Your Grace
10 Dishonored
A noite já havia caído e Adele roçava os seus dedos pelo peito nu de Richard. Ela tinha ignorado todos os conselhos das suas amigas e a sua própria cabeça que gritavam para se manter afastada de Richard pois ela simplesmente não o conseguia fazer. Havia algo nele que fazia com que ela não se conseguisse manter afastada. Mas, claro, havia o problema da sua esposa. Não que isso fosse um problema para a maioria dos nobres; o real problema era os rumores existentes sobre ela. Aqueles pensamentos rondavam a cabeça de Adele desde que Elena lhe contara sobre o que sabia das amantes do Richard. Ela decidiu, então, perguntar:
— Posso fazer-te uma pergunta?
— O que quiseres, minha amante.- respondeu Richard mexendo nos cabelos dela.
— É sobre a tua mulher.- continuou ela.
Richard remexeu-se na cama e sentou-se direito, perguntando:
— O que tem a Claude?
— Eu ouvi algo.- explicou Adele sentando-se também.
— Não acredites em tudo o que ouves.- atirou Richard que parecia irritado com aquele assunto.
— Eu só queria perguntar…
— Eu tenho de sair.- interrompeu ele, vestindo-se.- Acredito que saibas o caminho de volta para os teus aposentos.
Com isto Richard saiu do quarto deixando Adele confusa e sozinha.
Vincent ia em direção aos seus aposentos. Tinha tido um dia imensamente cansativo visto que tinham andado a caçar todo o dia e Gideon não lhe tinha dado um descanso. Ele virou no corredor que iria dar aos seus aposentos quando chocou contra alguém derrubando tudo o que a pessoa trazia nas mãos. Vincent não se mexeu, ficando simplesmente a olhar para a pessoa que recolhia um grupo de livros do chão. Foi então que percebeu que se tratava da filha de Gideon. Ele esperou que ela se levantasse para dizer:
— Está bem?
— Sim, sua alteza.- respondeu ela.
— Trata-me por Vincent.- pediu ele.
— Alanna.- apresentou-se a rapariga.
— É uma prazer conhecer-te.- disse Vincent beijando-lhe a mão.
A rapariga olhar para ele com um olhar apaixonado e Vincent viu isso como um sinal para avançar. Ele então foi até à sua boca beijando-a profundamente. Ela retribuiu o beijo apesar de o fazer de forma menos experiente que Vincent e naquele momento Vincent nem pensava na sua noiva que tinha ficado no castelo. Ele só pensava no quanto desejava Alanna. Ele agarrou-a no colo com dificuldade devido ao vestido volumoso que ela trazia e levou-a para o seu quarto, desflorando-a e traindo os seus votos com Jane.
Mais um barulho fez com que Rosemary acordasse assustada. Ela ainda não conseguira pregar olho. Ou era o chão desconfortável da tenda que Robert havia montando por ela ou era algum barulho vindo da floresta que a mantinha acordada. Ela decidiu ir apanhar um pouco de ar e ver se Robert se encontrava acordado; ele poderia saber alguma forma de a fazer dormir. Ela saiu de fininho da tenda para evitar acordar Anna que dormia profundamente e teve de abraçar-se ao sentir o ar cortante que corria fora da tenda. Ao longe, ela podia perceber a silhueta dos soldados que os acompanhavam na viagem e sentiu-se mais segura. Eles iriam ouvir se algo lhe acontecesse. Ela viu a tenda de Robert a uns dez passos da dela e foi até à entrada desviando a cortina que tapava esta. Ela pode ver Robert de costas para ela num canto da pequena tenda.
— Robert, estás acordado?- perguntou ela para o escuro.
— Estou agora.- respondeu ele acendendo uma vela que tinha ao seu lado.
— Não consigo dormir.- contou Rosemary aproximando-se dele.
— Vem aqui.- disse Robert sonolento.
— Mas o teu pai…- comentou ela achando aquilo uma péssima ideia.
— Eu não vou contar.- disse ele.- Tu vais?
Rosemary acenou com a cabeça dizendo que não e deitou-se lado de Robert. Ela sentiu-se logo mais segura só pelo calor do corpo dele ao lado dela. Ele puxou o cobertor de pelo de borrego de forma que os cobrisse aos dois e, sem dizer outra palavra apagou, a vela, deitando-se de costas para ela. Rosemary percebeu que Robert já se havia deixado dormir exatamente como no dia de casamento deles. Dela. Ela virou-se de forma que o seu nariz quase tocasse as costas de Robert e finalmente adormeceu.
