Your Hunger Games VI - O Retorno Interativa
43 Noralinne Mercure
Notas iniciais
Noralinne Mercure
“A dor é a mais fecunda poesia da vida, a mais difícil de se cultivar” – Leoni Kaseff
Nickelback — How You Remind Me
Noralinne não olhou para trás enquanto corria, somente percebeu que já tinha esperado demais para começar a correr. A névoa tinha se dissipado e por algum motivo outros tributos já haviam começado a correr, não que Noralinne estivesse muito abatida, mas parecia que eles tinham se livrado primeiro da tontura. Com as pernas longas, ela sentiu o calor e então levantou a mão, sentindo o teto de pedra úmido e quente como o inferno. Recolheu a mão rapidamente, sem deixar que queimasse. Com a pele ardendo, ela começara a caminhada. Agora se transformara em corrida. Enquanto escolhia qual sala iria arrombar, notou que a mão tinha parado de latejar e agradeceu mentalmente por não ter sido algo grave.
Encontrou uma porta entreaberta. Por algum motivo, isso chamou-lhe a atenção e ela a arrombou, entrando e fechando-a atrás de suas costas. Com isso, procurou uma chave na fechadura, mas não encontrou. Só pôde soltar a porta enquanto se virava para admirar a sala.
Era uma enfermaria, evidentemente. Macas com lençóis brancos de linho estavam enfileiradas e muito bem organizadas. O piso laminado branco escorregava, mas seus sapatos antiderrapantes lhe davam algum apoio. As janelas da parede oposta estavam abertas e as persianas esvoaçavam, deixando a luz branca e pálida entrar e as grades brilharem refletindo. Era frio, independentemente da temperatura do corredor. E úmido. O vento era cortante como uma nevasca. Mesas com gavetas e armários de ferro estavam espalhadas ao lado das camas, que tinham cadeiras, como uma verdadeira sala de hospital, com uma cama para o doente, uma cadeira para o acompanhante e mesas para os equipamentos. Ela piscou, os equipamentos.
Com as pernas bambas ainda pela corrida e com o sangue zumbindo nos ouvidos, por causa da adrenalina, Noralinne pousou a mão sobre a mesa mais próxima, inspecionando os equipamentos nela. Seringas. Duas verdes, duas azuis e uma vermelha. Com cuidado, as pegou, mas não havia nenhuma marca indicando o que cada seringa fazia. Ela então soltou, não querendo arriscar tanto assim. Foi quando ouviu aquele barulho de alguma coisa se encolhendo, como plástico sendo amassado. Ela vasculhou a sala inteira com os olhos de gato, pronta para atacar quem for que estivesse ali. Com cuidado, porém, percebeu que um vulto se encolhia contra uma parede mais afastada, onde a luz doentia não chegava. Pegando uma seringa verde, ela se preparou, dando lentos passos para frente. Pegou a pessoa e a levantou, jogando-a contra a parede e a prendendo fortemente. Com o braço no pescoço e impedindo a respiração, Noralinne encarou sua vítima com satisfação.
– Se perdeu da sua babá? – Nora o empurrou novamente, fazendo-o bater as costas violentamente contra a parede branca. – É bom mesmo que esteja aqui... Eu estava precisando de uma cobaia para uns testes...
– Cobaias são macacos?
– É, são, e você também. – ela o encarou com cara feia, enquanto enfiava a parte afiada da seringa na pele no braço do garoto. Ele esperneou, mas Noralinne não o soltou. Prendendo-o na parede, seria impossível correr. – O que você sente? O que ta acontecendo?
– Não consigo te ver – o garoto tentou apalpar a sua frente, sentindo a cintura e então os braços de Nora.
– Pare com isso, pervertido – Nora o jogou novamente na parede, dessa vez mais forte. A nuca do garoto por pouco bateu, e ele quase ficou inconsciente. – Ei, preciso ainda de você – ela deu um tapa no rosto do garoto com a mão livre. Esticando-se para a mesa, pegou uma seringa azul. – Vamos para essa, agora.
