Notas iniciais
Ownt, gente, quase mordendo o Sanderson aqui XD

Ariel Meylle Clitord

Birdy — People Help The People

Puxou as luvas nas mãos. Estava pronta para entrar no trem, enquanto olhava uma última vez por cima do ombro. Uma garota do Distrito 10 tinha morrido no incêndio e agora Ariel teria de tomar seu lugar. Isso normalmente acontecia e não era algo que pudessem dar atenção, não agora. O que era uma garota com Panem inteira? Insignificante, de fato. Claro que Ariel não concordava com isso, mas não tinha o que fazer além de concordar com Nathália. A menina que morrera era muito parecida com Ariel e por isso tinha sido escolhida. Não era a melhor do Distrito, mas tinha dezesseis anos e facilmente se passaria por dezessete, que era a idade real da outra garota. O único problema, porém, era que seu companheiro de Distrito com certeza descobriria a farsa, e por isso ela teria de ser cuidadosa com tudo aquilo.

– ...e vocês dois deveriam ficar juntos – concluiu o mentor.

– Desculpe, eu já tenho uma aliança – Sanderson colocou o garfo na mesa do trem.

– Eu sei. – o mentor concordou com um meneio – E eu já conversei com os mentores dos seus aliados e eles concordaram em colocar Abigail na aliança.

– Não. Vocês deveriam perguntar a nós. – Sanderson parecia irritado, mas não se alterou, controlava as emoções muito bem, concluiu Ariel.

Ela, muito quieta, comia quase nada, tentando evitar olhar para eles diretamente. Não podia dar muito na cara. O mentor já sabia de tudo e a representante também, mas Sanderson ainda não tinha percebido. Talvez por ele nem ter prestado muita atenção em sua parceira. Quase ninguém prestava atenção nela, de fato. Ariel era como uma sombra que passava despercebida por qualquer pessoa. E ela gostava disso.

– Duvido que Mason ou Jodie concordem com isso. – ele disse, pesadamente. Aquilo arrepiou os pelos a nuca de Ariel.

– De fato não irão. Mas eu prometo lhe dar vários pára-quedas se você concordar... – o mentor olhou para Ariel – Diga alguma coisa, convença-o, você consegue.

Ariel estremeceu. O que aquele mentor tinha em mente? Ele sabia que ela não era realmente a companheira de Sanderson e não podia ficar conversando com ele o tempo todo, se não ele perceberia e seria o fim... Ariel balançou a cabeça, ainda com os olhos nas mãos em cima dos joelhos. Ela os apertava com força, uma força que não costumava usar em si mesma.

– Está vendo, ela está irritada. – Sanderson ficou irritado. Virou-se e segurou as mãos de Ariel, surpreendendo-a. – Diga alguma coisa, Abi, eu sei que você não quer ficar comigo.

Ela estava aterrorizada, como o fantasma de sua bisavó tivesse acabado de aparecer. Com relutância, Ariel ergueu os olhos e disse com a voz num engasgo:

– E-Eu prefiro ficar com você, Sanderson.

– Não, você não prefere – ele a encarou – Você me disse que não queria. Disse que não conseguiria. Não é mesmo, Abigail.

Ela estremeceu ainda mais quando ele disse o nome da garota morta no incêndio. Era como se ele estivesse provocando-a. Com um tremor nos ombros, Ariel soltou um suspiro cansado.

– Ele já percebeu tudo. – disse, por fim.

O mentor soltou o ar, que estava segurando com apreensão, enquanto pressionava as têmporas. A representante exclamou em descrença, enquanto Sanderson olhava a reação dos outros e voltava o olhar para Ariel.

– Você é burra, mesmo? Achou que eu não perceberia que você não é Abigail?

– Achei. – admitiu, com a voz trêmula. Ninguém nunca tinha falado com ela desse jeito. Talvez por ela ser filha de Ethan, o Mestre Supremo das Armas.

– Abigail Junes foi minha namorada por dois anos seguidos. Ninguém a reconheceria melhor do que eu. – Sanderson ainda tinha o olhar irritado, mas a voz agora estava controlada. – E, aliás, ela era muito mais bonita que você. Qual seu nome verdadeiro?

– Ariel Meylle Clitord. Mey.

– Então, Mey, você é a substituta? Agora que Abigail está morta e não tem como a Capital mostrar isso?

– Sim. – ela concordou – Mas não é como se eu quisesse ou achasse correto, eu fui obrigada.

– De fato foi. O Distrito 14 consegue ser tão opressor quanto a Capital. Você nem tem livre arbítrio, tem? Ou sua opinião é levada em consideração? Claro que não. E esse lugar ainda foi considerado um paraíso... – ele estava vermelho, e o rubor em contraste com a pele pálida lhe dava um ar muito bonito. Ah, e só uma coisa: Abigail me chamava de Sander, não de Sanderson.

