Notas iniciais
Desculpe o horário...

Noah Christhurt

Tentava não olhar para a tora de madeira estourando no fogo, enquanto socava a árvore de carvalho. Ele tinha recuperado um pouco de físico. Estava treinando dia e noite para ganhar a massa muscular que tinha na arena. Estava determinado.

Os dedos estavam moídos, os braços doíam. Ele pegou uma garrafa d’água. Vinha treinando nas últimas semanas. Carregava o suor, a sujeira e o cansaço na pele. Não tomava banho á dois dias. Não tinha tempo para isso. Estava tomando menos água e não jantava mais. Os músculos do abdômen sobressaiam na camiseta grudada ao corpo.

Tinha que estar disposto a proteger quem quer que fosse. Ele deu uma pausa no treino e se olhou no espelho. A barba estava terrivelmente grande e os cabelos entravam nos olhos. Os fios ruivos estavam mais avermelhados do que nunca. Sua respiração estava controlada, embora se coração estivesse palpitando fortemente.

Olhou para o espelho novamente, vendo que tinha companhia. Se virou e olhou diretamente para os dois homens. Ele reconheceu o primeiro homem de sobrancelhas grossas. Kennan. Seu mentor. O outro ele não conseguiu reconhecer. Este tinha cabelos brancos e olhos azuis como o céu mais puro do verão mais quente. Eram calorosos. Noah se impressionou com a vívida expressão de satisfação que ele aparentava ter.

O velho e Kennan estavam vindo em sua direção lentamente, conversando e olhando de relance para Noah. O ruivo colocou as luvas protetoras de lado e então passou as mãos pelos cabelos, vendo o quão estavam encharcados de suor. Os dois homens pararam á sua frente, e ele, com vergonha, somente acenou com a cabeça, já que sua mão estava coberta de suor.

- Bem. – Kennan avaliou – E pensar que á um mês atrás você era um garoto qualquer atrás de prazer e gozação. – ele cutucou o braço do homem velho, fazendo-o sorrir.

- Acho que não me apresentei, direito – o homem velho tinha uma firmeza na voz e um jeito de liderança que Noah tinha de admitir ser assustador. – Sou Densverouix, o prefeito do Distrito 1. Acho que você conheceu minha netinha, a Luce.

- Lucy – Noah corrigiu.

- Bem, chamo ela do modo que eu preferir. – o prefeito ergueu as sobrancelhas – Vejo que está voltando a ativa, Noah. Eu admito ter gostado muito de seu desempenho na Arena.

- Obrigado, senhor prefeito. – Noah se curvou, e logo entendeu o porquê daqueles olhos serem tão chamativos. Eram iguais ao de Lucy.

- Ora, somos amigos, afinal eu te devo essa – o prefeito segurou seu ombro – Por ter cuidado da minha Lucy.

- Sim. – Noah concordou com um aceno – Foi só um instinto.

- Sei, eu sei. Qualquer um que a ver, irá querer cuidar dela! – Densverouix riu. –Bom, iria.

Noah se mexeu, incomodado. Não tinha se acostumado com a idéia de ter de falar de Lucy no passado. Afinal, ela não tinha morrido. Não para ele. Apenas concordou com um meneio de cabeça e colocou a atenção sobre Kennan, que estava olhando para seu material de treino.

- Realmente eu cheguei em boa hora – Kennan esfregou as mãos – Você está treinando com o pior método que eu já vi. Péssima dieta, péssima proteção, péssima higiene...

O prefeito pigarreou, chamado a atenção dos dois.

- Eu estou aqui, Noah, para te fazer uma proposta. – ele deu um passo a frente – Quero que você treine com Kennan e com mais dois jovens para as linhas de frente. São bons professores – o prefeito deu uns tapinhas em suas costas. – Espero que aceite. Pela Lucy.

- A-Ah, claro – Noah concordou com um aceno – Claro...

- Que ótimo! Então estamos combinados!

O prefeito saiu saltitando pela arena, deixando Noah e Kennan á sós. Kennan pegou uma espada e a moveu facilmente entre os dedos.

- Gostaria de uma ficha técnica sobre os “jovens” – ele perguntou.

