Notas iniciais
Espero que gostem.

Charlie Belcourt

"Um Herói Improvável"

“Quem é a baixinha agora?” ela pensou, enquanto olhava ao redor. A névoa no alto do teto era densa. Talvez não fosse tão alto assim, mas ela que fosse baixa. As paredes eram próximas e de pedra. Cheirava a poeira e mofo. Algumas baratas e ratos corriam mais a frente, enquanto um pequeno rego negro fluía no canto da parede a esquerda, que não tinha janelas. Do outro lado da parede janelas grandes e quadradas com barras de ferro, sujeira e uma luz doentia. Queimava os olhos de Charlie, mas foi breve, até ela se acostumar com aquilo.

A névoa só atingia a cabeça dos outros tributos, e como Charlie era mais baixa não a atingia. Ela concluiu que fosse a névoa quem deixava-os desnorteados e até lentos. A maioria ainda não tinha movido um dedo, e quem ousava andar ficava numa câmera lenta, ou se debatendo na parede. Algumas manchas eram visíveis... Negras. Charlie aproximou os dedos finos e arredondados, ossudos, e quando os aproximou na luz, percebeu que o negro na verdade era vermelho. Sangue.

º º º

Charlie levantou a cabeça, enquanto sentia o ar-condicionado tocando-a. ele estava tão próximo. Abaixou a cabeça. Em cima do aparelho, e com o ouvido encostado nele, sentia o frio, o quente e aquele zumbido comum das máquinas. Se lembrou do Distrito 3. Do som monótono, como aquele, que rondava o distrito inteiro. Ele nunca ia embora, nem de noite. Ela nunca o tinha notado, até que saiu de lá e experimentou o silêncio do Distrito 14. Com certeza era mais relaxante aquele zumbido...

Charlie nunca tinha dormido em cima de um ar-condicionado antes, mas estava frio onde a cabeça dela pousava, com o ar tocando seu nariz. O resto do corpo, encolhido, estava na parte quente, onde tudo rodava para funcionar bem. Tremendo enquanto sussurrava para os sonhos irem embora, ela olhou para seu quarto, para sua cama, lá embaixo. Como tinha vindo parar ali? Era tão alto, como pôde subir tudo aquilo? Não sabia. Quando acordou estava lá, encolhida, sentada com os joelhos na testa, enquanto murmurava pedindo sua mãe.

Charlie não entendia o que estava acontecendo. Seria o medo pré-Arena? Ou então o trauma no Distrito 14? Ela não sabia. Mas sempre que fechava o olho se via envolvida num banho de sangue. Literalmente. Pessoas se matando, com facas, lanças, gládios e machados. Todos matando sem piedade, com golpes na barriga, braços, pernas e na cabeça. Todos a ignoravam, porém o sangue dos mortos era espirrado em sua direção, manchando-a da cabeça aos pés. E o sangue não era comum. Ele queimava, era quente como o inferno.

Olhou para a janela, onde o céu negro e sem estrelas estava, parado. As pessoas não tinham mais ido gritar, o que a tranqüilizava, mas mesmo assim percebeu que não teria mais sossego. Não com aquelas coisas atormentando-a. era como se o sangue dos olhos, ardido, estivesse pingando dentro de suas pálpebras. Ela queria fugir, mas estava sufocada. Quando percebeu, já tinha se jogado de cima do ar-condicionado e caído com leveza e graciosidade no chão, de um jeito que ela sempre fazia pulando os muros do Distrito para buscar pipas. Ela se levantou, fazendo uma caminhada silenciosa até a porta. Os pés no carpete afundavam, e essa sensação era maravilhosa. Quando abriu a porta, viu as luzes acesas, o que a cegou por alguns segundos. Quando acabou de se acostumar com a claridade, olhou para o começo do corredor, onde a mesa de café-da-manhã estava solitária. Olhou para o outro lado do corredor, e viu faíscas de luz saindo da porta entreaberta de Ethan. Ficou tentada a ir vê-lo. Talvez ele contasse uma piada e ela conseguisse dormir... Respirou fundo, se arrastando no corredor em direção a porta.

Tocou-a levemente, e isso bastou para que abrisse. Ethan não se surpreendeu, ele estava sentado na cama, olhando para suas mãos, enquanto as pernas cruzadas ficavam brancas e pareciam dormentes. Estaria ele naquela posição a tanto tempo? Charlie não pediu permissão, entrou no quarto e fechou a porta com as costas. Coçou os olhos e então ficou a encará-lo. Ethan não olhou para ela. Com isso, uma conversa silenciosa se formou em volta deles. Charlie ergueu o braço, sem ver para onde estava indo, e então apagou a luz. Arrastou os pés até a cama de Ethan, e ele empurrou as pernas, descruzando-as, enquanto se levantava e puxava os lençóis para baixo. Charlie se aconchegou no lado direito da cama, virando de costas para ele.

Com delicadeza, Ethan se enfiou debaixo das cobertas e puxou-as para cima, sobre o corpo dos dois. Enquanto o calor humano esquentava a cama, Charlie sentiu o cheiro que emanava da pele de Ethan: Lavanda. Inspirou o ar, e quando o soltou, percebeu que a tensão nos ombros foi embora e ela sentiu as pálpebras pesarem no rosto. Pela primeira vez em noites ela realmente tinha vontade de dormir e quando fechou os olhos, sentiu que eles ardiam. O sono fervia e era tão aterrorizante quanto o sangue que espirrava em seus sonhos.

Ethan passou um braço por sua cintura, puxando-a para perto, e Charlie sentiu como se todos os seus pesadelos jamais fossem voltar para lhe assombrar. Pois agora ela tinha um herói para afastá-los. Desejou com seu coração que Ethan pudesse ser seu irmão, queria tê-lo conhecido antes disso tudo. Mas... Talvez, se não tivesse conhecido-o na Colheita e sim no Distrito, será que seria a mesma coisa? Da primeira vez que conversaram, Ethan não demonstrou muito interesse e na verdade mandava calar a boca o tempo todo. Talvez Ethan jamais tivesse olhado para ela, e talvez ele só a considerasse por estarem na mesma situação. Os Jogos, pensou Charlie, eles eram realmente assustadores e tentadores. Ao mesmo tempo que você conhecia gente que jamais poderia conhecer de outra forma, você as perdia, do mesmo jeito que perderia um irmão. E ela não conseguia se imaginar matando Ethan, Austin ou Noralinne. Não conseguia se imaginar matando ninguém, mesmo que no sonho estivesse. Sonhos...

Notas finais
A partir de agora vou colocar títulos nos capítulos, e não estou falando do nome dos tributos, mas aquela frase embaixo do nome deles, em itálico ^^ Mais um trecho da Arena :3