You're My Only Song
9 Uma noite de chuva
Notas iniciais
A distribuição dos grupos no interior das barracas foi bem seletiva. Camille tinha ficado com Sunny, Logan, com Carlos, James, com Kendall, Jett, com Dustin, Jo, com Lucy, e Amy ficou sozinha. E enquanto Jett e Dustin finalmente realizavam o desejo de seus corações em sua barraca, na barraca de Carlos e Logan, o moreno dormia calmamente, com seu sono embalado pelo barulho da chuva, enquanto Carlos tremia de medo. Ele tinha dormido mais cedo, com Logan lhe fazendo carinho, mas os trovões o acordaram e ele, agora, não parava de pensar no que poderia acontecer com eles no meio do nada com uma chuva forte como aquela.
O latino se sentou para procurar uma lanterna, ao invés disso, ligou um jogo eletrônico, o que o fez perceber que estava mexendo na mochila de Logan e não na sua.
– Carlos? – Logan perguntou coçando os olhos – Você acordou de novo? – Ele perguntou. Iluminado apenas pela luz do jogo, Carlos acenou que sim com a cabeça. Logan procurou na mochila certa, pela lanterna e a encontrou. A apontou pro teto, pra que a iluminação ficasse razoável – Você tá assustado? – Carlos acenou, mais uma vez, positivamente – Vem cá, fica calmo – Logan passou seu braço em volta dos ombros do latino e o puxou para cima de si. Carlos se reconfortou sobre o peito de Logan e colocou as cobertas em cima de seu corpo, novamente.
– O que pode acontecer se ocorrer uma enchente aqui? – Carlos perguntou temeroso.
– Carlos – Logan disse se segurando para não rir – Não tem como acontecer uma enchente no meio da floresta. Principalmente no meio de uma floresta sem rios grandes.
– E se esse riacho encher demais?
– Carlos, você tá parecendo uma criança de seis anos.
– Eu tenho dezesseis. São só dez anos a mais.
– E você acha que dez anos são poucos?
– Não sei... – Carlos apertou a cintura de Logan e escondeu o rosto em seu peito.
– Tudo bem, olha pra mim – Logan disse pegando o queixo de Carlos e levantando seu olhar – Nada disso vai acontecer, eu te garanto.
Carlos deitou sua cabeça mais perto do rosto de Logan e esse último lhe plantou um beijo em meio aos cabelos negros. Logan continuou fazendo carinho em Carlos, mas não surtia efeito. O barulho da água na lona da barraca, apenas deixava Carlos mais nervoso e assustado, quando somado aos trovões que se ouviam cada vez mais próximos.
Logan o abraçava com força, já estava ficando irritado consigo mesmo, por não conseguir afastar aquele medo de Carlos e deixar o pequeno sofrer assim.
– Log-log-Logan – Carlos chamou gaguejando um pouco – Me conta uma história? – Pediu timidamente.
– Que tipo de história você quer ouvir? – O moreno perguntou, de fato, interessado na ideia de seu namorado.
– Não sei. Quando eu era criança, antes de perder a audição, minha mãe me contava uma história todas às noites de tempestade – Carlos contou, acariciando o peito de Logan.
– Bem... Eu não sei se tenho uma boa história – Logan disse, vasculhando em sua mente em busca de uma história – Eu tenho uma, mas não sei se você conhece.
– Não vai saber se não contar – Carlos disse erguendo o olhar.
– Tudo bem – Logan falou rendido – “Houve em um tempo, um homem e sua filha. Os dois moravam em uma fazenda que ficava bem longe da cidade. Desde pequena, a garota foi criada por seu pai com toda a educação e carinho. Ele a levava, todos os dias, com uma carroça, para a escola. A garota, querendo retribuir todo o esforço de seu pai, lhe disse ‘Papai, eu jamais vou me separar de você’. E o pai lhe respondeu: ‘Filha, um dia o destino irá nos separar, mesmo que não queiramos’. A garota não entendeu o que o pai queria dizer com aquilo, mas manteve sua promessa. Mesmo depois de grande, ela se formou na escola, mas não saiu da casa de seu pai. Ela fazia tudo para ele. Lavava, cozinhava, limpava a casa. Até que um dia, um belo rapaz passou pela casa deles e pediu hospedagem por uns dias, enquanto esperava por uma carroça que viria para levá-lo à outra cidade... A garota aceitou e no tempo que o rapaz passou lá, mostrou ser um ótimo jovem. Era prestativo, ajudava nos trabalhos de casa e era muito gentil com seu pai. A menina, agora mulher, se apaixonou por esse rapaz...”.
