Notas iniciais
Desculpem-me por não ter postado ontem. Fiquei o dia inteiro me dedicando em outra fanfic que comecei recentemente junto com o leitor Murilo. Se quiserem dar uma olhada o nome da fanfic é Q.I. Ainda há vagas!

Noralinne Mercure

“A paixão é a febre do espírito enfermo, é o delírio do coração, é o fogo da alma; é preciso que a razão domine, para que ela não nos sacrifique” – Nabuco de Araújo

Birdy — Wings

Enquanto as mãos se enroscavam nos dedos ossudos, ela tentava observar a sala. Vários tributos já estavam lá, porém ninguém queria descer para chamar os outros. O elevador, mesmo que parecesse não estar dando nenhum castigo no momento, não passava confiança. Ethan a apertou forte e ela abaixou os olhos para sua mão entre os dedos do menino.

– Está tudo bem – ele disse, tentando adivinhar seus pensamentos.

– Não estou pensando em Max. – ela falou, com sinceridade.

– Nem eu – Ethan sorriu, calmo -, estou falando do medo. Não deixe-o dominá-la, você sabe o que pode fazer.

– Não estou com medo – Noralinne ergueu os olhos, encarando-o. – Quero ir para casa.

– Eu também quero – ele suspirou – Todos queremos.

Nora fechou os olhos, sentindo as pálpebras pesadas. Enquanto tamborilava seus dedos na parte de cima da mão de Ethan, tentava não agarrá-la, como queria fazer. Tinha deixado de pensar em papai e no Distrito 02 assim que pisara na Arena, porém agora as lembranças estavam voltando e com elas a dor. Uma dor alucinante, na verdade, e era inteira, lá no fundo do peito. Tinha de se segurar para não chorar, na verdade. Ao redor, adolescentes entre doze e dezoito nos estavam eufóricos esperando a porta do andar três se abrir. Era angustiante e precisariam de uma paciência longa, pois demoraria mais duas horas até os últimos tributos subirem. Até lá, Noralinne já estaria nos braços longos e fortes, que era onde queria estar. Em casa.

– Quero meu pai – ela pousou a cabeça suavemente sobre o ombro de Ethan. Estavam sentados no sofá, um dos divãs da sala. Todos os outros também estavam sentados. Alguns até conversavam animadamente. Max tinha encontrado sua outra aliada e se juntado a ela. Contou o que aconteceu com Vicent e a menina desatou a chorar. Nora apostava um dedo que aquilo era somente lágrima de crocodilo. – Quero minha casa. O Distrito 02.

– Você parece uma criança mimada – ele disse, com um sorriso brincalhão nos lábios. As costas arqueando para frente, relaxadamente, ele permitiu que Nora se apoiasse.

– Eu sou uma criança mimada, acostume-se.

– De fato eu terei. Minha paciência não foi feita para crianças crescidas como você, Noralinne Mercure.

– Me abrace – ela simplesmente respondeu, cortando-o e surpreendendo-o. Ethan já tinha percebido que Noralinne de repente estava lhe surpreendendo o tempo todo. Isso era incômodo, e fato.

Ele abraçou, passando os braços pelas costas dela e a puxando para seu colo. Nora aceitou, enquanto se aninhava. Era maravilhoso saber que ela procurava conforto em seus braços, para ele era na verdade uma vitória. Tentou resistir, mas não conseguiu, teve de olhar na direção de Max, que, virado de costas, não percebia nada. Com um suspiro, abaixou o queijo e viu os olhos azuis faiscantes de Nora, encarando-o de perto.

– O que você estava olhando? – ela perguntou, com um leve sorriso.

– Nada. – ele mentiu, tentando desviar os olhos dela.

– Max?

– É. – ele riu fraco – Esse mesmo.

– Não fique se preocupando com Max toda a vez que me abraçar – ela disse, irritada – É muito chato isso, sabia? Não entendo se é medo ou é algo parecido com um sentimento de vitória.

– Os dois – Ethan beijou sua testa, com carinho. Sempre tinha ouvido de sua família que “um beijo na testa significa respeito”. E ele respeitava Noralinne, embora não soubesse o que um beijo nos lábios significava.

Enquanto deslizava os dedos gentilmente pelo braço de Ethan, enroscava as pontas dos dedos nos pelos de seu braço, divertindo-se. Sentia seu cheiro viciante de suor e sangue. Não era um perfume agradável, mas para Nora naquele momento era o melhor que podia ter. Sua cabeça pousava-se no peito dele, embora Nora tivesse quase sua altura e pudesse muito bem estar escorada em seu ombro. Preferia ouvir seu coração, que estava muito agitado, aliás. Ethan sempre teve um coração calmo, mas agora ele vibrava em velocidade. Nora nem perceberia caso não tivesse ouvido, pois Ethan estava com a aparência de normalidade, como sempre. Ele sabia camuflar muito bem o que sentia, mesmo que fosse muito lindo saber que ele estava ansioso, temeroso ou somente agitado.

