Notas iniciais
Sei lá... A Nora agora é a minha preferida

Noralinne Mercure

O que há de tão errado em ser tentada? Estava sendo tentada naquele momento, enquanto a meia-noite brilhava lá fora e ela decapitava mais um boneco de treino. Estava sendo tentada a fazer uma besteira grande... Fingir matar aqueles bonecos era o que lhe acalmava. Soltou a espada e escorregou nos joelhos, caindo o chão com um grunhido do fundo da garganta. Levou as mãos até a cabeça, pressionando o local atrás das orelhas, onde doía tanto. Os cabelos estavam grudados em seu rosto suado e as roupas também grudavam no corpo.

– Você não deveria estar aqui? – escutou, e logo se recompôs, levantando a cabeça e se colocando de pé.

A tentação quase a consumiu. Por sorte foi somente quase. Quase... Pensou. Nunca tinha chegado tão perto de cometer aquilo.

– E você, então?

– Eu sou o presidente do Conselho, sou o prefeito deste distrito. Ah, por favor, eu posso entrar onde quiser. Tudo isso é meu – Travis ergueu uma sobrancelha ruiva e grossa, que eram bem contraditórias com a cabeleira branca. – A questão é: O que uma visitante está fazendo no meio da noite, com uma arma e bonecos de espuma?

– Não é da sua conta. – trovejou com a voz trêmula.

– Talvez não seja mesmo. – Travis enfiou as mãos nos bolsos da calça, dando de ombros. – Mas talvez seja. Eu sofro do mesmo problema que você.

– Como? – ela se interessou, mas ainda estava hesitante.

– Eu também fico tentado á... Bem... Você sabe.

Noralinne virou o rosto, tentando esconder o rubor. Ela cerrou os dentes... Aquele velho já tinha ido longe demais para somente um idoso inútil! Se agachou, pegando a espada com suavidade, mas uma raiva e força que ela mesma desconhecia.

– Se me atacar, eu posso desarmá-la em três segundos. Posso torcer o seu pescoço até que ele salte para fora da sua garganta. Ou... Posso te dar remédio para isso.

– O remédio? – ela ergueu uma sobrancelha.

– Sim. Ah, que inveja, eu sempre quis erguer uma das sobrancelhas, desse jeito.

– Você já fez isso, agora á pouco. – ela movimentou a espada na direção do homem.

– Vou manipular você, está bem? – Travis pediu com carinho.

– Vá para o inferno.

– Lá com certeza é o meu lugar. – Travis sorriu, maléfico.

Sua cabeça se transformou em uma bola de fogo e chifres nasceram de sua testa. Os dentes se alongaram e se transformaram em presas afiadas e com veneno verde escorrendo. Asas fumegantes brotaram de suas costas e de repente sua voz era a de um trovão.

– Mas eu te levarei comigo, Noralinne Mercure! – e avançou sobre ela, fazendo o fogo chamuscar os pelos de seu braço.

Noralinne acordou exasperada, sentindo logo o peso sobre o corpo e o calor que invadia o quarto. Pela janela era possível ver o clarão do lado de fora. A Lua ainda estava no alto do céu, o que era muito estranho. Nora colocou as botas que lhe tinham sido dadas no primeiro dia de hospedagem no hotel do Distrito 14 e com rapidez de um furacão abriu a porta, dando de cara com as labaredas que subiam pela escadaria. Ela olhou para os lados, onde tributos, mentores e funcionários do hotel estavam correndo de um lado para o outro. Sem a escada para escapar de lá, Nora não sabia mais para onde ir.

Viu com o canto do olho alguns dos tributos correndo de dentro de um quarto, com cobertores. No começo pareciam cobertores normais, mas depois percebeu que estavam todos unidos nas pontas. A corda de lençóis foi jogada pelo parapeito do corredor e preso na porta do tributo que ela adivinhou ser do Distrito 4.

– Vamos, agora! – ele mandou, com o pavor evidente em seus olhos claros.

Hesitantes, pouco a pouco os tributos que estavam com ele começaram a descer pela corda e realmente conseguiram alcançar o primeiro andar, sãos e salvos [NA: Não sei se é assim que se escreve, o Word corrigiu]. Nora se aproximou, enquanto o próprio menino já estava na metade da corda. Sem muita opção, pulou para o lado de fora do parapeito, se segurando nele. O ferro estava bambo, o que lhe dizia que ela teria de ser rápida, caso contrário poderia ganhar uma queda livre. Como cuidado, foi descendo, até ter certeza de que já estava numa boa altura. Saltou de lá, um pouco antes do parapeito arrebentar e cair no chão atrás de seu corpo, jogando-a para frente.

