Notas iniciais
A votação era para quem seria o próximo capítulo, e como só tiveram dois votos e diferentes, escolhi a Charlie.

Charlie Belcourt

“A Morte é o sinal de igual na equação da Vida” – Malba Tahan

Assim que percebeu a névoa, Charlie teve certeza de que era ela quem deixava os tributos desorientados, mas ela estava alta, por isso não a atingia. Uma vantagem que agora ela tinha. Com cuidado, desviou dos outros tributos que se moviam numa câmera lenta e encontrou Austin, olhando embasbacado para Alexa, que também estava lenta como uma pedra de gelo. Charlie o pegou pelo ombro, assustando-o. Levou um tapa na cara.

– D-Desculpa, eu não vi que era você – Austin engasgou, tentando tocá-la sutilmente, mas Charlie o afastou.

– Temos de puxar Alexa para chão.

– Por quê?

– Não percebeu? A névoa é que os deixa lentos. – Charlie revirou os olhos – Francamente, isso é óbvio.

– Talvez seja óbvio para você, mas eu sou um garoto normal e normalmente os garotos normais só pensam em namorar e rir da calcinha das garotas.

– Resumidamente, os garotos normais são idiotas e pervertidos. Se você é um deles, por favor, não se misture comigo.

– Ah, Charlie, francamente, pare de agir como se fosse superior.

– Não estou agindo – ela empurrou-o no peito. – É só que você me irrita.

– Desculpe, princesinha. – Austin ficou vermelho de raiva.

– Eu só estou nervosa – Charlie bufou, enquanto agarrava a mão de Alexa e a puxava com força – Não estou confiante, estou é apavorada. E se mexa, me ajude aqui!

Austin, mesmo irritado e bravo, a ajudou, enquanto Alexa começava a entender o que estava acontecendo. Charlie já estava quase feliz de ter conseguido se afastar dos outros tributos, quando sentiu alguma coisa empurrar o corpo de Alexa para a parede e torcia seu punho. Austin exclamou algo, mas Charlie não conseguiu entender. Um grito como “Sai da frente!” ecoou pelo corredor de pedra, enquanto um garoto de cabelos loiros passava correndo junto com uma garota de cabelos loiros. Os dois eram da estatura de Charlie e Austin e pareciam estranhamente familiar. Eles sumiram no corredor.

– C-C-Charlie! – Austin engasgou.

Charlie o encarou com uma interrogação na testa, mas quando virou o rosto para onde os olhos do menino estavam fixos, entendeu. Alexa tinha sido empurrada para a parede por aquele garoto loiro e tinha escorregado, batendo a testa direto na parede de pedra. Estava caída no chão numa posição estranha. As pernas dobradas de um jeito que Charlie não conseguiria fazer sem reclamar e seu pescoço também parecia...

– Quebrado – ela tropeçou nos próprios pés enquanto tentava se afastar. Escutou o canhão logo anunciando a morte. – Temos de ir.

Disse, mas não moveu um dedo. Foi preciso que Austin a empurrasse para ela começar a se mover. Com isso, eles saíram correndo pelo corredor, juntos, um no encalço do outro. Charlie viu uma porta no corredor, do lado direito. não parecia uma sala muito chamativa e ela julgou ser um bom lugar para se esconderem enquanto não tinham armas. Assim, empurrou Austin contra a porta e ela cedeu, deixando os dois meninos caírem juntos, um por cima do outro. O pé de Charlie fechou a porta rapidamente com uma batida forte que fez a parede inteira tremer e alguns farelos escaparem. A luz que entrava pela janela deixava uma luz branca e fantasmagórica dançar pelo chão, iluminando somente a parte de cima do peito de Austin e a cabeça ruiva de Charlie. Enquanto se recuperava, ouviu a risada frenética do garoto.

– Isso foi demais! – ele exclamou.

Charlie, quando percebeu, também estava rindo com ele. Suas pernas estavam entrelaçadas, o que foi muito desconfortável, mas mesmo assim era agradável saber que Austin estava lá, vivo e rindo. Não estava apavorado, o que deu forças para ela.

