Your Hunger Games VI - O Retorno Interativa
61 Kate Malcomson
Notas iniciais
Kate Malcomson
“O agente principal do espírito de uma mulher é a sua modéstia” – Camilo C. Branco
Seu único pensamento e desejo eram que Alexei a encontrasse. A Aliança tinha se desfeito tão rápido que nem conseguia mais se lembrar quando a formou. Peter, Zandaya e Alexei. De todos eles, só tinha visto a morte de Zandaya. Não sabia onde Peter estava, tinha perdido-o dentro do Cemitério, na inundação, e Alexei tinha fugido enquanto ainda tinha tempo, no Apartamento. Qualquer que fosse o motivo, parecia que ele estava muito mais seguro de si do que nos últimos tempos em que esteve ao lado deles.
Alexei era um dilema.
Por enquanto, mantinha os olhos no corredor de masmorras, enquanto tentava evitar o medo (era impossível!). O lugar estava úmido e quente, como o manicômio. Odiava o calor e principalmente as gotas se suor escorrendo entre os seios. Tentou prender os cabelos longos e castanhos para cima, mas eles sempre caíam. Com os olhos azuis elétricos tentou achar um caminho para fora daquele lugar assustador e doentio.
Entre as grades de uma das prisões, algo brilhava, iluminando o corredor. Kate hesitou, mas logo saiu correndo para ver o que era. As roupas que tinha pego do Apartamento ainda estavam limpas, porém agora molhadas nas costas. Quando encontrou as barras de onde a luz emanava, viu por entre elas o número Oito, indicando o oitavo andar. Sorriu, tinha encontrado a porta sozinha, vasculhando o castelo em busca de seus aliados. Empurrou as grades da masmorra e entrou sem hesitar. Aquilo podia ser uma armadilha, e se fosse ela já teria sido pega, mas felizmente não era. A porta do oitavo andar realmente ficava num lugar pouco provável dos tributos se aventurarem. Kate se sentia orgulhosa por causa disso.
Assim que parou na frente do luminoso Oito, ele se abriu, revelando uma luz incessante.
Quando entrou, a luz a envolveu, aquecendo ainda mais seu corpo. Mas desta vez não era o calor de derreter os ossos. Era algo mais delicado e sorridente, um Sol de verão, sim. Embora estivesse quente, não havia Sol, nem mesmo nuvens ou céu. Era apenas uma luz que ela não conseguia distinguir de onde vinha. O mar a sua frente se agitava, enquanto a areia cobria seus pés que mergulhavam nela. Sorriu, os pássaros cantavam e ela conseguia ver ao longe um navio com as velas grandes e brancas. Doze ao todo. As ondas traziam um cheiro de maresia, enquanto o vento tomava seus cabelos. Conchinhas brilhavam em coral e magenta, azul-violeta e amarelo-dourado. Alguns peixes saltaram das águas calmas do mar.
Correu até a beirada do mar, enquanto as águas molhavam seus pés. Estavam mornas e de uma forma aconchegante a convidavam a se aventurar entre elas. Quando mergulhou, abriu os olhos por instinto e logo se levantou, temendo ter feito uma besteira. Mas não. A água era doce, em vez de salgada, e ela mordeu um pedaço de mar enquanto engolia com gosto. Uma água cristalina, limpa e sem impurezas que normalmente se veria. Caranguejos percorriam a areia e algumas conchas flutuavam na água perto da beirada. Ela as pegou, examinando cada uma com admiração. O Distrito 04 realmente deveria ser lindo... Molhada, saiu do mar e se deitou na areia, tomando um “banho de luz”, afinal não havia Sol.
Sentiu a pele arrepiar-se quando o vento frio passou por ela vindo do Sul. Olhou para aquela região, e viu montes de neve, árvores cobertas de agasalhos brancos e chuva de prata. Sorriu. Verão, inverno. Sentia que aquilo seria divertido. Aquela parte da Arena a agradava de uma forma incrível.
Já se sentia bem melhor do que quando estava nas masmorras. Ouviu, porém, um som de gargalhada, enquanto a areia se movimentava de forma estranha. Abriu os olhos, dando de cara com alguém em pé, fazendo-lhe sombra. A pessoa parou de rir e se pôs a encará-la também. O que... Mas quem?
– Ei, olhe! – a pessoa exclamou de repente, enquanto se virava.
Kate se colocou de pé, enquanto observava os traços da menina. Era quase como uma cópia sua, levando em consideração que era muito mais alta, seus cabelos muito mais curtos e sua pose muito arrogante. Tentou lembrar-se de um dos nomes que tinha decorado. Haviam meninas muito insignificantes nesta edição, mas as mais importantes era... Kannya, Charlie, Emma e... Piscou Noralinne Mercure. Recuou dois passos até sentir o mar.