– E ela foi embora com ele? – Carlos perguntou um pouco decepcionado.
– Deixa eu terminar – Logan disse calmamente, sorrindo. Carlos acenou que sim e Logan continuou narrando – “O rapaz pediu a moça em casamento e disse que iria levá-la para conhecer outros lugares. Queria que ela viajasse com ele. A moça então disse: ‘Eu ficaria honrada de casar-me contigo, mas daqui, não posso sair. Prometi ao meu pai que jamais me separaria dele e cumprirei minha palavra. Mas eis que se um dia voltares e ainda me amares, te aceitarei abertamente’. O rapaz entendeu as palavras da mulher e lhe disse ‘Pois saiba: vou esperar a cada minuto até o dia da minha volta, para que venha até aqui e que seja a minha vez de te prometer que ficarei ao teu lado para sempre’. Depois disso, o rapaz foi embora. A moça continuou ao lado de seu pai por vários dias, até que, num desses, ela foi colher feijão no campo para fazer o almoço e quando voltou, tudo o que encontrou foi seu pai sobre o colchão, morto, com uma carta entrededos. Ela a pegou e, em meio às lágrimas, leu: ‘Tu cumpriste tua promessa. Jamais deixaste meu lado pelo quanto pudeste viver, mas infelizmente, a vida não é eterna. Por isso, eu deixo o teu lado hoje. Estás livre. Tua palavra foi cumprida e hoje eu cumpro a minha, pois no dia em que me prometeste que jamais me deixaria, eu prometi, que um dia te deixaria livre para seguir tua vida. Mas meu amor por ti, passará além desse momento’. A garota terminou de ler a carta e se sentou ao lado do corpo do pai. Ali chorou por várias horas, até entender o que o pai quis dizer com suas últimas palavras. Ele queria que ela fosse livre. Então, a garota o levou para fora da casa, lhe cavou uma cova, lhe construiu um caixão com alguns pedaços de madeira e o enterrou”.
– Mas o que aconteceu depois? – Carlos apressou.
– Carlos, não posso terminar, se você me interromper a toda hora – Logan repreendeu. O garoto se recolheu e esperou a continuação – Pois bem... “No final daquele dia, a garota colheu algumas flores no campo e as colocou sobre o túmulo de seu pai. Ajeitou uma cruz de madeira e pôs em frente às flores. Ela colocou seus vestidos em um saco, pôs este nas costas, colheu as galinhas do terreiro, amarrou uma corda no pescoço da vaca e partiu pela estrada em busca de sua liberdade”.
– Que infiel – Carlos disse.
– Carlos! – Logan repreendeu.
– Desculpa... – Carlos disse baixinho.
– Vou continuar – O moreno falou impaciente – “Dias se passaram e o rapaz voltou até a fazenda, encontrando tudo fechado, viu a cruz do túmulo e foi até lá. Em meio às flores ainda vivas, ele encontrou uma nota que dizia. ‘Se tu cumpriste tua palavra e voltaste a essa casa, é porque tu um dia me amaste de verdade. Pois meu pai disse que me daria à liberdade e achou que faria isso quando morresse. Mas jamais pude deixá-lo, por que foi isso que prometi. Nunca disse que eu o deixaria depois da morte. Entra, a porta está aberta. Fui à cidade e voltarei no final da tarde’. O rapaz sorriu e abriu a porta da casa, lá encontrou tudo arrumado como sempre. No final daquela tarde, a moça voltou e ele lhe disse: ‘Sei que tu és uma pessoa confiável e a mulher mais fiel desse mundo. Por isso, te digo, é a tua vez de ter alguém que vai ficar contigo pelo resto da tua vida. Queres casar comigo’? A moça aceitou o pedido e os dois se casaram na cidade. Mas daquela casinha, ali, longe do movimento, porém, perto do seu pai, eles nunca saíram, porque a verdade que estava no coração daquela moça era que ela não precisava da liberdade que seu pai achava que ela queria, ela já tinha toda. Essa era a verdade de seu coração: O amor é liberdade e todos nós estamos livres para amar”.
