Your Hunger Games VI - O Retorno Interativa
65 Noralinne Mercure - Rudy Vieira
Notas iniciais
Noralinne Mercure
“As paixões grandes gostam de expandir-se em ocasiões solenes, em face dos espetáculos grandiosos da natureza, em meio das solidões” – Bernardo Guimarães
Canoas do Distrito 4. Pela primeira vez adoraria ter uma canoa ali com ela. O esgoto era um lugar nojento e detestável. Tinha se recuperado de seus ferimentos e Ethan também, embora engolisse muito água depois de todo o esforço de se manter saudável. Vomitou-a, é claro, com uma bela ajuda de Ethan, que não a permitiu ficar com aquela coisa dentro de si. Por sorte não se afogou, nem Ethan, mas outro tributo não teve essa mesma sorte. Com certeza a danada não estava a seu favor. O menino do Distrito 7 morreu afogado nos braços de sua aliada.
Canoas do Distrito 4. Esse sim tinha sido um bom seriado da Capital. Todo o país tinha se mobilizado para assistir a produção que tinha sido filmada e baseada na vida dos cidadãos do Distrito 04. Claro que a novela tinha sido gravada há mais de cem anos atrás, mas sua fama permanecia. Sabe, às vezes eu fico rindo do jeito estranho como a autora insiste em fazer os leitores lembrarem-se de coisas que aconteceram nas primeiras temporadas. É como uma nostalgia. A propósito, ela riu muito. Mas deixemos essa desanimadora menina de lado.
– Que frio – comentou, enquanto deslizava os pés e sentia as roupas molhadas grudando na pele.
– Vem cá – Ethan a abraçou, mas o resultado não foi o esperado. As roupas encharcadas dos dois se encontraram e a sensação foi terrível, tão ruim que Nora o empurrou.
– Quando estiver seco, quem sabe.
Ethan não ficou muito contente, mas não reclamou. Continuaram pelo esgoto, já acostumados com o fedor e os ratos que chiavam no escuro. Tudo era muito nojento e a cada passo Noralinne se sentia mais e mais pegajosa, suja e detestável.
º º º
Rudy Vieira
Enquanto rastejava pelo esgoto, podia sentir tudo o que lá embaixo da água também se movia com seus pés. A água parecia uma ótima maneira de pegar tributos desavisados, afinal eles não ousariam olhar para ela depois de terem engolido tudo aquilo. Rudy foi treinado para matar pessoas com lâminas, mas também foi instruído a aceitar qualquer situação e se adaptar a ela, não sentir nojo ou ter vergonha de fazer algo. Seu orgulho valeria a vida ou a morte. Ele optou por ouvir estes conselhos. Até agora tinha visto três tributos, todos correndo em direções opostas, mas nenhum era o que ele queria.
“Cortar o mal maior para depois eliminar as plantinhas dele.”. Tinha de eliminar os tributos mais fortes primeiro para depois partir para cima dos outros.
Sentiu a água fria que batia contra seu abdômen e seus joelhos que se esforçavam para avançar sem recuar. Uma onda pequena, mas fétida o atingiu até o pescoço, fazendo espirrar um pouco em seu rosto. Ele cerrou os punhos e avançou com mais força. Aguentaria. Se era fazê-lo desistir que a Capital queria, então ele iria até o fim. Outra onda o atingiu, desta vez ultrapassou sua cabeça e o molhou por completo. Rudy parou, respirando fundo e sentindo as gotas fazendo o contorno de suas bochechas e adentrando seus lábios. Olhou para frente, lá no final do túnel, e avançou com raiva e ódio fervendo nas veias.
Nenhuma onda veio, o que o surpreendeu, afinal ele esperava que os Idealizadores estivessem brincando com ele. De repente uma dádiva tocou sinos e desceu até o lado da plataforma onde ele estava passando. Rudy estendeu o braço e pegou a pequena caixinha. Dentro dela havia um simples pedaço de papel retangular, com uma frase:
Aprenda a ouvir os meus avisos. Saía da água, Saukerl
Rudy piscou os cílios longos e louros por alguns segundos, até entender o comando e se atirar para o lado, rolando pela plataforma até a parede cheia de teias de aranha e ratos. Ele olhou para as águas do esgoto e então engoliu em seco (ou em chorume). Alguns minutos após ele ter saído da água negra, uma onda ainda maior veio pelo caminho, mas não uma simples igual a que tinha atingido seu corpo, era mais violenta e dentro dela alguma coisa estava se movendo, como se lutasse para sair de dentro. A onda explodiu quando já estava alguns metros mais longe dele. Dela uma mulher saltou.
