Your Hunger Games VI - O Retorno Interativa
27 Rodolf Vieira
Notas iniciais
Rodolf Vieira
– ... e se você contar que é um tributo disfarçado eu corto a sua garganta – ameaçou Nathália.
– Sim, senhora. – Rudy estava parado, olhando fixamente para os olhos da oficial, enquanto recebia suas coordenadas.
– Se alguém descobrir, você e sua irmã estarão sozinhos na arena, proibirei Ethan de ajudá-los. E... – ela lançou um olhar meio solidário. – Vai ter uma armas na Cornucópia... Não pegue. – ela dizia aquilo como se estivesse relembrando alguma coisa. Como se já tivesse dito aquilo para um tributo, antes – Eu enviarei armas para você de noite. Fuja com sua irmã e fique com ela. Não se preocupem com... Com essas coisas – agora era sério, Nathália estava a beira das lágrimas.
– Não precisa ficar preocupada, Senhora Polônia, nós vamos nos sair bem. Somos habilidosos. – Rudy tentou não tremer a voz ou abaixar a cabeça.
– Eu sei, eu sei – o tom da mulher se tornou mais intenso – Eu não estou duvidando da habilidade de vocês! Eu só... Não consigo acreditar que estou fazendo isso com ela.
– Ela?
– Sua avó.
– Sei. – Rudy já tinha ouvido que sua avó tinha sido membro do Conselho, junto com Travis, Ethan e Nathália. – Não precise se preocupar com pessoas mortas, Senhora Polônia.
– Seu moleque idiota... – Nathália o prendeu contra a parede, jogando-o fortemente e com a mão em seu peito – Pessoas mortas... Você diz isso de um jeito tão... Repugnante! Imbecil.
Ele não disse nada. Não tinha conhecido seus avós, somente um deles, André, mas ele morreu alguns meses após lhe entregar a carta. Ele ficou imóvel, enquanto esperava que Nathália se acalmasse. Com certeza irritá-la não era a coisa mais inteligente a se fazer. E Rudy tinha o dom de conseguir irritar qualquer um.
– Pode ir – ela suspirou. – Já sabe.
– Sim, Senhora Polônia. Voltarei com minha irmã.
– Eu sei que voltará... – ela disse, num sussurro que provavelmente não queria que Rudy ouvisse, mas ele ouviu.
Viu que Morgana estava brincando com seu cabelo, novamente. Ela era a única na família que realmente gostava de ser loira. Normalmente, as pessoas vêem isso como algo bonito, mas com certeza ser louro é algo sem graça. Rudy nunca gostou disso. Mas talvez, também, Morgana fosse a única loira bonita da família. Ele suspirou, mas que merda estava pensando?
– Menshy?
– Oi – ela ergueu os olhos, azuis claros... Uma coisa muito linda.
– Pronta para virar Molly Margaroth?
– Claro – ela sorriu, mostrando o lugar vazio na gengiva, onde alguns dias atrás tinha caído devido a um soco que, infelizmente, Rudy tinha lhe dado, numa briga pela caixa de cereal. Ele realmente não queria ter dado aquele soco, mas foi inevitável.
Aquilo machucava o coração de Rudy. Saber que ele poderia machucá-la.
Não era novidade que eles fossem os irmãos mais famosos do Distrito 14. Rudy era conhecido com sua força bruta incrivelmente desenvolvida, embora ele tivesse o corpo de um magrelo. Morgana era conhecida com sua mira impecável. Qualquer objeto de arremesso. Junto eles eram impecáveis. Uma vez tinham lutado contra os irmãos Dairo e Andy, e trabalhado em uma sincronia tão perfeita que era como se a força de Rudy completasse a mira de Morgana.
– Você já tem uma idéia de que boboca iremos pedir em aliança? – ela perguntou, enquanto entravam na Academia. Logo eles não estariam mais no Distrito 14.
– Sim. Distrito 04, como vovó. – Os olhos de Morgana se iluminaram. Ela sempre tinha sido mais ligada á família. – Evon e Emma.
– Super de acordo – ela tinha as bochechas queimando de empolgação, e Rudy ficou feliz por ter feito algo que animasse sua querida irmã.
Irmã... Talvez Morgana fosse a pessoa mais próxima que ele tivesse. Os pais sempre agiram como professores, não como verdadeiros pais. Eles tinham outros três irmãos, todos esnobes e extremamente habilidosos, conhecidos no Distrito todo. Mas a única pessoa que lhe dava atenção, e ele retribuía, era a irmã mais nova, que o tinha como um herói das histórias em quadrinho. Morgana sempre tinha olhado com admiração para Rudy, e ele sempre tinha dado o melhor de si par impressionar a menor. Assim, ela se espelhava nele, e evoluía com seus arremessos. Tinha sido aprendiz de Nathália por anos a fio e de Lunna, também. Rudy tinha orgulho de tê-la como irmã.
Após um diálogo empolgante com Evon, Rudy tinha certeza de que tinha feito um bom negócio. O garoto que se fingia de retardado era de fato um bom mentiroso, pois Morgana quase foi enganada, enquanto discursava o quanto o tinha achado bonitinho.
– E ele não parecia mesmo entender o que falávamos, era como se ele estivesse... Mesmo... Louco.
– Não acredite nisso. É manipulação – Rudy a pegou pelos ombros – Lembra quando eu te disse que existiam lobos naquela campina?
– Lembro – Morgana pareceu desconfortável com a pressão dos dedos de Rudy, mas ele não a soltou.
