Notas iniciais
Alexei
“A Solidão e o Silêncio são asas robustas para os surtos do espírito” – Machado de Assis
Abriu os olhos e ouviu algumas conversas vindas de um lugar mais afastado. Se levantou rapidamente, correndo os olhos pelo apartamento. Duas maçãs estavam empilhadas na pesa. Como tinha ido parar ali? As mãos doíam e os dedos ostentavam cicatrizes. Olhou em volta, meio tonto. Se levantou, indo em direção ao elevador. Ele se abriu, enquanto Alexei se aproximava. Entrou e as portas de vidro se fecharam a sua frente. Tentou forçar a memória, mas não conseguia lembrar de nada. Sentiu a faca presa fortemente na mão. Olhou para ela, estava cheia de sangue seco. Com um leve movimento, apertou o botão doze.
Olhava para baixo o tempo todo, enquanto sentia o elevador começando a se movimentar. Lento. Ele fazia um leve ruído que irritava Alexei como nunca. Quando sentiu que os tremores eram mais fortes que o normal. Quando o elevador girou e ficou de cabeça para baixo, Alexei foi levado junto, com surpresa. Depois ele começou a virar para o lado, rolando e rolando, levando o corpo de Alexei junto. Ele era jogado contra as paredes e sentia que o nariz tinha batido violentamente e começava a sangrar. Quando passou pelo número seis, notou que aquilo duraria muito mais do que realmente poderia esperar. O elevador começou a chacoalhar e então balanças para os lados, levando Alexei junto. Sua cabeça, seus braços e pernas estavam sendo esmagados contra o vidro. Quando pensou que iria morrer, viu o brilhoso número sete. Mas que inferno! Mais cinco andares e ele teria de ficar lá dentro! Não conseguia entender o que estava acontecendo.
A faca dentro do bolso de repente perfurou sua pele e o atingiu na perna. Gritou, enquanto era jogado para o outro lado do elevador. Enquanto sentia a dor tremendo em todos os seus músculos e via seu sangue ser espalhado por todo o elevador, ele mordeu a língua, urrando ainda mais de dor. O imponente número azul brilhava enquanto o elevador passava lentamente por ele. Alexei foi arremessado para baixo, quando o elevador virou novamente. Sua cabeça atingiu o chão, e seu corpo virou num ângulo muito estranho, fazendo seu pescoço começar a arder de dor alucinante.
Alexei gritava para que aquela merda parasse. Mas quem disse que ela obedeceu?
Enquanto era lançado mais uma vez para o lado, sentiu sua perna ardendo em dor e seus gritos já tinham ficado roucos de tanto que tinha gritado. Ele precisava... Ele queria... Que poha era aquela? Nunca tinha ouvido falar de um elevador que começasse a rodar como uma montanha russa. Então se lembrou. Ah, claro, ele estava nos Jogos, era isso. Com um suspiro profundo, foi jogado novamente para trás.
O número nove brilhava com fervor, enquanto o elevador anunciava que estavam passando pelo nono andar. Ótimo, pensou, mais três. Sabendo que isso queria dizer que logo seu tormento passaria, ficou ereto. Duro feito pedra e permitiu que o elevador lhe balançasse para todos os lados, fechou os olhos, sentindo seu corpo batendo o tempo todo contra as paredes de vidro. No final, as portas se abriram.
Alexei foi o primeiro tributo a concluir o prédio. O primeiro a chegar até a porta que o levaria ao terceiro andar do Labirinto. Com isso, ele mancou para fora do elevador, olhando por cima do ombro e vendo seu sangue manchando todo o lugar. Logo, com a faca ainda presa fortemente em sua mão, rasgou a calça e viu o ferimento na perna. Nada muito profundo. Com um suspiro longo, ele olhou para cima. Um som de sino sendo tocado ao longe invadiu o ambiente. Alexei já tinha recebido uma dádiva antes, sua faca, e agora estava recebendo a segunda dádiva. Até agora era o tributo que mais tinha recebido paraquedas. Ele o pegou no ar, abrindo rapidamente e vendo a pomada. Passou pelo ferimento com violência e rapidez. Logo estava todo lambuzado de pomada em creme. Com isso, se sentou em um sofá que ficava encostado numa parede da sala e encarou a porta do terceiro andar. Ela tinha o majestoso 3 brilhando em neon. Ele pensou “Será que essa merda só vai abrir quando os outro chegarem?”. De fato estava certo.