Não era uma mulher comum. Disto estava certo. Sua pele era acinzentada, se não esverdeada, enquanto sua boca não possuía lábios, mas suas presas afiadas e tantos dentes que poderia ser comparada a um tubarão. Seus olhos eram fendas vazias e delas saíam a água negra do esgoto. Sua cintura estava praticamente cheia de machucados, com furos que mostravam sua carne e até mesmo seu coração, num lugar muito estranho, perto da cintura. Seus seios estavam a mostra, mas com certeza eram ainda mais aterrorizantes que o resto da criatura. Os braços dela estavam sem mãos, mas com nadadeiras no lugar. E suas pernas... Não havia pernas, apenas uma longa cauda. Espinhos brotavam das escamas, enquanto os cabelos dela eram um emaranhado negro e molhado, que se grudava aos ombros e braços. Nua e muito sensual, a sereia abriu um sorriso enevoado para Rudy. O pânico a atingiu de tapa.
Quando percebeu, suas pernas já estavam correndo e o levando pelo corredor. Desesperado, não conseguia achar um outro túnel para desviar da sereia, que o perseguia e cada vez chegava mais perto. Gritou por ajuda, talvez algum tributo estivesse por perto ou então sua mãe lhe enviasse outra dádiva, mas não foi isso o que aconteceu. Continuou sozinho, fugindo de sua morte. Quando pensou que suas pernas já estavam gastas até o joelho de tanto correr, e sentia os pés queimando, uma esperança de que tivesse se livrado do bestante o tomou, mas logo desapareceu, quando foi pego pelos braços e jogado contra a parede. Sua cabeça foi de encontro com a pedra e se não fosse o ratinho que estava passando nela no mesmo instante, seu crânio teria rachado.
– Por que foge de mim, Rudy? – o bestante perguntou, rastejando até ele, segurando-o pelos ombros e o levantando – Por acaso está envergonhado ou arrependido por não ter chorado minha morte?
Ele apenas tentou afastar seu rosto daquele rosto monstruoso e daquele bafo de esgoto. As órbitas vazias jorraram mais esgoto enquanto ela abria uma gargalhada de dentes pontiagudos e mortais. Rudy viu sua língua, bifurcada e negra.
– Não quer mais me beijar, Rudy?
– Você não é Morgana – ele sorriu, fazendo o bestante erguer uma sobrancelha, o que o surpreendeu, afinal nunca pensou que bestantes poderiam ter expressões ou serem pegos de surpresa. – Mesmo que seja a alma dela colocada dentro deste corpo, como eu sei que a Capital já fez antes, não acredito em nada do que diz. Sei que a Morgana está sendo manipulada e ela jamais me pediria um beijo, sua monstruosidade. Seu bafo é tão ruim que fico imaginando que você se alimentou de galerias de esgoto enquanto viveu.
A sereia uniu a sobrancelhas, exibindo sua raiva e fúria. O jogou contra a parede, mas desta vez Rudy já esperava esta reação, virando-se e se apoiando com os pés, ele voltou ao chão. Olhou para a sereia e então retirou sua faca do açougue de dentro da bermuda. O bestante sibilou, fazendo a língua passar por entre seus dentes. Uma falha... Ele notou. Nem todas as presas daquela sereia eram retos, lá do lado, na parte de baixo, havia uma falha. O resto de seu corpo era como uma armadura a prova de qualquer arma. Ele preparou as pernas, pegando impulso.
º º º
Noralinne Mercure
Sentiu o modo como o vento mudou de direção, fazendo o fedor vir junto. Tampou o nariz e segurou a barra da blusa contra o rosto, logo percebendo que a mesma estava tão fedida quanto o esgoto. Seus olhos se encheram de lágrimas enquanto uma náusea a tomava.
– Correntes de ar... Devemos estar perto da saída – disse Ethan, enquanto olhava para ela, esperando reação. Noralinne apenas concordou com um meneio, ainda atordoada. – Você acha que conseguiremos chegar até o último andar? Quer dizer... Eles disseram que são doze andares, então logicamente este é o nono andar. O próximo está logo à frente, o que quer dizer que o andar dez também está. Muitos tributos estavam morrendo estes dias, ou horas, eu perdi completamente o sentido de tempo.
– O que importa não é conseguirmos chegar até o último andar, mas sim aos finalistas.
– Já somos finalistas. Pelas minhas contas restam nove tributos. Logo serão oito, e então as Entrevistas com nossas famílias. Adoraria ver.
– Eu também. – Nora sorriu, para o nada. – Meu pai... Gostaria de saber o que ele está achando disto tudo... Da minha aliança, do meu desempenho. Aposto que está feliz de me ver usando tudo o que ele me ensinou.
– Bom, minha família... Não sei o que ela diria. Minha mãe... Ela não poderia perder outro filho.
– Seu irmão, certo? – Noralinne disse com delicadeza.
– Sim. Jeete. Ele era muito esperto e chegou aos quatro finalistas. Aposto que ele teria vencido, mas os Idealizadores mandaram um ataque de bestantes e... Jeete não era rápido, muito novo e suas pernas pequenas e fracas. Sei que ele fez de tudo para ir mais rápido, mas... Não foi o suficiente. Eram apenas Carreiristas que sobraram. Desde então tenho visto os Carreiristas dos Jogos Vorazes como os próprios bestantes. Agora me veja aqui, sendo considerado um e aliado á uma.
Noralinne sorriu de leve. Não estava ofendida por aquilo, afinal sabia que os Carreiristas sempre acabavam com o sonho de muitas famílias e tinham o ódio de quase todos os outros distritos.
