Your Hunger Games VI - O Retorno Interativa
41 Sanderson Cutner
Sanderson Cutner
“Tanto faz morrer assim como assado. Tudo é morrer. Crucificado ou de prisão de ventre, em combate glorioso ou forca, o resultado é o mesmo.” – Graciliano Ramos
Quando a claridade atingiu seus olhos, Sanderson notou que na verdade o que deixava tudo mais baforado era uma nuvem ou neblina (ele não soube classificar) que aos poucos ia se dissipando. Ele encontrou os outros tributos, todos desorientados ou aparentemente entrando na realidade. Alguns estavam correndo pelo corredor, puxando outros pela mão. Sanderson notou o olhar predador de alguns dos Carreiristas em busca de armas, não havia nenhuma Cornucópia ou arma, somente um corredor de pedra, quente e estreito com alguns pingos de sangue na parede sem janelas. E a luz, aquela luz branca e doentia que fazia os olhos de Sanderson doerem. Não era uma luz de Sol, não havia calor nela. Quando os Carreiristas perceberam que as armas não estavam lá, correram e começaram a arrombar salas em busca delas. Sanderson aproveitou isso para encontrar Ariel, e ela estava de costas para uma janela, com os cabelos flutuando, ela parecia dançar graciosamente, enquanto a luz lhe envolvia e a poeira era visível voando ao seu lado...
Ela se debatia, os cabelos não estavam flutuando, mas sim presos nas grades da janela. Como aquilo tinha acontecido, Sanderson não sabia, mas ela com certeza não tinha feito de propósito. Ele se moveu rápido, para tirá-la dali, mas não foi rápido suficiente, alguém chegou primeiro e com algum que parecia uma pedra afiada cortou o as madeiras que se enrolavam e então empurrou Ariel para longe das barras. Sanderson se lançou contra essa pessoa, que ele percebeu ser uma menina. Ela se assustou com aquilo, mas não recuou, eles rolaram no chão, com Sanderson conseguindo ficar por cima. O que ele não lembrou, porém, foi que ela tinha uma pedra afiada, e ele não tinha nada além das mãos. Se utilizando disso, a garota golpeou-o no braço e ele falhou, sentindo o sangue jorrar. Com essa oportunidade, a menina se levantou e saiu correndo pelo corredor, enquanto Sanderson se contorcia de dor no chão.
Sentiu as mãos delicadas de Ariel tocando-o no lugar acertado pela pedra e então o local começou a arder.
– O que está fazendo? – ele perguntou.
– Cuspi – ela disse, enquanto esfregava a pele envolta da abertura. – É a melhor improvisação... Se eu tivesse um pouco de...
– Que se dane – Sanderson levantou, olhando em volta e vendo apenas tributos correndo e entrando em salas, procurando desesperadamente por armas. – Vamos sair daqui.
– Claro, eu ia dizer isso – Ariel também se levantou, enquanto tentava pegar o braço de Sanderson – Espera, ainda não terminei.
– Termine depois – ele estava irritado, mas não levantou a voz, a controlou.
– Certo – Ariel olhou em volta – Vamos naquela sala lá no final do corredor.
Sanderson encontrou a porta que ela tinha dito e concordou com um meneio. Enquanto corriam para lá, ele sentiu uma leve pontada no braço atingido e então um pulsar enlouquecido, como se o coração tivesse escorrido pelo braço e estivesse entalado no sangue escorrendo pelo machucado. Quando chegou na porta, nem se deu ao trabalho de abrir a maçaneta, arrombou com um chute, sentindo uma dor alucinante no pé e se arrependendo depois. Entrou e Ariel veio logo atrás, fechando a porta atrás dela. Com um rápido movimento, ela pegou uma cadeira aparentemente queimada e a colocou entre a porta e uma fenda no chão.
– Improvisação – ela mostrou, com um sorriso torto – Agora me deixe ver seu braço.
Sanderson não podia reclamar, embora não quisesse que ela ficasse olhando para aquilo que nem ele tinha coragem de ver. Com cuidado, Ariel ergueu a manga de sua camiseta branca que agora se manchava de sangue. Sentiu uma dor aguda e então virou o rosto para aquilo. Conseguia ver seu músculo e artérias (ou pelo menos pareciam artérias), e algo branco, como... Um osso? Como uma simples pedra tinha feito aquele estrago? Sanderson não sabia, mas tinha certeza de que Ariel não parecia muito enjoada com aquilo.
– Eu cuidava dos feridos na Academia – ela explicou, como se lesse seus pensamentos – Mas era bem mais fácil, pois e só precisava mergulhas eles em um banho de alguns óleos e então depois de duas horas estavam novinhos em folha. Eu cuidei de você, também. De todos os outros. As pessoas gostavam muito das minhas habilidades medicinais, somente meu pai que achava aquilo indiferente.
– Seria ótimo se eu soubesse – comentou Sander, enquanto se ajeitava na parede, com as pernas fraquejando, mas sem olhar para seu braço – Assim poderia lutar e cuidar dos meus ferimentos.
– Mas eu cuido deles – Ariel disse, indiferente – Eu sei, e eu cuido. Se eu tiver as plantas certas, consigo fazê-lo viver até o fim, mesmo que esteja a beira da morte. – ela ergueu os olhos – Pedi para minha mentora me enviar ervas de acordo com a necessidade. Ela disse que tentaria, embora eu não tenha muitos Patrocinadores.
