Your Hunger Games VI - O Retorno Interativa
55 Sanderson Cutner
Notas iniciais
Sanderson Cutner
“A batalha da vida só tem duas faces: ou vencer ou fugir, porque para os vencidos não há piedade. – Albino Forjaz de Sampaio
Colocou Ariel nos ombros, levando-a enquanto ela gemia de dor. Um dos leões tinha agarrado sua perna e se não fosse por Sanderson ele a teria arrancado. Tinha perdido sua faca durante isso, e agora estava sem armas. Xingou mentalmente o leão, mas não culpou Ariel. Enquanto desciam as escadas, ouviu a respiração excitada de todos. Com suor, eles tentavam se livrar da adrenalina, que teimosa, tentava invadir o coração (se é que já não tinha atingido).
Ariel estava completamente imóvel, agarrando-se com força ao seu pescoço quase enforcando-o. Sanderson quase tropeçou em uma lápida que florescia no chão negro de terra. Olhou em volta. Outras lápides, menores ou maiores que a primeira, estavam espalhadas irregularmente. O negrume tomava conta do local, nem uma estrela ou Lua no céu noturno. Os grilos gritavam em alerta, quando viu o primeiro morto-vivo passando por entre as árvores chorosas. Sanderson reprimiu um gemido de medo, enquanto tratava de levar Ariel para algum lugar para descansar. Os outros tributos estavam procurando a mesma coisa. Algum lugar para comerem. A estadia no açougue durara tão pouco que ninguém conseguiu comer. Na verdade eles não comiam nada desde o apartamento, e seu estômago roncava. Sanderson sentiu as barras da calça molhadas e logo notou que estava andando por um pequeno rio de águas negras, mas de aparência potável. Ele se inclinou, tocando o rio e sentindo o frio invadi-lo. Encontrou uma lápide quadrada e nascida do chão, feita de mármore. Estava fria, porém era grande o suficiente para deitar Ariel. Ele rasgou a calça da menina, observando atentamente os ferimentos que ela tinha. Nada mais que longas e profundas marcas de garras de leão.
– Pegue um pouco de água – disse Ariel, com a voz ondulando entre fraqueza e dor.
– Sim – ele concordou, enquanto se agachava, colocava as mãos em formato de concha dentro do rio e levava rapidamente o líquido negro para os ferimentos de Ariel. Ela trincou os dentes, quase gritando, mas poucos segundos depois estava melhor.
– É profundo? – perguntou, com gentileza.
– Um pouco – Sanderson observou o sangue parado e o músculo. As linhas eram grossas e fundas, porém não tinham cara de que iriam afetá-la por mais de dois dias. – Mas não é nada grave.
– Eu sei – Ariel se sentou, endireitando a coluna – Consigo sentir minha perna. Procure por uma folha pontuda, com alguns espinhos no centro dela. É bem mais escura que as outras, quase negro, e o caule é bem grosso. Ficam normalmente perto do rio.
Sanderson assentiu, agachando-se e procurando pela tal planta. Enquanto isso, Ariel observava sua perna, dando alguma nota para seus ferimentos.
– Uns trinta minutos – disse por fim, com um suspiro — Encontrou?
– Aqui – Sanderson se ergueu, mostrando as folhas para Ariel. Ela pegou e observou, para ter certeza de que eram as certas.
– Ótimo – disse, por fim – Agora ache mais umas cem.
– O quê? – Sanderson piscou os cílios longos.
– Eu só vou usar os espinhos. Cada folha tem até dez espinhos. Preciso de muitos para cobrir todos os ferimentos. – e então voltou os olhos para a margem do pequeno rio. – Têm muitos ainda.
Sanderson se colocou no trabalho. Ficou emburrado. Não que não quisesse vê-la bem, mas é que simplesmente não queria ficar lá, pegando cem folhas e se arranhando com os espinhos. Teve de dar a volta na margem do lago para conseguir todas as oitenta (o número máximo que seus dedos conseguiram sobreviver) e deu-as para Ariel, que já tinha começado a preparar o remédio.
– Serve para curar dor de cabeça ou tirar o cansaço. Se quiser um pouco é só pegar mais umas...
– Não, obrigado – ele disse rapidamente, cortando-a – Estou muito bem. Mesmo.
– Certo, então – Arie rasgou as folhas, de uma maneira ágil e delicada, sem tocar os espinhos uma vez só. Sanderson olhou para seus dedos, machucados e com cicatrizes finíssimas, porém dolorosas. Como poderia desviar daquelas coisas duras e grandes? Como poderia enfiar aquilo na própria carne? Não soube, até vê-la mastigar os espinhos e cuspir somente um grosso emaranhado de planta e saliva. Passou pelo ferimento. Logo em seguida fermentou mais um punhado e selou o primeiro arranhão. Enquanto tratava dos menores primeiro, Sanderson olhou em volta.
Muitos tributos estavam se tratando, outros mantinham os olhos vivos nos fantasmas que perambulavam o cemitério. Era um frio tão horripilante quanto o do açougue. Arrepiou-se somente de pensar no que aquelas pessoas tão pálidas e sem vida estariam fazendo no cemitério. Com certeza eram algum tipo de bestante da Capital. Mas até agora não tinham atacado ninguém. Sanderson viu um tributo se aproximando da margem do rio negro. Ele era pequeno, não passava dos ombros de Sander, mas tinha uma faca grande e larga presa no cinto de sua calça. Abaixou-se e tomou a água. Sanderson adoraria livrar-se de mais um concorrente, mas estava sem armas e ele sozinho não poderia fazer nada. Caso se ferisse, teria de arranjar por si mesmo alguma coisa para curá-lo, afinal Ariel estava debilitada. Moveu a cabeça em direção a ela, vendo-a tapar o último de seus “arranhões”.
– Não fique olhando – ela sorriu, doce. – É feio olhar as pessoas machucadas com cara de solidariedade.
– Perdão, madame – Sanderson se curvou, enquanto Ariel abafava um riso.
Por fim, um silêncio se soltou sobre eles. Sanderson gostava daquele silêncio. Naquelas horas poderia imaginar-se abraçando Ariel numa vitória inesperada. Eles venceriam, sorriu, venceriam e iriam para o Distrito 14. Com isso em mente, nem percebeu o quanto ela estava vermelha.
– O que foi? – disse, por fim, após sair de seus devaneios.
– Você – ela sorriu, ainda mais vermelha e mais doce – É tão feio quando fica pensativo. Suas sobrancelhas se movem freneticamente e seu maxilar também. É como se estivesse dialogando com sua própria mente.
– É quase isso – Sanderson exibiu um sorriso. Tinha aprendido a fazê-lo sempre que Ariel dava três sorrisos doces. Era assim que sabia a hora de sorrir. Não o fazia com muita freqüência, mesmo assim gostava de ver jeito como seu rosto refletia nos olhos dela.
Ariel soltou um suspiro, cansada. Deitou-se na pedra de mármore e então arriou os braços, magros. Olhando fixamente para o negrume acima deles, que seria o céu, ela parecia estar brincando com os próprios pensamentos. Observá-la enquanto fazia isso era o outro passatempo preferido de Sanderson, já que Ariel parecia linda o tempo todo. Era quase inevitável não desejá-la em seus braços, num calor que aquecê-lo-ia no meio daquele sereno.
[N.A: Aquecê-lo-ia é algo que minha avó usava nas redações... (eu vi no diário dela :3)]
Quando, por fim, desviou os olhos de Ariel, já via o primeiro indício de que os mortos-vivos realmente eram bestantes.

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