Ah, acordou a bela adormecida! Você dorme bastante, né?

Revezei os olhares entre elas sem saber como corresponder àquele entusiasmo.

— Teve um dia difícil, hein? Você tá cheia de cortes pelo corpo todo. Chegou aqui com vários cacos de vidro presos nas suas costas. Consegue imaginar o trabalhão que deu pra gente tirar tudo?

A forma alegre e serena como ela disse aquilo soou estranha demais considerando que a situação era o oposto de alegre.

— E você quem é?

— Eu sou a Shizuru Kuwabara. Irmã do Kazuma.

Fiquei feliz por ouvir mais um nome conhecido, mas aquilo me fez lembrar que Kuwabara também não estava nem um pouco bem quando fugimos daquela prisão.

— E como ele tá?!

— Se você conhece o pateta do meu irmão, sabe que ele está usando o fato de estar todo quebrado pra se aproveitar dos cuidados da Yukina. Ele vai ficar bem.

— E os outros?

— Não se preocupe. Estão todos bem.

A namorada do Kurama se aproximou sutilmente de mim. Ela não representava risco algum, mas sua postura demonstrava que estava realmente brava. Os braços cruzados, as sobrancelhas franzindo a testa e os olhos semicerrados. E eu não tinha a menor ideia do que tinha feito de tão errado para causar essa reação, mas me inclinei pra trás tentando criar distância entre nós.

— O que quis dizer com “youkai”? — ela perguntou, voltando ao assunto anterior.

Eu fiquei atônita, sem entender a pergunta. E nem sequer precisei responder, já que a irmã de Kuwabara fez o favor por mim.

— Mas você é bem espertinha, né? Usando a menina pra conseguir informações só porque ela ainda tá desnorteada. Tenha dó, ela acabou de acordar!

— Eu só fiz uma pergunta, o que tem de errado nisso?!

Fiquei perdida quando elas começaram a discutir e parei de prestar atenção nas duas. Coloquei os pés para fora da cama, me preparando pra tentar levantar. Queria dar uma olhada no machucado na minha perna esquerda, mas ela estava muito bem enfaixada. Doía bastante e achei melhor deixar pra checar o estrago em outro momento. As algemas espirituais continuavam brilhando ao redor dos meus pulsos e para a minha infelicidade a minha habilidade de cura continuava ceifada.

— O que está acontecendo aqui? Por que vocês duas estão brigando?!

A voz de Keiko me fez levantar a cabeça. Ela entrou no quarto atraída pelo bate boca, mas ao me ver desperta, veio diretamente até mim.

— Que bom que acordou, Kiara! Como está se sentindo?

— Um pouco tonta e com muita dor.

Keiko gesticulou para as outras duas, pedindo para que saíssem. Elas obedeceram, levando a discussão para fora do quarto.

— Não é pra menos que esteja assim, você chegou aqui desmaiada. Perdeu muito sangue e não pudemos fazer muita coisa. Só limpamos as feridas, fizemos curativos e te medicamos. O Reikai tá na cola de vocês, então ninguém pode usar energia para não sermos detectados. Nem a Yukina pôde usar o poder dela pra te curar. A coitadinha ficou arrasada, se sentindo inútil por não ajudar em nada.

— Não mais inútil do que eu por causa dessas porcarias de algemas. Se eu não tivesse usando isso, já teria me curado naturalmente por conta própria.

— O Koenma disse que elas vão perdendo a força e desaparecendo com o tempo. Foi por isso que não puderam levar vocês pro Makai, já que é um ambiente tóxico pra um humano comum. É como se vocês fossem humanos normais agora.

— E quanto tempo ele disse que elas duram?

Ela virou o rosto e hesitou, como se já esperasse pela pergunta e soubesse que eu não ia gostar da resposta.

— Keiko?

— Mais uma semana ou duas.

— Duas?! Vamos ter que ficar presos aqui por duas semanas? Onde exatamente nós estamos?!

— Num chalé que o Kurama alugou, bem afastado da cidade e no meio do nada. Ele disse que descobriu uma passagem clandestina pro Makai aqui perto, então é meio que uma localização privilegiada ou algo assim. Não esquenta, vocês vão voltar pra lá logo logo.