- Claro. – Noah afirmou.

- Bem, o primeiro “jovem”, se chama Cindy. Cá entre nós, ela tem quinze anos, é ruiva, tem um corpinho enxuto. Usa alargador, olhos verdes escurecidos e pele alva. Um metro e quarenta, é baixinha. Cibele Alcantara, seu nome inteiro.

- Parece ser uma boa refeição – Noah riu, relembrando de como conversava com seus amigos do bar.

- Sim, é mesmo. Estou namorando com ela á quinze meses. Muito boa de cama, nem parece ter só quinze.

- Ah, desculpe, eu não sabia... – Noah corou.

- Não, que isso, não me senti ofendido. A Cindy será minha aluna. Porque... Você já sabe...

- Claro. – Noah concordou – e o meu aluno?

- Tem dezenove. – Kennan sorriu selvagemente . – É mulata... Mulata não, negra... Daquelas de olhos escuros. Cabelos cacheados e pretos... E o nome dela é Amandla.

- Amandla? – ele ergueu uma sobrancelha.

- Sim. – Kennan concodou – E dizem que ela é...

º º º

Noah olhou para as duas meninas que entravam na arena. Ele tinha acabado de tomar banho e estava cheiroso, sentia a pele refrescante. Os cabelos ruivos ainda estavam molhados, e a barba ele tinha tirado somente o excesso.

Se sentia melhor. Após se apresentar ás meninas, ele deixou Kennan explicar tudo á elas, e então foram embora. Noah se sentou diante da fogueira que tinha feito e começou á rodar a faca entre os dedos. Algo que trazia uma nostalgia tremenda sobre ele. Deixou os pensamentos fluírem de dentro dele. Esvaziando-o.

- Ainda está pensando nela? – Kennan se sentou ao seu lado.

- Sim...

- A Amandla é mesmo muito bonita.

- Não... Não é nela que eu estava pensando – Noah estava indeciso se podia ou não contar á Kenna. – Eu estava pensando na Lucy, na Arena.

- Ah, sim, a Arena...

Noah concordou com um aceno. Ele tinha passado pouco tempo pensando na Arena. Em tudo que tinha acontecido lá. Ele tinha ficado sabendo que foram somente vinte dias, mas na Arena pareciam ter sido dois anos. Ele ainda sentia o perigo de cada corredor, cada curva poderia significar a morte certa... Ele se lembrava vividamente de tudo o que tinha passado lá dentro. E, mesmo a maior parte sendo ruim, ele não mudaria nada. Tinha sido tudo perfeito. Por ele, poderia passar o resto da vida naquele Labirinto. E ter Lucy viva.

Noah ainda não tinha conseguido excluir Lucy de sua convivência. Em tudo que fazia ele se virava para o lado, para falar ou comentar alguma coisa, e então se lembrava de que ela não estava lá. Seus cabelos louros e compridos. Aquela faca que ele dera para a menina, entrando em seu coração! Às vezes entrava em estado de choque ao se lembrar do que havia acontecido. Um arrepio lhe subia a espinha e ele se mexia, desconfortável. Kennan também era amigo de Lucy. Afinal, até o avó da menina parecia encontrar motivos para fazer piada da morte dela, e por que somente ele sentia a falta dela? Por que somente ele conseguia pensar em como Lucy ainda tinha tanto para viver, tanto para descobrir...

A culpa e a dor o tomavam.

Ele se sentia culpado pela morte dela. Afinal, não tinha respondido sua última pergunta. “Por que as pessoas fazem coisas pelas outras, que não fariam por mas ninguém?”. Ele morreria por ela? Ele teria coragem de enfiar uma pequena faca no coração, somente para que ela saísse viva da Arena? Às vezes Noah sentia medo. Às vezes sentia raiva. Ele odiava Acacia, e o jeito como ela tinha se intrometido no meio da briga. Ela deveria estar morta á muito tempo! Se não fosse ela, Noah não teria ficado tão concentrado que não poderia dar atenção á Lucy... Ele não conseguia entender o mundo. Não conseguia entender porque Acacia tinha sido salva e a pequena Lucy não. Afinal, quem merecia mais: Lucy ou Acacia? Claro que Lucy! Noah passou as mãos pelos cabelos. Queria sentir a menina dizer que eles tinham quatorze e vinte anos. Ele queria que ela estivesse lá. Pós-menstruada, não virgem, viva. Ele queria que a Lucy da Arena existisse de verdade, não que tivesse ficado na Arena... E agora ele sabia que tinha dez por cento de chances da Capital ter salvado a alma de Lucy em um computador...!

