Your Hunger Games VI - O Retorno Interativa
56 Noralinne Mercure
Notas iniciais
Noralinne Mercure
“A vida sem luta é um mar morto no centro do organismo universal” – Machado de Assis
Talvez aquele fosse seu único meio de manter a mente sã. Não era o medo, não era o perigo de se passar dos limites do Cemitério, onde mortos-vivos caminhavam. Era Ethan. Ele tinha se ferido enquanto corriam entre os escombros do Ferro-Velho. Tinha sido atingido por um pedaço de lâmina afiada no ombro e agora seu braço inteiro estava inerte. Ele não conseguia movê-lo. Era o esquerdo, por sorte. Noralinne sempre fora canhota, porém sabia que grande maioria das outras pessoas era destra. Mantinha os olhos pousados no infinito do sombrio Cemitério. Era ótimo observar o longe horizonte, onde nenhum Sol nasceria. Queria poder parar de sentir tanto frio. E não era um frio na pele, mas na espinha. Algo interior.
– Quantas seringas ainda temos? – perguntou Ethan, com a voz fraca e melancólica.
– Duas – a menina virou o rosto em direção a tumba mais próxima, aberta. A terra naquele lugar era negra e dura. O vento frio e doentio que passava por entre as lápides só tornava tudo ainda mais fantasmagórico. Além dos gritos e dos barulhos nas árvores. Somente um canhão tinha disparado, um menino que atravessara o limite do Cemitério e tinha sido devorado pelos mortos-vivos.
Duas horas, pensou Nora, estavam ali já fazia duas horas. Ninguém tinha força para lutar. Ninguém tinha vontade, energia ou vida para isso. Sentia que aquela Edição era um fiasco. Nada ali parecia realmente com os Jogos Vorazes. Não havia matança, só o vívido desejo de fugir daquele lugar. Como... Como se fosse um jogo manipulado pela Capital. Algo que eles poderiam fazer quando quisessem. Talvez tivessem se cansado de deixar os tributos decidirem quem venceria. Talvez tivessem se cansado de somente um objetivo. Agora, entretanto, a vida era sugada deles. E o que mais doía não era saber disso, mas sim estar ali. Se fosse algo mental talvez melhor agüentasse. Mas... Ela estava lá, fisicamente. Sentada de costas para aquela lápide que dizia ter sido feita no ano de 2033.
– Eu quero sair daqui – Ethan disse, com os olhos marejados. – Eu quero poder voltar pra minha casa, pra minha vida. O que é isso, Noralinne? Desde quando isto deixou de ser um jogo para se tornar a minha única razão de viver? Qual o meu objetivo para tudo isso? Por que ainda estou vivo?
– Não fique se perguntando isso, Ethan, é o que eles querem. Que você perca o amor pela vida.
– Eu já perdi faz tempo – Ethan encarou o horizonte, enquanto seus cabelos eram soprados para o lado. – Meu único objetivo até agora tem sido proteger a mim. Mas percebi que me enganei. Na verdade eu estou protegendo você. – seus olhos marejados se voltaram para ela, que mantinha o rubor para aquecer seu rosto. – E estou fazendo isso muito mal, não?
– Ethan... – suas palavras foram levadas pelo vento.
– Percebi que gosto muito de você, Noralinne Mercure. Você nem imagina. Não sei criar clima, nem ser romântico. Mas... O que eu sinto, bem aqui dentro – ele indicou o peito – É a única realidade neste lugar. Lembre-se: nada mais é real, só eu. E se você se lembrar disso, então estará segura. – seu sorriso foi quase cortante. Um tristonho esboçar de fé. A fé de que sairiam dali. Nora nem sabia mais se queria de fato sair. Não deveria nem existir mais mundo fora daquele lugar... Ah, daria tudo para nunca ter nascido.
Ouviu os sinos soando e pensou que era sua mente ainda melancólica por tudo o que Ethan tinha dito, mas logo percebeu que era uma dádiva. Os Patrocinadores, lembrou. Eles ainda existiam. Panem ainda existia. E eles estavam assistindo-a. Tudo até agora. Abaixou os olhos, não queria ver Ethan abrindo aquilo. Era como um lembrete: não somente ele é real, mas nós também.
– É um pedaço de fita – o menino piscou os olhos, atordoado. – Mas... O que farei com um pedaço de fita? Meu braço está rasgado e quase desconectado de meu corpo e eles me enviam... Um pedaço de fita?
