Notas iniciais
Alexei
“O medo é o instinto que o espírito tem da própria fraqueza” – Leoni Kaseff
Manter a postura era bom para quem estivesse no meio de uma luta. Permaneceu com as mãos balançando ao lado do corpo. Quando o menino resolveu atacá-lo, desviou do soco, dando uma cotovelada em suas costas. Ele caiu aos seus pés. Alexei montou-o, deixando-o de barriga para baixo. Com a mão direita, apertou a garganta dele até que gemesse a procura de ar. Com a mão esquerda cegou-o no olho direito e depois no esquerdo. O sangue escorria enquanto ele vasculhava as órbitas do garoto. Este gritava e esperneava, tentando se desvencilhar, mas quando mais se mexia, mais a mão de Alexei apertava sua garganta, até que nenhum ar entrou, e ele permaneceu asfixiado por trinta segundos. Até morrer. Alexei retirou os dedos de dentro dos olhos do garoto e o encarou, deitado. Vestia as roupas do manicômio. Ele era indefeso, embora acreditasse que conseguiria vencer alguém trinta centímetros mais alto. Alexei cerrou os punhos, esmagando o sangue vermelho escuro do garoto contra a palma das mãos. Limpou-se na camiseta, e logo deixou o salão principal do castelo, enquanto a Lua se erguia lá fora, no céu negro.
Não haviam estrelas e ele não conseguia parar de correr, até chegar ao lado de fora daquela prisão. Lugares abertos sempre foram seus preferidos. Enquanto mantinha uma corrida ligeira, porém incansável, olhou ao redor. A relva balançava conforme o vento passava por ela, como uma mão arrumando os cabelos. A Lua estava como num sorriso, um sorriso amarelado. Quase sádico.
– Elizabeth... – Alexei piscou, enquanto mantinha a corrida, ainda sentindo a mão da mulher em seu ombro, correndo junto. Ela era quente, quase úmida. Parecia ter acabado de lavar a louça. Se sentia feliz em lembrar eu nome.
Elizabeth. O nome ecoou em sua mente, enquanto parava de súbito e se virava. Ninguém o seguia, a noite estava calada, nenhuma coruja piava ou grilo gritava. Poderia conversar tranquilamente com ela. Permaneceria sentado na relva por toda a noite, admirando o negrume. descobriu que noites sem estrelas eram suas preferidas, afinal foi a assim a noite em que matou a família do Prefeito. Não sabia como tinha se lembrado disso, mas a memória voltou vividamente. Podia se ver escalando a parede, usando as falhas entre as pedras para chegar até a janela entreaberta. Olhou para cima, para céu azul-escuro, sem estrelas, e com uma Lua redonda. Esta não estava amarelada, mas sim branca como um brilhante. Forçou a se lembrar de que aquele não era o seu planeta, aquele não era o seu mundo. A Lua jamais seria igual a que ele via no Distrito11.
– Senti sua falta – sussurrou, por cima do ombro, enquanto ela o abraçava mais uma vez. Sua amante Elizabeth. Ela ainda era vívida e calorosa, sedutora como uma neblina de quentura e excitação. Ah, como Alexei gostava daqueles abraços...
Sentia seu corpo arder em chamas, mantinha os olhos fixos no castelo que se erguia. A relva parou de se mover, enquanto ele se sentava para admirar o lugar. Deitou a cabeça e logo depois o corpo. Manteve-se acordado. Sabia que era Elizabeth. Sabia que era aquela noite. Enquanto tentava consolar-se, lembrava cada vez mais do que outrora esquecera. A filha do Prefeito era negra, Elizabeth gostava de cantarolar enquanto lavava louça, normalmente faziam amor depois de jantarem.
Cada vez mais lembranças, daquelas mais simples, menos importantes, até as mais cruciais para sua vida. A morte de seus pais, o dia em que cortou o dedo enquanto tentava preparar um jantar especial para seu um ano de namoro com Elizabeth. Seu rosto enterrado entre os seios dela, ouvindo sua respiração acelerada. E então suas lágrimas, escorrendo quentes enquanto chorava sobre ela. Aquela camisola empapada de sangue, os cabelos castanhos enrolados entre seus dedos. O jeito como ela olhava fixamente para o teto do quarto, sem vida ou cor. Aquelas pupilas dilatadas... A palidez. Os lábios entreabertos e rosados, exclamando o último grito de piedade. E o julgamento injusto que o Prefeito tinha dado ao assassino. Piscou os olhos quando tudo fez sentido.
