Notas iniciais
500 Reviws! Oito Recomendações! 22 Leitores! 11 Favoritações! :3 Amo vocês!

Charlie Belcourt

A felicidade é uma limitação ao Ideal” – Vicente Avelino

Não teve como não notar o jeito intenso como os olhos de Austin se moviam. Era incrível que ainda estivesse vivos, era incrível que ainda estivessem inteiros. Quando colocou a mão sobre o próprio joelho, Charlie percebeu o quanto aquilo valia. Era a vida, pensou, uma menina de doze, talvez treze, ela nem fazia mais questão de saber a própria idade, ainda estava viva, tendo como arma apenas sua vontade de viver.

Aquilo era cruel.

Afinal ela morreria uma hora.

Por que estavam fazendo isso com ela? O que teria feito para ainda estar ali? Soltou o ar rapidamente, sentindo a pele ser consumida por aquele musgo e pegajoso líquido negro que se formava através da terra negra. Lama ou lodo, não sabia, estava transformando a terra e não havia lugar para se firmar. Tentou agarrar-se a lápide mais próxima, porém foi empurrada para longe, em direção a fronteira onde os mortos-vivos estavam observando. Os outros tributos também estavam sendo empurrados, mas lutavam. E ela resolveu lutar também. Embora fizesse alguns minutos que se separara de Austin, sentia como se fizesse meses, ou anos, e de repente notou que estava lutando por ela, e não por ele. Isso a fez querer ainda mais viver. E de repente agradeceu pela sorte estar a seu favor.

– O Mausoléu! – ouviu algum dos tributos gritar. – Vamos para o Portão!

Talvez seus reflexos e sua força foram mais colocadas do que de qualquer outra pessoa, pois foi a primeira a se mover. Quando esticou o braço e sentiu as pernas se rasgarem naquela lama, foi como nascer de novo, e logo estava firme no portão, abrindo-se e a sugando para dentro dele. Caiu num rápido escorregar, enquanto não conseguia ver luz no final daquele túnel.

Austin teria conseguido alcançá-lo também?

º º º

Não.

Não.

Não.

Charlie! – sentiu que a seguravam pelos ombros, tentando acordá-la, mas ainda estava vendo a hora em que Austin fora puxado pelos mortos-vivos até sumir dentro do rio negro. Era assustador. Era devastador. Seu aliado... E ela não fez nada além de salvar a própria pele. – Charlie! – mas quem mais estaria gritando seu nome na Arena? Quem mais se importaria além dele?

– Ela não vai resistir... – ouviu a voz de menina, enquanto o vento fazia as palavras se afastarem. – Ela... Olhe! Rudy, olhe!

– Sim, sim!

Charlie abriu os olhos, esperando por ver Austin. E o viu, mas logo se transformou em cabelos louros, olhos azuis pálidos e um sorriso de dentes desalinhados. Atrás do ombro do menino, estava outra loura, de tranças, com os mesmos olhos pálidos e o sorriso desalinhado. Mas ela tinha sardas quase invisíveis, que fez Charlie querer contá-las.

– Que bom que acordou... – o garoto roubou sua atenção novamente, abraçando-a com força. Charlie não escondeu seu gemido de espanto. E então a beijou, encostando levemente os lábios finos nos grossos e macios de Charlie. Corou, ruborizou, queimou, sentiu seu coração quase estourar no peito. Quando ele saiu de perto, levou um belo soco de sua irmã (Charlie achou que eram irmãos, afinal eles se pareciam muito). – Charlie... – ele disse, com todas as sílabas fazendo melodia. Ela não pôde evitar o rubor, mais uma vez. O que tinha dado com aqueles dois? Onde estava Austin? Austin!

– Austin, onde? – ela virou-se rapidamente, sentindo a cabeça começar a doer.

– Não se preocupe, Charlie, vamos achar o seu aliado. Agora descanse... Foi difícil te tirar do meio da terra sem que fosse pisoteada pelos outros. – o menino sorriu.

– Você... Você me salvou?

Ele a encarou, enquanto um leve rubor subia por suas bochechas.

– A-Ah, mais ou menos. – passou as mãos pelos cabelos, nervoso. – Embora você ficasse exclamando Austin o tempo todo...

– Pare com isso, Rudy! – a menina lhe deu outro tapa na cabeça, enquanto se virava para Charlie, que se mantinha no espanto e na curiosidade. – Meu nome é Morgana. Você deve me conhecer.