O fundo entristecido no seu tom de voz me fez perceber como eu estava sendo egoísta. Talvez Keiko nem tivesse percebido como tinha deixado transparecer o seu próprio desânimo, enquanto tentava me animar. Ela parecia distraída demais para notar, mas entendi que ela ficaria feliz se a nossa estadia se estendesse o máximo de tempo possível. Se por um lado eu sofria por estar longe de Kazuki, por outro, ela sofria por estar longe de Yusuke.

Um nó se formou na minha garganta. Me sentia culpada por ter bagunçado com a vida deles e culpada por, às vezes, desejar poder desistir de tudo. Até mesmo de salvar Kazuki.

x.x.x.x

Botan foi a primeira pessoa que encontrei quando saí do quarto e também a primeira que abracei em muito tempo. A felicidade que senti ao vê-la bem foi inexplicável. Depois de passar tanto tempo isolada comigo, se colocando em risco para me salvar e até ferindo os próprios princípios para me proteger, o que eu mais queria era poder agradecer por tudo o que tinha feito.

Ela não esperava o abraço, — e nem eu mesma, pra ser sincera — mas retribuiu mesmo assim. Porém, não pude deixar de notar que, apesar de se mostrar contente por estarmos bem, ela estava inquieta. E eu sabia exatamente o porquê. Acho que Botan jamais se perdoaria por tirar a vida de alguém. Ela ficaria consternada até descobrir o destino daquele guarda do Reikai que baleou. E quando descobrisse, a depender do desfecho, provavelmente se martirizaria para sempre pelo que aconteceu a ele.

— Eu sinto muito — foi o melhor que eu consegui dizer. O suficiente para ela entender exatamente a que eu me referia.

— Eu também. Mas o importante é que você está bem.

O silêncio que se seguiu pesou entre nós. Eu queria dizer alguma coisa a mais, falar pra ela jogar toda a culpa em mim, dizer que fui eu que fiz aquilo. Ou simplesmente dizer a ela que ficaria tudo bem, mesmo sem ter certeza de nada. Porém, percebi que Botan queria encerrar o assunto, então decidi colaborar ao questionar onde estavam todos. Depois de me explicar que Yusuke, Kurama e Koenma estavam de vigília pelas proximidades do terreno — apenas para garantir que não tínhamos sido seguidos — ela me levou até o lado de fora do chalé, onde estavam Yukina e Kuwabara na varanda.

Botan não mencionou Hiei e uma sensação esquisita me inibiu de perguntar sobre ele.

Kuwabara e Yukina me receberam com uma mistura de preocupação e entusiasmo. Ele, também usando as algemas, tentava parecer inabalável. Já Yukina, se desculpava por algo que nem sequer tinha culpa. Keiko e Shizuru se uniram a nós não muito tempo depois e só então eles me explicaram a situação de Maya. Disseram que Kurama não pretendia contar a verdade a ela.

Maravilha! E agora como eu ia explicar ao Kurama que revelei a Maya que ele é um youkai?!

Pelo restante da tarde, não falamos de problemas. Fiquei em silêncio enquanto eles conversavam sobre coisas pequenas. Filmes, músicas, fofocas do bairro em que cresceram…Soou tão estranho ouvir comentários sobre assuntos banais, como se nada daquilo me pertencesse. E foi ainda mais estranho pensar como aquilo me trouxe uma paz que eu não lembrava de sentir há tempos.

Com eles, as horas se passaram sem que eu notasse e somente ao entardecer voltamos para dentro do nosso abrigo temporário.

Keiko e Yukina me ajudaram a refazer o curativo na perna após um banho quente. A cauterização improvisada por Hiei para estancar o sangramento tinha deixado uma marca escura ao redor da perfuração ocasionada pela faca. A pele estava rígida e áspera. Doía tanto que até o contato com o ar parecia cruel.