– Eu estava mentindo. E quando disse que uma irmã nossa tinha morrido antes de você nascer, eu também menti. E quando eu disse que mamãe gostava de flores, só para você sair de casa enquanto eu queria ler meu livro em paz... Eu menti. Mas ontem você trouxe flores para mamãe, você não vai mais na campina. E se tornou muito próxima á família. Era tudo mentira. Eu te manipulei para me favorecer, e acabei formando sua personalidade. Você é hoje o que eu fiz.
– Eu sei disso – Morgana abaixou a cabeça – É sério, Rudy, está me machucando.
– Desculpe – ele a soltou de leve, e então suspirou, cansado – Você quer ir na campina?
– Quero – ela se iluminou, e então todo o cansaço sumiu dos ombros de Rudy.
– Ótimo.
Pegou na mão da irmã e a puxou, saindo correndo. Tinham de dar um último adeus ao Distrito 14, antes de irem para a Capital, junto com os outros tributos. E nenhum lugar era melhor que a campina. Era onde papai lhe tinha ensinado a pescar, onde Morgana aprendera a nadar e onde acontecia a Noite do Lobo, uma festa que durava uma noite inteira, somente com danças, alegria e muita conversa. Rudy se lembrava de que quando era menor vivia correndo pela campina, até o rio, com Dairo e Jonas. Dairo nem olhava em seu rosto, depois de ter perdido a última luta para Rudy, e Jonas não disse mais nada para ele depois de ter sido rejeitado. Claro que foi um choque receber a declaração de amor do melhor amigo, mas Rudy realmente não podia aceitar. Não que achasse aquilo repugnante, mas é que... Ele não conseguia se enxergar namorando outro garoto, ah, por favor!
Agora, na luz do dia, a campina refletia, com sua relva verde-escura, as flores azuis e violetas, o Sol bem no alto, o lago no final da descida e... O balanço preso na árvore. Um lugar onde Rudy tinha brincado muito quando criança. Morgana, porém, nunca tinha vindo até ali, pois tinha acreditado no que o irmão mais velho tinha dito. O azul do céu era igual ao azul dos olhos de Morgana, e quando olhou para ele, Rudy teve de se virar para também ver a irmã. Ela estava tendo dificuldade para subir até onde ele estava, então Rudy lhe estendeu a mão.
– Obrigada – Morgana disse, subindo com graciosidade e parando ao seu lado.
O ombro direito dela roçou em seu braço, enquanto Rudy sorria para a vista magnífica logo abaixo deles.
– Quer que eu te balance? – sugeriu, indo até a árvore alta e de tronco grosso, com o balanço feito de pedaços de tábuas velhas, uma corda e com o chão batido sem grama de tanto uso.
– Balançar?
– É, você sabe... Você fica em pé aqui e eu e balanço.
– Sério isso? – Morgana não pôde conter o sorriso que brincava os lábios.
– Ah, é, você nunca brincou num balanço antes...
Ela pareceu ficar mais séria, mas logo largou isso, quando subiu nas tábuas e elas se quebraram com um som grave. Mas Morgana pareceu ignorar aquilo, enquanto juntava mais os pés.
– Vou começar – ele avisou. – Se segure firme.
– Certo.
As mãos de Morgana estavam tão fortemente agarradas á corda que os nós de seus dedos estavam brancos. Rudy colocou as mãos nas costas dela, enquanto a empurrava para frente. Ela perdeu um pouco equilíbrio no começo, mas logo estava rindo e sentindo o vento levando seus cabelos, enquanto ele a impulsionava para a frente.
Ouviu um estalo no galho onde o balanço estava preso. Subiu os olhos, sem perder os movimentos com os braços. Quando viu a corda já quase danificada pelo uso, percebeu que logo não agüentaria mais. Com cuidado, foi parando o balanço. Morgana percebeu, mas não disse nada. Sabia que o irmão sempre tinha razão. Quando o balanço parou no lugar, o estalo que veio foi mais alto e a corda se rompeu, levando Morgana para o chão. Com dificuldade, ela conseguiu cair de pé, mas Rudy logo a pegou nos braços.
– Por pouco – ela disse, entre risos afobados.
– Sim – ele a colocou contra o tronco da árvore, para que apoiasse e o coração parasse de bater rápido. Ela estava ofegante, embora o episódio só tivesse durado um segundo.
– Obrigada, foi incrível – ela disse, após se recuperar.
Rudy, encostado ao seu lado, no tronco, olhando para o horizonte, esboçou um sorriso feliz.
– Eu sei que foi.
– Não seja tão convencido.
– Eu adorava vir para cá – ele ignorou o comentário dela e então se virou para olhá-la. – Queria que você viesse, mas nunca tive oportunidade. Estávamos sempre treinando e o papai raramente deixava a gente sair de casa de noite...
– Sim – ela concordou, como se não se importasse com aquilo – Mas foi incrível.
Ele deu um meneio de cabeça, enquanto voltava o olhar para o horizonte.
– É lindo, não? Esse azul e... – sua voz foi cortada com o movimento rápido e o vulto que se colocou na frente de seu corpo pequeno. Ele a pegou pelas axilas e a levantou, enquanto encostava sua testa na dela. Morgana sentiu sua respiração tocando sua face e estremeceu. Seus lábios eram macios, embora nunca pensou que iria tocá-los um dia. Mesmo finos, eles eram confortáveis e carinhosos, enquanto sua mão se levantava para dar um tapa na orelha de Rudy.
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