– Nossa aliada morreu – ela disse, entre risos.

– Eu sei – ele começou a gargalhar mais. E então: lágrimas. As gargalhadas se tornaram soluços, as lágrimas de alegria viraram lágrimas de tristeza. Um chiado de choro tomou os ouvidos de Charlie, e quando percebeu ela mesma estava caindo em soluços entre gritos. Eles se abraçaram, enquanto lamentava a morte de Alexa. Austin com certeza conhecia melhor aquela menina, mas Charlie não podia de sentir tristeza por ele.

Charlie se levantou do peito de Austin, desvencilhando suas pernas da dele e então dando uma boa olhada em volta. A sala onde tinham entrado era deserta, com exceção de cabines de banheiro público, pias caindo aos pedaços, porcelana quebrada por todos os lados, poeira voando onde a luz estava e um chiado irritante de pingos de água caindo de uma das torneiras. Os sanitários estavam sujos, tanto de vômito quando de fezes. Alguns até quebrados e estilhaçados, como se uma bomba os tivesse engolido.

As paredes brancas estavam encardidas e o piso de laminado também. Ouviu o som de passos se aproximando da porta. Encolheu, enquanto sentia os ombros tremendo incontrolavelmente. Austin também ouviu, e logo correu para um canto na parede, chamando-a com um aceno de mão. Charlie se juntou a ele na parede, que ficava mais escondida da porta. Com os olhos fixos na porta, Charlie implorou para que ela não se abrisse. Os passos acabaram. Ela prendeu a respiração. A porta não se abriu. Um grito estridente fez sua espinha se arrepiar e ela pulou para o lado, enquanto puxava o peito da camisa de Austin e quase o enforcava. Ele disse que não precisava ficar tão apavorada, que talvez fosse truque dos Idealizadores, mas Charlie não se convenceu. Ela ainda tremia. Ela ainda temia. Esperava pelo pior o tempo todo, com os olhos fixos na porta.

Austin a envolveu num abraço confortável e quente, dizendo que estava tudo bem. Isso lhe aconchegou e lhe deu forças. Agradeceu mentalmente por Austin estar vivo e por ser corajoso. Enquanto sentia que a tensão saía de seus ombros, resolveu relaxar mais, fechando os olhos e afundando a testa no pescoço do menino. Ainda estava aterrorizada pela cena de Alexa morta.

– Estou feliz por estar aqui – ela disse, depois de um silêncio confortável.

– Eu também – Austin soltou uma risada fraca, enquanto apertava o abraço entorno de seu pequeno corpo. Charlie estava prestes a dizer alguma coisa, quando ouviu o som de sinos tocando e então um paraquedas caiu ao seu lado. Ela o pegou e de dentro dele tirou um punhal. Uma arma. A primeira arma que tinha visto naquele lugar. Com o punhal em mãos, ela virou os olhos para Austin, que estava assustado e alegre. – Você é bem amada, não?

Charlie pegou um pequeno bilhete que veio junto com o punhal.

Você não é tão inferior assim. Samantha Dwin. – Charlie piscou os olhos verdes – Quem é Samantha Dwin?

– M-Minha mentora – Austin pegou o bilhete – É, minha mentora sim! – ele exclamou, agora virando os olhos para Charlie – Esse punhal é meu!

– Ah, tome – ela entregou para ele.

– Não – Austin sorriu – Fique com ele, é melhor. Nossa, nem acredito que eu recebi uma dádiva no primeiro dia!

Charlie soltou uma risada fraca, enquanto se desgrudava dele. O observou. Estava mesmo muito orgulhoso e feliz. Talvez a estima de Austin estivesse baixa, e ela nem tinha percebido... Sentiu-se mal por isso, mas não falou, somente ficou em silêncio, deixando-o admirar sua dádiva e o bilhete da mentora.

Notas finais
Espero que tenham gostado! Logo farei um na Noralinne que eu já estou planejando faz dias...