Protegi também outros cortes mais significativos nas costas e mãos. Já os menores, apenas ignorei a ardência quando a água escorreu sobre eles. Ainda latejavam, vívidos. A cicatrização seria lenta e penosa.

Eu estava num estado deplorável. Meu corpo inteiro protestava. Ficar de pé era um sacrifício e eu nem sequer conseguia manter a perna machucada esticada. O corte na lateral do meu rosto — em diagonal na bochecha esquerda — pulsava. Decidi colocar uma atadura afilhada e fosca para disfarçar a vermelhidão ao redor, mas ter que me olhar no espelho não foi nada agradável.

Não lembrava a última vez que tinha dado alguma atenção à minha imagem. Talvez tenha sido quando trabalhei para Yamazaki com uma identidade falsa. Naquela ocasião a aparência ainda era relevante, já que eu queria aquele homem aos meus pés. Agora, tudo o que via eram ataduras, ferimentos e um rosto cansado e cheio de traumas. Nada importava além da vida de Kazuki, nem mesmo a minha própria vida. E ainda assim, aquele reflexo me incomodou muito mais do que eu gostaria.

Me vesti às pressas para sair da frente do espelho antes que ficasse ainda mais atormentada. Segui as vozes que se misturavam na sala já sabendo que Yusuke, Kurama e Koenma tinham retornado. Mas nem sequer consegui dizer “oi”, pois quando pus os olhos nas marcas que estavam nos braços de Yusuke, levei um susto. Não um susto comum, mas senti algo realmente estranho, como se por um momento estivesse diante de uma outra pessoa. Uma figura borrada em minha mente que eu nem sequer sabia se era real.

Travei onde estava, enquanto encarava o padrão daquelas tatuagens como se já as tivesse visto antes. A sensação de déjà-vu foi tão forte que quase doeu.

— Que droga de marcas são essas em você?

Acho que o tom da pergunta acidentalmente saiu mais grosseiro do que deveria, ainda mais com a cara de desgosto que eu inconscientemente estava fazendo. Mas só percebi quando todos pararam de conversar e olharam para mim um pouco surpresos com a minha indelicadeza.

— Não são tão feias quanto as suas…

Yusuke mal terminou de responder e Keiko o já repreendeu com um tapa de advertência.

— Yusuke!

— Isso não é coisa que se diga pra uma mulher, Urameshi. Você é ridículo — Kuwabara o repreendeu.

— Que estresse, vocês dois! Não posso nem brincar mais?!

— Tudo bem — menti pra mim mesma, cruzando os braços como se pudesse esconder os cortes. Tentando esquecer do meu reflexo no espelho — No fim, não vai sobrar nenhuma cicatriz pra contar a história.

Yusuke relanceou Keiko com um ar triunfante, satisfeito com a minha resposta e ela revirou os olhos. Ser a causa de uma discussão entre os dois era a última coisa que eu queria, então refiz a pergunta, tomando cuidado para não ser mal interpretada.

— Afinal, o que são esses desenhos? Acho que já vi eles antes.

— Ah, isso é impossível, Kiara — Kuwabara respondeu primeiro — É coisa de youkai. E de uma tribo antiga, aquela que o Yusuke é o último descendente. Qual o nome mesmo? Eu sempre esqueço.

— Dos Mazoku. Você jamais poderia ter visto, Kiara — Yusuke respondeu — As tatuagens aparecem em mim quando o poder aflora. Às vezes, perco um pouco do controle, mas devem sumir uma hora ou outra. E pode ficar tranquila, apesar de estarem aqui, Kurama me garantiu que consegui suprimir a minha energia. O Reikai não vai nos detectar, não é isso?

— É sim, Yusuke — Kurama concordou com ele — Já falei que as marcas não devem ter sumido porque você ainda está em estado de alerta. Mas não tem rastro da sua energia, então estamos bem, porenquanto. E eu disse também que tá na hora de você aprender a controlar esse poder. Saber ligar e desligar quando quiser. Isso é importante.

Kuwabara cruzou os braços, olhando para Yusuke com desdém.

— A falta que faz a Genkai pra colocar ele na linha…

Meu corpo congelou.

