Notas iniciais
Dedico á todos os falecidos poetas do Brasil. E ao futuro poeta do meu coração, que vaga alheio em meus pensamentos.

Noah Christhurt

Meu Universo é Você — Roupa Nova

Noah estava na padaria, levando os pães que saíram dos fornos para o caixote de pães, quando ouviu o sino da porta da padaria se abrindo. Virou-se com um sorriso esticado no rosto e pronto para perguntar:

- O que o senhor dese... – seus olhos entraram em pânico. Seu cérebro só poderia estar lhe pregando peças...

- Ora, se não é o Meu Ruivo...

A boca de Noah fica seca, e suas veias começam á puxar sangue ainda mais rápido. Ele instintivamente colocou a mão em seu peito. Ainda sentia, mesmo pela camisa, as cicatrizes feitas pelo cigarro.

- Você... – sua voz falhou.

- Ora, então o meu Ruivo fugiu, não é? Ficou forte e grande... Dá pra fazer mais coisas assim.

Os pelos da nuca de Noah se arrepiaram.

- Não vai acontecer nada, seu tapado! – ele retrucou.

- É o que veremos, Noah. Eu posso te entregar aos seus pais, ou você pode fazer favores somente para mim. O que acha melhor para nós dois, hein?

- Te matar.

- Ora, você nunca será capaz de...

Noah jogou o rolo de amassar pão mais próximo que viu. Foi difícil achar um lugar onde esconder o corpo, mas finalmente conseguiu. Quando voltou, a velhinha dos sonhos havia voltado. Ele sorriu para ela a entregou o saco cheio de sonhos que ela encomendara mais tarde. Ela lhe chamou de menino educado, e saiu com sua bengala. Quando ela se foi, Noah colocou as mãos no rosto, e se perguntou em quem havia se tornado.

º º º

Noah cresceu. Cresceu e cresceu mais um pouco, até ter dezessete. Já havia ganhado sua casa própria com o salário que lhe pagavam na padaria, e começou á fazer amigos por ai. Ia de vez em quando no bar, e tomava uma ou outra cerveja.

Mas as amizades ficaram maiores, ele começou á ir mais freqüentemente no bar e a tomar cinco ou seis cervejas. E as meninas eram lindas, realmente... Não demorou muito até ir levar uma para dormir com ele em seu pequeno apartamento. Ele achou fantástico, e marcou de fazer aquilo com ela novamente.

- Ta doido, cara, menina a gente come só uma vez. Depois a gente joga fora e pega outra. – seu amigo disse.

- Certeza? Ela é boa na cama...

- O que você tem de comer são as mau na cama, pois elas quase não fizeram safadeza com ninguém, ai sim você faz mais de uma vez com ela, e ai ela sai falando pra todo mundo que foi você que ensinou ela.

- E se ela engravidar?

- Cara, se engravidar se ta lascado, mas que se dane! Que engravide tudo de uma vez!

E assim caiu na folia. Noah não sabia, mas engravidou duas meninas. Uma teve aborto espontâneo, e a outra o pai fez um “aborto espontâneo” nela e a mesma acabou falecendo de hemorragia.

Noah entrou nessa vida de cabeça. Cada noite era um nome diferente na sua lista de amigas, e cada noite diferente era uma calcinha que voava pela cama de seu quarto. Elas gritavam, arrancavam os próprios cabelos, e pediam por mais. E Noah adorava vê-las naquela situação. Normalmente elas tomavam mais cervejas que ele junto com todos os outros homens. Uma vez ele até levou três de uma vez só pra cama, e seu amigo disse que ele era “O Cara”.

Sim, Noah era o cara. O cara que iria cuidar de Lucy nos jogos. Uma menina de doze anos, que fora trancafiada no sótão por toda a sua vida, e que tem milhões de perguntas para ele. Sim, ele pensará em aproveitar a situação, mas se irá de fato abusar de Lucy, isso já não sei. Não sei mesmo. Ora, sou apenas um narrador!

Um dia um autor me escolhe e me inventa na cabeça dele, e eu começo á narrar os fatos. As vezes eu sou parte da história, as vezes eu apenas conto o que acontece nela. Sabe, neste exato momento a autora está escrevendo algo. E vocês estão lendo algo. Ela não me merece. Talvez fosse melhor que ela estivesse contando a história, mas como seria impossível, eu estou aqui.

Você pode me imaginar de qualquer tipo ou jeito. Pode me imaginar homem ou mulher. Alto ou baixo, magro ou gordo. Ruivo ou loiro. Mas eu sempre serei o narrador. Uma figura sem nome, CEP ou idade. Eu irei te levar para as maiores aventuras ou dramas da sua vida. E será lá que você irá rir, chorar e se emocionar. Mas não me dê o crédito, quem me fez foi a autora. E não dê o crédito á ela. Que na verdade só me fez por causa de vocês, que estão lendo isto agora. Que baboseira, eu nem deveria ter aberto a minha boca! Você nem deveria ligar para mim, mas eu sou o ponto. A virgula e o acento. Sou tudo que você quiser. E tudo o que você menos imaginar.

º º º

Noah se deitou na cama, Rosa estava deitada á seu lado, e Margarida do outro. Ou será violeta e narceja? Tulipa e Jasmin? Não se sabe. Mas Noah nem ligava para isso, agora. Ele tinha acabado de comer mais duas, de uma vez.

- Lê um poema. – Rosa, Violeta ou Tulipa pediu.

- Verdade, nos lê um poema, Nicolas! – Margarida, Narceja ou Jasmin também apoiou.

- Tudo bem, mas eu sou o Noah, Noah, guardem bem este nome.

- Vamos guardar... – Rosa e Tulipa falaram. Ou será Margarida e Floral... ?

Noah se levantou e pegou um livro da prateleira. Estava nu, e sabia que as meninas o olhavam da cama.

- Que marcas são essas, lindo? – Tulipa perguntou.

- São marcas de vitórias. – mentiu ele.

- Uh, que lindas. Devem ter te valido belas surras...

- Que nada, os meninos que eu batia tem mais marcas que eu. – mentiu mais uma vez.

Escolhe o livro e se deitou novamente entre as meninas, que se aninharam em seu peito e nas cicatrizes de cigarro que lá haviam

IV

Oh! Virgem – na campa que tem teu cadáver

Estive inclinado, — joelhos no chão

Co’o triste alaúde coberto de crepe

Tentei entoar-te funérea canção.

Minh’alma em sublime delírio voava,

Minh’alma voava, saía de mim,

Meu triste alaúde coberto de crepe

Ficou numa estátua de marfim.

Minh’alma voava suspenda no espaço,

Minh’alma voava – por onde- não sei.

Aos lados e acima somente o infinito,

Por baixo somente sepulcros achei.

E tudo deserto, — silêncio de tumbas,

Vastíssimo aspecto de imensa solidão:

E tudo espirava belezas horríveis

De um mundo que de homens não pode ser não.

Então repentina no vago do espaço

Não sei que harminia que ouvi que rompeu;

Não sei se partia de vozes estranhas,

Não sei se partia do espírito meu.

- Oh, que lindo, Noah... – Margarida sorriu.

- Eu sei. Fui eu quem escreveu. – ele mentiu.

[Poetas e Escritores Românticos do Brasil; 97 e 98; Junqueira Freire, Nêmia à Filha de São Vicente de Paula; Edição: 1987-1988, Barcelona, Volume 2.]

Notas finais
Beijos, e mandem reviws!