Notas iniciais
Mais um capítulo, meus lindos. Se puderem, os novos leitores que ainda não enviaram as fichas, tentem enviar masculinas. E Carpe, capítul especialmente teu.

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Vi o olhar sofrido de mamãe, e as feições de poder e indignação de papai. Kouro estava olhando fixamente para mim, quando aquela menina apontava o dedo para mim e dizia que iria me substituir, e estava se voluntariando para ficar em meu lugar, que a filhinha do prefeito não podia competir, que eu morreria em questão de segundos e blá-blá-blá. Revirei os olhos. Devia ser mais uma daquelas filhas de Pacificadores que treinam na Prefeitura, em vez de treinarem com os meninos do Centro de Treinamento do Distrito 1. Ela deveria achar mesmo que eu iria deixar ela ir no meu lugar. HAHAHA!

- Cai fora, menina! – mandei.

Ela empurrou meu ombro, como se eu não fosse a filha do prefeito e foi para frente de Ulliah, ficando na frente dela, e dizendo em alto e bom som: — Eu, Magná Louro me ofereço como tributa...

Infelizmente ela não pode continuar, pois eu cravei minhas unhas em suas costas, e afundei, até sentir seus ossos.

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Acordei com o barulho do despertador de rouxinol que meu pai havia feito em sua empresa de diamantes. Logo me espreguicei e escutei Kouro bater em minha porta. Ele sempre era pontual, assim como todos de minha casa, incluindo eu. Sorri e lhe dei permissão para que entrasse em meu quarto.

Meu irmão entrou e, formalmente, trouxe uma bandeja de madeira, com um prato fundo com sopa de margaridas, uma colher de ouro e um guardanapo feito com rubis. Sem contar a linda flor exótica que somente meu Distrito possui, a flor de Platina. Uma raridade da genética. Assim que ele pousou a bandeja em meu colo, sorri para ele e lhe dei minha mão, Kouro a beijou na parte de trás e, com um gesto de educação, se inclinou e disse que eu estava tão bonita como qualquer outra flor de Esmeralda.

- Feliz, minha irmã? – Kouro perguntou.

- Sim, meu irmão. Só não entendo porque você faz um serviço de nossos empregados.

- Eu queria lhe fazer uma surpresa. O que acha? Eu mesmo fiz a sopa.

- Que gentil... Sua futura esposa irá lhe amar profundamente, Kouro...

Ele me lança um sorriso e se olha no grande espelho que cobre uma das paredes de meu quarto. Ele sorriu para si mesmo e voltou a sua atenção para mim.

- Acho que é hoje. – ele disse.

- Tenha calma, Kouro, ela deve estar agitada por causa do irmão.

- Não ligo. Quando receber meu convite de casamento, não recusará. Sinto que eu preciso fazer isto.

- Se assim quer... – dou de ombros e lhe dou permissão.

Ele se curva novamente para mim e sai de meu quarto, fechando minha porta. Vejo o nome escrito atrás dela, com letras curvilíneas e brilhantes, com jóias e muito ouro. Selene. Suspiro e olho para minha bandeja. Sopa. Odeio! Guardanapo de rubi? Não dá para limpar a boca com isso se não for para se ralar toda! Uma flor de platina? Ah, quer saber, que coisa mais idiota! Dei um tapa na bandeja, lançando-a longe. Sai de minha cama e coloquei meus normais trajes.

Um vestido violeta, um cinto cinza, e uma calça leg preta. Penteio os cabelos até estarem todos lisos e passo me perfume de ambrosia. Perfeito. Desço e dou bom dia a minha querida família. Mamãe está lendo o jornal na Edição Especial Para Mulheres dos Prefeitos, e papai está ao celular, como sempre. Kouro está na cozinha, preparando panquecas e já sinto o cheiro da cobertura de mel. Sem que eles percebessem, reviro os olhos e me sento a mesa.

