Your Hunger Games VI - O Retorno Interativa
8 Ethan Grason
Notas iniciais
Ethan Grason
Ele segurou fortemente o pedaço de pano, enquanto a mãe tratava de puxá-lo para o outro lado. Papai estava com a tesoura em mãos, pronto para cortar a parte que sobrava. Quando tudo foi concluído, mamãe sorriu e agradeceu gentilmente. Ela, todos os anos, inventava de fazer ternos novos para Ethan no dia da Colheita. “Fazer em cima da hora sempre livrou seu pai da Colheita e no ano de Jeete eu não costurei”, ela dizia como se fizesse mais sentido que o mundo inteiro.
A Colheita iria começar dali oito horas, e como eles eram a única loja da cidade que vendia ternos de boa qualidade, tinham de virar a noite cumprindo pedidos de clientes. Papai sempre aumentava o preço, e essa era a época mais rentável do ano inteiro. A loja normalmente saía do vermelho quando chegavam os Jogos. Mas este ano os pedidos estavam menores. A maioria das pessoas se preparava para partir, e algumas já estavam a caminho do Distrito 14. Enquanto via o corre-corre do lado de fora da loja, Ethan se sentia mais culpado. Uma hora dessa era pra eles estarem correndo como os outros, com as portas da loja fechadas e com as malas prontas.
– Não fique perto demais da janela, vai pegar um resfriado. – mamãe lhe cobriu os ombros com um cobertor quente.
– Mãe... – ele se virou para a mulher, tocando os fios de cabelo castanho avermelhados. – Você está passando isso por minha culpa...
Mamãe sorriu gentilmente, como era costumeiro dela.
– Que nada, querido. – ela tocou as bochechas dele – Você sempre será meu menininho, qualquer culpa sua será minha responsabilidade. Mas me diga, por que se sente culpado?
– Porque todos estão indo embora, mas nós estamos ficando.
– Bobagem – mamãe tocou-lhe no ombro, intensificando a sensação de estar diminuindo ao passar dos anos, ou seu filho aumentando. – Você não fez nada de ruim, Ethan, você é meu orgulho.
Ethan não resmungou, mas sabia que não era motivo nenhum de orgulho.
– Agora vá dormir, a Colheita começa de manhã e você precisa estar bem disposto.
Ele concordou com um meneio. Mesmo que irritado, Ethan pegou no sono facilmente, dormiu atrás da loja, num escritório que era do pai. O escritório nunca tinha sido realmente usado como estava sendo agora. Papai estava atarefado, enquanto tentava tomar conta da loja, dos clientes e ainda dos e-mails que recebia de um tal “CR”.
Quando acordou, o Sol já tinha saído, e quase não se via pessoas no Distrito, a maioria tinha ido embora. Quando foi para o banheiro, Ethan escovou a pele como se ela estivesse suja de lepra, queria se livrar daquela queimação chamada “Culpa”. Uma culpa que ele certamente não tinha. Quem poderia escolher o ano do nascimento? Quando colocou o terno e se viu no espelho, suspirou. A barba já crescia, e ele estava maior que o pai. O terno que mamãe costurou era cinza e com botões em marrom, davam um aspecto de alguém bem mais velho, o que o irritava um tanto. Ethan nunca se viu como alguém velho.
– Está lindo, querido. – ela sorriu, do seu jeito gentil de sempre, enquanto o conduzia para a porta da loja. – Vá com Deus.
– E vocês fiquem com Ele. – Ele desviou os olhos. Tinha deixado de acreditar em Deus há muito tempo.
Indo para o centro do Distrito, Ethan percebeu as crianças todas andando de cabeça baixa, como se compartilhassem a mesma culpa que ele. No lugar dos espectadores da Colheita (onde normalmente ficavam os pais e outros moradores do Distrito), estava quase deserto. Somente as crianças tinham ido, os pai logicamente estariam fazendo as malas em casa. Mas uma das família não iria para o Distrito 14 completa. Ethan olhou novamente em volta. Doze criancinhas de 12 anos, umas cinco com 14, 2 com 15 e 2 com 17. Tão poucas que o Distrito parecia ter algum problema em relação à quantidade de filhos.