– Certo, vou anotar no meu caderninho. – Ariel levantou os olhos, com o pouco de confiança que ainda lhe restava, para encará-lo.

– Não quis te assustar – ele disse, por fim.

– Não me assustou. – mentiu, ruborizada.

– Mas é claro que assustei. Olhe só para você. Está tremendo e batendo os dentes como se tivesse visto o fantasma da sua bisavó. – Exatamente o que eu pensei no começo.

– É só o frio. – ela olhou pela janela, onde o borrão da paisagem era visível através do vidro.

Sanderson soltou um longo e profundo suspiro, irritado, ou talvez cansado. – Tome – ele tirou o casaco de couro, entregando-o para Ariel, enquanto se retirava para seu quarto. Ariel o viu sumir no corredor e então virou o rosto para o mentor, que tinha um sorriso brincalhão nos lábios.

– O que foi?

– Ele gostou de você.

– Não gostou não, ele quase me matou do coração – ela exclamou, se agarrando na mesa.

– Olhe, ele mal olhava para a menina que veio com ele, muito menos falava com ela. Era como se a odiasse. Minha sugestão é que ele ainda gosta de Abigail. Ou gostava. – o mentor deu de ombros – Antes eu apenas achava que ele não queria se apegar á ninguém. Mas ele fez uma aliança. Isso é bom. Mostra que, mesmo do jeito bruto, ele consegue fazer amizade. Minha dica é que você faça amizade com ele.

A porta do vagão 10 se abriu, exibindo o corpo muito bem formado e ameaçador de Ethan, seu pai. Ele entrou e olhou em volta, cumprimentou o mentor e a representante, enquanto se sentava na cadeira ao lado de Ariel, que tinha sido de Sanderson, alguns segundos atrás.

– Como está se saindo com seu amiguinho de Distrito? – Ethan perguntou, virando-se para a filha.

– Horrível. Ele percebeu em menos de um minuto.

– Uhm... – pensou Ethan – Ficou bravo?

– Não sei... Mas estava assustador.

– Aiai... – Ele pressionou a cabeça com as duas mãos – Tudo é assustador para você, Ariel... Realmente você puxou o lado medroso da sua mãe.

– Não é minha culpa se ele age como se fosse um monstro – ela cruzou os braços sobre os seios, enquanto se virava para encarar os borrões na janela, novamente.

Ethan se voltou para o mentor, e então começou uma conversa calma. Contou que outros dois do Distrito 14 estavam substituindo dois tributos do 08 e que com eles tudo seria mais fácil, pois eram irmãos e não precisariam esconder isso de mais ninguém. Mas que o plano tinha sido um fracasso com Ariel. O plano sempre era um fracasso com ela... Não importava o que fazia, ela nunca conseguia alcançar a aprovação do pai. Ele era o melhor e por isso exigia que ela também fosse a melhor. Mas Ariel simplesmente não tinha nascido para ser a melhor naquilo.Lutar realmente não era algo que ela queria fazer. Seu dom era cuidar do jardim com a mãe, tocar piano para a avó quando ela estava com dor de cabeça e escrever poemas junto com seu irmão mais novo. Esses eram seus interesses, nada que o pai fazia lhe interessava. Ela não queria arremessar facas ou rasgar a garganta de alguém com as unhas.

E a escolha dela irritava o pai, isso era óbvio.

– Ariel Meylle?

– Eu – Ariel ergueu a mão por puro reflexo, pois sempre que alguém chamava-a no Distrito, era alguém superior e para isso era por respeito fazer esse gesto. Mas logo abaixou a mão, quando percebeu que era apenas a representante, que tinha saído de fininho do vagão e ninguém havia notado.

– Sanderson quer falar com você em particular.

– A-Ah, certo – ela pulou as pernas do pai e se virou, para seguir a mulher da Capital.

Ethan segurou seu pulso com força, tanta força que a machucou.

– Nada de...

– Pai, eu jamais cairia nos beijos com aquele garoto assustador, tudo bem?

– E nada de...

– Eu já sei, ele não vai se aproximar nem cinco metros de mim...

Ethan a soltou, satisfeito. Ela foi com cuidado até a representante, enquanto acariciava o pulso. Ele esta a branco e a mão formigava, o que não era bom sinal, mas pelo menos conseguia mover os dedos. Seguiu a mulher, que a deixou na frente de uma porta igual a de qualquer outra do vagão, mas que para Ariel era completamente estranha, pois ela nunca tinha visto uma porta de metal. Todas no Distrito 14 eram de madeira.