– O que você quer de aniversário? – Ethan perguntou, de repente.

– Como?

– Para o seu aniversário. É ano que vem, não?

– Sim.

– O que quer?

– Como posso saber... Nem tenho certeza se vou estar viva até lá. – ela sorriu, um sorriso amarelo.

– Vai sim – ele disse, com sinceridade absurda – Então, o que quer que eu te dê?

– Me dê? Mas você...

Ethan piscou para ela.

– Que tal um livro? Eu acho livros muito bons – ele sugeriu.

– Não leio muitos livros. Prefiro... Quero um chicote – ela piscou os olhos – Eu sempre quis aprender a usar um chicote.

– Um chicote? – ele também piscou os olhos, mas de surpresa – Por que um chicote? Esses são seus desejos eróticos?

Nora lhe deu um tapa no rosto, embora fosse leve, Ethan reclamou. Não percebiam, mas todos na sala tinham a cabeças voltadas para eles. Era muito interessante ouvir a conversa de dois aliados enquanto pensavam o que fariam quando saíssem da Arena, enquanto estavam um entre as pernas do outro, falando de coisas eróticas. Era maravilhoso e se ver.

– Eu não sou garota vadia, Ethan. – ela respondeu, por fim.

Uma gargalhada de sarcasmo ecoou pela sala. Era Emma Sunderly que estava subindo pelo elevador. Ela parou ao lado de Evon, que parecia muito mais disposto. Noralinne virou a cabeça para ela, com asco.

– O que foi, piranha?

– Ah, nada não... Só achei engraçado o seu senso de humor. Piadas particulares me entretêm muito.

Nora cerrou os punhos. Sentiu os braços de Ethan se tornarem mais fortes ao lado de seu corpo e ele a puxou para cima, sentando-a em sua perna e a abraçando pelos seios. Colocou o queixo no ombro de Nora, num bico horroroso.

– O que está falando da minha branquela, cabelinho-de-entardecer?

– Estou falando que você é idiota demais pra ficar com ela sendo que já deu pra metade dos garotos aqui na sala – Emma apontou o dedo para Max, como se ele fosse “metade dos garotos da sala”.

– Pelo menos ela não tem que ficar sendo babá. – ele a apertou mais.

Emma torceu o nariz e simplesmente escolheu um dos divãs. Sua aliança, com Stephan Margaroth, Molly Margaroth e Rosalie Grace, ainda estava intacta. Era uma aliança grande e a maior parte dos outros tributos já tinha perdido algum membro de suas alianças, como Max e Kannya. Ethan alisou os pelos do braço de Nora, arrepiando-a.

O elevador chegou, trazendo o último tributo. Com ele, a porta do andar três recebeu a contemplação dos olhares de todos os tributos. Eles estavam ansiosos, queriam com seus corações que aquela porta se abrisse. Como se ela estivesse se divertindo a custas deles, não se abriu. Demorou mais três minutos para que isso acontecesse. Ela, lentamente, brilhou em amarelo neon e se abriu para dentro. Revelando o verdadeiro cheiro de sangue.

º º º

O açougue era do tamanho do manicômio, só que não tinha salas. Somente máquinas debilitavam os espaços entre um cômodo e outro. Entre as bancadas espalhadas pelo açougue, havia facas de todos os mais variados estilos e tamanhos. As paredes brancas e o chão coberto de sangue seco era enjoativo e o cheiro insuportável. Alguns vomitaram bem na entrada do açougue, outros reviraram os olhos. No final da sala uma grande porta exibia fumaças e frio. Era freezer. Com cuidado, os tributos começaram a explorar o ambiente nauseante.

– Onde está a porta do quarto andar? – perguntou Max, como sempre, o líder.

– Não está me nenhuma parede – respondeu Kannya, como se tivesse aceitado que Max fosse seu líder.

– Procurem – ele ordenou e então correu até uma das mesas para observar de perto as armas lá dispostas. Noralinne, assim que viu o brilho das lâminas, não escapou do impulso de ir também. Em outra mesa, diferente da que Max estava (junto com Kannya), Noralinne observou fascinada todos os tipos de cortes que davam pra ser feitos usando as facas. Quando sentiu a respiração de Ethan em seu cangote, pegou uma das facas e a rodou nos dedos.

– Olhe – disse com delicadeza, mirando para uma peça de carne pendurada a cinco metros de distância, sob ganchos. Atirou a faca com força e rapidez impressionante. Ethan nem percebeu o movimento circular que os dedos dela fizeram para impulsionar a arma. Ela simplesmente voou, cortando o ar e fincando na peça de carne, dando um impacto forte e a balançando para trás e pra frente. Ethan bateu palmas.

– Impressionado.

– Eu sei. – ela sorriu. – Quer tentar?