O nome explodiu dentro da minha mente, trazendo de volta, em um clarão, aquele último sonho interrompido pela manhã. O nome sussurrado no instante em que acordei. Era isso. Era esse o nome.

Era ela.

Aquela mulher que vinha até mim era a Genkai que eles constantemente citavam? O choque me fez sem querer murmurar em voz alta.

— Genkai? Como assim?!

Eles me olharam confusos, como se eu fosse uma maluca falando sozinha.

— Como assim o quê? — Yusuke perguntou.

— É que…essa mulher não é a sua antiga mestre que já morreu?

— É. E daí?

— Já falamos dela pra você, não se lembra? — Botan perguntou.

— É que…

Hesitei. Se já estava parecendo uma esquisita aos olhos deles, dizer a verdade só ia piorar a minha situação. Mas que outra alternativa eu tinha?

— O quê foi, Kiara? Pode falar, seja o que for — Kurama me incentivou.

Assenti, tomando coragem.

— É que essa mulher, Genkai, eu a vi. Ela falou comigo.

O silêncio que se seguiu foi brutal. Até constrangedor, eu diria. Todos me encaravam como se eu realmente tivesse enlouquecido. Procuravam entender o que tinha de errado comigo e conversavam em silêncio por meio de olhares óbvios. Foi a irmã de Kuwabara que tomou a iniciativa de falar, enquanto acendia um cigarro, próxima da janela entreaberta.

— É, ela não tá bem não. Está até alucinando. Que tipo de droga você disse que injetaram nela, Botan?

— Não. Não foi alucinação! Eu já a vi várias vezes, antes mesmo de Ootake me prender ou me drogar.

— Isso não é possível, Kiara — Kurama me respondeu, direto ao ponto — Não tem como ser.

— Não só não é possível, como é absurdo! Genkai já faleceu e fez a travessia, né? — Kuwabara disse.

— Fez sim — Botan respondeu. A sua voz estava trêmula — Eu fiz questão de acompanhá-la até esse momento chegar.

— E depois que uma alma faz a travessia, ninguém mais pode se comunicar com ela — Koenma complementou — Ela entra em um mundo inacessível até mesmo para nós do Reikai. Para que você conseguisse se comunicar com ela, Genkai teria que ser uma alma penada aqui no Ningenkai, mas esse não é o caso. O que está dizendo é literalmente impossível de ter acontecido, Kiara.

— Mas aconteceu. Só pode ser ela. Que outra Genkai seria?

Yusuke soltou um palavrão e depois se aproximou de mim com uma postura tensa.

— Que teimosia! Você nem sequer conheceu a Genkai. Como tem tanta certeza de que era ela?

— Ela me disse o nome dela.

— Ah, por favor…isso não prova nada! Como ela era?

— Jovem. Olhos castanhos, cabelo curto e ondulado, baixinha e muito bonita.

Ele franziu a testa, incomodado com a descrição. Precisa demais, talvez?

— Isso também não prova nada.

Respirei fundo, tentando conter uma onda de raiva súbita.

— Se nenhuma das minhas respostas é suficiente, não faz sentido continuar me fazendo perguntas, né?

Yusuke colocou as mãos nos bolsos, como se tentasse esconder o nervosismo. Mas manteve o olhar duro sobre mim.

— Explica isso direito. O que ela falou com você? — Kurama me perguntou.

— Nada. Ela já apareceu algumas vezes, inclusive quando eu estava em apuros. Ela me ajudou em algumas situações, me orientou sem precisar dizer nada. Todas as vezes que tentou falar comigo, eu não consegui ouvir a sua voz. Era como se a conexão entre nós estivesse fraca, parecia um rádio chiado. Mas hoje ela conseguiu me dizer o seu nome, enquanto eu dormia.

Kuwabara concluiu o que eu sei que parecia óbvio, embora eu pudesse jurar o contrário.

— Então foi um sonho.

— Não foi um sonho! Ela aparece quando eu to acordada também.

Um novo silêncio se estendeu na sala. Eles se entreolharam confusos e consternados. E, pra ser sincera, todo aquele ceticismo já estava conseguindo me tirar do sério. Eu sei que era difícil de acreditar, mas por que resistiam tanto?