– Ariel – uma voz chamou-a por trás da porta.

– Eu. – respondeu tentando camuflar o tremor que lhe percorreu a espinha.

– Não vou abrir a porta para você.

Obrigada.

– Como?

– Nada. – disse rapidamente, quase se matando por ter pensado alto.

– Bom, isso não vem ao caso. Quero que convença nosso mentor a cancelar sua entrada na aliança.

– Não vou fazer isso.

– Por que não? Você não gosta de mim, não precisa ficar do meu lado só por causa do que ele diz.

– Não estou do seu lado só por causa do que ele diz – ela se irritou, mas ainda tinha a voz fina e harmoniosa, algo que puxara da mãe e que lhe dava um grande poder para cantar. – É que eu preciso estar.

– Como assim?

– Olhe, não sou boa com armas. – admitiu, ruborizando – A maioria das pessoas no meu Distrito são habilidosas e é muito fácil se destacar. Mas eu nunca consegui manejar uma faca do mesmo jeito que toco as teclas do piano. Eu não consigo dar socos do meu jeito que dou quando escrevo numa folha de papel. Eu... Não sou a pessoa certa para um Jogos Vorazes.

Ela escutou Sanderson rir do outro lado da porta.

– Está brincando? É assim que pensa que as coisas são? Tem idéia do que está falando? Você não entende... Cresceu num mundo onde não tem ameaça de Jogos...

– E também num mundo onde se você não souber matar, não é nada além de um lixo. – disse, com a voz vacilando.

– O que quero dizer é que você não nasce para os Jogos. Ninguém nasce. Não é algo que escolhemos. Não é como vocês, que podem escolher o mais habilidoso para tomar o lugar de alguém.

– Não é por habilidade, mas sim por aparência. Eles só escolhem quem mais se parece. Por isso estou aqui. Se fosse por habilidade com certeza Prysma ou Crystal estariam aqui. Elas sim são capacitadas para isso. Eu não sou nada. Ninguém se lembrou de mim, até que perceberam que eu era a única opção. Eles jamais me enviariam se outra garota também fosse parecida com Abigail. Se eu tivesse uma irmã gêmea, com certeza escolheriam ela.

– Mas você não tem. E por isso está aqui. Como se fosse um tributo comum, sem treinamento.

– Não exatamente sem treinamento. Cuido de um jardim de plantas venenosas em casa.

– Jardim de plantas venenosas? – Sanderson pareceu interessado e curioso – Como assim? Por que você planta veneno no seu jardim?

– Bom, é que...

– Espere – ela escutou o som de algo se destravando, e então quando a porta deslizou para o lado, deu um pulo de susto – Entre.

– N-Não posso – respondeu, dando um passo para trás e encostando as costas na parede do trem.

– Por que não?

– Meu pai.

Sanderson pareceu reprimir um sorriso, enquanto segurava em sua mão esquerda e a puxava para entro do quarto. Quando ela entrou, Sanderson se virou rapidamente, passando a mão por um painel e trancando a porta novamente.

– Pronto, agora ele não pode fazer nada. Vamos, você não precisa ficar presa á ele até quando ele não está por perto. Grite, pule na cama... Faça coisas que você não faria normalmente. – ele parecia gentil demais para um ogro assustador e ameaçador (como Ariel julgara que ele fosse).

– Por que...? – foi interrompida quando percebeu uma coisa – Não, você não entende! Ele está no trem, ele é mentor... Ele pode arrancar essa porta com só uma mão... Você...

– Ele não vai fazer isso. É humanamente impossível – Sanderson se sentou na cama, tirando os sapatos e se levantando nela – Você vem ou não? – E começou a pular, com um sorriso divertido no rosto.

Ariel o encarou, enquanto sentia os pés formigando e as botas parecendo cada vez menores em seus pés, ela as tirou, e sentiu o carpete entre os dedos. Aquilo era bom demais! Com um salto gracioso e preciso, ela aterrissou na cama, pulando junto com ele. A gargalhada escapou de seus lábios, e logo ela nem percebeu que estava suando e com os cabelos grudando no lado do rosto. Quando Sanderson se sentou e começou a ofegar, ela se deixou cair sentada ao seu lado.

– Isso foi demais – disse, enquanto ainda ria consigo mesma.

– Você nunca pulou na cama?

– Meus pais diziam que se você não deixasse a cama muito bem arrumava de noite teria pesadelos.

Sanderson encarou-a, um misto de divertimento e de surpresa tomou um sorriso agradável em seu rosto.

Sanderson Cutner

Notas finais
Ariel: http://images.smh.com.au/2013/09/21/4767116/art-Birdy2-620x349.jpg (com o casaco dele