– Desculpe. – Charlie encolheu os ombros. Morgana pareceu um tanto quanto irritada e surpresa por não ter sido reconhecida. “A segunda maior nota dos treinos! Essa menina é cabeça de ventos ou... Rudy! Eu te mato!”.

– Tanto faz. – Morgana exibiu um sorriso forçado – Estávamos de olho em você nos treinos. É muito habilidosa para uma garotinha da sua idade.

– Você tem a minha idade. – Charlie notou.

Morgana engasgou, como se aquilo a tivesse atingido como um soco na garganta. “Mas eu não nasci num distrito qualquer, eu nasci no 14!”.

– Ah, é mesmo... – ela sorriu, cada vez mais seu sorriso ia diminuindo e se tornando num rasgado.

– Ignore Morgana, ela tem ciúmes de mim. – Rudy tocou gentilmente as bochechas redondas de Charlie, virando seu rosto para encará-lo. – Me segurei tanto para não pedir você em aliança logo no começo... Mas Molly não deixou.

– Morgana! Morgana! – a menina loura gritou, mas foi ignorada.

– Eu senti tanta necessidade de te proteger...

– Você está me confundindo – Charlie tirou a mão do garoto de seu rosto. – Não sou a Charlie que você pensa. Deve estar com algum problema na mente ou...

– Eu disse, Rudy, ela não vai se lembrar da gente, é impossível. Uma menina tão avoada não merecia nem nossa misericórdia. Mate-a.

– Não. – o garoto respondeu, forte.

– Como não? Eu digo para matá-la e você vai matar! Agora!

– Não.

– Não ouse me desafiar, Rudy, eu mesma mato se você estiver apaixonado.

– Não estou apaixonado – ele disse, ainda mais forte do que a primeira palavra.

– Então a mate!

– Cale a boca, Morgana!

Morgana o encarou, enquanto seus olhos juntavam lágrimas suficientes para começarem a escorrer pelo rosto claro e abalado. Ela tocou as próprias bochechas, dando leves tapinhas, numa tentativa falida de recuperar a postura. Por fim, enterrou o rosto nas mãos e soluçou. Seu irmão não olhou para trás.

– Não entendo o que está acontecendo... – Charlie começou.

– Nem eu – Rudy sorriu, desigual e muito compreensivo. – Mas você vai viver.

– Obrigada.

– Não me agradeça. Agradeça á ele. – Rudy lhe entregou um bilhete, que deveria ter vindo junto com uma dádiva.

O laranja é a cor que mais queima no coração de uns. Mas o vermelho é como um incêndio num rio de água doce. Não é possível, não tem como pará-lo. Se nem a água consegue, então o que faremos? –Ethan

– Nosso mentor acha que é melhor recrutarmos você. – ele resumiu.

– Mas... Você me beijou.

O garoto soltou uma risada fraca.

– Tenho de conhecer minhas aliadas. Ou acha que nunca beijei minha irmã? Você é uma criança, Charlie – ele acariciou os cabelos ruivos dela – Uma criança que queima no rio de água doce.

Manteve os olhos nas mãos, sujas de lama.

O Sol era quase íntimo, adentrando em sua pele e a aquecendo. Nenhum sinal de nuvens naquele céu tão límpido. A brisa de verão era algo surpreendentemente puro e o aroma de flores do campo invadia a relva e percorria até a respiração de Charlie. A grama era macia entre seus dedos, enquanto podia sentir a umidade. O lago estava logo a frente, cristalino e vívido, com um vermelho tão forte quanto os cabelos de Charlie. Ela encarou aquilo, até perceber que não era a cor normal das águas, mas sim um reflexo. Mais ao longe erguia-se uma muralha vermelho-entardecer, que no Sol conseguia brilhar tanto que parecia que tudo sumia, e somente aquele vívido castelo permanecia intacto. A paisagem atrás dele, cheia de flores e pássaros só lhe dava um ar ainda mais quente e alegre. O verão, Charlie pensou, após um longo inverno dentro de Manicômio e Açougue, Apartamentos e Ferro-Velho... Ela finalmente... Chegou á um lugar quente o suficiente para revitalizá-la. Sentia o bem que aquilo fazia com ela, e não conseguiu desejar outra coisa além de permanecer ali, imóvel, encarando o vermelho da muralha.

– Lute ao nosso lado, Charlie Belcourt, e prometemos não matar seu aliado.

Notas finais
Mandem reviws! Recomendem! Favoritem! Me ajudem a voltar com o sucesso da YHG! :3