º º º
Abriu os olhos quando ouviu o som do elevador se abrindo. Observou enquanto os outros tributos entravam acabados e se derramando em sangue. Eles estavam bem feridos, igual a Alexei.
Alexei tinha dormido por aproximadamente duas horas e quando olhou seu ferimento, ele não existia mais, somente uma cicatriz forte e feia.
– Olá. – ele disse, sem mais nem menos.
Os tributos, assustados, olharam para ele, enquanto engoliam em seco.
– Olá – respondeu a menina.
– Olá – respondeu o menino.
– Querem morrer? – Alexei perguntou, se sentando no sofá.
– Pode cair dentro – o garoto louro avançou, com as mãos cerradas em punhos prontos para acertar o rosto de Alexei.
– Ótimo – Alexei bocejou e voltou a se deitar no sofá – Sugiro que vocês peguem um sofá logo, pois daqui a pouco isso aqui vai estar cheio de tributos e muitos vão ficar em pé. – e com isso voltou a dormir, despreocupado.
A faca estava bem presa a sua mão, como se fosse uma extensão de seu braço.
º º º
Acordou novamente quando a porta do elevador se abriu. Dessa vez só havia um garoto e ele parecia muito...
– Você – ele urrou, indo em direção a Alexei – Seu cretino desgraçado filho da puta... – pegou o menino pela cola da camiseta.
– Ah, oi grandão – Alexei sorriu com gentileza – É bom te ver de novo também.
– Eu vou te matar.
– Claro, claro – concordou Alexei – Mas primeiro vamos para o terceiro andar.
Max olhou para a porta com número 3 e então soltou Alexei, indo até ela e começando a socá-la.
– Abra, porta maldita! – ele gritou, enquanto chutava e tentava amassá-la, em vão.
– Espere, ela só abre quando todos os tributos estiverem aqui – o menino louro que outrora tinha aceitado o desafio de Alexei disse, fazendo Max lhe dar atenção.
Max ficou olhando do menino, para a menina e então para Alexei, até que bufou e escolheu um sofá no canto para se sentar. Um Carreirista sozinho era realmente deprimente, pensou Alexei, voltando ao seu precioso sono de beleza.
º º º
Acordou, já irritado com o barulho das portas do elevador, quando mais tributos chegaram. Dessa vez ele nem se deu ao trabalho de recepcioná-los. Quando entraram lá, estavam totalmente intactos e o elevador parecia normal. Não tinha virado ou vibrado, nem quebrado o nariz de nenhum deles, como fizera com Max, que até agora não tinha visto seu nariz fora do lugar.
– Nora! – falando em Max, olha que deu ar da graça.
Noralinne estava muito bem para alguém na Arena. Cheirava a melissa, tinha os cabelos bem escovados e presos num rabo de cavalo no alto da cabeça. Usava uma calça jeans colada ao corpo e uma camiseta justa, abusando do decote. Luvas de couro e uma bota que parecia muito estranha. Alexei não se lembrava de ter visto sapatos por ali, todos os outros estavam descalços, incluindo o menino ao lado de Noralinne. Ele, por sua vez, vestia uma bermuda havaiana e uma camisa havaiana. Com certeza não tinha senso de moda.
– Que bom que está bem – Max a agarrou, abraçando-a fortemente.
– Me solte – ela sibilou, enquanto lhe empurrava para longe.
Max piscou, enquanto tentava entender. Alexei notou um leve sorriso nos lábios do menino louro que acompanhava Noralinne e então suspirou, lembrando que aqueles três tinham um triângulo amoroso. Fechou os olhos, entediado, voltando ao seu sono.
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