Ele se sentiu só. Se sentiu solitário e muito inferior. Não tinha a companhia de ninguém. Vinha treinando consigo mesmo, em silêncio. Sem pensar ou falar muito. Ele não tinha o que dizer para si mesmo. A convivência não era mais a mesma. Parecia que todas as outras pessoas eram mesquinhas. Elas não entendiam o que era ter ficado dentro da Arena por tanto tempo.

Um vazio ta grande... Ele pegava os livros de poesia das estantes de seu pequeno apê alugado, e folheava-o, lembrando de suas noitadas divertidas e deliciosas. De dormir com uma, duas, três mulheres de ma só vez. De sair com os caras do bar com canecas de cerveja ás duas da manhã. Eram tantas lembranças e parecia fazer tanto tempo, que ele pensou estar vivendo outra vida.

- Você a amava? – Kennan perguntou, por fim.

- Quem?

- A Lucy.

- Sim. É óbvio, não?

- Claro que é – Ken sorriu – Eu também amava a baixinha. Era como uma irmã caçula, para mim. E para você era como uma filha... Ou uma namorada. – Kennan ergueu as sobrancelhas.

- Olha, eu não quero falar disso...

- Você amadureceu muito, Noah, disso eu tenho certeza. Foram vinte dias. Mas em quinze você conseguiu criar um caráter mais maduro, conseguiu proteger quem queria e lutar por intermináveis horas. Era muito capacitado. Era o extremo de qualquer ser humano, e você fazia com naturalidade.

- A câmara da Arena ajudava – Noah respondeu, ríspido – Ela controlava tudo. De verdade, eu não estava tão forte assim. Era ilusão.

- Pode ser. Ou pode não ser. Depende de como você quer pensar. A Arena era uma ilusão para você?

- Sim.

- E a Lucy? Os cabelos longos dela e o arco sobre o ombro. Eram ilusões?

- N-Não... – Noah disse, mantendo a voz baixa para não aflorar os sentimentos.

- Está certo...

Kenna colocou a mão em seu ombro e se levantou, deixando-o sozinho. Noah recolheu o material de aula e o guardou. Logo em seguida pegou os sapatos e foi para a Vila dos Vitoriosos, onde ficava sua nova casa. Quando entrou pela porta, Margareth exclamou de surpresa. Marga era a faxineira que Noah contratara para limpar sua casa, já que ele não levava jeito para isso. Marga tinha duas netas, Fabi e Gabi. As duas tinham três anos e eram gêmeas. Elas ficava colorindo cadernos de desenho na varanda. Noah também tinha um jardineiro particular, chamado Pablo. Pablo era marido de Marga, e tinha um filho de quatorze anos, que era pai das gêmeas Fabi e Gabi. O pirralho tinha só 14, mas cuidava das duas meninas como se fosse um adulto exemplar. Ele tinha tido as meninas com sua namorada, Fabiana Gabrieli, daí vem o nome das meninas. Fabri, como ele a chamava, morreu logo após o parto dos bebês, com insuficiência de sangue.

Noah subiu as escadas sem prestar muita atenção no seu cachorro, presente da família Densverouix, que ele tinha apelidado de Musse (que, “coincidentemente” rimava com Lucy”). Entrou no banheiro e levantou a tampa, abrindo o zíper e fazendo todo o procedimento para não espirrar na porcelana do vaso. Quando terminou, nem se deu ao trabalho de dar descarga ou abaixar a tampa. Foi para seu quarto e trancou a porta. Se deitou na cama de casal e então pegou o livro de poemas que estava na página 49.

Dores

Há dores fundas, agonias lentas,

Dramas pungentes que ninguém consola,

Ou suspeita sequer!

