Notas iniciais
Vagas ainda abertas, Amoras! Enviem suas fichas! Os Jogos não começam sem fichas!

Lucca Sant'Dio

Pensei no fio. No fio que ainda me segurava no mundo. O que seria este fio? O cheiro do tempeiro da comida de minha mãe? Ou será que era o jeito que ela balançava os cabelos e dizia que tudo no mundo poderia mudar, as pessoas só precisavam de incentivo, mas incentivo ninguém podia dar, era o que eu lhe respondia, porém, paciênte, ela me abraçava e me contava mais uma de suas histórias, de quando tinha minha idade. Minha mãe não tem idade para ser realmente minha progenitora. Minha mãe é minha irmã, querida e especial, Emily. Eu a amo profundamente, foi ela quem me criou, já que meus pais sempre foram ricos e nunca precisaram (ou quiseram) prestar atenção em nós, por isso aprendemos a nos amar mutuamente, a proteger um ao outro, e a obedecer os mais velhos, ou seja, Emily.

"Não se preocupe, Lucca, você é um jovem forte!" ela me disse quando se despedia de mim "Tenha certeza disso, e você vencerá. Os vitoriosos são sempre quem lutam pela vida, mesmo que ela, no fim, não seja boa de ser lembrada." Emi bagunçou meus cabelos, como sempre fazia, e colocou a mão em meu ombro. Foi um momento lendário para mim, pois foi a primeira vez que senti as pulpílas se molharem, mas logo secarem, já que eu estava determinado a não chorar na frente de minha amada Emily, minha querida irmã.

"Acorde, Lucca!" Emily já havia tirado os cobertores de minha cama, e me puxava pelos pés, para sair da cama. Sim, eu sou uma pedra quando durmo, e dificilmente alguém me acorda, e mais dificilmente ainda alguém sai vivo quando o faz. Claro, Emi é uma clara exceção.

- Hum! — reclamei com o fundo da garganta.

"Anda, Lucca, tenho que sair daqui a alguns minutos, você não quer treinar...?"

Assim que a ouvi, dei um salto da cama e fui direto para o banheiro, escovar os dentes e lavar o rosto. Assim que vi meu reflexo no espelho, senti enjoo, eu era muito feio! Embora eu parecesse muito com Emily, e embora ela fosse a mulher mais bonita de TODO o Distrito 1. Emily é a ajudante do cozinheiro chefe do presidente do Distrito 1, o que dá a ela um bom salário, e uma vida muito boa. Mas ela escolheu continuar morando com nossos pais, e por isso ela cuida de mim, já que nossos pais não estão nem ai para nós dois.

Emily é conhecida em todo Distrito por sua beleza, ela é... Atraente ao olhar masculino, e invejoso ao olhar feminino. Motivo de fofoca. Mas também de admiração. Tenho certo orgulho de tê-la como irmã. Mas assim que a deixei para trás, senti como se uma flecha atravessasse-me e me cortasse o coração em dois. Ouça o que eu digo: Se não fosse irmão dela, iria morrer tentando me casar com Emi. Aqui em nosso distrito, mulheres bonitas são motivo de boa vida, bom dinheiro e bom cargo de trabalho. Sim, as mulheres em meu distrito eram como troféis, quanto mais você tinha de sucesso, mais a sua esposa era linda. Emily, por exemplo, com seu rosto divino é uma mulher de sorte, pois deve se casar com o filho do prefeito, já que ele é o mais rico e conhecido homem de meu distrito. Eu odeio saber que irei perdê-la para um mimadinho. Pois eu e ela fomos "criados" por ricos não somos mimados, mas claro, ele é. Odeio saber que o máximo que conseguirei é uma "quebra-galho" e o pior: Odeio essa coisa, de usar a mulher só para identificar seu nível na classe social. Não sei como elas conseguem se sentir felizes em saber que são bonitas demais, ou feias demais. Afinal, são mulheres, nenhum ser humano nunca irá saber o que de fato passa pela cabeça delas, e como é que elas pensam a respeito de tudo.

- Você tem 40 minutos! — ela gritou do lado de fora da porta.

Me despi e entrei no chuveiro, tomei um banho rápido de dois minutos e enrolei uma toalha na cintura, corri para meu quarto, não ligando para a água que caía de meu corpo, e que iria me fazer cair algum momento. Tirei a toalha do corpo e procurei rapidamente por uma cueca limpa, o que é algo que eu normalmente acho rapidinho. Mas hoje parecia que elas queriam brincar de esconde-esconde comigo, só para me deixar pelado e molhado na frente de Emily. Assim que encontrei a cueca, a coloquei, e ela automaticamente grudou na minha pele, ficou mais escura, devido a água. Peguei uma bermuda suja mesmo e uma camiseta de botão. Nem terminei de abotoá-la (de qualquer jeito, errado os botões certos) e me virei para Emily. Ela sorriu.