Novamente, foi Shizuru quem cortou o silêncio. E foi também a primeira pessoa a me dar ouvidos.

— Dar um jeito de ajudar alguém mesmo depois de morta? Parece mesmo algo que a Genkai faria. Eu acredito na garota.

— Mas não é possível. Nunca antes ouvi falar de uma experiência assim. Não dá pra conversar com os mortos que fizeram a travessia — Koenma rebateu — Muito menos enxergá-los!

— Mas a Mestre Genkai não era uma pessoa comum — Yukina se manifestou — E se ela encontrou um jeito de se comunicar?

— Esperem. Eu tenho uma foto aqui — Botan disse, procurando entre os bolsos do seu kimono um caderno de anotações velho. Dentro dele, encontrou uma foto dobrada. A abriu e estendeu para mim.

— A pessoa que você se refere, consegue identificá-la aí?

Era uma foto antiga, quase sem cor. Amarelada e sem muita qualidade. Nela havia um grupo de pessoas que, pelas roupas que usavam, deduzi serem treinadores de artes marciais.

— Que foto é essa? — Kuwabara perguntou, se aproximando de mim para ver também — De onde ela veio?

— É uma foto que achei quando eu trabalhava com o Yusuke. Quando estávamos buscando alguém pra ser o mentor dele, mas isso não importa agora!

O grupo era grande, mas contava com poucas mulheres e não precisei nem de meio segundo para identificar a que eu procurava. Todas tinham cabelos longos e presos, exceto uma. A pequena e bela jovem no canto esquerdo da imagem.

— É ela. Essa mulher aqui.

Devolvi o papel para Botan com a minha indicação. Por trás dela, todos se aproximaram para ver a minha escolha. Botan prendeu a respiração e seus olhos marejaram.

— É a Genkai. Então você realmente pode…?

— Não, Botan, claro que não! — Yusuke a interrompeu — Isso é obviamente alguma confusão.

Inspirei fundo novamente, incomodada com a forma com que ele duvidava de mim.

— Por que diz como se tivesse tanta certeza? É ela sim!

Em resposta, ele riu ironicamente, visivelmente irritado.

— Óbvio que não é. Você nem conhece ela. Por que a Genkai falaria com você, podendo falar com qualquer um de nós? Você tá com um parafuso a menos nessa sua cabeça. Primeiro chegou falando que já viu as marcas da Mazoku e agora isso. Tá achando que é o quê? Protagonista de filme de terror pra ficar vendo gente morta?

Ouvir aquilo fez o meu sangue ferver e, quando eu menos esperava, percebi que quem estava apertando os punhos era eu. A resposta escapou da minha boca sem querer.

— Já entendi o que te deixa tão nervoso. O problema é que você prefere acreditar que não é a Genkai, senão vai ter que aceitar que ela preferiu falar comigo do que com o discípulo idiota dela.

Me arrependi do que disse no instante em que falei, mas era tarde demais pra voltar atrás. Vi o semblante de Yusuke pegar fogo quando ele deu um passo em minha direção.

— Como é que é? Repete.

O tom era intimidador, mas ao mesmo tempo me encorajava, como se quisesse me testar. Como o estrago já estava feito e eu também estava irritada, não tinha mais nada a perder.

— Qual parte? Dela escolher falar comigo ou você ser um idiota?

Yusuke ameaçou mais um passo que foi imediatamente contido por Kurama e Kuwabara. Ambos, se colocaram entre nós, bloqueando qualquer tipo de contato que pudéssemos ter.

— Já chega vocês dois! — Kurama ordenou — Essa discussão é inútil e só com o tempo conseguiremos respostas pra tantas perguntas. Vamos encerrar esse assunto por ora.

Ninguém disse mais nada. Pelo resto do dia, ninguém ousou tocar no assunto, pelo menos não perto de mim. Embora eu tivesse certeza que falavam pelas minhas costas.