– Ganhamos um presentinho – a Carreirista se virou, enquanto um raio de luz iluminava seus olhos azuis. Era uma espada. Ou melhor, um gládio. Noralinne sorriu maliciosamente, enquanto lambia os lábios. Kate não conseguiu recuar mais, afinal atrás dela só havia o mar.
Deu alguns passos para o lado, observando o garoto um pouco mais longe que a Carreirista. Quando deu por si, já estava correndo em disparada na direção da floresta ao Sul. O inverno, pensou, ele lhe traria segurança, afinal o frio sempre fora algo agradável aos seus olhos. Enquanto corria, sentia os músculos da perna reclamarem. Não fazia aquilo há tempos e de repente notou que estava lenta e fraca. O suor voltou a escorrer, enquanto corria com seu coração a mil por hora. Ousou olhar por cima do ombro a tempo de ver Noralinne bem em seu encalço. Ela atacou-a com o gládio, girando-o na direção do pescoço de Kate. Caso não fosse ousada, Kate teria morrido. Ela recuou, abaixando-se e saltando para o lado. Caída na areia, arrastou-se para trás, tentando fugir, mas o pânico a tinha tomado. Noralinne logo se recompôs, começando a avançar.
– Para onde pensa que vai, menininha? – ela perguntou. Menininha? Elas deviam ter a mesma idade! Como assim menininha? Irritou-se. Odiava o jeito superior como agiam os Carreiristas. Mostraria para aquela Noralinne que nem sempre o mais forte vence. Notou que a menina estava mancando, como se tivesse machucado o tornozelo. Sorriu.
– Então chegue mais perto, Meninazinha – provocou Kate – Ou está com medo de que eu tenha alguma carta na manga?
Noralinne trincou os dentes. Com certeza não estava acostumada com provocações de tributos dos Distritos baixos. Enquanto avançava furiosamente, Kate aproveitou para lhe passar uma rasteira, derrubando a menina na areia. Avançou, segurando o punho do gládio que caíra ao seu lado. Montou na barriga de Nora, enquanto prendia-a com os joelhos. Virou a lâmina do gládio em direção a garganta da Carreirista. Ela apenas exclamou de pavor e segurou o gládio com as duas mãos da melhor maneira possível. Logo estavam travando uma disputa de força. Mesmo com as duas mãos, Nora estava segurando o fio da lâmina do gládio, e assim o sangue escoria por entre seus dedos, provocando dor e fraqueza. Ela não agüentaria ficar daquele jeito por muito tempo, pensou Kate, logo os dedos dela cairiam e a lâmina atingiria sua garganta, matando-a. Vingaria todos os tributos que aquela Carreirista já tinha apagado. Em nome dos Distritos Baixos a mataria.
Por sorte o aliado da menina nem deu sinal de vida, talvez não tivesse achado o lugar por onde ela tinham ido, o que dava a Kate ainda mais vantagem. Somente ela, a Carreirista e o gládio. Com os dentes cerrados, fez ainda mais força. A menina embaixo de seu corpo exclamou de dor, enquanto tentava segurar a lâmina com mais força ainda, mas era óbvio que ela não conseguiria por muito tempo. Ela estava chorando, isso mesmo, soluçando e com lágrimas escorrendo pelo canto do rosto. A areia se grudava em seus cabelos e agora ela não tinha mais uma aparência mortífera e invencível, era uma menina apavorada, pedindo piedade pela vida. Se fosse outra pessoa Kate até teria piedade, mas era uma Carreirista! Jamais deixaria um bicho tão asqueroso sobreviver enquanto tivesse chance de matá-la.
Quando a lâmina atingiu a pele da garota, o sangue escorreu escuro e fino, somente um corte leve. Noralinne tentou recuar a lâmina, mas não conseguia mais. Seus braços tremiam, e a cada tentativa Kate conseguia atingir mais e mais a pele dela, até que o sangue estivesse mais claro, vívido e em maior quantidade. Não sabia se tinha atingido o lugar que queria, mas aquela Carreirista nunca mais conseguiria respirar com facilidade.
– Morra... Morra... – Kate sussurrava, enquanto suas mãos tremiam com a força que fazia. Por sua vez, Noralinne também tremia, com as força esvaindo de seus braços. Logo... Logo... Kate sorriu. Logo ela estaria tão fraca que nada mais seguraria aquela lâmina, apenas as suas mãos.
E então... O canhão. Kate piscou os olhos, perdendo a força ao ter o leve pensamento que talvez pudesse ser Peter ou Alexei. Noralinne lhe bateu com o punho do gládio na testa. Kate caiu para o lado, desorientada. Como é que... Enquanto tentava entender, sentiu o braço doer e um pé lhe segurar o punho. O gládio estava a alguns centímetros de seus dedos, porém alguém o pegou primeiro. Ergueu os olhos. Noralinne tremia, enquanto os dedos abobadados se forçavam a segurar o punho da arma. Afundou-se em direção a Kate, que viu pela última vez aquela luz branca que não era o Sol. E então morreu.
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