Notas iniciais
Ai a linda flor é corrompida pelos espinhos que a sufocam.

Alexei

Pegou-o pela camiseta, erguendo o corpo anestesiado de Sanderson. O outro nem lutava para se desvencilhar, ainda chocado pelo que havia feito. Alexei apertou sua garganta, até que o incomodasse e começasse a reagir. Acertou dois socos no maxilar de Alexei, como se isso fosse atordoá-lo. O menino jogou Sanderson com força contra uma árvore de morangos, ele bateu as costas e arqueou de dor. Antes de mais qualquer coisa, Alexei tomou cuidado para não pisar nas madeixas da menina, que jazia na relva doce. Iria matá-lo, esse era seu único objetivo agora. Mas respeitava os mortos.

Respeitava os mortos.

Os mortos.

Sorriu. Seus pensamentos maldosos e sarcásticos eram como o pão de cada dia. O alimentava, o fazia ter energias. Suas veias se enchiam. Talvez entendesse a vontade incontrolada que teve ao matar a neta do prefeito.

– Desgraçado! – gemeu Sanderson, enquanto tentava se colocar em pé.

– Talvez eu seja. – soltou Alexei, antes de se colocar em movimento – Mas isso não mudará nada.

º º º

Charlie Belcourt

Sentiu os ombros saltarem quando o canhão soou. Desde a morte de Austin não tinha conseguido sair do lugar. O esgoto era traiçoeiro e muito, muito assustador. Principalmente quando se estava sozinha. As baratas subiam pelas paredes e os ratos soltavam guinchos que ecoavam por entre os túneis.

Sua mão escorregou até o cabo do tubo que tinha ganhado de um Patrocinador. A ponta da lança estava afiada como navalha, mas não tinha usado-a ainda. O brilho fraco que refletia na lâmina iluminava o local, mas Charlie pouco notava. Agora, olhou para o líquido se agitando lá dentro. Não entendia como ele poderia corroer tudo, menos aquele tubo.

O estranho é que sempre que tirava o líquido do tubo, ele caía em formato de pó, e não de líquido.

O canhão fez com que os pelos de sua nuca se arrepiassem, ela abraçou a arma contra o peito reto, mais apavorada do que nunca. Agora era oficial: Cinco pessoas disputavam contra ela. Todas tinham dezoito anos. Todas eram Carreiristas. Charlie não conseguia entender porque tinha ido tão longe. Uma menina tão pequena e indefesa... Sem aliados. Sem habilidades ou força. Poderia ela se tornar uma assassina fria do dia para a noite? Levantou a cabeça quando o som dos passos já era alto. Lá estava outro tributo que não tinha saído do esgoto. Levantou-se quando percebeu que ele a notara e já estava pronto para atacar. Era agora, respirou fundo. Morrer.

Ou não. Charlie sentiu a lança queimando a pele de sua mão, fazendo-a derrubar o tubo. Mas logo recuperou-o, sentindo novamente aquele calor, que agora era mas agradável, quase como se tivesse se acostumado a ele. Sorriu, sádica. Adorava aquele calor, se pudesse morreria queimada por ele.

Neste tubo há um pó rico em enxofre capaz de corroer qualquer superfície numa profundidade de um metro aproximadamente.

Ela trincou os dentes, logo vendo os cabelos louros do garoto, que queria matá-la com crueldade. Saltou como uma pena para cima dele, surpreendendo-o, afinal ninguém espera a reação de uma criança de doze anos dentro dos Jogos Vorazes. Conseguiu atacá-lo com a lâmina da lança onde um dia tinha sido o ombro dele, e que agora era apenas um corte de onde emanava sangue.

Para quebrar objetos, utilize metade do frasco;

Ele se virou, com a fúria brilhando nos olhos, mas Charlie também já tinha reagido ao contra-ataque antes dele acontecer e se defendeu do soco do garoto usando o cabo da lança. Ele gritou de agonia quando os dedos de sua mão se quebraram. Deveria ter colocado força demais naquele soco, esperando que ele atingisse a menina. Com uma agilidade que nem mesmo ela pensou que poderia ter, Charlie rodou a lança entre os dedos, como se não pesasse nada e a fincou no peito do garoto, sentindo logo o sangue dele espirrando em suas bochechas redondas. Ele a olhou, em agonia, pronto para agonizar até a morte. Até que o sangue tivesse saído. Seus olhos revelavam que ele não esperava isso dela.

Para envenenar uma pessoa, apenas uma pitada.

Com o dedo indicador, liberou o líquido num fraco disparo, e quando ele saiu do tubo, se tornou pó grudou no peito dilacerado do loiro. Ele por alguns segundos apenas piscou os olhos, chorando pelo que ainda tinha cortado-o, mas então começou a gritar, com a carne borbulhando, enquanto era corroído até a morte. Seus ossos se tornaram visíveis, e logo a lança de Charlie já havia saído do corpo dele. Um buraco se formava na barriga e subia borbulhante pelo peito, até chegar as axilas, correr o pulmão, coração e parar na garganta. Ele já tinha morrido, e seu canhão soado fazia tempo, mas Charlie só se moveu quando finalmente a arma se esfriou.

O pó é diluível em água.

Utilize com sabedoria.

Soprou a franja que lhe caía nos olhos, sentindo o vermelho dos cabelos se unir ao vermelho do sangue que descia por sua testa. Não era seu sangue, mas sim o dele. Logo, ela pensou, algum aliado por ai viria atrás dela em busca de vingança. Isso não a impressionava, afinal Ethan era querido por sua vadia Carreirista. Charlie deu de ombros, era um acerto de contas. Ele lhe tomou Austin. Ela lhe tomou a vida.

º º º

– Eu sempre pensei que estava grávida de um menino. Mas então, a surpresa: Era Charlie. Seu nome deveria ser Charles, mas disseram que era masculino demais...

– Mas a senhora a ama?

– Claro que amo! É minha filhinha, afinal. Minha princesa – soltou um longo suspiro – Charlie é meu orgulho.

– E se pudesse dizer algo para ela agora, o que diria?

– Lute, Charlie, lute! Não ouça quem diz que você não pode! – ela enxugou as lágrimas – Quero que volte para a mamãe, a menininha da mamãe...

º º º

Não iria deixá-lo escapar.

O bestante saiu correndo, medroso. Não se surpreendia, afinal a arma tinha destroçado completamente seus companheiros de bando. Aquela belezinha deveria ter custado uma fortuna, mas depois da entrevista de sua mãe e de como Charlie tinha dramatizado a morte de Austin, os Patrocinadores se sentiram generosos. Aquela era a arma mais cara de todos os Jogos Vorazes, em todas as Edições. Uma arma capaz de levá-la a vitória.

Uma esperança.

Charlie saltou, com o impulso que a relva doce lhe dava. Tinha chegado em pouco tempo no País das Maravilhas e logo encontrado um bando de bestantes para treinar a luta. Com certeza não tinha chances contra os Carreiristas mais treinados, como Max e Noralinne, mas caso se esforçasse... O que precisava era de sorte. Sorte, muita sorte.

Que a sorte estivesse a seu favor. E com certeza estava.

Notas finais
Charlie se tornou assassina obcecada e de repente a fanfic tem dois Carreiristas, dois psicopatas compulsivos pela morte e um garoto normal no meio deles. Coitado do Sanderson >.