– Quando não se pode contra o inimigo, uni-se a ele. – ela sussurrou, um pouco alto demais, mas Ethan achou engraçado.
– Acho que é verdade. Vamos continuar, não quero ficar aqui dentro para sempre.
Ela apenas concordou.
º º º
Rudy Vieira
O bestante desviou de seu primeiro ataque, mas não teve tempo de contra-atacar, pois Rudy já tinha ido para cima novamente. Seu gládio atingiu o braço da sereia, que nada sentiu. Sua pele era como um couro esverdeado e enevoado que a protegia, porém ele já tinha encontrado o seu ponto fraco: Um vão entre os dentes que ele poderia usar para atingir o interior da boca dela. Mas mirar bem ali era uma tarefa muito difícil, teria de ter concentração e muita sorte. Enquanto desviada do primeiro ataque dela, conseguiu chegar perto o suficiente para tentar uma segunda vez, mas logo a sereia percebeu onde é que ele queria ir e fechou seu sorriso.
Droga, pensou Rudy.
Ela não possuía lábios, mas isso não queria dizer que não era possível fechar a boca. Agora ele teria de arriscar o local. Tudo estava dificultando mais ainda enquanto ele tentava pela terceira vez. Quando pensou que jamais conseguiria, o gládio foi em direção a testa do bestante, atingindo-a e logo em seguida perfurando sua sobrancelha e descendo por seu rosto, diagonalmente, até as órbitas. Cortou o olho direito enquanto a lâmina deslizava, até a ponta chegar no local e ele a empurrar para dentro do buraco. A sereia exclamou. Ótimo, Rudy sorriu, não era o lugar onde tinha imaginado atingir, mas valia.
Quando o bestante explodiu e somente sua carcaça e sangue negro restou, o menino soltou uma risada fraca, arrependido de não ter chorado. Colocou o gládio dentro das águas do esgoto, para limpar o sangue. Incrivelmente ele conseguiu, mesmo a água do esgoto estando suja. Guardou a lâmina na bermuda e olhou par si mesmo num reflexo das águas. Estava coberto de gosma negra, as bochecha estava em carne viva e os ombros arranhados. Suas costas continham hematomas por causa da batida contra a parede, mas continuava em perfeito estado para lutar. Apenas uma leve tontura o tomou, mas logo passou.
º º º
Noralinne Mercure
Nora colocou seus ouvidos para funcionarem. Era uma espécie de risada contida, como se a pessoa estivesse querendo rir mas não alto demais. Colocou a mão no braço de Ethan e ele concordou com um meneio, também estava ouvindo. Com as armas preparadas, começaram a arrastar os pés pelo túnel, até se depararem com o fim dele e duas saídas, uma para a esquerda e outra para a direita. Olhou para os dois lados, vendo a pessoa que continha a risada no túnel da esquerda. Era um menino não muito alto, talvez treze anos, com corpo magro e um nariz arrebitado. Ele colocava a mão na boca, tentando conter o riso e então seus olhos brilharam. Ele estava coberto de uma espécie de lodo, como se o esgoto tivesse despejado suas fezes nele.
– Pare com isso, Charlie – pediu, enquanto se virava e abaixava-se para rir mais.
Noralinne lançou um olhar para Ethan, que entendeu e concordou. Os dois saíram das sombras, sem que os meninos percebesse, e começaram a fazer uma corrida não muito rápida até eles. Nora não disse nada, nem mesmo um “Olá, criança, eu vou te matar” como Carreiristas faziam, ela apenas girou seu gládio na direção da garganta do garoto, que recuou e caiu no esgoto. Ethan estava atacando a menininha, Charlie, que antes não fora vista por estar escondida nas sombras da parede. Ethan tinha apenas as seringas que Noralinne tinha pego no manicômio, mas ele conseguiria atordoá-la por tempo suficiente para Nora dar fim ao garoto e depois a ela.
Nora mirou, com um olho fechado, e enquanto o menino se debatia na água que parecia sugá-lo, ela atirou o gládio com força, fazendo-o se enterrar na testa dele e então ele parar, imóvel, foi sugado até desaparecer. Seu sangue jorrava e manchava as águas negras. Nora trincou os dentes, agachando-se na beirada da plataforma e tentando mergulhar a mão numa tentativa de recuperar a arma. Mas quando já estava desistindo, uma boca saltou para fora, um bestante que mais parecia um jacaré, estava com a boca em volta de seu braço direito. Ela arregalou os olhos, enquanto puxava o braço a tempo suficiente de que o bestante não o engolisse.
Se virou para Ethan, que apenas estava parado, observá-la. A garota ruiva mantinha o corpo imóvel, numa estátua, como se estivesse congelada.
– Podemos enforcá-la. – ele sugeriu. – Ou bater sua cabeça contra a parede.
– Frio demais – Nora suspirou – Vamos, teremos misericórdia por hoje. Já matamos seu aliado, um a menos.
– E depois eu sou o frio – Ethan sorriu, seguindo-a de perto.
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