Your Hunger Games VI - O Retorno Interativa
26 Evon Boyer & Mason Smith
Notas iniciais
Evon Boyer & Mason Smith
Enquanto Mason observava atentamente cada movimento dos tributos entrevistados, Evon assobiava algumas notas sem nexo algum, enquanto admirava a Academia, como se nunca tivesse ido para lá. Aquilo já estava irritando os ouvidos de Mason.
– Então está perto da mesa de doces. – ele escutou a voz calma e equilibrada.
– Claro. – concordou, se virando. – Não iria perder esse lugar privilegiado.
– Entendo – o rapaz concordou. – Mason, acho que você deveria cuidar desse machucado.
– Machucado? – ouviram os dois atrás dos ombros de Sanderson – Alguém falou em machucado? Que machucado? Deixe-me ver.
Era Jodie, sua babá desde que tinha chegado à Academia. Não sabia por que, mas aquela menina ficava grudada nele e em Sander. Em parte, era agradável que alguém se importava com seus ferimentos, em parte era terrivelmente irritante que esse alguém fosse Jodie Katsu.
Tinham formado a aliança no primeiro dia de treinamento, e Mason já estava tão familiarizado com os dois que poderia chamá-los de irmãos. Mas, como era de se esperar, ele tinha a consciência de que somente um sairia vivo da Arena, e com certeza Mason não iria deixar que fosse um deles, mas sim o próprio.
Jodie segurou forte seu braço, checando o ferimento que o fogo tinha causado. Ela olhou fixamente para o músculo, sem tirar os olhos, e então o largou, entediada.
– Não foi nada demais, logo vai passar. A ardência significa que ainda está irritado, pois isso não fique se esforçando demais.
– Claro, como se eu fosse sair por ai me pendurando em cordas somente com o braço direito e gritando: Sou o homem da selva.
– Se estivesse usando somente uma tanguinha eu até aprovava – Sander deu de ombros.
– Seu senso de humor é péssimo – Mason suspirou. – Por que só eles foram dar entrevista?
– Parece que são os queridinhos – Jodie olhou para o pequeno grupo de três meninas e três meninos. – E são bonitos. Tirando aquela menina ruiva.
– Achei ela linda. – Sander colocou a mão no queixo, virando-se para Jodie. Mason nunca sabia quando Sander estava sendo sincero ou provocando.
– Como? Olha aquilo, aquele laranja... É tão... Argh!
– Isso é inveja.
– Recalque. – Mason sorriu, mas quando recebeu os olhares significativos dos outros dois, encolheu os ombros – É uma gíria do meu Distrito.
– Bom – continuou Jodie – Eu estou muito feliz com meus cabelos escuros.
– Eles são normais demais. – Sander bocejou. De fato estava provocando-a.
– Se ela é tão boa assim, por que não vai lá falar com ela?
– Boa idéia – Sander pareceu iluminado pelo ar da graça.
– Era brincadeira – Jordie cuspiu as palavras no ar, com nojo.
– Eu sei – Sander sorriu.
º º º
Evon olhou para Emma, enquanto ela estava no sofá junto com os outros entrevistados. Conversava e sorria, de um jeito que não sorria quando estava com ele. Uma pontada de inveja apertou seu coração enquanto ele desejava faze Emma sorrir daquele jeito também. Ele olhou para as pessoas em volta dela. Charlie e Max. Os outros estavam conversando separados. Evon sentiu a presença de alguém ao seu lado e virou-se, rapidamente.
– Olá, amigo – escutou.
– Oi – respondeu, querendo ver quem era, mas a luz da Academia ofuscava o rosto.
– Evon, certo?
– Isso. E você?
– Sou Rudy, nenhum tributo, apenas um garoto do 14. Você é do 4, certo?
– Sim. – Evon então forçou os olhos na luz, enxergando vestígios de cabelos louros e um sorriso traiçoeiro e de criança arteira. Uma falha na sobrancelha esquerda, olhos azul-vibrante (parecidos com os de Emma) e braços cruzados sobre o peito.
– A Nathália também era. E o meu avô. – Rudy comentou – Mas você não se parecesse em nada com eles. – Giulia me disse que alguns de vocês não são bronzeados, e ela também não era, mas é muito raro encontrar um por aqui.