Ao anoitecer jantamos em silêncio e cada um foi pro seu quarto. E ao deitar na cama eu me perguntei se fiz bem em contar a verdade a eles.

x.x.x.x

O sono durou pouco. Eu fui dormir com raiva, desejando encontrar aquela tal de Genkai e tirar a limpo aquela história de uma vez por todas, mas acabei tendo um sonho diferente. Com um homem. Aquela figura borrada do déjà-vu, com as tatuagens desenhadas pelo corpo, semelhantes àquelas que vi em Yusuke. Seu rosto estava sombreado, mas seu sorriso era claro. Um sorriso que me reconfortava e, ao mesmo tempo, me dava arrepios.

A silhueta era alta, musculosa. Sua presença era forte, mas tinha algo nele que me fazia sentir triste.

Acordei de repente no instante em que ele se aproximou, ultrapassando os limites entre nós. Me puxando pela cintura, num contato íntimo demais. Ele levou a mão ao meu rosto, mas eu abri os olhos antes que a sua boca encostasse na minha.

— Você sempre acorda assim assustada? Já é a segunda vez e eu acabei de te conhecer.

Sentada sobre o colchão, olhei pro lado e encontrei Maya na mesma posição que eu, na cama ao lado da minha. Na beliche no canto oposto, Shizuru roncava sutilmente, o suficiente pra ser ouvida. O relógio digital marcava duas horas da manhã.

— Teve um sonho ruim? — Maya perguntou.

— É. Esquisito, na verdade. E você? Não consegue dormir?

— Não. Muita coisa pra pensar — ela permaneceu cabisbaixa, tentando esconder o rosto — Falando nisso, me desculpa pela forma como te abordei mais cedo.

— Ah, tudo bem. Não precisa pedir desculpas.

— A essa hora já devem ter te explicado o que eu to fazendo aqui, né? Já devem ter te dito pra não me dizer mais nada.

Não neguei, nem confirmei. Deixei que o silêncio falasse por si só.

— Não vou te pressionar. Eu só queria saber uma coisa, algo que tá literalmente me tirando o sono. Você chegou aqui muito machucada. As pessoas que fizeram isso com você são as pessoas ruins? Quer dizer, se vocês não são as más pessoas, por que estão se escondendo como se fossem? Vocês fizeram alguma coisa errada?

— Todo mundo comete erros. Mas, não. Não fizemos nada de errado.

— Então, o Shuichi te salvou? Ele não é uma pessoa ruim?

Pensei por um segundo. Até onde sei, o passado de Kurama não era exatamente o que se espera de uma pessoa boa.

— É uma pergunta complicada. Acho que ninguém é só bom ou só ruim.

— Sim, mas quando vi vocês chegarem aqui e depois descobri que ele mentiu e escondeu coisas de mim, comecei a duvidar de tudo o que sabia sobre ele.

Não foi difícil compreender o que Maya estava passando. No lugar dela eu estaria da mesma forma, mas não cabia a mim resolver a situação. Estava de mãos atadas.

— Vocês precisam conversar. Só ele pode te explicar tudo.

— Já tentei. Ele está me evitando, como se me quisesse longe. Talvez eu devesse mesmo ir embora.

— Olha, eu não sou a pessoa mais indicada pra dar conselhos amorosos. Tudo o que posso te dizer é que o Kura…o Shuichi, só tem me ajudado desde o momento que o conheci. Isso já diz muito sobre ele, independente de qualquer outra coisa. Sei que está confusa agora, mas essa situação vai se resolver. Acho que você não devia se precipitar em nenhum julgamento.

Ela concordou balançando a cabeça, mas sem dizer nada. Então, eu coloquei os pés no chão e levantei.

— Eu vou preparar um chá pra ver se me ajuda a voltar a dormir. Você quer também?

— Não, obrigada. Acho que vou tentar deitar agora.

Por mera formalidade, desejei boa noite a Maya e, tomando cuidado pra não fazer qualquer barulho, saí do quarto com passos leves e lentos, arrastando a perna machucada.