– Eu não conseguiria, não nasci para isso – ele deu de ombros. Noralinne esticou o corpo sobre a bancada, alcançando uma lâmina para cortar grandes pedaços de carne. Entregou a arma para Ethan.

– Essa não é de atirar – explicou.

– Ah, obrigado, eu não tinha percebido – Ethan deu uma piscadela sarcástica. – Ótimo. Vamos matar quem? Todos parecem um alvo muito fácil – ele olhou em volta – Estão mais preocupados com achar a porta e seguir as ordens de Max do que acabar com as raças um do outro. Será que não pensam que quanto mais rápido os Jogos acabarem, melhor?

Atenção tributos, atenção tributos. Parabéns por terem chegado até o terceiro andar do Labirinto. Porém as regras deste piso são mais severas do que dos outros; é proibido receber dádivas, mas vocês poderão usar as que já receberam nos andares anteriores. Só abriremos a porta quando pelo menos um tributo morrer. Repetindo...

Nora esticou o braço violentamente em direção ao peito de Ethan. Ele até pensou que ela iria matá-lo, porém na verdade só o jogou no chão. Quando olhou para cima, Ethan viu uma faca passar voando por cima deles, onde estavam alguns segundos atrás. Piscou os olhos, sentindo um gosto quente invadindo a garganta.

– Eles querem nos matar – ela disse, como se não fosse novidade. Ethan não sabia quem eram “eles”. – Corra o mais rápido que puder. – ela mandou, se levantando.

– Mas e você, Nora? – ele a agarrou pela camiseta, puxando-a de volta para baixo.

– Eu vou ficar bem, agora vá! É você que eles querem. – e com isso o empurrou, já rodando os dedos e lançando uma faca em direção ao lado de onde tinha vindo a primeira. Nenhum canhão. Ethan começou a correr abaixado. Nora alcançou mais uma faca na mesa, porém Kannya já estava perto o suficiente para lhe atacar com um gládio. Ou algo parecido. A menina gritava em ódio, enquanto passava a lâmina na direção do pescoço de Noralinne. A morena se abaixou, enquanto Kannya se esforçava para segurar o braço antes que ele terminasse o movimento. Alguns anos atrás Nora tinha escutado de um dos mentores da Academia que segurar um golpe que não teve impacto é bem mais desgastante do que desviar dele.

Noralinne lembrou-se disso, mas já não tinha como escolher entre defesa ou ataque, Kannya se recuperara rapidamente e já estava partindo o gládio em direção a cintura de Nora. Noralinne deu dois passos para frente no momento em que a lâmina do gládio atingiria sua cintura. Segurou o punho de Kannya e o girou até as costas dela, um golpe que tinha aprendido durante as aulas de combate corpo-a-corpo. Torceu os dedos dela entre os seus, fazendo-a gritar forte. Ela gritava, e cada vez mais alto. Kannya clamava pela ajuda de Max, que Nora não tinha visto em lugar nenhum. Seu coração acelerado com a adrenalina a impedia de se preocupar com isso, enquanto enfiava o gládio da própria Kannya, que ainda segurava a o punho da arma, em direção as costelas dela. A omoplata saltava enquanto Kannya tentava se desvencilhar. Com o braço dobrado em uma posição totalmente dolorosa, Kannya gritou quando a ponta do gládio perfurou sua pele. Noralinne não queria fazer algo lento e angustiante, afundou o gládio em Kannya, atravessando o peito da menina e a impulsionando para frente. Com isso, Kannya caiu de joelhos, com o braço agora livre. Nora a observou cuspindo sangue.

Kannya se levantou, incrivelmente bem. Levou o braço bom até as costas e retirou o gládio de lá. Sorriu demoniacamente para Noralinne.

– Miserável – sua voz era fraca e a única evidência de que estava morrendo.

Com um único e último golpe certeiro, Kannya enfiou o gládio na cintura de Noralinne, perto da calça, atingindo algo duro e então caindo de joelhos, após alguns segundos, de cara no chão. Seu canhão rugiu pelo açougue, ecoando no ladrilho. Noralinne tirou a ponta do gládio de seu corpo e com as mãos tremendo levantou a camiseta. O golpe tinha sido reto, sem nenhuma curva, por isso somente um corte pequeno, porém profundo, jorrava sangue. Nora arrancou a camiseta e a amarrou no quadril, estancando o ferimento. Se jogou sobre a mesa de facas, pegou três de arremesso e colocou na barra da calça. Alcançou mais uma faca de tamanho médio e outra quase igual, somente um pouco mais larga. Saiu correndo. No açougue inteiro a gritaria era ecoada. Noralinne não sabia mais como diferenciar o sangue seco do sangue fresco.

Notas finais
O que será que aconteceu com Ethan? Onde Max foi parar? Descubra nos próximos episódios de... YOUR HUNGER GAMES - SEIS.