Então não era uma pessoa má. Era apenas um justiceiro. Sorriu, ao saber disso. Elizabeth continuava a cantarolar em seu ouvido, mantinha as mãos úmidas em seu abraço. Lá, naquele mundo, ela estava viva. Viva dentro dele, e Alexei se sentia honrado. O calor das lembranças o tornaram mais forte, e agora sabia que vencer os Jogos era apenas seu modo de mostrar que ele não tinha feito nada de errado.
Não se importava de matar mais algumas pessoas.
Com as mãos trêmulas, enxugou as lágrimas que estavam caindo pelo rosto. O rubor tomou e aqueceu suas bochechas, enquanto se envolvia com as próprias mãos. Tentou sorrir. Agora sabia por que tanto chorava. Manteve a amargura na boca, até que se tornasse mel. Era delicioso sentir o gosto do próprio rancor e a vingança. Ótimo era saber que Elizabeth tinha morrido em paz, e que ele logo a veria. Manteve sua promessa de estar sempre ao lado dela até agora, embora tivesse se esquecido por alguns tempos.
– E então o mundo vai saber o quanto te amo... – sussurrou, antes de adormecer num último suspiro de vida.
Inundado por uma outra que ele desconhecia. Não era mais Alexei Sem-Nome. Ele era Alexei Moonrate.
Seus sonhos vagaram entre os sorrisos de Elizabeth, com os gritos adocicados da filha do Prefeito. Enquanto mantinha a mente livre de um ser desconhecido, ele poderia ser feliz. Não choraria mais. Caso contrário, ele se tornaria outra pessoa. Não se conhecia, essa era a verdade, mantinha um outro eu dentro da pele, que não podia controlar todas as vezes, mesmo que quisesse e tentasse. O seu gênio chamado Alexei Sem-Nome ainda procurava por morte. Alexei Moonrate não deixaria que ele o dominasse.
– Estamos comemorando o fim do medo e da desconfiança. – Elizabeth sussurrou após terem feito amor pela primeira vez. Alexei deslizou seus dedos por entre seus seios e a analisou. Manteve os olhos em seu rosto, delicado e de rubor fervoroso. – Não me importo se meu pai não gosta de você... Alexei, eu quero viver pra sempre na mesma cama que você.
Ele sorriu, não respondeu, apenas sorriu.
Arrependia-se. Tinha de ter dito que também a queria para a eternidade, mas era impossível dizer agora, apenas em sonhos. Odiava não ter domínio sobre seus próprios sonhos. Enquanto tamborilava os dedos, sentiu que seus olhos se abriam e a claridade o cegava. Ainda estava deitado na relva, mas agora o Sol brilhava por trás do castelo, tornando-o vermelho como fogo.
Levantou-se, batendo a calça, enquanto olhava na direção do bosque. Poderia ir para lá, mas duvidava que algum tributo estivesse escondido entre as ruínas. Manteve uma caminhada calma em direção ao castelo vermelho. Quando chegou em seu portão, viu o lago cristalino que ficava no centro dele, como se o castelo tivesse sido construído exatamente ao redor do lago. Inclinou-se e tomou de sua água, lavando o rosto e sentindo a energia de acordar pela manhã. Fome. Seu estômago roncou, enquanto uma mesa de ceia se erguia a sua frente. Sabia que a comida estava envenenada apenas de olhar para ela. Bonitas e chamativas demais, isso deixava claro que os Idealizadores eram tão idiotas quanto ingênuos.
Rodou o rosto por entre as paredes de pedra, avaliando cada arco que ligava ao castelo. Decidiu pegar o caminho mais perto da cozinha (ou de onde um cheiro muito bom saía). Alexei estava sendo movido através de seus instintos. Aquilo era bacon. Elizabeth sempre fazia bacon pela manhã.
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