Your Hunger Games VI - O Retorno Interativa
6 Evon Boyer
Notas iniciais
Evon Boyer
Avril Lavigne (Versão Masculina) — Everybody Hurts
– E então eu comprei somente o arroz, por que as moedas eram insuficientes para o açúcar... – Evon contou.
Lupi abanou a calda, como se entendesse exatamente o que ele queria dizer. Enquanto Evon contava o resto de seu dia, o lobo manso e muito paciente escutava tudo com atenção. Era como se ele pudesse sentir a mesma dor escondida na voz do menino. Enquanto se deitava na relva, lambido pelo vento e abraçado pelos últimos raios solares, Lupi ouviu profundamente, tocando o coração de Evon.
– Eu sei, você também sente falta dela.
O lobo se aconchegou na perna de Evon.
– Ela... Eu prometo que não vou deixar eles caçarem você também – Evon sorriu, acariciando o amigo fiel.
Normalmente Evon fazia isso, ele ia até a floresta do Distrito 4 (não era uma floresta, era mais a fronteira entre o Distrito e outro que ele não tinha se dado ao trabalho de saber. Talvez fosse o três ou cinco. Tanto faz. Evon não tinha estudado na escola do distrito (a escola pública) e nem queria. Morava com Cassidy, embora quisesse sair da casa dela. A tia era muito amigável e talvez sua única amiga humana, mas ele não conseguia nem pensar que estava vivendo as custas da tia.
Lupi tocou o focinho molhado, úmido e muito quente, na coxa de Evon, e o menino sorriu, acariciando a parte de trás das orelhas do lobo e se sentando na relva, enquanto Lupi subia em seu colo e se deitava. Eram amigos de longa data. Antes Lupi tinha uma companhia, mas agora ele era sozinho, pois os caçadores do outro distrito vizinho ao de Evon tinham caçado-a.
Evon suspirou, se deitando na relva, e sentindo o lobo de acomodar junto ao seu corpo. Ele era aquecedor, e por alguns segundos quase adormeceu. Estava cansado. Tinha trabalhado o dia inteiro e de noite teria mais um serviço no bar do Distrito. Ele se desdobrava para conseguir sustentar Cassidy, ele, e de vez em quando comprar um presente para Lupi.
– Hoje não consegui nada... – Evon se desculpou.
O lobo bufou, como se dissesse “Isso não importa, você veio me ver, isso que é importante.”. Evon conseguia sentir que aquele lobo era uma parte muito importante da história da humanidade. Ele era a evolução de algo. Era... Simplesmente importante. Lupi era muito mais que somente um lobo, ele era uma modificação da Capital. Tinha sido modificado geneticamente para ser um assassino cruel. E mesmo assim, era muito mais educado, manso e amigável que muitos seres humanos.
– Já vai escurecer. Devo ir trabalhar.
Lupi deu espaço para que Evon e levantasse e então olhou para a Lua que começava a subir pelo céu. Tudo ainda estava claro, mas ela já era visível.
– Eu volto amanhã. – disse sentindo a dor evidente.
O lobo se aninhou novamente em sua perna.
– Queria poder levá-lo para casa, mas tia Cassidy não aceitaria.
Lupi subiu pela cerca, com habilidade (ele fazia isso desde que era um filhote) e pulou para o outro lado. Saiu correndo, deixando o amigo humano para trás.
Sentindo-se tão só quanto um leproso, Evon continuou a caminhar pela relva, indo em direção ao píer do Distrito 4. O píer era longo o bastante para cortar mais da metade do centro da cidade, por isso alguns optavam por ir por ele. As ondas estavam agitadas hoje, o frio era cortante, enquanto todos se agasalhavam. Embora fosse raro o inverno chegar no Distrito 4, ele chegava. Normalmente os habitantes não estavam preparados para ele. Mas nesse dia todos andavam com casacos, pois já faziam dezesseis dias que só faltava cair neve. As conchinhas presas entre o vão da madeira do píer brilhavam, enquanto recebiam os últimos raios solares do dia. Com as mãos no bolso do casaco, Evon começou uma caminhada lenta em direção a Igreja Católica, que servia para vender casacos e guarda-chuvas, e alguns chaveiros. A Igreja era algo mantido depois da destruição do Distrito, na Revolta de cem anos atrás. O único edifício que tinha restado. Não que fosse abençoado, mas sim por que estava num local bem refugiado do Distrito 4.
Embora esse não fosse um dos dias que ele ia até a praia para se libertar do estresse, logo sentiu as lágrimas rolando. Ele sofria, e a praia era um lugar muito melancólico, ainda mais quando e anda sobre um píer quase caindo aos pedaços num começo de noite e num inverno frio e ventoso. Não sentia raiva, porém. Somente uma vontade incontrolável de se matar. Mas é claro que não faria isso. Tinha de ajudar Cassidy e Lupi.
Caminhava com o coração palpitando fortemente. Olhou para as ondas verdes e azuis, quebrando perto da costa das pedras. Sorriu, sentindo a brisa e a maresia tomando-o num abraço demorado. Amava a praia, embora nunca viesse de dia. Tinha horror de ficar queimado pelo Sol, já que sabia como ardia.
Como sereias, as ondas cantavam, enfeitiçando-o num ritmo maníaco e sem muito compasso. Num espasmo, ele sentiu os pés dentro dos sapatos se contorcendo, eles estavam impacientes. Os tirou de lá, completando com o casaco e também tirando a blusa de manga comprida que usada por debaixo. Somente com mais uma camiseta normal e a calça do moletom, ele sentia o frio realmente atingi-lo. Ele respirou fundo, inundando o pulmão de um aquecedor ar.
A visão doentia do sangue de sua mãe espalhado pelo chão da cozinha apareceu, como sempre acontecia quando ele estava tentando se acalmar. O pai, sentando com uma mão na faca e a outra nos cabelos ensaguentados de mamãe. “Não fui eu, eu juro”. Jurar não iria trazer nada de volta, não iria mudar o que ele vira. Era certo que o pai tinha feito isso, pois não era ele o homem doente, bêbado e violento que sempre batia na mulher quando chegava em casa? Que não trazia um centavo para a família ou desonrava o casamento sendo infiel?
Respirando fundo, e sem consciência disto, Evon se lançou ao mar.
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