Noralinne tossiu. Lá embaixo a fumaça tomava conta e as labaredas queimavam como nunca, com uma fúria estranha. Quem tinha colocado fogo naquilo tudo? Quem poderia ter tido a coragem de matar meros tributos que já tinham um destino pré-definido? Não sabia por que, mas seu primeiro pensamento foi correr para a Academia, o lugar que julgava ser o mais seguro.

Encontrou o pequeno grupo de tributos tentando encontrar a saída do edifício, e logo depois viu a maçaneta da porta, a única coisa que ainda não tinha sido consumida pelo fogo. Ela correu até eles, gritando enquanto tentava se fazer ouvir, mas foi impossível com tudo aquilo e todo o pânico entre eles e entre o prédio todo. Logo aquilo cairia, pois já estava muito frágil e a estrutura era precária. Segurou no braço de que parecia ser o líder deles e então o arrastou em direção a porta, levando todos os outros juntos. Assim que tocou o objeto que lhe daria liberdade, recuou. Estava quente como o inferno! Se arrependeu de ter dito aquilo na mesma hora, pois se lembrou do sonho e encolheu-se como nunca. O garoto que até agora só tinha reconhecido como sendo do 4, a encarou e então meteu a mão na maçaneta, abrindo-a com um ranger de dentes, ele mordia os lábios, tentando não gritar.

Nora não soube explicar como um retardado como ele tinha conseguido salvar ela e mais quatro pessoas, mas só sabia que tinha de agradecê-lo mais tarde. Correndo e chamando os outros, ela os levou até a Academia, onde pediu para que ficassem. Ninguém quis reclamar, quem em sã consciência voltaria para um prédio em chamas? Ela sorriu. Com certeza não era uma pessoa em sã consciência.

Deixou seu corpo ser tomado pela adrenalina, correndo com outras pernas, sentindo o vento frio contra seu corpo, mas ao mesmo tempo vendo a si mesma, correr na direção do clarão berrante no meio da noite. Habitantes do Distrito saíam de suas casas com baldes e bacias cheias de água, mas Nora duvidava que só aquilo fosse capaz. Tinha de tirar o resto dos tributos de lá... Pelo menos mais um deles.

Por sorte Evon tinha deixado a porta aberta, pois ela jamais agüentaria tocar naquilo de novo. Ela entrou, cobrindo a boca com a mão e tentando manter o ar fresco que tinha acabado de inspirar dentro dos pulmões. Lá dentro tinha virado uma gritaria que só. E o que mais lhe arrepiava não eram os gritos em si, mas sim o motivo deles. Pessoas estavam sendo queimadas vivas. Pessoas... Ela se envolveu com os braços, esquecendo a fumaça e tentando sugar algum oxigênio para seu pulmão.

Suas unhas se prendiam na pele das palmas das mãos e ela não percebia, mas arrancava sangue. Olhou para cima, onde o fogo já tinha consumido tudo. E então olhou para o lado, onde viu alguns jovens desmaiados (ou mortos) no chão. Entre eles estava um cabelo louro. Ela saiu correndo, tinha de conseguir fazer aquilo. Quando tentou tocá-lo, percebeu as mãos com os fios de sangue escuro que escorria pelos dedos. Teve de ignorar isso e o pegar. Ele era pesado, mas mais pesado ainda era o ar.

– Ei! – virou o rosto na direção da voz. – Me ajude aqui! – viu que quem tinha dito era uma garota que carregava mais dois corpos, e novamente Nora não sabia que eram mortos ou estavam somente desmaiados.

Ela assentiu, pegando o corpo menor das mãos da garota.

Abrindo caminho, sua nova companheira de salvação correu na direção da porta. Noralinne tentou, mas estava difícil. Atrás dela, conseguia ouvir as labaredas estalando e queimando, devorando, o rústico de todo o lugar. As câmeras estouravam, seria muito divertido se Panem pudesse ver aquilo, ma logo esqueceu isto, quando passou pela porta e sentiu a rajada de vento frio e puro passar por suas roupas coladas ao corpo. Ela inspirou profundamente, erguendo os corpos que carregava e tentando manter o passo junto com a outra menina, que estava indo exatamente para a Academia.

Colocou-o deitado no chão, delicadamente.

Ele respirava. Graças a Deus.

Notas finais
Alguém arrisca um palpite de quem seja o louro? *u* Vou tentar escrever mais um! Acreditem ou não mas escrevi 1.400 palavras em trinta minutos '-'