Your Hunger Games VI - O Retorno Interativa
62 Evon Boyer
Notas iniciais
Evon Boyer
“O arrependimento inventa carinhos novos, e a inocência parece vingar-se, perdoando, e sorrindo ao algoz, que exora o perdão com lágrimas” – Camilo C. Branco
Maroon 5 – Won’t Go Home Without You
Sorriu. Manteve as mãos baixas, enquanto sentia o leve vento, ou melhor, a brisa inundando suas roupas. A praia era maravilhosa! Os outros tributos que chegavam também se admiravam com aquele lugar. Alguns já tinham ido para o Sul ou o Oeste, para Leste ou Norte. As estações se dividiam muito bem naquele andar da arena. Evon, entretanto, não queria sair dali. O mar, a maresia, a areia branca e as contas cintilantes... O Distrito 04. Sorriu. E não parou de sorrir.
– É tudo tão vivo... – comentou Emma, ao seu lado. – Este lugar... Se parece tanto com lá...
– Sim. – ele concordou, respirando fundo aquele ar tão puro.
Emma agachou-se, pegando uma concha e a rodando nos dedos. Ela era azul-céu, quase como o mar (perdendo de leve por um tom esverdeado das ondas). Tinha um formado um tanto diferente e Evon logo reconheceu como uma rara concha que somente os mais habilidosos encontravam, lá no fundo do mar, onde ninguém que não nascesse no Distrito 04 conseguiria pegar. Ela sorriu, mostrando a concha para ele e depois a jogando em direção ao mar.
– Isso é um sinal de boa sorte – disse, enquanto enfiava a mão na areia e a sentia passar por entre os vãos dos dedos.
Ele concordou com um meneio. Se sentou ao lado dela, pegando a areia com as duas mãos e a empilhando em um castelo deformado. Começou a fazê-lo, lembrando-se do sétimo andar. Emma o ajudou e quando terminaram sorriram um para o outro. Era ótimo tê-la por perto. A maioria das alianças já tinha se separado ou perdido seus membros. Rudy estava com uma menina ruiva em vez da sua irmã, o que confundiu um pouco a mente de Evon. Dois outros garotos estavam juntos, um deles Evon conhecia como Alexei, o outro era um pouco mais baixo, mas não menos robusto e ameaçador. Max tinha perdido todos os membros de sua Aliança Carreirista e agora estava de cabeça baixa, observando as conchas embaixo de suas pernas.
Evon não sabia o nome de todos, porém podia ver que ninguém ali queria de fato matar. Estavam ocupados demais admirando a praia do que ligando para vencer os Jogos Vorazes. Era quase cômico, afinal os Jogos não tinham sido feito para aquilo. Mas quem era ele para falar algo? Esses são os Jogos da Sorte, onde as regras podem se flexíveis a qualquer um dos lados. Os Idealizadores costumavam inovar nessas horas. Ele pegou a mão de Emma, analisando os calos e então a acariciando com o dedão. Emma não se importou, apenas ficou olhando para o horizonte, onde o mar não tinha fim. A luz que parecia com o Sol não emitia um calor muito grande, mas era confortável. As gaivotas estavam brincando e os caranguejos também. Estrelas-do-mar eram levadas para a areia e os tributos sorriam uns para os outros, como se não houvesse problema algum.
– Vamos andar por ai? – Emma perguntou, levantando-se e batendo as calças.
– Claro – ele fez o mesmo. – Mas você vai me deixar pra trás?
– Como você ainda me pergunta uma coisa dessas? – ela torceu o nariz – É claro que não, Evon. Você nunca vai escapar de mim.
“Nem da minha posição de filhinho”, pensou, enquanto começava a correr em direção ao Outono, o lugar que tinha chamado sua atenção tirando o Verão. Não que ele quisesse realmente algo com Emma, mas não gostava de ser tratado como um bebê. Nem mesmo visto como um. Ele sabia que Emma não o considerava um homem, mas sim um amigo, quase irmão. Era irritante... Ela em si era irritante, além de bonita e muito energética, conseguia canalizar toda a atenção de Evon em si mesma por horas e horas, até que ele dormisse.
