Notas iniciais
Aquele capítulo que você acha ser clichê demais mas mesmo assim quer mordê-lo...

Ethan Grason

Ethan ouviu a multidão rugindo e todas as câmeras virando para o começo da fila de Carruagens. Ele era da terceira Carruagem. Talvez nem precisasse olhar para os telões para entender o que estava acontecendo, pois tudo ocorria bem na sua frente. Mas mesmo assim ele rolou os olhos para eles. Brilhando e reluzindo nas roupas brilhosas que refletiam a luz de uma maneira estratégia para parecer pó de ouro, Max (o parceiro de Nora que ele ainda não tinha tido o prazer de conhecer) e ela estavam aos beijos. Ok, tudo bem, não aos beijos, mas ao beijo. Um beijo tão demorado que ele duvidou que Noralinne realmente estivesse surpresa, como seus olhos esbugalhados diziam.

Ela não recuou ou o empurrou. Ethan sabia que a força de Nora era superior a de muitos e que talvez ela pudesse estar no mesmo nível de Max, então não entendeu porque ela não se desvencilhou. Uma resposta, porém, mesmo que ridícula, martelava em sua cabeça. Ela gosta disso. Ela está gostando. É por isso que não quer parar, é bom. E você é um péssimo parceiro de aliança deixando sua aliada aos beijos com esse daí. No princípio não entendeu por que estava pensando daquele jeito, como se ser companheiro de aliança de Noralinne fazia dele seu “defensor e fiel escudeiro”, mas de um jeito sentia que precisava ajudá-la.

Sentiu o olhar ligeiro e a testa coberta por cachos ruivos virando em sua direção, olhando para cima, para ele, e com um sorriso brincalhão nos lábios.

– O que foi, Charlie? – perguntou para a menina.

– Vai lá.

– O quê? – ele ergueu uma sobrancelha, surpreso, o que era muito raro, pois Ethan não se surpreende facilmente.

– Vai lá. – ela repetiu, mas desta vez completou – A sua namorada está sendo beijada por outro cara, vai lá.

Ele a encarou, perplexo. Enquanto isso, nos telões, Noralinne estava ruborizada e completamente parada. Paralisada ou de pânico ou de surpresa. Ethan torceu os dedos dos pés, desejando que fosse a primeira alternativa. Enquanto olhava hora para o telão, hora para Charlie, Max já tinha tomado coragem para roubar mais um beijo de Noralinne (que estranhamente ainda não tinha se movido). Ela quer isso. Deixa ela. Afinal eu não preciso me meter na vida amorosa dela. Ethan pensou, enquanto desenhava círculos com os dedos na pequena mão de Charlie, que olhava para a cena na Carruagem da frente com olhos admirados. Ethan não entendeu porque ela estava admirada, mas seus olhinhos verdes brilhavam.

– Veja, ela está correspondendo! – Charlie se arqueou para frente, tentando ver mais.

– Como? – Ethan soltou sua mão, enquanto também se arqueava. Diante de seus olhos, com os cabelos antes lisos e arrumados e agora bagunçados e enrolados na grande mão de Max, Noralinne estava agarrando-o, com uma mão em sua nuca e a outra em suas costas. Ele também a envolvia. Era visível que estavam tendo um beijo sério.

Os ouvidos de Ethan foram tomados pelo rugido das pessoas, que estavam muito excitadas e eufóricas.

– Se eu fosse você, não deixava – Charlie puxou o braço de Ethan, fazendo-o se desconcentrar de Nora.

– Não deixava o quê?

– A sua namorada ficar se beijando com esse ogro ai.

– Deixa ela. A vida é dela, ela sabe o que fazer.

– Você diz isso que nem aqueles garotos que estão mortos de ciúmes e mesmo assim querem fazer “a coisa certa” e no final acabam se declarando, mas quebram a cara pois o coração da menina já foi entregue nas mãos do outro rapaz.

– Desde quando você é meu cupido? – ele se irritou, ficando vermelho.

– Não sou seu cupido. Mas se você quiser encarar desse jeito... Então realmente está apaixonado por ela. Minha teoria estava certa. Obrigada, Ethan Grason.

– Você nem parece uma pirralha de doze anos...

– Eu vivi em volta de garotos. Eles sempre se declaravam para as meninas e sempre voltavam chorando. Acha que eu só fui cupido de você? Agora ande, tire essa bunda mole ai de hibernação e vai logo buscar sua Bela.

– Bela?

– Nunca ouviu falar em a Bela e a Fera?

– Ah, sim. E-Espera, por que eu sou a Fera?

– Vai logo, Ethan Grason!

Ele arregalou os olhos, mas antes que pudesse raciocinar, já estava pulando para fora e sua Carruagem, que ia lentamente atrás da de Noralinne. Enquanto corria para chegar lá, ele sentiu o mundo ficar em câmera lenta, depois seu coração acelerado ficar mais perceptível dentro do peito e logo depois suas pernas queimando. O impacto com o chão tinha sido duro e ele ainda estava com o calcanhar reclamando. Quando alcançou a Carruagem Dois, percebeu que teria de arriscar um pulo muito complicado. Embora não estivesse se movendo muito rápido, seria necessário habilidade para subir naquilo. Ainda mais com um casal aos beijos ocupando mais da metade do espaço feito somente para duas pessoas, uma ao lado da outra, de dois palmos de distância.