- Feche o zíper e abotoe direito, se não, não vamos sair deste quarto... — ela bateu no pulso, e, mesmo sem ter nenhum relógio, ela queria dizer que o tempo estava passando. Com os cabelos molhados e a roupa grudando em mim, e fechei o zíper da bermuda e abotoei a camiseta (sem calma alguma) e me virei para ela, como se dissesse "Assim está bom?". Emily assentiu e abriu a porta, sai em disparada, e ela também. Descemos as escadas e, no antepenultimo degrau, ela caiu de bunda, e escorreu os últimos da escada e gargalhou, quando chegou ao fim. Eu só pude ficar boquiaberto e espantado, e logo cair na gargalhada também.

E quem estavam na copa, olhando para gente, como se fossemos animais de circo? Claro, essa é fácil, mamãe e papai.

Mamãe, com um roupão azul escuro e uma maquiagem dourada, que na verdade era tatuada, ao redor dos olhos e um nariz altamente modificado. Meu pai, com seu paletó preto e o jornal da Capital na Edição Especial para a Colheita estava com ele. Olhe, mamãe e papai são muito ligados a Capital, de tal modo, que eles sempre protegeram a mim e a Emily da Colheita, conversando com os amigos deles da Capital e pagando altos preços por nós dois. Nisso eu sou grato a eles. Sabia que este ano não seria diferente, e que mamãe e papai iriam contar para mim que eu tinha sido tirado das urnas, e que Emily não precisava mais, pois já tinha 27 anos.

- Filho, pare de rir, agora, precisamos ter uma conversinha... — papai se levantou e me conduziu para a sala, segurando o meu ombro, o que, em hipoteze nenhum ele iria fazer, a menos que... — Olhe, filho, você já é um homem e creio que devo lhe avisar... — ele deu uma pausa, decidindo se dizia ou não — Sua irmã é uma moça que arranca suspiros de qualquer rapaz, quero que a proteja.

- Sim, papai, eu faço isso. Mas... Não é isso que o senhor queria falar, é? — perguntei. Embora não fosse muito próximo deles, e muito menos de mamãe, eu ainda conversava sobre futebol ou basquete com meu pai, enquanto assistíamos a TV no horário dos esportes da Capital.

- Sim, filho, você tem razão, isso era só metade do que eu queria lhe falar... — ele deu outra pausa, me deixando curioso e bravo com ele — Você sabe que... As coisas andam muito ruins para mim e para sua mãe. A loja dela só arrecadou 200.568.10 moedas, e isso em comparação ao ano passado é somente 4 porcento do que conseguimos. Minha carreira como Pacificador está chegando ao fim e... Minha aposentadoria será bancada pelo prefeito, e ele e eu somos muito amigos, e mesmo assim ele só me dará 58,523.147.00 moedas, e você sabe que isso não é nem meu salário de um mês.

Sim, meus pais são muito ligados as contas e a matemática (principalmente se o assunto forem moedas...).

- Aonde quer chegar?

- Este ano eles aumentaram o preço para te livrar dos Jogos, pois parece que a Capital esta querendo alguma coisa... Diferente neles. — Odeiei o jeito que meu pai disso isso. — E, bom, como já disse, eu e sua mãe não estamos tão bons financeiramente... Resumindo, não podemos pagar por você nos Jogos deste ano. Sua idade está avançando, e por isso eles aumentam o preço, me desculpe, filho, não sabe como me doí o coração... — percebi seus olhos molhados e as púpilas dilatadas, como quem é velho e já chorou a noite inteira.

- Tudo bem, papai, afinal, esta é a primeira vez que meu nome entra lá, não? São mínimas as chances de eu ser sorteado!

- Sim, eu sei disso, só não queria que você pensasse que eu dei mais valor a sua irmã, pois pude livrá-la de todas as Colheitas as quais ela estava destinada a participar. Não é preferência, é necessidade. Só este ano, eu juro...!

Percebi que ele falava sério, então dei meu melhor sorriso e assenti, dizendo que tudo ficaria bem e que ele não precisava se preocupar. Mas eu lembrava da menininha dos Jogos passados. Mya Kitten, a pequena gatuna, ela foi sorteada no mesmo ano em que entrou na Colheita, e isso queria dizer que seu nome só estava lá uma vez. O que só queria dizer que eu não tinha tanta sorte assim em ter o meu nome lá só uma vez.

Notas finais
Fichas, não esqueçam!