Ele gritou de dor assim que ela afundou o objeto em sua pele branca e extremamente pálida. Onde as seringas tinham perfurado estava vermelho vivo. Algumas leves sardas se esticavam pelas juntas dos braços dele, e assim Noralinne sentia satisfação por vê-lo se contorcendo embaixo de eu corpo.
– O que você sente?
– Frio, estou congelando. – ele se encolheu, escorregando pela parede e então se abraçando. Bateu os dentes enquanto suas juntas se travavam e ele ficava imóvel.
– Interessante – admitiu Nora. – Mas ainda tenho mais uma...
Ela pegou a única seringa vermelha, enquanto se virava para o garoto. Ele tinha se recuperado, aparentemente, pois agora a encarava com medo, ou talvez pânico, horror e pavor. Tudo o que Noralinne queria. Na verdade, era uma delícia sentir que estava colocando medo em um... Um retardado.
– Pare com isso agora mesmo – ela ouviu a voz falha mas enraivecida atrás dela. Com o queixo, virou o rosto por cima do ombro, vendo a pessoa que talvez ela mais quisesse ver. Os cabelos ruivos exóticos estavam caindo de um rabo de cavalo muito alto e os olhos azuis fluorescente faiscavam enquanto se grudavam em Nora.
– Ah, mas só falta mais uma... – Noralinne suspirou, enquanto cruzava os braços sobre os seios. – Queria tanto saber o que acontecia...
– Eu vou te matar se encostar mais um dedo nele. – Emma sibilou, enquanto seguia o braço de Nora com os olhos, até chegar na seringa. Com o braço esticado, Noralinne pousou a ponta da agulha bem na cabeça de Evon, enquanto ele somente encarava as duas meninas, espantado.
– Que foi? É apenas um retardado, ele nem sabe o que está acontecendo. Nem vai sentir dor.
– Está enganada – Emma revidou, ríspida – Talvez tenha razão, ele não vai sentir dor mesmo, pois eu não vou deixar!
– Ah, sei, uma heroína. Detesto acabar com sua autoconfiança, gracinha, mas acontece que quem está com as armas sou eu. Quem sabe o que cada uma delas faz sou eu. Agora não me diga o que fazer.
– Vadia... – Emma sibilou – Quando eu acabar com você eu...
– Por favor, vamos parar com essa briga verbal – Um garoto disse, e ele estava ao lado de Emma. Noralinne nem percebeu quando ele tinha entrado, mas parecia ter estado ali o tempo todo. Com um leve erguer de sobrancelhas, Nora o cumprimentou. – Odeio briga de mulher. É tão sem emoção.
– Como se houvesse emoção em uma briga – Emma revirou os olhos – Me ajude logo a tirar o Evon das garras dessa piranha.
– Tudo bem – o menino louro concordou, enquanto tirava as mãos dos bolsos e as cerrava em punhos. Ele ergueu os braços, numa pose ameaçadora.
– Que foi, vai bater em mim? Sabia que bater em mulher é muito feio? Ainda mais um baixote como você... – Noralinne desdenhou. Com o canto do olho ela percebeu outra garotinha, ainda menor que aquele menino, segurando o braço de Emma e a tirando do meio da sala, dando espaço para os outros dois se enfrentarem. Um plic acendeu uma idéia em sua mente. – Ótimo – ela disse, enquanto apertava a seringa e deixava o líquido vermelho atingir o interior da pele de Evon. Ele não reagiu, mas ela não esperou.
Rápida como um raio, se atirou sobre outra mesa próxima e encheu as mãos de seringas, enquanto olhava o menino correr até ela, se atirando. Mas Nora já tinha começado a correr para a porta. Com um rápido mover de dedos, agarrou uma seringa aleatória entre as outras em suas mãos e a atirou contra a menina loira que estava com Emma. O garoto que a perseguia vacilou, enquanto olhava espantado para a menina atingida. Aproveitando isso, Noralinne passou por eles e atravessou a porta, começando uma corrida desenfreada em direção ao lado sul do corredor. Com uma leve tontura e uma dor de cabeça alucinante, ela viu alguns vultos na janela de outra sala e então um barulho alto. Sem pensar muito sobre aquilo, abriu a porta rapidamente, enquanto entrava e encontrava um rapaz alto e forte, sobre o corpo de outro um pouco mais magro. O primeiro estava desferindo uma série de socos no rosto do segundo, e quando parou, foi somente para escutar seu canhão atirar.