Tudo estava escuro e extremamente quieto. Segui até a cozinha, tateando as paredes até encontrar o interruptor que acendeu uma lâmpada solitária no centro do teto. Uma iluminação fraca e escura, mas suficiente para enxergar a chaleira.

Enquanto a água aquecia, meu olhar ficou preso na janela. Do lado de fora, a mata era tão escura que não dava pra ver nada além do contorno de algumas árvores iluminadas pela luz prateada da lua, que também estava encoberta por nuvens. Os galhos dançavam com o vento, balançando de um lado pro outro.

Foi ridículo pensar que a forma com que eles se moviam parecia meio assustadora e que eu estava me tornando uma tremenda covarde. E para piorar, bem na hora um estalo repentino vindo da sala fez meu coração saltar no instante em que ia despejar a água fervendo na xícara. Me detive e olhei para trás, mas não vi nada em direção ao som. Tudo continuava exatamente do jeito que estava antes. Imaginei estar ficando paranoica.

Ridiculamente paranoica e covarde.

— Vejo que já está se mantendo em pé sem cair.

Girei o corpo com um pulo, o que fez com que a água fervendo dentro da chaleira saltasse junto e acabasse respingando na minha mão. Encostado no batente da porta, Hiei me julgava enquanto eu reprimia um grito de dor. Ele arqueou uma sobrancelha, me examinando com aquela calma irritante.

Coloquei rapidamente a mão queimada debaixo da água corrente da pia, deixando que o fluxo aliviasse a ardência.

A escolha de palavras me deixou desconcertada. Me manter em pé sem cair? Qual era a necessidade de me fazer lembrar do que tinha acidentalmente acontecido entre nós, quando perdi o equilíbrio e acabei caindo sobre ele? Não passou de um contato breve. Óbvio que não significava nada. Mas, ainda assim, eu passei o dia inteiro tentando evitar pensar naquilo, como se significasse. Evitando lembrar como o seu olhar se prendeu ao meu de um jeito que nenhum tinha se prendido antes. E da sensação que os seus lábios deixaram nos meus quando nos afastamos.

Junto da lembrança veio um calor desconfortável que fazia a queimadura da mão parecer gelada se comparada ao meu rosto.

— Por que você me assusta desse jeito, caramba?! Eu achei que estivesse sozinha!

— Não tenho culpa se é distraída e não percebeu a minha chegada.

— Você não deu as caras o dia inteiro. Como eu ia adivinhar que ia aparecer agora? E aliás, onde você estava?

Ele me olhou de soslaio, incomodado. Imaginei que fosse me mandar pro inferno por eu perguntar como se me devesse uma explicação. Então, foquei no preparo do chá, despejando a água quente sobre o sachê de ervas. Imediatamente, o aroma herbal começou a se dispersar no ambiente.

— No Makai. Queria saber como estava a regeneração daquela criança que encontrei quase morta.

Olhei pra ele esperançosa. Esperando receber uma boa notícia.

— E como ela está?

— Acho que deve acordar em breve. Já está respondendo aos estímulos que recebe.

O alívio tomou conta de mim.

— Essa garota é o único meio que me resta pra descobrir pra onde levaram o meu irmão. Por favor, se souber de mais alguma coisa…

— E adianta ficar ansiosa por atualizações? Você mal consegue andar. Melhor que se concentre na sua própria recuperação.

Suspirei fundo, tentando evitar uma discussão.

— E por que você veio pra cá? — perguntei.

— Só quis checar como estavam.

— No meio da madrugada? Não podia esperar até amanhecer? Parece até que tá todo mundo tá com insônia hoje.

Ele não respondeu. Seja lá o que tivesse lhe tirado o sono, Hiei não parecia disposto a compartilhar comigo. Imaginei se, depois do que aconteceu, os outros estariam na mesma situação. Com a cabeça deitada em seus travesseiros, mas incapazes de dormir enquanto pensavam em Genkai.

— Eu descobri quem era aquela mulher. Aquela que eu vi na fortaleza da Mukuro. Lembra? A mulher que eu só eu enxergo.

Ele virou completamente em minha direção, realmente interessado.

— Quem?

— Genkai. A antiga companheira de vocês.