Demorou cerca de quinze minutos até que o representante da Capital subisse ao palco e se colocasse ao lado do Prefeito Wood e da Líder-Pacificadora Ester. Após um cansativo pronunciamento do evento, o representante tomou o lugar ao microfone e fez seu discurso, ainda mais cansativo. Talvez ele ainda não tinha notado a quantidade de pessoas que estavam lá para ouvi-lo, mas quando chegou ao fim, desenrolou o vídeo que novamente custou mais cinco minutos da manhã. A Colheita tinha começado às oito, mas só estava terminando às oito e quarenta.
– Agora, vamos ao sorteio! As meninas primeiro! – ele andou até a urna com os nomes das meninas. Tinham sete papeis lá dentro. – Charlie Belcourt! Charlie, está ai? Belcourt, senhorita Belcourt?
Uma tensão forte surgiu sobre as meninas de treze anos, e todas elas olharam para o representante, como se estivessem fazendo alguma arte. Ethan notou a garota que estava sendo mantida sobre os pés da algumas.
– Onde está Charlie Belcourt? Não está ai, meninas?
– Aqui não tem nenhuma Charlie. – uma loira gritou, ela tinha dezessete, e normalmente um ar de quem entendia das coisas. Era a filha do Prefeito.
– Nem aqui – outra ergueu a mão, era a filha do açougueiro mais popular do Distrito.
– Muito menos aqui – uma das garotas entre doze anos disse.
O representante coçou o queixo e pediu algo para a Líder-Pacificadora, e a mesma desceu o palco e pegou o livro de registros das tributas. Todas começaram a sussurrar coisas do tipo “E agora?”. Quando o livro chegou as mãos do homem, ele o abriu e procurou pelo nome, até achá-lo.
– Aqui registra que Charlie Belcourt está fazendo parte desta Colheita. E ela tem treze anos, é ruiva e faz parte de uma família da Elite. Por favor, Pacificadores, encontrem Charlie Belcourt. Enquanto isso, vamos sortear o menino. Por favor, quero a atenção aqui... Suba ao palco, por gentileza, Senhor... Ethan Grason.
Ethan recebeu o choque de imediato, e enquanto os outros meninos abriam caminho para ele, Ethan começava uma lenta caminhada para o palco. Mas se lembrou de Jeete e, com relutância, levantou a cabeça e andou como se tivesse tudo ao seu poder. Ele não iria pagar de mariquinha ou de covarde na frente de todos, sujar o nome de sua família. Mesmo sabendo que era um covarde.
Quando chegou ao palco, após subir as intermináveis escadas (quando se está em pânico, as escadas parecem aumentar), o representante repetiu seu nome, enquanto olhava o tempo todo para o meio das meninas.
– Ethan, é verdade que já houve um outro tributo na sua família?
– Isso. O nome dele era Jeete, e ele tinha quatorze anos quando chegou aos cinco sobreviventes.
– Sim, eu me lembro – o representante sorriu. – Jeete Grason, o menino que conseguia fazer armadilhas somente com um pedaço de folha, excelente tributo, é verdade. Uma pena sua morte prematura.
– Vou vingar seu nome – Ethan encarou as câmeras.
O representante pareceu animado com sua atitude.
Mas um grito desesperado tirou todo o foco da atenção que lhe era concebida. Um emaranhado de cabelos ruivos foi lançado para cima, enquanto se debatia nos braços do Pacificador. A menina, que por obra do destino era a única ruiva ali, estava desesperada, enquanto chorava e esperneava. Talvez o choque tivesse sido grande demais para ela.
Quando foi colocada ao lado do homem da Capital, parou de se debater, mas inda chorava baixinho.
– Qual seu nome, queridinha?
– Charlie...
Sussurrou como se fosse seu último respirar.
)
Charlie Belcourt
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