– Uhm. – emitiu Evon, não querendo soar irritado, mas sim sem interesse. – Quem é Giulia?
– Minha avó. – contou Rudy – Ela morreu vinte anos atrás.
– Quantos anos você têm?
– Quinze.
– E como sua avó contou isso para você?
– Ela era uma velha muito sentimental, sabe? Deixou junto com vovô um maço cheio de cartas que ela fez para a família. Assim que alcançassem alguma idade, ele entregava as cartas. Quando eu fiz oito anos, e aprendi a ler, ele me deu a carta dela. Ela me contou várias coisas sobre o Distrito 4. Era a paixão dela. Acho que era mais importante que o próprio 14.
– Duvido. Este lugar é o paraíso. – Evon suspirou.
– De fato é. – Rudy riu – Bem, não foi para falar da minha avó que eu vim aqui. Quero conversar sobre algo que eu notei em você. Digamos que eu sou muito bom com mentiras. E isso me faz muito bom em detectar mentiras. – Rudy piscou para o rosto atônito de Evon – Mas você, em particular, eu admito: Parece ser mais esperto que eu. E olhe que eu já enganei o Travis.
– Acho que isso é algo muito difícil, então. – Evon respondeu, ríspido.
– Claro que é. – Rudy se sentou ao seu lado, revelando seu rosto por completo. Era um garoto de aparência infantil. Tinha os cabelos louros, como Evon já tinha reparado, porém ele notou que do lado esquerdo as madeixas eram intercaladas com tons de castanho e preto. Era como se ele tivesse mergulhado os fios em lama, mas separando-os delicadamente. Os olhos muito esticados sempre que ele sorria ou franzia o nariz, eram azuis. Os cílios longos que deveriam invejar muito as meninas da Capital, que faziam de tudo para alongar. A sobrancelha esquerda, com a falha, também tinha uma cicatriz branca e fina, indo da pálpebra até a testa. Alguns pequenos machucados em seu rosto e no pescoço, ombros e braços mostravam que Rudy deveria ser um garoto muito elétrico e cheio de “aventuras” e traquinagens. – Sou a pessoa mais mentirosa do Distrito 14. Sou tão bom nisso que todos acham que eu sou somente um menino cheio de energia e traquinagens. Eles não desconfiam de nada.
– Realmente, isso é incrível. – Evon fingiu empolgação.
– Você é um tanto diferente quando não está com sua máscara de coitadinho e retardado.
– Máscara? – Evon uniu as sobrancelhas.
– Ah, vai me dizer que “Não, não uso máscara nenhuma, eu nunca mentiria por ser um psicopata e blá-blá-blá”. Meus olhos não mentem, Evon. Eu sei que isso é só fingimento. Aliás, eu estava no hotel quando tudo aconteceu.
– É claro que estava. – Evon suspirou – Foi você que me deu um tapa na cara e me mandou acordar imediatamente se não quisesse virar espetinho assado.
– Obrigado, eu sei que foi muito bom da minha parte me preocupar com meus amigos.
– Não sou seu amigo – Evon sibilou – Nem serei.
– Você me dá asco. – Rudy revirou os olhos claros. Com certeza aquilo tirava muitos suspiros de garotas. – Acontece que eu sei sobre você. Um dos tributos morreu durante o incêndio. Ele era do Distrito 8. Aparentemente ele era loiro e de olhos azuis. Tinha sobrancelhas arqueadas e um sorriso muito asqueroso. Digamos que Nathália julgou apropriado me colocar no lugar dele. Prazer, meu nome agora é Stephan Margaroth.
– Você vai tomar o lugar dele? Para a Capital?
– É. Muitos disseram que se eu não mostrar meus dentes irregulares ou o meu charme implacável eu conseguirei me passar por Stephan Margaroth. Mas eu prefiro ser Rodolf Vieira, ainda.
– O que isso tem a ver?