Novamente silêncio. Nada além de uma troca de olhares enigmática entre nós dois.

— De onde tirou isso?

— Ela me disse o nome dela. E sim, eu sei que ela já morreu. Eu só estou te falando, porque já contei pra todo mundo e isso já gerou uma tremenda confusão aqui. E se você não acredita, me faz o favor de entrar nas minhas memórias como fez da outra vez. Tenho certeza que vai encontrar ela lá. E aí, você pode falar pros outros que eu não estou mentindo!

Ficamos em silênciode novo, por longos e incontáveis minutos. Cada um no seu próprio mundo. Eu esperei até que ele decidisse dar uma opinião, fosse boa ou ruim.

O veredito demorou um pouco, mas a espera valeu a pena.

— Não preciso fazer isso. Não tenho motivos pra duvidar do que diz.

Eu tentei processar o significado daquelas palavras, procurando não deixar tão óbvio o quão reconfortantes elas soaram.

— Então, você acredita em mim?

— Não é questão de acreditar. Parece que muitas coisas sobre você não fazem o menor sentido. Como o porquê um exército de youkais está querendo te capturar ou o porquê você não morre nas mesmas condições que qualquer humano morreria. O fato de se comunicar Genkai é só mais uma das coisas estranhas que te rodeiam. É realmente curioso.

A forma como ele disse — o seu tom — me fez perceber como o seu olhar realmente pesava sobre mim com curiosidade, como se me estudasse e tentasse arrancar algum segredo de mim à força. Um olhar perscrutador, intenso e até invasivo. Incômodo, mas também magnético. Tanto que me detive ali, apenas encarando de volta, sem dizer nada. Com a mesma curiosidade, prestando atenção em detalhes que eu ainda não tinha reparado. Especialmente em como a cor vermelha dos seus olhos se mantinha vibrante e destacada mesmo na penumbra.

Perdi completamente a noção do tempo com tanto desvaneio. Não sei por quantos minutos ficamos ali sem dizer nada e só voltei a reagir quando, traída pela minha memória, lembrei novamente do que não deveria. Das nossas respirações se chocando, da sua mão me segurando com firmeza pela cintura e do peso do meu corpo inclinado sobre o dele. E quanto mais eu tentava esquecer, menos eu conseguia.

Desejei apenas sumir dali o quanto antes.

— Vou voltar pra cama — eu disse tão apressada que quase atropelei as palavras — Já tá bem tarde. Preciso tentar dormir.

Não esperei uma resposta. Simplesmente virei de costas, seguindo em direção à saída da cozinha.

— Kiara…— ele me chamou antes que eu fosse — Você não veio aqui por isso?

Quando me virei pra ver do que ele estava falando, Hiei estava próximo, a um passo de distância. Segurava a xícara intocada do chá, a estendendo em minha direção. Totalmente esquecida.

Ele a empurrou para mim, me obrigando a segurá-la. Meus dedos tocaram os seus rapidamente e quando levantei os olhos, encontrei os dele outra vez. O ar ficou pesado. Quente. E a vontade de desaparecer triplicou.

Minha respiração travou sem que eu percebesse. Novamente dei as costas a ele e segui o meu caminho de volta para o quarto. Quando entrei, percebi que Maya já estava adormecida. O relógio passava das três horas da manhã, mas a minha mente ainda fervilhava. Seria impossível dormir naquele estado.

Desisti de lutar contra os meus pensamentos e me perdi em situações hipotéticas sobre um interesse que nem sequer deveria cogitar como possibilidade. Pensando como seria se aquele incidente entre nós dois tivesse acontecido em outras circunstâncias.

A xícara de chá na minha mão já estava morna, quase fria. Mas não tinha importância. De qualquer forma, não teria chá no mundo que pudesse me curar daquela insônia.


Notas finais
Pra cada mistério resolvido, eu adiciono mais dois kkkkk Eu não esperava que ninguém adivinhasse que a mulher misteriosa seria a Genkai, mas me contem aí a reação de vocês. Nunca desconfiaram nem um pouquinho? Quem vocês acharam que seria?