Your Hunger Games VI - O Retorno Interativa
49 Rodolf Vieira - Especial MJuh
Notas iniciais
Rodolf Vieira
“Desejo e satisfação raramente estão de acordo” – Adágio popular
Enquanto olhava atônito para a porta do elevador que voltava e estava encharcada, se perguntou pela décima oitava vez porque ainda não tinha ido atrás de Morgana. Enquanto tentava lidar com isso, sentiu a mão de Emma em seu ombro, uma espécie de conforto. Ele odiava que tentassem confortá-lo.
– Vamos atrás dela – incentivou Emma.
– Não preciso mais de vocês – ele disse, enquanto se encaminhava para as portas de vidro. Nenhum dos tributos discutiu com ele. – Fique ai com seu imbecil.
Quando as portas se fecharam a sua frente, sentiu toda a raiva explodir. Apertou o botão um, enquanto se encolhia numa posição de proteção. Logo viu que a fumaça se desenvolvia logo acima. Tinha aprendido que nos primeiros andares os perigos eram: fumaça, areia (o elevador se enchia de areia, como uma ampulheta, no segundo andar) e no terceiro havia ácido. Sorte que ele tinha percebido isso, aparentemente os outros não tinham notado. Quando a fumaça o envolveu a ponto que nenhum outro tributo o visse, sentiu que estava no caminho certo. Com isso, a porta se abriu e ele se arrastou, sem hesitar.
– Rudy? – a voz que perguntava aquilo era macia e delicada, enquanto Morgana empunhava uma faca de cozinha, em direção a ele.
– Oi – ele sorriu, se levantando – Eu vim até você, Molly. Que tal um beijo por isso?
– Francamente – ela suspirou, encaminhando-se na direção do irmão – Olhe para você, como está sujo e cheio de poeira no cabelo... – ela passou as mãos pelos cabelos de Rudy. Logo em seguida o beijou rapidamente, logo voltando para trás e continuando a tirar a sujeira dos cabelos louros do menino.
Ele arqueou as sobrancelhas, num espasmo espantado. Ele então ruborizou, enquanto passava a mão pelos cabelos. Estava nervoso e muito, muito surpreso.
– O que foi isso? – perguntou, por fim.
– Você pediu um beijo por ter vindo ficar comigo – ela explicou, lentamente – Então achei que fosse justo. Afinal é terrível dividir a cama com o vento.
Ele piscou.
– Está me chamando para sua cama, Molly?
– Claro – ela sorriu, acanhada.
– O que deu na Morgana que eu conheço?! Ei, ta ai dentro? – ele pegou os ombros da irmã e começou a chacoalhá-la. – Morgana!
– Até que enfim! – ela gritou, pegando nos ombros de Rudy, do mesmo jeito que ele fizera e agora estavam se encarando – Já estava cansada de tanto Molly!
– M-Mas... – ele se enrolou.
– Eu jamais te convidaria para a minha cama com essas intenções, Rudy Vieira. Também pensei que você tivesse mudado de idéia sobre me possuir, mas vejo que não – ela apenas deu de ombros – Durma no sofá.
– O quê? – ele piscou os cílios novamente, ainda mais surpreso. Morgana nunca tinha mandado-o dormir no sofá. Já tinha dado tapas em sua cara, atirado facas em seu estômago, mas mandá-lo para o sofá... Nunca...
Enquanto se encaminhava para o sofá, sentiu seu estômago roncar e a boca seca, como deserto. Ele olhou para Morgana, esperando que ela tivesse ouvido, mas a menina já tinha dado as costas e estava entrando em seu quarto. Rudy suspirou, enquanto se deitava no sofá e ficava lá. Encarando a mesa de centro. Quanto mais agüentaria por causa dela? Quanto mais arriscaria por causa dela? Quanta mais fome e sede passaria, somente para obedecê-la? Não ousou sair do sofá, em nenhum momento. Nunca quis deixar Morgana realmente irritada, e agora ela parecia extremamente irritada, embora tivesse lhe dado um beijo. Rudy tocou os lábios, ainda sentindo o doce transbordar dos lábios finos de Morgana... Era como caminhar por um árido caminho de pedras em brasas. Ela era quente, áspera e penetrante. Dura. Mas embriagante. Poderia se viciar em seus beijos, assim como os moradores do Distrito 6 se viciavam em morfina.