Logan concluiu calmamente. Carlos se recolheu em seu peito, fazendo o moreno ficar um pouco assustado.
– O que foi? – Ele perguntou.
– Nada – Carlos disse. Sua voz estava trêmula.
– Los... Você tá chorando? – O moreno perguntou erguendo o olhar dele. Carlos estava com seus olhos cheios de água.
– É que... Eu te amo, Logie – Ele falou.
– Eu também te amo – Logan disse e os dois compartilharam um beijo calmo. Agora, nem mesmo a chuva assustava mais Carlos. O barulho não era tão forte quanto a segurança que a companhia de Logan lhe transmitia.
~*~
Camille e Sunny corriam calmamente pela campina onde o acampamento ficava. As duas riam e se divertiam e por mais estranho que fosse, o sol estava alto no céu, deixando Camille confusa. Ela não tinha ido se deitar no meio da chuva? Enfim, ela apenas se sentou na grama e ficou admirando a paisagem.
– É linda – Sunny disse.
– Eu sei, a floresta é maravilhosa – Camille falou.
– Eu tava falando de você – Sunny afirmou.
Camille corou com as palavras de Sunny. Ela se sentia um pouco envergonhada e um pouco desconfortável com as cantadas da garota, que eram constantes. Ela não sabia se era apenas brincadeira, afinal, as duas eram mesmo mais íntimas que ela e Jo, ou se era tudo verdade. Mesmo assim, a garota se sentia desconfortável com isso e com muito medo. A voz de Sunny era linda. O que aconteceria se o quadro de doença auditiva de Camille se tornasse irreversível e ela não pudesse ouvi-la mais?
– Obrigada – Ela agradeceu.
Camille olhou para Sunny. Sua boca se movia, mas nenhum som saía.
– Espera, Sunny, minha audição tá falhando – Ela disse. Sunny continuou a mover a boca e Camille ainda não escutava nada – Sunny, espera um pouco – Ela pediu. A loira continuou a falar, mas parou de repente. Ela olhou para baixo e Camille continuou esperando até que sua audição voltasse. A brisa do local tinha parado, Camille sabia, porque não a sentia mais em seu rosto – Sunny, fala alguma coisa? – Ela pediu, para testar sua audição. Sunny olhou para ela. Seus lábios se moveram, mas nada de som. Camille ficou desesperada. Sunny não parava de falar e, aparentemente, até gritar. A morena tentou ir até ela, mas percebeu que estava dentro do rio e que esse se estendera entre ambas. Camille estava disposta a atravessá-lo e chegar até Sunny. Ela começou a caminhar, sentindo o raso do riacho e indo cada vez mais fundo até que a água atingisse sua cintura. Ela olhou para Sunny, a garota parecia tão desesperada quanto ela, mas parecia ser por outra coisa. Sunny tentava gritar, mas Camille não ouvia, então ela apontou. Camille se virou para ver o focinho do enorme crocodilo que a estava seguindo. Esse abriu a boca e Camille gritou.
– SUNNY!
– Camille! – Sunny disse se levantando e pegando a lanterna – Calma, eu tô aqui! – A loira disse, abraçando Camille e acariciando sua cabeça, rapidamente. Camille não tinha outra reação. Estava chorando de medo. Medo não só pelo pesadelo que tinha acabado de ter, mas medo de que o que houve no sonho, acontecesse na vida real. Medo de que ela não pudesse mais ouvir a voz de Sunny. Felizmente, aquela simples frase: “Calma, eu tô aqui”, havia atingido seus ouvidos e isso deixava Camille mais do que feliz. Era como se ela estivesse ouvindo a uma canção – Calma, não chora, não chora. Eu estou aqui. Foi só um pesadelo – A loira continuou a acariciar o cabelo de Camille até que ela pudesse se acalmar.
– Foi horrível, Sunny. Eu não podia mais ouvir, eu não podia mais TE ouvir – Camille declarou sem ter qualquer receio.
– Ei, Camille, olha pra mim – Sunny segurou seu rosto e a olhou em seus olhos (por mais que a escuridão da noite não deixasse que ela visse a cor achocolatada dos olhos da morena) – Eu vou estar sempre aqui, e ainda que você não possa me ouvir, eu vou estar do seu lado. – A loira afirmou e abraçou Camille novamente.