Manteve uma corrida leve, enquanto Emma vinha logo atrás. Quando chegou na floresta alaranjada, sorriu e se virou, vendo-a chegar ofegante. Notou o jeito como a franja crescida estava caindo sobre os olhos dela e riu. Estava radiante. Emma o pegou pela mão, puxando-o em direção a floresta. Ele apenas gargalhou e se permitiu ser levado. Talvez, só talvez, ele quisesse realmente ter algo. Ah, não, impossível. Quando olhou ao redor, notou que Emma não estava mais lá. Tinha sumido. Isso o encheu de pavor, mas ela logo apareceu atrás de uma árvore, assustando-lhe. Evon caiu na gargalhada. Era ótimo ficar correndo com ela por aquela floresta, ouvindo as folhas secas quebrando-se embaixo de seus pés e as gargalhadas revelando onde ela estava escondida. Queria que não tivesse fim. Mas teve, quando encontraram aquele poço velho e abandonado. Emma olhou para dentro dele, receosa.
– Deve ser uma armadilha – disse.
– Sim – Evon concordou, enquanto passava as mãos pelos cabelos, numa tentativa falida de arrumá-los. Estava suado e ofegante.
– O que devemos fazer?
– Talvez arranjar comida – ele olhou em volta, mas não havia sinal algum de animais. Manteve os olhos bem abertos, até que Emma pousou a mão em seu ombro.
– Você voltou ao normal – ela disse, para sua surpresa.
– Como? – Evon virou-se.
– Nada. – ela sorriu, enquanto se virava e vasculhava as árvores nuas com os olhos. – Vejamos... Parece que os animais ficam no lado da primavera... Eu não os julgaria, afinal lá parece o local mais agradável para se estar... Bom... Então vamos ver o que temos por aqui... Frutas, não. Folhas, sim. Será que dá pra comer folha?
– Está louca?
– Às vezes penso que sim. – ela virou os olhos, encarando-o – Ah, olhe para mim, dizendo coisas sem sentido de novo! Vamos procurar.
Mesmo hesitante, Evon concordou com um meneio tímido. Primeiro ela dizia que ele estava normal, depois que pensava ser louca. O que estaria acontecendo com Emma? Algum pressentimento? Esperava que fosse algo bom. Manteve um passo bom atrás dela, enquanto a ruiva procurava por alguma coisa que servisse de alimento. Por fim, tiveram de andar até a estação Primavera, pois lá haviam muitas árvores frutíferas.
– Você parece bem distante, Emma.
– Sim. – ela concordou, para sua surpresa (de novo. Emma o estava surpreendendo demais). – Ando meio... Desconectada. Não sei muito bem o que é, mas às vezes me pego pensando em coisas estranhas, quase idiotas. Coisas em relação ao nosso distrito e ás feiras. Já me peguei pensando no pôr-do-Sol, embora nunca tenha refletido muito sobre isso.
– Talvez você esteja vendo a beleza das coisas pela primeira vez. – ele sugeriu.
– Eu já conhecia a beleza das coisas. Só não admitia para mim mesma. Mas não é esse o caso. Acho que algo terrível vai acontecer conosco, somente acho. Quero mantê-lo em segurança o máximo possível... Mesmo que tenha recuperado a sanidade... Eu... Preciso protegê-lo.
– Por quê?
– Não sei. Instinto materno?
– Isso é irritante.
– Deve ser. – Emma ergueu o rosto, com as bochechas ruborizadas. – Mas prefiro me convencer de que é apenas um instinto do que um sentimento. Seria ainda mais terrível se você morresse e eu sofresse por causa disso.
As palavras o atingiram como uma bofetada. Então era isso que Emma pensava a seu respeito? Mas que alma mais sem coração! Que garota mais fria! Ele franziu a sobrancelha, porém, não acreditando no que tinha acabado de ouvir. Será que a imagem de Emma que tinha nutrido até ali era uma farsa? Estava se enganando por esse tempo todo? Não podia concordar com aquilo.
– Evon?
– Sim? – ele se virou, pronto para ouvir a coisa mais terrível de sua vida.
– Você ouviu alguma coisa?
– Não.
Emma abriu a boca para falar alguma coisa, mas era tarde demais, já vomitava sangue nos pés de Evon, enquanto caía ajoelhada e então se contorcia de dor. Quando seu canhão soou e Evon olhou para ela, havia uma faca de arremesso presa em sua nuca.
Fale com o autor