– Pode usar os meus – disse Sanderson, e logo se arrependeu – Não que eu tenha muitos.
– Não somos os preferidos – Ariel deu de ombros – Mas somos uma dupla forte. Você mata, eu cuido. É praticamente perfeito, claro, se você não morrer antes que eu te salve.
Sanderson a encarou.
– Tem certeza de que é a mesma Ariel que estava chorando por não querer vir para a Arena e pensando em suicídio?
– Meu pai me mandou vinte vídeos de tributos que tentaram cometer suicídios e o jeito que os Idealizadores reagiram, dando mortes lentas e dolorosas para eles. Prefiro morrer rápido com uma garganta cortada do que ficar agonizando. Está quente – ela mudou de assunto imediatamente, quando percebeu a expressão de horror de Sanderson.
– Muito – ele suspirou – Duvido que haja ventiladores...
– Bom, este quarto esteve em chamas, pelo que parece. A cama está quase toda destruída, e só as molas do colchão restaram. Essa cadeira não está muito melhor. Acho que é metal...
Sanderson a olhou, enquanto Ariel ia para o canto e inspecionava algumas gavetas de um baú anti-incêndio. Notou que o vestido dela era branco e fino, deixando transparente a roupa íntima, que parecia ainda mais precária. Ela estava descalça, assim como ele. Os cabelos agora cortados de forma irregular caíam sobre os ombros. De um lado estava curto demais, do outro estava perfeito. Em alguns pontos ficava difícil diferenciar os fios curtos e compridos. Mas somente na parte de trás, sua franja e os fios na frente da cabeça, que não tinham se enrolado, estavam intactos.
– Ela me salvou, você sabe – Ariel disse, depois de um silêncio mortal.
– O quê?
– A menina, ela me salvou.
– Ah, é?
– É – Ariel se virou – Você não deveria ter entregado o braço pra ela daquele jeito.
– Eu não entreguei – Sander se irritou – Ela que me atingiu.
– Mesmo assim, foi desnecessário.
– Por favor, eu quero a Ariel fofa e insegura de volta. – ele cruzou os braços sobre o peito, se arrependendo imediatamente enquanto o braço rasgado começava a doer.
Ariel soltou uma risada gostosa e muito divertida, na verdade, enquanto não o olhava, mas sim tinha suposto o que havia acontecido. Ela vasculhava a gaveta, interessada e parte interessada. Quando voltou para olhar para ele, torceu o nariz, como se tivesse reprovado o pequeno gase que Sanderson tinha improvisado com sua roupa branca ainda intacta.
– É melhor deixa a pele respirar – Ariel opinou, mas Sanderson preferiu não dar ouvidos. – Olhe o que achei.
Ela estendeu a mão, mostrando cinco seringas de líquido verde. Sanderson as pegou e as inspecionou.
– Aqui não diz para o que serve.
– Então não vamos arriscar – Ariel recolheu as seringas e as colocou na gaveta. – Vamos usá-las para nos defender quando alguém vier.
– Quando alguém vier? Você acha que irão arrombar a porta?
– É óbvio – Ariel espiou pelas barras da janela na parede. – Eles não vão nos deixar aqui, ainda mais com você gritando de dor e mostrando que está ferido e fraco.
– Não estou fraco – Sanderson tentou controlar a voz.
– Está sim – Ela se virou, enquanto inspecionava a cadeira que prendia a porta – é fraca demais... Não vai agüentar mais de dois chutes.
– Tudo sempre abre no terceiro empurrão.
Ela o encarou e então torceu o nariz. Sanderson realmente não gostava do jeito que ela fazia aquilo, como uma careta torta. Deformava seu rosto. Com cuidado, ele observou a ferida no braço por cima do pano. Ele era fino e não muito grande, por isso só o enrolou duas vezes no braço, ele tinha rasgado da própria camiseta, por isso um pedaço da barriga estava visível.
A pele branca em volta do machucado tinha se tornado roxa enquanto o pus saía.
Ele tentou não ficar enjoado, mas foi impossível. Enquanto lidava com a dor e sentia que ela ia embora com o tempo, Ariel estava inspecionando a sala com cuidado. Quando deu um salto, porém, soltando uma exclamação, Sanderson se virou rapidamente, já temendo o pior. Quando chegou ao lado da menina, porém, viu que não era nada demais, apenas um paraquedas preso nas grades da janela. A luz que vinha de fora era ofuscante, por isso Sander não conseguiu enxergar mais nada além do paraquedas. Enfiou o braço bom e conseguiu pegar. O entregou para Ariel, que estava muito interessada.
Ela abriu com cuidado, examinando cada folha de erva que tinha sido enviado para ela, claro. Com um bilhete, ela sorriu dizendo um “obrigada”. Sanderson pegou de suas mãos o papel e leu com cuidado, forçando os olhos naquela luz fria.
Faça bom proveito. –Dora
Dora era a mentora de Ariel. Ele a observou enquanto sorria e pegava algumas das ervas. Colocou na boca, mastigando e depois desenrolou o braço de Sanderson. Com cuidado, cuspiu as ervas no ferimento e o enfaixou novamente.

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