– Acontece que até mesmo uma criança de onze anos seria mais capacitada para a Arena do que todos vocês. E eu, digamos, sou aprendiz de Ethan. E ele é o “Mestre Supremo das Armas” no nosso Distrito. Ele será meu mentor. E acredite, eu não vou aturar gracinhas. Fui treinado para lutar desde os três anos de idade, eu sempre pensei que seria um mentor, algum dia, mas... Acabou que eu nasci para ser um tributo, e nada vai tirar isso de mim. Eu sempre sonhei com estar na TV, na verdade. – Rudy sorriu, mostrando o dente lascado – Que foi? Por que essa cara de espanto?
– Por que você está me contando isso?
– Porque eu julguei apropriado não esconder nada de meu companheiro de aliança.
– Aliança?
– É claro – Rudy se moveu, desconfortável – achou que eu vim aqui somente para te ameaçar prometendo uma morte lenta e dolorosa?
– Depois de seu discurso sobre como é habilidoso e mortal...
– Ah, isso. É apenas um detalhe – Rudy era realmente detestável, mas ao mesmo tempo muito divertido. Evon gostou dele. – Acho que sua amiguinha cabelo-de-fogo está vindo ai. Veja só como o meu disfarce é tão bom quanto o seu.
– Disfarce... ? – mas foi cortado com o som do sorriso de Emma. Sim. O Som do sorriso. Evon sabia identificar até mesmo o som de seu mover de lábios. Tinha ficado horas encarando-a, até entender como funcionava suas expressões. Quando estava triste, alegre, irritada ou desconfortável. Neste momento, porém, era um misto de desconforto e alívio.
– Achou um amigo, Evon?
– Amigo? – ele arrastou a voz, embriagado. – Não... Ele apareceu.
– Sei. – Emma colocou a mão em seu ombro – Prazer, Emma, Distrito 4.
– Eu sei – Rudy sorriu, mostrando todos os dentes que um dia já tinham sofrido com o impacto de algum tombo do menino – E eu sou Stephan Margaroth, Distrito 08. Você tem um cabelo bem chamativo! – ele exclamou, como uma criança muito empolgada.
– Ah, obrigada. – Emma ruborizou – Isso é apenas de família... Eu acho.
Evon cerrou os olhos. Nunca tinha visto Emma tão “menininha” antes. Era como se Rudy soltasse alguma substância no ar que tornasse as mulheres ainda mais sentimentais e moles. Como se ele tivesse o poder de amolecer o coração delas e entrar nele, se aconchegar e dormir lá para sempre. Evon não gostou disso.
– Eu estava aqui pra sugerir uma aliança entre nós.
– Claro! – Emma disse, sem nem pensar – Acho que Evon nem ligará para isso! Temos uma companheira, o nome dela é Rosalie.
– Sério? Ela é tão fofinha! – Rudy exclamou, quase pulando no sofá – Nem acredito que ela está na aliança!
– Sim. – Emma levantou o braço, pousando a mão nos cabelos louros de Rudy e os bagunçando, como se ele fosse seu irmão mais novo. Evon ergueu uma sobrancelha, ainda atordoado com tudo aquilo. – Você já tinha uma companheira?
– Minha amiga de distrito.
“Amiga de distrito”. Ninguém chama o seu companheiro assim! Evon queria fuzilar Rudy ali mesmo.
– E quem é ela?
– Minha irmã.
– Sério? Sua irmã está nos Jogos junto com você? – Emma demonstrou todo o seu sentimentalismo, enquanto acariciava agora com mais delicadeza os cabelos de Rudy. – Eu sinto muito.
– Não sinta muito. Você não tem culpa de nada... – ele afundou as mãos nos bolsos. – Mas pelo menos posso ter esperança de ganharmos os jogos juntos.
– Sim. – Emma concordou. Evon ficou tão irritado que quase gritou “Com assim você concorda? Se eles ganharem, significa que você morre!” – E onde está ela?
– Ah... – Rudy se virou – Molly! Venha cá!
Uma garota se levantou de um sofá mais ao canto e largou um cobertor, enquanto ia correndo para os braços do irmão (ou que diz ser irmão), ela o abraçou carinhosamente e então enterrou o rosto no peito de Rudy.
– Ora, não seja tímida... Dê oi para a nossa amiga de aliança.
A menina se virou, com as bochechas ruborizadas e a ponta do nariz vermelha – O-Oi – sussurrou e então voltou a se esconder em Rudy, como se ele fosse seu herói e pudesse salvá-la de qualquer monstro que se escondesse embaixo da cama.