Nenhuma das duas percebeu que estavam, praticamente, se declarando uma para a outra. Camille, apenas se preocupava em dizer a Sunny o que ela temia, enquanto, tudo o que Sunny queria, era fazer Camille parar de chorar, pois vê-la daquele jeito, lhe cortava o coração. Ela não queria ver os olhos de Camille com lágrimas, queria vê-los acompanhando aquele lindo sorriso que ela tinha, que transmitia calor e felicidade. Sunny se deitou e Camille ficou sobre seu peito, ainda chorando, mas dessa vez, mais calmamente, quase parando.
Sunny acariciou seus cabelos enquanto desejava com todo o coração, que Camille voltasse a dormir e tivesse uma noite calma.
~*~
Jo e Lucy estavam dormindo profundamente. As conversas pelo restante do dia tinham cessado e tudo o que prevalecia na barraca de ambas era o ronco de Lucy, que nem sequer incomodava Jo, já que a chuva estava bem mais alta. Enquanto dormia, Lucy se afastou um pouco para a direita e sentiu algo molhado e frio tocar seu corpo. Imediatamente, a garota abriu os olhos e viu a poça de água que estava em seu lado da barraca.
– Merda! – Ela exclamou, acordando Jo.
– O que foi? – A loira perguntou, se levantando sonolenta.
– Tem uma goteira nessa barraca – A garota disse, sentindo que a água continuava a pingar sobre o seu lado da morada. A loira acendeu a lanterna e pode visualizar o furo na lona.
– Espera... – Jo catou uma fita isolante em sua mochila e tirou um pedaço, prendendo-o no local da goteira.
– Ainda não dá pra eu dormir aqui – A morena afirmou.
– Vem pra cá, deixa eu dar um jeito nisso – Jo disse.
Espremidas no interior da barraca, Lucy assistia enquanto Jo pegava uma toalha em sua bolsa e secava o lado da barraca com cuidado, assim como o saco de dormir de Lucy teve que ser dobrado e descartado.
– O que fazemos com ele? – Jo perguntou.
– Joga lá fora, já está molhado mesmo – Lucy deu de ombros. A loira não desobedeceu, então, pegou o saco de dormir, abriu o zíper apenas suficientemente para deixar o objeto passar e o empurrou para fora. Depois, Lucy se deitou no chão limpo de lona.
– Você não vai dormir aí – Jo disse.
– Bem... Eu não trouxe outro saco de dormir – Lucy falou e se deitou sobre a mochila.
– Fica com o meu, então – Jo comandou, um pouco mais ríspida do que pretendia.
– Eu não vou te tirar do seu saco de dormir só porque eu não prestei atenção naquela goteira.
– Eu não estou pedindo, Lucy. Vai pro meu saco de dormir agora.
– Mas e você?
– Eu sou intérprete do acampamento há anos. Eu sei como me virar – Jo disse com um sorriso. Lucy se deitou sobre o saco de dormir e empurrou suas pernas pra dentro, a fim de se sentir confortável. Jo colocou algumas roupas no chão da barraca e, com outras, improvisou um travesseiro. Usou então outra toalha como cobertor e se acostou para dormir.
Lucy olhava enquanto a loira parecia bem confortável, mas ela sabia que não estava. Por mais que tentasse não se importar, Lucy não queria deixar Jo ceder seu conforto para ela por causa da chuva.
– Jo... – Ela chamou.
– Oi... – A loira respondeu ainda de olhos fechados.
– O seu saco de dormir tem muito espaço – Lucy disse um pouco envergonhada.
– Eu sei. Ele deve ser tamanho grande – Jo disse sorrindo.
– Mas... Eu não quis dizer só isso.
– Então o quê?
– Quis dizer que... Bem... Você cabe aqui comigo – A garota falou abaixando o olhar com um pouco de receio.
– Quer que eu me esprema nesse saco de dormir com você? – Jo perguntou um pouco espantada, mas também animada. É claro que a última parte ela disfarçava.
– É... Você não vai ficar confortável dormindo no chão. Pode ficar com dor na coluna ou... Ah, vem logo pra cá – Lucy disse um pouco impaciente. Jo sorriu e se levantou. A morena se afastou dentro do saco, mas ainda não tinha espaço para ambas.
– Bem... Parece que não tem espaço, afinal de contas – Jo disse dando de ombros – Não se preocupa comigo. Eu vou ficar bem.
– Não... Se dormirmos de lado, acho que vamos conseguir nos apertar aqui – Lucy disse.