Mágoas maiores do que a dor dum dia,

Do que a morte bebida em taça morna

De lábios de mulher!

Doces falas de amor que o vento espalha,

Juras sentidas de constâncias eterna

Quebradas ao nascer;

Perfídia e olvido de passados beijados...

São dores essas que o tempo cicatriza

Dos anos no volver.

Se a donzela infiel nos rasga as folhas

Do livro d’alma, magoado e triste

Suspira o coração;

Mas depois de outros olhos nos cativam,

E loucos vamos em delírios novos

Arder noutra paixão.

Amor é o rio claro das delícias

Que atravessa o deserto, a Veiga, o prado,

E o mundo todo o tem!

Que importa ao viajor que a sede abrasa

Que quer banhar-se nessas águas claras,

Ser aqui ou além?

A veia corre, a fonte não se estanca,

E as verdes margens não se crestam nunca

Na calma dos verões;

Ou quer na primavera, ou quer no inverno,

No doce anseio do bulir das ondas

Palpitam corações.

Não! A dor sem cura, a dor que mata,

É, moço ainda, e perceber na mente

A dúvida a sorrir!

É a perda dura dum futuro inteiro

E o desfolhar sentido das gentis coroas,

Dos sonhos do porvir!

É ver que nos arrancam uma a uma

Das asas do talento as penas de ouro,

Que voam para Deus!

É ver que nos apagam d’alma as crenças

E que profanam o que santo temos

Co’o riso dos ateus!

É assistir ao desabar tremendo,

Num mesmo dia, d’ilusões douradas,

Tão cândidas de fé!

É ver sem dó a vocação torcida

Por quem devera dar-lhe alento a vida

E respeitá-la até!

É viver, flor nascida nas montanhas,

Para aclimar-se, apertada numa estufa

À falta de ar e luz!

É viver, tento n’alma o desalento,

Sem um queixume, a disfarçar as dores

Carregando a cruz!

Oh! Ninguém sabe como a dor é funda,

Quando pranto’s engole e quanta angústia

A alma nos desfaz!

Horas já em que a voz quase blasfema...

E o suicídio nos acena ao linge

Nas longas saturnais!

Definha-se a existência a pouco e pouco,

E ao lábios descorado o riso franco

Qual dantes, já não vem;

Um véu os cobre de mortal tristeza,

E a alma em luto, despida dos encantos,

Amor nem sonhos tem!

Murcha-se o viço do verdor dos anos,

Dorme-se moço e desperta-se velho,

Se fogo para amar!

E a fronte jovem que o pesar sombreia

Vai, reclinada sobre um colo impuro,

Dormir no lupanar!

Ergue-se a taça do festim a orgia,

Gasta-se a vida em noites de luxúria

No leito dos bordéis.

E o veneno se sorve a longos tragos

Nos seios brancos e nos lábios frios

Das lânguidas Frinés!

Esquecimento! – mortalha para as dores

Aqui na terra é a embriaguez do gozo.

A febre do prazer:

A dor se afoga no fervor dos vinhos,

E no regaço das Marcôs modernas

É doce então morrer!

Depois o mundo diz: — Que libertino!

A folga no delírio dos alcouces

As asas empanou! –

Como se ele, algoz, das esperanças,

As crenças infantis e a vida d’alma

Não fosse quem matou!...

Oh! Há dores tão fundas como o abismo.

Dramas pungentes que ninguém consola

Ou suspeita, sequer!

Dores na sombra, sem carícia d’anjo,

Sem voz de amigo, sem palavras doces,

Sem beijos de mulher...

[Rio – 1858]

Notas finais
Cindy:https://fbcdn-sphotos-f-a.akamaihd.net/hphotos-ak-prn2/988544_455380901218277_713683078_n.jpg
Amandla: https://fbcdn-sphotos-h-a.akamaihd.net/hphotos-ak-frc1/v/944141_504893019584161_1627722155_n.jpg?oh=0517f3af4157e210bd128012ed82a7b9&oe=51CCB2C8&__gda__=1372430477_98d0c71afe3144e84dedf89e88966633
Beijos!