Emma quase enfartou de tanta alegria (ou excitação) enquanto acariciava os cabelos de Molly.
– Vocês são tão parecidos... E tão diferentes. Molly é bem mais tímida.
– E eu sou muito sem-vergonha. Eu sei, papai vivia dizendo isso – Rudy sorriu.
Molly tinha os cabelos louros e finos, com um movimento incrível que os tornava meio-cacheados. Diferente de Rudy, ela tinha o nariz arredondado, mas os lábios finos como uma linha. Seu rosto era mais redondo e os olhos maiores. Era azuis, que nem os o irmão, mas talvez só isso fosse igual, pois ela não tinha as madeixas pintadas de lama. Ela parecia ter doze anos, e Evon não se lembrava de nenhum par de irmãos com idades tão baixas.
– Molly pode parecer baixinha demais, mas ela tem 14 anos. Eu tenho quinze. Somos bem ligados – Rudy comentou, encarando os cabelos da irmã.
– Acho que preciso ir ao banheiro – Emma suspirou – Você pode cuidar do Evon para mim?
– Claro – Rudy sorriu – Ele não fez nada muito estranho, até agora.
– Ele está mais calmo, é verdade – Emma olhou para o menino – Fique aqui, ouviu?, volto logo.
Evon assentiu, um tanto envergonhado, mas deixou que Emma fosse. Rudy soltou uma gargalhada e então tirou os braços de sua irmã.
– O que foi isso? Você é um bebê por acaso?
– Bom, pelo menos ela cuida de mim.
– É. – Rudy concordou – Menshy, não se preocupe, ele sabe de tudo.
Mensh tirou o rosto do peito de Rudy, com um sorriso sádico, quase assustador.
– Ora... Então esse é o mentiroso de quem me contou?
– Exatamente – Rudy colocou as mãos sobre os ombros de Menshy – Menshy é minha irmã de verdade. Somos filhos de Mensh Benlieve, a mentora que ficou encarregada do raciocínio. E acho que já conheceu nossos primos Dairo e Andy. Eles são uma dupla muito boa, é verdade, mas nada comparado á nós, não é verdade, Men?
– Sim. – Menshy sorriu. – Eu e o Rudy já desarmamos Nathália Polônia, a Chefe dos Mentores. E digamos que isso é bem difícil.
Evon logo reconheceu o humor estranho que Rudy tinha. Deveria ser algo de família.
– Você tem o nome da sua mãe?
– Exatamente. – Menshy concordou com um meneio – Mas meu primeiro nome e Morgana, Menshy é meu nome do meio. Além de ter um Y no final, enquanto o de minha mãe é somente Mensh.
– Aqui no nosso distrito levamos a pronúncia dos nomes muito a sério. – Rudy colocou as mãos na cintura – A menina do Distrito 08 também morreu, ela, aparentemente, estava tentando acordar o irmão e quando viu o fogo na porta do quarto, e não quis pular das janelas, se trancou no banheiro junto com ele e lá morreram. Ela era loira, mas não tinha nada parecido com nenhuma outra menina do Distrito 14. Por isso decidiram colocar a minha irmã mais nvoa, pois assim iria parecer mais que somos os verdadeiros tributos. Sabe, não é a primeira vez que um tributo se machuca aqui. Por isso nós temos um método muito bom: Nós clonamos os corpos e colocamos somente a alma dentro do corpo. Mas aparentemente a arena deste ano exigirá um corpo de verdade, por isso... Temos de ir pessoalmente – Rudy olhou para Menshy – Vou proteger minha maninha, enquanto ela me protege.
– É óbvio que vamos ganhar – Morgana suspirou – E não fique me chamando de Menshy, não gosto desse nome. Sou Morgana, ou Molly. Meu nome de tributo é Molly Margaroth, não se esqueça disso.
– Posso te chamar de Megie? É a junção de Morgana e Menshy.
– Está bem... É melhor que Molly, pelo menos. – Morgana encarou Evon – E você vai ficar ai, sem dizer nada? Que chato.
É que Evon não sabia exatamente o que dizer. Aqueles irmãos lhe pareciam muito mais ligados a fidelidade do que a fraternidade, como deveria ser.

Rudy
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