Noralinne rolou os olhos para o tal pedaço de fita. Era laranja. Um laranja vívido, cheio de ódio e ao mesmo tempo vida. A seda... Tremulava na mão ossuda e calejada que Ethan ainda conseguia mover. Um laranja... Há muito tempo disseram a Nora que laranja era a cor do pânico. Neste momento, porém, laranja representava a cor da vida. Da vida dela. De sua vitória. Levantou-se, pegando a lâmina que tinha pego do Açougue. Moveu-se impulsiva em direção ao Mausoléu, onde a maior parte dos tributos estava. O número sete brilhava nas portas da estrutura gótica, e por isso todos sabiam que ali era a entrada do Sétimo Andar. Ethan segurou seu pulso, mas ela puxou-o violentamente, enquanto mantinha a cor vívida da fita na mente. Diante de seus olhos. Manteve o olhar assassino e a vontade insana de matar no sangue, correndo ao lado da adrenalina.
Logo viu o que mais queria ver. Na verdade, o que pensou que nunca desejaria ver.
O cabelo cor de fogo.
– Emma! – deixou a voz parecer trovão, correndo por entre os outros tributos no Mausoléu e chegando aos ouvidos da ruiva. Sem entender muito bem, ela se levantou e já brandia sua nova arma: uma pequena faca de cortas carne. Perto da que Nora manejava ficava bem engraçada, mas Noralinne sabia que nunca se subestimava uma arma, por menor que ela fosse. Tudo dependia da sorte e da habilidade de quem manuseava...
– Noralinne! – foi sua resposta. Emma não conseguia fazer a mesma voz de trovão que Nora, porém era bem desafiadora. Sentiu os nervos do corpo, toda as moléculas, gritando “SIM!”, porém sua consciência ainda gritava “Não.”. Ergueu sua arma, enquanto visualizava seu reflexo na lâmina.
– Chegou a hora de acertar isso. A melhor vive.
– De acordo, Mercure.
Alguém cambaleou para frente e caiu nos joelhos, segurando a barra da camiseta de Emma. Ela se virou, surpresa, mas suavizou sua expressão ao ver Evon. O menino tinha as mãos trêmulas, e pela primeira vez Nora acreditou que suas lágrimas eram verdadeiras.
– Não, Emma, não faça isso! Ela treinou para esse dia, ela é melhor, Emma!
– Nem um pouquinho de confiança em mim? Isso magoa, sabia? – ela sorriu, passando os dedos entre os cabelos do menino que cuidava com tanto carinho. Se não fosse Emma, Nora até poderia gostar dela. Mas infelizmente era Emma. – Não me importo mais que essa merda de vida. E se eu fosse você faria o mesmo.
Evon piscou os olhos, desconcertado. Enquanto deixava o menino, Emma notou que os olhos de Nora não faiscavam, mas sim estavam quase marejados.
– Nunca viu uma cena de afeto?
O comentário não a pegou de surpresa. Mas Nora não estava comovida com o que Evon tinha dito a Emma, mas sim com o que Ethan tinha dito a ela. Aquilo a encorajara. “Se ele está vivendo por mim, então eu estou valendo alguma coisa... Preciso protegê-lo para que sinta o mesmo que eu”. Emma não era uma ameaça para Ethan, mas sim Max. Entretanto o laço de fita lembrou-a de que lá fora, no Distrito 2, havia um pai que tinha treinado-a a vida inteira e que se não fosse por ele, já estaria morta. Agradeceu seu pai mentalmente e sentiu que matar sua pior inimiga seria um bom meio de dizer o quanto estava grata. Mesmo que não ligasse mais para deixar o velho orgulhoso, Nora ainda o amava, e queria que ele soubesse que todas as manhãs acordando cedo tinham valido de algo.
– Morra. – foi seu sussurro, antes de se jogar contra Emma.
º º º
John Mercure
“A esperança é infinita como o tempo, infinita como a vida. Chama-se felicidade, antes. Chama-se recompensa, depois.” – Alvaro Moreyra
Moveu os dedos impacientes em direção a xícara de café que estava pousada na mesa de centro da sala. A casa permanecia num silêncio horrível. Os jornais se acumulavam na porta, as correspondências e contas não tinham sido respondidas. A pia continuavam com a pilha de pratos do último café-da-manhã que tivera com a filha. Podia sentir a solidão e a frieza que aquela casa emanava. Sem a mulher, a vida não tinha cor. Sem a filha, a vida não tinha calor.
– Você deveria começar a limpar essa casa, John, quando Nora voltar ela vai querer se sentir bem neste lugar. – disse Huffos.