Abrindo devagar a porta e espreitando para ter a certeza que ninguém a via, Margaret saiu de fininho do quarto do seu amante. Eles tinham passado a noite juntos e agora ela precisava de voltar aos seus deveres na corte enquanto ele ia voltar ao seu trabalho como soldado inglês. Margaret perguntava se aquela iria ser para sempre a sua vida. Decerto, se ela alguma vez casasse com alguém inferior a ela iria perder todo o seu estilo de vida devido ao facto de não ser a herdeira dos seus pais. E o facto do seu irmão herdeiro já ter o seu próprio herdeiro ainda piorava a situação de Margaret. Obviamente ela não iria assassinar a sua família inteira de forma a obter a herança e os títulos mas também não poderia casar com o homem que amava perdendo tudo aquilo que o seu berço lhe havia dado. Mas, por outro lado, ela não desejava o mesmo destino que Rosemary. Ela desejava que o homem que ela amava viesse, algum dia, obter riqueza o suficiente para eles terem a sua própria família e o seu próprio castelo. Margaret virou uma curva ainda pensando nas suas opções quando deu de frente com a rainha e as suas damas.
— Lady Margaret, exatamente quem eu procurava.- disse a rainha.
— Sua majestade.- disse Margaret enquanto fazia uma vénia.
— Ouvi dizer que foi você quem ficou encarregue dos deveres da minha nora. – comentou a rainha.
— Essa informação está correta, sua majestade.- confirmou ela.
— Bem, uns duques da Polónia acabaram de chegar para uma visita a França. Está encarregada de garantir que eles gostam daqui.- disse a rainha sem conseguir a disfarçar o tom de ordem.
Margaret ficou no seu lugar esperando mais informações sobre a tarefa em mãos mas estas não vieram.
— O que estás à espera? Os duques devem estar a chegar.- informou a rainha fazendo sinais para que Margaret fosse embora dali.
Margaret fez uma vénia e fez o seu caminho em direção às portas do castelo esperando que não tivesse a colocar-se em caminhos apertados.
Raios de sol entraram pela tenda fazendo com que Rosemary acordasse. Ao acordar ela pode perceber que os seus braços estavam a envolver a cintura de Robert. Como é que aquilo tinha acontecido? Ela retirou os seus braços com cuidado evitando acordá-lo. Ele remexeu-se, acordando e dizendo:
— Ouviste isto?
— Não.- respondeu ela tentando perceber do que é que Robert falava.
— Fica aqui.- ordenou Robert enquanto agarrava a espada e saia da tenda.
Uns minutos passaram quando Rosemary ouviu um barulho vindo de fora da tenda. Ela apressou-se a sair da tenda e a primeira imagem que teve ao sair foi a de Robert com uma lâmina encostada ao pescoço. Ela ia em sua direção mas sentiu algo frio a ser pressionado contra o seu pescoço e não se atreveu a mexer. Aí ela finalmente percebeu o que se estava a passar. Um grupo de mais ou menos vinte homens havia matado os seus soldados e prendendo tanto Robert quanto Anna. Robert passara a ser mantido sossegado por dois homens enquanto outro lhe colocava um capuz na cabeça.
— Vocês vêm connosco.- disse um homem colocando um capuz idêntico ao deu Robert na cabeça de Rosemary.
Rosemary foi conduzida até o que ela achava ser uma carruagem. Ela procurava por algum sinal de que Robert estaria algures perto dela porque só assim ela conseguiria ultrapassar o que estava por vir.
Vincent saiu de fininho do quarto de Alanna. A última coisa que precisava era que Gideon descobrisse que ele tinha tirado a virtude à sua filha. Isso certamente iria trazer problemas na aliança que o seu pai tentava fazer com Gideon. Vincent foi até aos jardins e não demorou até encontrar Edward a treinar com os outros soldados. A filha do meio de Gideon olhava para Edward com um ar apaixonado e Vincent percebeu isso logo no momento em que entrou no grande pátio.
— Parece que tens uma admiradora.- comentou o príncipe fazendo sinal para a rapariga que os observava atentamente.
— E estou comprometido.- retrucou Edward mostrando o dedo onde, em pouco tempo, estaria uma aliança que o iria ligar para sempre a Isabel.
Vincent riu.