O beijo estava quente, estava realmente quente. Era como se o corpo de Max tivesse simplesmente definido na mente dele que conseguiria ocupar o mesmo lugar que Noralinne. Enquanto a envia e deslizava suas mãos pelas costas dela e os braços da menina se envolviam em seu pescoço. Ele a levantou, como se não tivesse peso nenhum, e então começou leves beijos pela pele do pescoço de Nora.

Ethan conseguiu segurar em um enfeite da Carruagem. Enquanto isso as pessoas ao seu lado da arquibancada estavam xingando-o e pedindo para que ele não interrompesse a cena. Como se ele fosse idiota o bastante para deixar que Max se aproveitasse de Nora. Ele não está se aproveitando, ela é que deixou. A voz em sua mente estava realmente destinada a irritá-lo para sempre, mas ele não se deixou convencer desta vez. Já estava lá e conseguia ver os olhos de Charlie brilhando, como se ela tivesse esperado aquela cena a vida toda.

Uma lata de refrigerante atingiu o alto de sua sobrancelha, e uma dor tremenda tomou conta de Ethan, enquanto ele tomava impulso e colocava um dos pés na Carruagem. Segurando-se somente com uma das mãos, ele usou toda a força para colocar o outro lado do corpo lá dentro. Neste instante todos já tinham parado de gritar com ele e uma ansiedade tomava conta do público. Eles seguravam a respiração, esperando para ver o que Ethan faria a partir dali. Já estava na Carruagem, confere. Agora tinha de tirar o grandão de cima de Nora. Isso era um problema. Embora fosse alto, Ethan sabia que era, Max tinha cerca de treze centímetros a mais que ele.

Aquilo realmente ficou assustador.

Não sabia se estavam torcendo por ele, ou somente esperando a surra que levaria de Max, mas assim que tomou conta de si, ele olhou para trás, para Charlie, que estava totalmente equilibrada em cima da borda da Carruagem, arqueando o corpo para frente sem medo de cair.

Ethan sabia que ela cairia caso não voltasse para trás. E sabia que Noralinne não teria mais forças para impedir que aquilo continuasse. Ethan foi tomado por aquele sentimento que até hoje não sabe explicar, algo em sua garganta entalava e ele não conseguia raciocinar direito. Tinha de parar Charlie, mas tinha de parar Nora também. Um segundo poderia significar um rosto totalmente deformado e esfolado ou um coração apaixonado. Ethan tentou pesar qual doeria mais, e no fim teve certeza de que a balança estava equilibrada. Ele nunca tinha sido muito bom no amor, mas sabia que era algo devastador.

Se odiando, ele virou na direção de Charlie, gritando por cima do barulho dos cavalos, que estranhamente tinham diminuído o passo, como se estivessem dando tempo para a pequena cena entre a Carruagem Dois e Três.

– Charlie! Saia daí agora! Você vai cair!

Em uma novela normal, Charlie não ouviria o que Ethan tinha dito e ele seria obrigado a deixar Noralinne para salvar a pequena. Mas, como aquilo não era uma novela (graças a Deus, pensou Ethan), Charlie escutou e logo voltou para o chão da Carruagem, obediente. Ethan agradeceu-a mentalmente. Ela realmente tinha livrado-o de talvez cometer o pior erro de todos. Ou não.

Agora o problema era outro: Max.

Algumas pessoas encontram grandes barreiras na vida. Eu mesmo já encontrei muitas afrontando minha personalidade independente. Mas com certeza aquela era a primeira barreira que Ethan enfrentava que era literal. Max era uma barreira tremendamente grande, e não era possível simplesmente saltá-lo ou dar a volta.

Tentando raciocinar, em vão, ele deixou o pensamento de lado e deixou que o calor do momento e a adrenalina o comandassem como tinha feito quando ele pulou da sua Carruagem. Sentindo que seu braço se levantada, pensou que agarraria o ombro de Noralinne a puxaria com toda a força contra ele e a tiraria das garras de Max. Mas ao contrário (e talvez pior) que isso, ele deu um soco forte e preciso no nariz de Max, sem machucar ou encostar um dedo em Nora, que, abobadada, cambaleou para trás, em direção a seu peito. Ele não estava disposto a carregá-la como uma princesa, tinha coisas mais importantes com que se preocupar, como um ogro boxeador transbordando em raiva enquanto acariciava seu nariz.

Ethan teve certeza que era seu fim, e logo sentiu as pernas tremendo, o corpo estremecendo e aquele gosto metálico na boca. Vômito, sangue, ele não sabia. Mas com certeza estava mordendo o interior da bochecha com força.

Se não fosse pela gritaria que todos começaram a entoar ou pelos gritos de seu nome, talvez Max realmente o tivesse matado antes dos Jogos começarem. Mas não. Ele não tinha feito nada. Quando ouviu que a Capital inteira clamava pelo “herói improvável” que era Ethan, ele somente desceu da Carruagem, continuando resto do trajeto a pé. Ethan não se lembrou de muito do resto da noite, estava abalado demais. Do mesmo jeito que Nora, que nem ao menos olhou para ele. Quando percebeu, já estava de volta ao Hotel dos Tributos, e Noralinne já tinha subido para seu quarto. Não sabia se sentia ódio, compreensão ou os dois juntos.

Notas finais
Espero que tenham gostado! E peço desculpas pelo capítulo passado, deu um bug no Nyah... Boa noite.