Ele a amava muito, na verdade. De um jeito que nunca pensou gostar de uma menina. Ele nunca tinha reparado em muitas, no Distrito 14 eram todas iguais: magrelas, habilidosas e com um humor muito psicótico. Mas percebeu que Morgana era um doce em pessoa, simpática e sincera, ela era um sonho que o Distrito 14 não tinha. Ela era exatamente o oposto das outras e isso o enfeitiçara. Quando sonhou com ela pela primeira vez, foi que percebeu estar tão envolvido. Quando Morgana o atingiu com uma faca no estômago e correu para saber se ele estava bem, sentiu que nenhuma outra garota ali faria o mesmo. Se qualquer outra atirasse nele, iriam rir e se vangloriar. Agora ele entendia: Morgana não era simplesmente diferente; era única.
Quando notou, a primeira lágrima escorria de seus olhos. Rudy piscou, irritado e atônito. Ele nunca tinha chorado antes... Não compreendia o que estava acontecendo... Oh, céus, o que estava dando nele? Nunca tinha chorado, nunca! Nem de dor, nem de doença... Jamais se imaginara desse jeito, fraco. E então a dor em seu peito cresceu, inflou, e ele se deteriorou, enquanto tentava se sufocar. O sofá era frio. Ele queria a cama, junto com ela. Ele queria que fosse aceito, queria que Morgana o visse não apenas como um irmão idiota e irritante...
Escutou o som de sinos, enquanto um paraquedas se jogava sobre a mesa de centro. Rudy esticou o braço, sem se levantar. Naquele momento a última coisa que queria era uma dádiva, realmente. Receber dádivas significava que estavam assistindo-o na televisão, em toda Panem. E saber que estavam assistindo-o em toda Panem enquanto chorava por motivos inexplicáveis...
Abriu o pote, porém, curioso, e se sentou ereto enquanto observava o pote de alumínio. O abriu, sentindo cheiro de sopa. Enquanto pegou o bilhete que estava boiando dentro da sopa. O papel encharcado queimou seus dedos, a sopa estava quente, mesmo assim ele não soltou. Leu com soluços.
Infeliz daquele que não é dado chorar; só o pranto afoga a dor que a vontade não vence destruir – Mamãe
Ele encarou aquilo. Com uma dor ainda maior, ele tomou a sopa em goles longos, sentindo-a revitalizá-lo e lhe dar energias novas. Quando dobrou o pescoço para trás, se esticando no sofá, leu novamente o que a mãe tinha enviado. Aquilo era de um antigo livro de poesia que estava guardado em sua biblioteca particular. Morgana adorava aquele livro. Então piscou os olhos, entendendo o que a mãe tinha feito e então se levantando. Foi até o quarto de Morgana, bateu na porta e entrou, enquanto ela se sentava na cama, seriamente brava.
Ele se sentou ao seu lado e mostrou o pedaço de papel amarelado por causa da sopa.
– Olhe – deu-o para Morgana, enquanto se lembrava das lágrimas e começava a enxugá-las com rapidez. – Mamãe enviou.
– Sim – ela concordou – Por que você estava chorando – concluiu.
– Não costumo fazer essa coisa – ele disse, com força
– Tudo bem – Morgana rolou os olhos para seu irmão – Não vejo isso como fraqueza. É algo bonito, até. Mostra que você tem sentimentos, mesmo sendo seco e inabalável do jeito que é.
– Um elogio? – Rudy perguntou, com um sorriso fraco no rosto.
– Não. – ela respondeu, sincera – Agora deite-se aqui e não ouse me tocar, se não eu mando você dormir no tapete.
Ele concordou com um meneio, agradecendo mentalmente a mamãe.

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