Notas iniciais
Lamento não ter saído maior...

Rodolf Vieira

“A gente foge a solidão quando tem medo dos próprios pensamentos” – Érico Veríssimo

– Você é um idiota, Rudy. – ela disse, enquanto enfaixava com delicadeza a mão do menino. Tinha machucado-a na parede do quarto. Charlie estava dormindo, embora os irmãos não conseguissem fechar os olhos.

– É de sangue. – Rudy sussurrou de volta, baixinho para não acordar a ruiva.

Morgana torceu o nariz, mas sorriu. Ao terminar de enfaixá-lo, se sentou entre as pernas de Rudy, enquanto deitava as costas no peito do irmão. Era confortável senti-la pedir por proteção ou calor. Morgana era muito sentimental em relação a família, ele sabia que qualquer coisa que fosse preciso ela faria para ajudá-lo. Assim como ele faria qualquer coisa para salvá-la.

– E seu pé? – ele perguntou. Enquanto corriam para dentro do castelo Morgana tinha torcido o tornozelo ao cair em cima de Noralinne Mercure. Sorte que a Carreirista ficou desorientada, senão ela já estaria morta.

– Ainda dói – ela reclamou, mas não disse mais nada.

– Acha que pode andar?

– Talvez – mordeu os lábios – Não sei.

º º º

Abriu os olhos sonolentamente, vendo os cílios louros e longos na sua frente. Arregalou as pálpebras, enquanto vasculhava o quarto com os olhos. Encontrou-a esparramada no chão, com os cabelos louros presos nas tranças ao lado da cabeça e o vestido medieval amarelo-alegre. Pegou-a nos braços e a levantou até seu peito, enterrando-a mentalmente em seu coração. Depois a soltou, sem uma lágrimas sequer, e levantando-se, saiu do quarto. Não derramaria lágrimas por Morgana. Não faria isso.

Enquanto corria pelo corredor, não viu Max em lugar algum, o que lhe deu mais impulso para continuar correndo. Logo ele estaria na praia, e mais a frente na floresta de Outono, onde encontraria sua aliada, Charlie. Ela estava muito tranqüila, na verdade, quase como se não estivesse se importando com seu sumiço. Junto dela havia um garoto magrelo e baixinho, ele parecia desnutrido.

– Charlie? – Chamou-lhe.

– Ah, Rudy! – a menina se virou, com um sorriso no rosto. Rudy teve de ruborizar.

Era incômodo ela sorrindo daquele jeito. Não por estar bonita, Charlie não estava, mas sim porque lembrava a Morgana. Odiava aqueles cabelos ruivos odiava aquelas sardas estranhas e os dentes amarelados, mas havia calor nestes lábios, algo que ele provou tanto nela quanto em Morgana.

Odiava Charlie e tudo o que ela poderia representar.

– Que bom que nos encontramos – ela se virou, pegando o garoto pelo braço. – Este é Rudy. Rudy, este é Austin.

– Prazer. – Austin se levantou, batendo a sujeira das calças e estendendo a mão.

– Ah, corta essa – Rudy deu um tapa em seus dedos ossudos – Pouco me importa o que você sente em relação a mim. Sei que sou muito prazeroso.

Austin piscou seus longos cílios e não entendendo o que tinha dito, virou-se. Rudy começara a odiar Austin assim que viu que o garoto era exatamente igual a Charlie. Ingênuo, inocente e puro. Pessoas assim não duram muito tempo em Jogos mortais. Apenas os arrogantes e egoístas conseguiam sobreviver. A morte deles era certa. Não sabia se isso o animava ou o enojava.

– Agora que estamos juntos poderemos continuar com nossa aliança. – Charlie sorriu, agarrando o braço dos dois meninos.

– Pequena vadia... – Rudy se soltou com força num puxão violento – Como ousa... Como ousa dizer isso após o que aconteceu com Morgana! Sua... Cadela!

Charlie o encarou.

– Esses são os Jogos – Rudy continuou – Como... Somos muito mais treinados e fortes que qualquer outro aqui... Por que...

– Nem tudo é o que queremos – Austin colocou a mão em seu ombro.

Rudy trincou os dentes, dando um outro tapa nos dedos ossudos do menino, mas dessa vez também lhe acertando um soco no queixo e outro no ouvido. Austin, com toda sua magreza, caiu sem forças para o lado, gemendo de dor. Charlie foi em seu socorro, enquanto deixava que Rudy fosse embora sem nenhuma intervenção. Poderia ter matado aqueles dois se quisesse, ele pensou, mas seria muito mais interessante deixá-los morrer por si mesmos.

Quando encontrou o poço no meio da floresta de Outono, sentiu vontade de se jogar lá dentro e dar um fim para tudo aquilo. Olhou para o céu, para aquela luz terrível que não conseguia invadir as folhas das árvores. Sentou-se na boca do poço, enquanto olhava lá para dentro. Soltou um suspiro chateado. Quando, porém, olhou novamente para o fundo, teve a impressão de ter visto alguma coisa cintilando na água negra. Algo parecido com... Um número nove.

Rudy encarou aquilo como um aviso. A porta para o andar nove. Prendeu a respiração e colocou a outra perna dentro do poço, hesitante, impulsionou-se para dentro do poço, enquanto sentia o fedor e aquela umidade de esgoto. Logo estava boiando nas águas da galeria de depósito de descarga da Capital.

Notas finais
Lamento não ter matado ninguém e.e