– Só se nos abraçarmos – Jo brincou.
– Pode até ser – Lucy deu de ombros, para o espanto da loira.
– Sério? – Ela perguntou espantada.
– Sim... Não vejo nenhum problema – Lucy deu de ombros novamente e abriu espaço mais uma vez, se virando de costas para Jo. A loira colocou as pernas e depois a barriga dentro do saco de dormir. Ela se virou para Lucy e passou o braço em volta de sua cintura com um pouco de receio.
– Acho que não vai dar certo – Ela falou um pouco assustada.
– Então, que tal assim? – Lucy se virou para Jo e se empurrou mais para o interior do dormitório e se deitou sobre o peito da loira – Pronto, deu espaço – Ela sussurrou. Antes que Jo pudesse dizer algo, Lucy apenas murmurou – Boa noite, Jo – E fechou seus olhos, se mexendo mais algumas vezes para se acomodar.
Jo respirou fundo. Seu coração devia estar acelerado, mas o que lhe importava agora era que ela tinha Lucy em seus braços e ela queria aproveitar esse momento, então, simplesmente abraçou a cintura da outra garota e se deixou levar pelo sono até adormecer.
~*~
James estava tendo uma noite terrível. Seria ótimo dizer que, assim como todos os outros, Kendall era alguém comportado durante o sono e que, se James precisasse, poderia se deitar sobre o peito dele e dormir tranquilamente. Mas, infelizmente... Só que não. Kendall era muito agitado. Rolava, chutava, socava e ainda por cima, falava durante a noite... Bem... Não falava, gemia, o que James não podia negar que o estava deixando um pouco excitado.
Houve um movimento de Kendall, e um grito forte saiu da boca de James, acordando o loiro imediatamente. Kendall havia chutado seu pé torcido e o moreno agora lutava contra as lágrimas da dor forte que o tinha atingido. O calcanhar inchado agora latejava, lhe causando uma agonia extrema.
– James, tudo bem? – Kendall perguntou ainda assustado.
– Você chutou meu pé – James disse entre lágrimas, passando a mão por cima do inchaço delicadamente, tentando fazer uma massagem anestesiante, sem sucesso algum.
– Desculpa, por favor, eu não queria fazer isso – O loiro pediu aflito, enquanto se encaminhava para o pé de James e o examinava calmamente – Me perdoa, por favor – Ele continuou a pedir, enquanto massageava o pé do moreno com calma. Era somente um esfregaço com os dedos, já que apertar apenas causaria mais dor.
Aos poucos, a dor deixou o pé de James e o garoto pode se tranquilizar de novo. Kendall se deitou ao lado dele, ainda preocupado e ressentido pelo que tinha feito.
– Me desculpa, mesmo, James. Eu juro que não queria te machucar.
– Tudo, bem, Kendall... Eu sei que foi só porque você tava dormindo – James disse enquanto suspirava, sentindo o doce alívio tomar seu corpo.
– Vai ficar tudo bem mesmo?
– Claro. Não se preocupa – O moreno sorriu e o loiro sorriu de volta. A luz da lanterna, que tinha sido acesa por Kendall, logo após o grito de James, era o suficiente para que James pudesse olhar bem no fundo dos olhos verdes de Kendall e ali se perdesse. O contato teria durado mais, se Kendall não tivesse ficado sem graça com o olhar fixo de James sobre ele.
– Eu vou dormir – Ele falou se deitando novamente.
– Tudo bem – James disse se deitando também.
Ambos se viraram para lados opostos e se cobriram. Mas seus olhos permaneciam abertos.
– Kendall? – James sussurrou.
– Oi? – Kendall se virou um pouco pra ele.
– Obrigado por se preocupar comigo – James disse se virando completamente pra ele – Eu não teria durado nada se você não tivesse feito tanto por mim, nessa expedição.
– Bom... Fui eu quem te machucou, não é? Eu tenho esse dever.
– Você machucou muita gente no acampamento, mas não fez nada por eles.
– Isso foi antes de eu querer mudar – Kendall disse um pouco insultado.
– E por que você quis mudar? – James perguntou.
Kendall ficou calado por longos segundos. James permanecia encarando-o e esperando a resposta ansiosamente. Kendall não tinha uma resposta que fosse ser normal para o moreno. Ele não conseguia achar uma resposta que dissesse o porquê de ele ter aquela vontade grande de ajudá-lo e o que tinha em James que o fazia querer mudar.