– Que seja, que seja. – o homem não tirou os olhos da tela da televisão, enquanto se inclinava para a frente e apoiava o queixo nas mãos. Sentiu a barba. Realmente já fazia tempo que não se levantava daquele sofá...
– Tome, seu café – o amigo se sentou ao seu lado no sofá, esticando os pés por cima da mesa de centro. – Vi essa menininha crescer e até hoje não acredito que está na tevê! Nora sempre disse que um dia eu estaria torcendo por ela, e veja eu aqui! Junto com o pai dela, torcendo. – tomou um gole de café, tentando não deixar aparecer que tinha queimado a ponta da língua. – Você deve estar tão orgulhoso, John.
– Que merda eu fiz. – ele pousou a mão violentamente contra o vidro da mesa de centro – Eu a incentivei a fazer isso! Que loucura... E se ela não voltar, Huffos?
– Quem é você, John? Tem certeza que você é o cara que eu conheço? Se você está inseguro diante da sua própria filha, não te conheço mais.
– Mas... Não é questão de insegurança... É que... Nora é minha última luz. Se eu a perder, o que será de mim? Provoquei minha própria ruína!
– Treiná-la e manter a mente dela focada na Arena era a forma de torná-la forte e fazê-la esquecer a mãe. – Huffos colocou a mão grande e grossa no ombro do amigo. – Você não fez nada de ruim, John. Você a salvou. Até agora tudo o que lhe ensinou está valendo para a sobrevivência dela! E olhe só, está intacta, tem dois aliados muito fortes que já deixaram claro que se matariam por causa dela.
– Nora faz muitos amigos e, ao mesmo tempo, inimigos. – John ergueu os olhos, queria ouvir os comentários dos Idealizadores, porém eles estavam falando de alguma outra aliança.
– Você derrubou café na mesa – disse Huffos, inclinando-se e passando a língua pelas gotas que tinham espirrado quando John bateu a mão. – Ela vai voltar, John. Ela, e esse garoto. – ele apontou para a tela da televisão, onde Nora e seu aliado estavam encostados em uma lápida, olhando fixamente o horizonte. Magros, desnutridos, pele e osso.
Virou os olhos azuis, vívidos como os de Nora, para o retrato de sua mulher. Ela tinha morrido tão jovem... Ainda tinha aquele olhar de puberdade e algumas espinhas que ainda surgiam. Tinham se casado aos dezenove anos. Sarah engravidara aos vinte e três. Cerrou os punhos, voltando os olhos para a televisão. Lá, sua filha estava ainda observando o horizonte, como se pudesse vê-lo através da tela.
– Ela está em boas mãos, John, não se preocupe tanto. Só faz cinco dias.
– Cinco dias e meio.
– Exatamente. – Huffos respirou fundo – Minha Arena durou quinze dias, John. Nora não vai morrer agora. Não agora.
º º º
Jeanne Jinx
Tocou o nariz, sentindo osso. Tinha quebrado o nariz duas vezes durante dois dias. Não sabia o que aquela menina era, mas tinha lhe dado um dano feio. Os mentores disseram que Jeanne era bem mais habilidosa e que seria bem melhor na Arena, porém agora, vendo aquela menina na televisão, com o olhar deprimido e quase gritando “Eu desisto da minha vida” a fez dar graças a Deus por não ter ido. A Arena agora parecia tão... Ridícula. Não sabia porque. Logo completaria dezenove e então estaria livre dos Jogos. Mas e os outros? Que se fodam, claro.
Dawn bateu na porta. Abriu escorregando os braços pelo pescoço dele. Beijou-o na bochecha. Quanto tempo fazia que não ia até a Academia! Estava com tanta saudade de todos os mentores, com saudade de treinar e...
– Yan. – se afastou de Dawn e encarou aquela criatura com nojo.
– Olá, Jeanne. – Yan entrou, sem ter sido chamado. – Como vai, minha querida? Sua televisão está desligada? Que pena. Ainda está se sentindo magoada?
– Cale a boca – ela cuspiu as palavras na cara dele. Yan tinha conseguido ganhar os Jogos aos quatorze anos, mas isso não foi o mais extraordinário, ele conseguiu convencer os mentores de que, mesmo com menos de dezesseis, conseguiria. E nem mesmo Jeanne tinha conseguido. E, além de tudo isso, Yan tinha ficado ao lado de Noralinne.
– Viemos aqui para te dar uma proposta, Jeanne. – disse Dawn — Não quero saber de quem foi para os Jogos ou não. Precisamos de você. Você é a verdadeira estrela. Agora vamos para algum lugar onde possamos conversar sem que ninguém nos ouça.
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John Mercure
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