– Muito bonito da sua parte matar alguém que nem sabia o nome – ela disse, enquanto reprovava aquilo com o olhar.
– Ah, desculpa, acho que garotas não deveriam ver uma pessoa morrer. – ele se levantou, batendo o pó das calças brancas. – Desculpe-me se traumatizei você. – ele examinou o sangue que estava nas mangas de sua camisa e então deu de ombros, como se não se importasse com aquilo.
– Esse sangue é seu? – Noralinne perguntou, tentando não soar preocupada. Talvez tivesse conseguido, caso Ethan não a conhecesse tão bem.
– Não, este sangue é do menino, e obrigado pela preocupação.
– Estou pouco me lixando para você – ela bufou, enquanto caminhava com passos pesados em direção a uma cadeira da sala. Embora estivesse muito detonada, a cadeira agüentou Nora. – Então, conseguiu se virar sem mim? Estou impressionada.
– Não é como se eu precisasse de você – ele desdenhou, limpando os punhos no peito da camiseta – O que é isso na sua mão?
– Ah, isso? Achei numa sala. Seringas. – ela suspirou – Algumas causam cegueira temporária e outras causam sensação de frio extremo. Tudo temporário. Mas não sei o que a vermelha faz.
– Como você sabe?
– Cobaia – ela sorriu friamente. – Encontrei alguém indefeso o suficiente para servir de experimento.
– Agradeço por eu não ser este alguém – Ethan sorriu, enquanto pegava uma outra cadeira e a carregava até ao lado de Nora. – Matou alguém?
– Não sei. – ela deu de ombros – Não tive tempo suficiente pra ver o que acontecia com a última seringa. Mas eu joguei ela em duas pessoas, se os dois morrerem, saberei que causa morte lenta.
– São boas coisas para um presídio – comentou Ethan- Seringas, grades...
– É um manicômio – Noralinne o corrigiu.
– Tanto faz. – Ethan colocou a cadeira e se sentou nela – Ai! – esse foi o grito que ele soltou quando a cadeira se partiu em vários pedaços e o derrubou. Noralinne começou a gargalhar alto, enquanto Ethan se levantava, envergonhado. – Que cadeira do diabo.
– Ela gostou de você – Nora deu de ombros – Machucou a bunda?
– Não, obrigado pela preocupação – Ethan suspirou – Que merda.
– Não, é legal. – ela disse – Não foi tão ruim assim.
– Para você, imagine para mim. – ele se apressou até uma cama e então pegou o colchão de cima dela, colocando-o no chão. Poeira se soltou e formou espirais no ar, mesmo assim Ethan não se conteve e então se jogou no colchão – Pelo menos sei que ele já está no chão.
– Ótimo – ela se levantou da cadeira e caminhou até ele, se sentando ao seu lado. – Quer alguma? – ofereceu as seringas.
– Claro – concordou com um meneio, enquanto escolhia.
Após um silêncio duradouro, Nora sentiu o corpo arquear num espasmo espontâneo e então pontadas de dor aguda se formaram em suas costelas, na parte de trás das costas e nas omoplatas. Enquanto se contorcia, tentou evitar demonstrar dor. A dor não era algo muito familiarizado com Noralinne. Ethan ergueu uma sobrancelha, apenas, até que ela parasse, respirando pesadamente.
– O que houve? – quebrou o silêncio.
– Não sei – admitiu, enquanto se encolhia – Sabe, normalmente é nessas horas que um garoto abraça a garota para confortá-la e dizer que vai ficar tudo bem.
– Não sou um garoto, sou um homem, e homens não ficam fazendo essas viadagens. – ele respondeu, enquanto se virava de costas para ela.
Nora soltou uma risada e então o abraçou por trás, fazendo cócegas em sua barriga com as pontas dos dedos.
– Ei, isso é golpe baixo – ele reclamou, enquanto se contorcia e tentava não rir. No final, não aguentou.

Noralinne Mercure
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