– Por causa de você – Ele falou simplesmente.
– De mim? – James perguntou assustado.
– É... Quer dizer... Você... Eu quase te matei. Isso me fez perceber que as minhas pegadinhas estavam indo longe demais.
– Bom... Você não teve culpa daquele jaguar aparecer – James deu de ombros.
– Eu não tô falando do jaguar, James – Kendall mordeu o lábio – Eu tô falando da cobra.
– Como assim? – James perguntou agora confuso e assustado.
– Eu coloquei aquela cobra lá – Kendall soltou de uma vez e franziu todos os músculos do rosto.
James não conseguia falar. Justo no momento em que achou que Kendall estava se tornando alguém especial, a verdade mostrou que tudo que ele esteve fazendo foi apenas por culpa.
– Você? – O moreno perguntou assustado.
– Sim... Mas eu juro que era só pra te dar um susto. Eu não ia deixar ela te picar...
– Você quase me matou, Kendall! – James alterou um pouco a voz.
– Eu não sabia que você tinha pânico de cobras. Eu só queria achar um meio de poder te socorrer.
– E por que você acha tão importante me socorrer? – James gritou.
– Porquê... Porquê... Porque quando eu te ajudei à primeira vez, quando eu te dei a mão pra levantar, lá na mata, eu vi seus olhos brilharem. E eu soube que eu queria ver aquele brilho de novo. Eu percebi que... Quando eu te ajudava, eu era o seu herói e eu tinha a sua admiração... E isso era importante pra mim... É importante pra mim que você me admire, James... Porque eu te admiro – O coração de Kendall batia forte. Os olhos de James estremeciam e algumas lágrimas teimavam em querer sair – Eu acho você um rapaz gentil, educado, calmo... Você é... Incrível, James...
Kendall abaixou o olhar e não pode ver a expressão de James. O moreno não conseguia conter as batidas de seu coração, que mais parecia um tambor, com as batidas tão violentas.
– Me... Me perdoa, James. Eu juro que eu nunca quis te fazer mal – O loiro ergueu o olhar novamente – Eu sei que você acha que foi tudo porque eu estava sentido culpa, mas não foi. Tudo o que eu fiz, toda a minha mudança, foi de verdade... Eu mudei por você, James, eu...
– Cala a boca, Kendall – James disse, espantando o loiro que o obedeceu imediatamente. O moreno apenas se aproximou de Kendall e tocou seu rosto – Eu te perdoo, não porque você tá certo... – James suspirou e Kendall o olhou atônito – Eu te perdoo, porque eu sinto o mesmo.
A adrenalina no sangue de ambos fluía como se estivessem saltando de paraquedas. Seus corações batiam tão rápido e tão forte que eles se garantiam que tinham a chance de terem um infarto a qualquer minuto. Kendall não conseguiu mais se segurar. Colocou as mãos em volta da cintura de James e impulsionou seu tronco para mais próximo do moreno, envolvendo os lábios dele com os próprios. James abraçou a nuca de Kendall imediatamente e caiu sobre seu saco de dormir, com Kendall sobre ele. Os dois se beijavam com intensidade e calor, mostrando que era algo que queriam, era uma realização. Mas infelizmente, eles precisavam de ar.
Os dois se separaram rapidamente e Kendall olhou no interior dos olhos caramelados de James.
– Como isso aconteceu? – Ele perguntou ironicamente.
– O amor não tem explicação, Kendall. Ele simplesmente acontece... E eu te amo – James beijou Kendall mais uma vez. O loiro retribuiu avidamente, e quando pararam, ele permaneceu fitando o rosto de James e acariciando sua bochecha.
– Eu também te amo – Kendall disse sorrindo. Ele abraçou James e o mesmo se aconchegou em seus braços, se virando para que os dois se deitassem de conchinha. Kendall colocou seu rosto sobre o de James e apertou sua cintura – Se isso é um sonho, eu não quero acordar.
– Então vamos dormir ainda mais profundamente, pra eu poder ficar aqui com você pra sempre – James falou e Kendall sorriu, dando-lhe um beijo na bochecha. Os dois ficariam assim até dormirem.
Não havia mais segredos. James amava Kendall e Kendall amava James. Era tudo o que eles precisavam saber daquele momento em diante.
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