Your Hunger Games VI - O Retorno Interativa
54 Morgana Vieira
Notas iniciais
Morgana Vieira
“Poeta é aquele que desmente as leis anatômicas e filosóficas, vivendo do princípio vital de uma única entranha: O coração” – Camilo C. Branco.
Of Monsters And Men — Silhouettes
Sentiu que Rudy segurava seu braço com força, puxando-a em direção ao freezer. Os dois corriam com os pés tropeçando uns nos outros. Morgana foi puxada para trás, sentindo o couro cabeludo reclamar. Com o canto do olho percebeu que alguém tinha lhe agarrado as madeixas e segurava uma faca grande para cortar carne. Levantou a mão para impedir que a faca chegasse até seu rosto, batendo o pulso fortemente contra a mão do rapaz que segurava a arma. Ele soltou a faca com um gemido engasgado. Morgana soltou-se de Rudy e se virou, preparando-se para pular sobre as caixas cheias de carne e sangue de animais, tomando impulso e subindo, até pular nas costas do menino e o atingir com o cotovelo. Ele caiu, derrubado e de joelhos dobrados. Rudy não estava por perto. Morgana alcançou o cabo da faca e a trouxe até o pescoço do menino, mas ele foi mais rápido, dando-lhe uma cotovelada no queixo e a derrubando para o lado. Ele saiu correndo em direção oposta a de Rudy.
Morgana se levantou, desorientada. Sentia o gosto de sangue na boca e logo percebeu que tinha mordido a língua. Olhou par Rudy, ele estava com os braços cruzados, impacientemente. Chamou-a com um aceno apressado e ela apenas deu de ombros, correndo com sua nova arma em mão. Rudy não era muito fã de lutas que não fossem dele.
– Não perca tempo – ele a empurrou para cima de uma outra caixa de carne, subindo logo atrás dela. Morgana pisou com cuidado sobre as tampas, sentindo elas sempre frágeis. Quando chegou até o final da pilha, saltou graciosamente sobre uma das máquinas de moer carne e arqueou o corpo para frente, recobrando o equilíbrio para não cair lá dentro. Estendeu a mão para cima, segurando-se num cano de ferro que passava pelo teto do açougue. Rudy pulou logo em seguida, inclinando-se para frente mais do que deveria. Seu pé escorregou. Morgana esticou o braço, tentando pegar sua mão, porém Rudy não estava a alcance, ele gritou algo e então ela esticou a perna, segurando-se apenas pelas mãos, enquanto a máquina de moer carne estava abaixo dos dois. Rudy tentou subir pelas pernas dela e logo chegou a borda a boca da máquina, equilibrando-se e se agarrando num dos canos.
Morgana rastejou até o outro lado e chegou a boca da máquina, colocando os pés firmemente. As mãos ardiam e sofriam com o esforço. Encontrou os olhos de Rudy e encararam os corredores lá embaixo. Tributos corriam desesperados, outros com armas em mãos, alguns com ferimentos horríveis. Rudy perguntou-lhe se conseguiria atira r a faca que tinha, mas Morgana negou com os cabelos louros, aquela não era uma faca para arremesso. Com isso, eles ficaram sentados lá, admirando a vista. Ninguém morreu, porém. Algum tempo depois um portão perto da porta do Segundo Andar se abriu, libertando bestantes com asas de morcegos e calda de peixe. Cabeça de touro e chifres escuros.
Eles começaram a entrar, voando e trotando, rastejando pelo chão. Alguns mordiam os pedaços de carne pendurados nos ganchos, demonstrando serem carnívoros, outros corriam atrás dos tributos. Rudy puxou o braço de Morgana rapidamente, enquanto se virava e via um garoto na outra extremidade da máquina de moer carne. Ele foi atingido por um dos bestantes e caiu dentro das lâminas de triturar. Seu sangue espirrou como gêiser e cuspiu no rosto e nas roupas de Morgana, molhando-a com o quente e fervente sangue da adrenalina. O irmão a puxou antes que ela conseguisse ouvir o canhão. Caíram no chão sobre algumas caixas de carne, explodindo-as em pedaços de madeira. Sobre as carnes macias e grudentas, os dois se levantaram rapidamente e olharam ao redor. Algum lugar... algum lugar seguro... Mas não havia. Rudy negou quando ela sugeriu o freezer, para onde a maioria dos tributos estava indo. Se esconderam, por fim, dentro do abatedouro.
Morgana nunca tinha ido ao Distrito 10, ver aquela estrutura onde os animais eram amarrados e colocados com a cabeça para fora de um buraco na madeira, onde uma lâmina passaria ao cair e cortaria o pescoço do bicho. Ela sentiu náuseas, embora nunca tivesse sentido antes quando via sangue humano. De certa forma o sangue animal parecia mil vezes mais detestável. Com isso, cheiro de estrume e sangue veio. Era um ambiente abafado e pequeno e a porta era somente metade da abertura, o resto ficava aberto. Morgana e Rudy se espremeram perto dela para que se algum bestante entrasse voando eles pudesse sair. Mas nenhum entrou durante todo o tempo de agitação. Nenhum tributo morreu, também, o que impressionou tanto eles quanto os Idealizadores. Satisfeitos, os homens decidiram abrir o Quarto Andar.
Tributos sobreviventes, saiam do freezer em menos de trinta segundos, ou ficarão ai para sempre. Tributos sobreviventes do abatedouro, saiam daí imediatamente, senão não encontraram ar puro novamente. A porta do Quarto Andar estará aberta por um minto.
Do chão brotou uma alavanca, na qual girou até que portas se abrissem e escadas surgissem. Ao ver aquilo, Morgana pulou a porta do abatedouro e correu para as escadas que apareciam lá embaixo. Rudy logo atrás dela. Ouviram passos vindos do outro lado da sala, as pessoas do freezer, e com isso trataram de correr escadas abaixo.
Quando já conseguiam ver a luz no final das escadas, ouviram um rugido tão alto que seus ouvidos choraram de dor. Rudy pegou o pulso de Morgana e a jogou contra a parede, enquanto uma chuva de bestantes leões corriam em direção a saída do túnel. Com sorte, eles tinham se escondido nas sombras e assim nenhum dos animais percebeu-os. Quando terminaram, os dois continuaram seu trajeto em direção ao próximo andar. Os pelos da nuca de Morgana se arrepiaram quando escutou um canhão. Com certeza algum outro tributo tinha sido pego de surpresa pelos leões.
Morgana parou de correr quando sentiu sua perna exclamando de dor. Sangue lhe escorreu a panturrilha enquanto o pedaço de metal se alojava entre as pernas, na parte de dentro do joelho até o calcanhar. Ela gritou um pouco antes de cair no chão, ao lado de Rudy.
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