- Dormiu bem, Mamma? – pergunto. E ela levanta os olhos do jornal, pondera em me responder e, como já era de se esperar, volta a ler seu jornal, ignorando-me. Mas eu já esperava isso. – Dormiu bem, Pappa? – pergunto direcionando-me a meu pai, que, por alguns instantes, fala ao telefone, mas logo o desliga e assenti para mim, dizendo:

- Sim filha, e você? Ansiosa pelos Jogos?

- Não. O que vai ter lá além de matança e mais gente morta? – falei fatiando o queijo para por em meu pão.

- Bom, este ano, cada prefeito pode agir tomando decisões para seus Tributos, ou seja, se nosso Distrito ganhar este ano, iremos ganhar reconhecimento!

- Nossa, que legal... – respondi sem entusiasmo. Mamma fez um barulho com a garganta enquanto tomava seu café, como se concordasse comigo. – Viu, a Mamma também sabe que isso é... Perda de tempo. Mesmo que um deles vença, o outro irá morrer, de qualquer jeito.

- Não, você não viu os Jogos passados? Podemos ter dois vencedores agora!

- Pappa, você acha mesmo que a Capital quer isso? Não se lembra que só um menino ganhou, mesmo podendo ter dois ganhadores?

- Selene, escute-me...

- Não, escute você, se você acha que pode mudar em alguma coisa os Jogos, não pode. Esta me ouvindo? E se eu fosse para lá? E se Kouro fosse para lá? Você iria fazer o que? Pagar tudo com diamantes para nos deixar vivos? Pappa, nessa coisa, não tem como se manter vivo, até que alguém morra. Ou melhor, até que todos morram.

Mamma e Kouro olhavam fixamente para mim, e quando terminei de falar, olharam para meu pai, esperando respostas. Porém, ele apenas bufou. Olhe, sei que muitos pais teriam dado uma bofetada na cara de seus filhos ou iriam gritar para eles irem para seus quartos e pensar no que haviam falado e desrespeitado, mas eu sou a “filha do papai” então ele, nem Mamma, e nem Kouro iriam me repudiar ou me bater. Eu sou uma princesa. Ou pelo menos eles acham que eu sou. Deixo minhas lindas unhas crescerem, só para depois rasgar a pele de pássaros e tordos com elas. A muito tempo venho visitando Rubi e Jouro. Eles são vitoriosos. Rubi tem 19 anos agora, e Jouro tem 30. Eles me treinam. E sim, existem muitos outros vitoriosos em meu Distrito, mas eu escolhi os dois por apenas um motivo: Foram os melhores. Rubi é uma mestra em atirar facas e rastreadora, Jouro é o melhor em lutas corporais, e por isso eu os escolhi.

- Tenho que ir. – digo e me levanto da mesa após dar três mordidas em meu pão.

- Aonde vai?

- Aula de piano, se esqueceu? – minto para minha mãe. Ela faz uma careta.

- Em plena Colheita?

- Sim, Mamma. Quer que eu toque piano para você ou não?

- Volte antes da Colheita. – ela me diz e faz um gesto com a mão, me permitindo partir.

A muito tempo eu venho mentindo dizendo que estou tendo aulas de piano, e na verdade estou indo para a Aldeia dos Vitoriosos, que aqui em meu Distrito é mais conhecida como Paraíso da Glória. Rubi está com seu típico vestido romano, com cetim e muitas outras fitas finas. Jouro está com seu traje de Colheita, como ele é o mentor masculino, então tem uma participação mais ativa nos Jogos, já Rubi quase nunca ajuda. Assim que eles me vêem com as mãos dentro dos bolsos de meu vestido florido e puxando as meias com os pés, eles sorriem e logo vêem ao meu encontro.

- Pensei que iria querer parar, é época de Colheita. Ninguém faz nada, como um feriado anual. – diz Rubi, tirando minhas trancinhas para fora do gorro.

- Uma lutadora nunca tira férias. – responde Jouro, em minha defesa. Ele acha que um dia eu irei para os Jogos, e que eu irei arrebentar com tudo.

Fomos até a arena do Centro de Preparação dos Vitoriosos que foi inaugurado assim que o Massacre Quaternário determinou que os vitoriosos dos anos passados teriam de lutar novamente, eles resolveram treinar, para evitar surpresas ou despreparo para os Jogos. E como demorará muito para outro Massacre Quaternário, eles não vão lá com freqüência, com exceção de Rubi e Jouro, que me levam lá para treinar.

- Que tal aquecermos? – Rubi propôs, mas Jouro negou, e logo indicou com o dedo a parede onde tinham as armas de lâminas.

- Na Arena ela não irá ter tempo de aquecimento, Rubi. – ele diz calmamente. – Vamos, temos que fazer o seu corpo se acostumar a entrar rapidamente na adrenalina, sem alongamentos e... Essas baboseiras.

Lembro-me de assentir e ir em direção a minha arma preferida: Os Léques.

Na verdade, foi eu mesma que criei os Léques. São estruturas iguais a dos leques normais, mas maiores e tem um segredo, assim que acionadas, lâminas brotam de suas entranhas e o ar de fofo e adorável fica mortal e penoso para quem é o alvo. Lançar é fácil, pois ele, embora o tamanho e as lâminas, é leve e tem uma precisão perfeita.

- Não, e não. – Jouro pegou o Léque de minhas mãos e o colocou de volta na parede. – Na Arena não terá esses itens, a menos que você mesma os faça. Quero que me mostre a sua luta com a adaga. Tamanho 7.

Suspiro e pego a adaga mencionada. Vou para perto de Rubi, que é quem combate comigo quando o assunto é lâminas. Ela lança um olhar para Jouro e ele a lança uma adaga tamanho 10, o que é muito injusto, pois quem fica na desvantagem sou eu.

- Isso é injusto. – reclamo ainda com os olhos fixos da adaga nas mãos de Rubi, já aprendi a esperar qualquer coisa inesperada de Rubi.

- Sim, é mesmo. – concorda Jouro. – Mas na Arena, você pode enfrentar muito disso. Não é o tamanho da lâmina que nomeia a luta, e sim, quem as maneja. O tamanho da lâmina não tem nada, se o tamanho do lutador não for maior.

- Mas eu sou pequena. – rebato.

- Verdade? O seu tamanho interior é menor? Menor do que uma... Adaga? – Jouro ergue uma sobrancelha, me obrigando a revirar os olhos.

- Não.

- Não?! Não mesmo?

- Não!!

- Então prove! – ela grita e com o canto do olho percebo que ele deu um comando para que Rubi atacasse enquanto eu estivesse ocupada demais brigando com ele, mas eu já disse que estou preparada a ações imprevisíveis de Rubi.

Rubi, com seus cabelos da cor do sangue e com a pele quase invisível de tão branca coloca a adaga em minha barriga e a força contra o tecido fino de meu vestido. Ela esta sorrindo, embora eu tenha visto o movimento de Jouro, ainda estou atrasada em relação a isso, por isso não consigo reagir. Fungo.

- Talvez eu tenha de treinar com você, primeiro... – Jouro diz.

- Não. Eu consigo. – digo com os dentes trincados.

- 1.30. Seu tamanho está crescendo...

Abro um leve sorriso, adoro quando Jouro me elogia, ou pelo menos tenta... Percebo com o canto do olho outro comando dele, e, mesmo sem olhar para a direção de Rubi, ergui minha adaga, cortando seu corte o alto. Nossas lâminas se encontram com um bolo de faíscas, e Rubi desliza sua lâmina pela minha, fazendo um barulho que me deixa surda por alguns instantes. Instantes preciosos, que me fazem perder a nitidez de tudo e em segundos, recebo um chute na barriga, e uma rasteira, fazendo-me cair deitada de costas, e a lâmina da adaga de Rubi surge em meu pescoço.

Bato na lâmina, tirando-a de perto de mim. Levanto-me e, mesmo sentindo uma leve dor nas costas, ouço a orientação de meu treinador com afinco:

- Não espere que o outro ataque, quem ataca é sempre quem mais confia em sua lâmina, quem espere é sempre quem tem medo de brandir sua espada.

- Mas eu não estou com uma espada. – respondo.

- Não seja tola, Selene. – Jouro diz.

Fico triste. O que eu mais quero é deixá-lo orgulhoso, e agora ele me chama de tola. Sinto uma vontade enorme de deixá-lo boquiaberto, de deixá-lo feliz. Tenho que controlar a lâmina de Rubi, assim como ela faz com a minha nas 4 tentativas fracassadas que eu tive. Ela sempre sabe que eu vou atacar agora que Jouro disse para eu fazê-lo. Mas quer saber? Ele não manda em mim, eu mando em mim. E estou cansada de ser controlada, cansei de ser previsível.

- Vamos, Selene, ataque! – pede Rubi, após ficarmos imóveis somente nos encarando.

- Não, obrigada. – digo. – Se quiser, pode fazê-lo.

Ela ergue uma sobrancelha e olha diretamente para Jouro, atrás de mim. Sei o que ele fez. Sei porque já é previsível. Ele disse através de gestos para que ela não avance. Só mais alguns minutos, eu sei que ela não vai agüentar...

- Por favor, Jouro... – ela implora olhando para ele, mas ele deve ter negado, pois ela suspira e volta a olhar para mim.

Ele revira os olhos e vejo que ela teve o mesmo pensamento que o meu. Ele não manda em mim. Sorrio. Eu sei que Rubi é igual a mim. Assim que ela prepara os tornozelos e rodopia a adaga nas mãos com graciosidade, como se fosse muito fácil, eu abaixo de leve a lâmina, coloco um pé atrás. Sim, ela acha que eu irei recuar, ela vê isso em mim. Eu estou olhando fixamente para sua mão com a adaga, como se estivesse com medo. Algo que herdei de minha Mamma, é a incrível habilidade de encenar emoções. Mesmo as que são mais profundas, como medo ou pavor. Espero. Ela esta medindo o meu medo, para ver até onde ela pode ir com a lâmina. Quando avança, eu lhe mostro um olhar de medo, e vejo um rápido sorriso passar pelos seus lábios, mas ela logo abaixa a adaga, direto para meu ombro direito. Três... Dois... Um... E...

- Perfeito. – elogia Jouro.

Rubi está caída no chão, com a lâmina de minha adaga em suas costas. O que eu fiz? Rápido e preciso, é como eu o chamo. Bloqueei seu ataque, mas não simplesmente erguendo a adaga, e sim atacando-a primeiro, cortei seu cabelo, fazendo-a perder o equilíbrio e cambalear para frente. Então é somente dar um chute em suas costas e... Ela desaba no chão, deixando um barulho ecoar na Arena. Sinto-me muito orgulhosa assim que vejo os aplausos lentos de Jouro, que olha de mim para Rubi por muito tempo.

- Não me impressionou. Mas você cresceu... Alguns centímetros. Sua teimosia pode ser boa E pode ser ruim. – ele me estuda com os olhos dourados, que são exóticos e... Lindos. – Mas por enquanto, você está pronta. Não pronta para entrar na Arena, para isso você ainda tem de aprender muito. Mas pronta para poder se “achar”.

Sorrio. Ele sabe que eu irei fazer exatamente isso quando for para Colheita. Assim que penso nela, ouço o som das carruagens de ferro da Capital, e logo penso que o inferno chegou. Tenho de me apressar para conseguir chegar a tempo em casa...

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Selene Densverouix

Notas finais
Comentem, enviem fichas, e está é a Tributa feita pela Julia Tassinari