— Onde passaste a noite?- perguntou Edward.- Não tentes mentir. Eu fui até os teus aposentos e tu não estavas lá.
— Estive com a Alanna.- contou Vincent orgulhoso.
— Tu tens uma noiva no castelo à tua espera.- apontou Edward reprovando a atitude do herdeiro francês.
— A Jane nem está no castelo neste momento.- retrucou Vincent desviando a conversa.
— Onde está ela?- perguntou Edward curioso.
— Missão missionária. Ela disse que me contava tudo assim que eu voltasse.- respondeu Vincent sem dar importância aos assuntos da noiva. Ele podia não amá-la mas, ao contrário da sua mãe, confiava nela para assuntos do estado.
— A Isabel foi com ela?- perguntou Edward que não havia recebido cartas da noiva ainda.
— Sim, tal como Seth.- respondeu Vincent mostrando completa confiança no amigo.
Edward assentiu curioso.
— Vamos treinar?- perguntou Vincent agarrando na sua espada.
Edward sorriu e deferiu um golpe que Vincent facilmente bloqueou. Isto tudo acontecia enquanto Gideon os observava da janela dos seus aposentos.
Elena olhava estupefacta para o castelo da família de James. Era quase tão grande quanto o castelo real e muito maior que o castelo que iria ser de Elena um dia. Tinham passado o último dia na estrada e tinham finalmente chegado ao ponto de paragem antes de seguirem finalmente para Espanha. A carruagem onde seguiam parou e James saiu estendendo a mão para ajudar Elena a sair.
— Sua graça.- disse um homem de aparência desgastada a James.- Seja bem-vindo a casa.
— Só desejava que fosse em melhores circunstâncias.- comentou James batendo carinhosamente nas costas do velho.
Elena viu Lady Magdalena sair pela majestosa porta do castelo, abraçando o seu sobrinho que a abraçou de volta. Só aí percebeu a presença de Elena.
— Elena.- disse ela surpresa.
— Lady Magdalena.- retrucou Elena fazendo uma vénia.
— Não esperava vê-la aqui.- comentou Lady Magdalena.
— Ela vai ajudar-me.- explicou James.
Lady Magdalena sorriu. Gostava de ver a proximidade que o seu sobrinho e herdeiro tinha com aquela rapariga de boas famílias. Magdalena também havia ganho grande estima por Elena e já sonhava com o casamento entre James e ela.
— Está frio cá fora, vamos aquecer-nos lá dentro.- comentou Magdalena levando James e Elena para dentro do palácio para que pudessem finalmente ter uma boa refeição e algum sono.
— Chegamos.- avisou Seth olhando pela janela.
Jane olhou pela janela e viu o oposto daquilo que esperava. Ela esperava uma pequena aldeia rural sem grande importância mas deparou-se com uma imensa cidade com uma imensa muralha rodeando-a. A cada dois metros de muralha existia um homem armado até aos dentes quase como se tivessem em guerra.
— Em que fronteira estamos?- perguntou Elizabeth.
— Italiana.- respondeu Seth olhando pela janela.
Quanto mais perto chegavam do portão da cidade mais estupefacta Jane ficava. Como poderiam ter esquecido aquela cidade? Seth mandou parar a carruagem e saiu de forma que pudesse falar com os homens que guardavam a muralha. Ele seria um grande rei. Jane não conseguia parar de observá-lo até que Isabel perguntou:
— Tens falado com Vincent?
— Pouco.- respondeu Jane dando uma última vista de olhos a Seth.
— Não consegui escrever a Edward.- comentou Isabel.
— Tenho a certeza que ele está bem.- comentou Elizabeth.
— Eu não quero que ele fique confortável sem mim, esse é o problema.- retrucou Isabel com semblante preocupado.
— Achas que ele te desonraria?- perguntou Jane.
— Homens não podem negar a sua natureza.- retrucou Isabel deixando Jane preocupada.
A conversa morreu pois Seth voltou a entrar na carruagem sem cerimónias.
— O que é que eles disseram?- perguntou Jane.
— Eles foram informar o mestre deles e vão abrir o portão.- respondeu Seth.
Jane pensou sobre o assunto. Já bastava ter surpreendido os líderes daquela terra com a sua visita, não iria também deixar a sua visita escondida dos habitantes daquela cidade. Eles precisavam de saber que faziam parte de França independentemente das dificuldades. Tinha sido esse o assunto que a tinha levado ali, em primeiro lugar. Encontrar uma forma de resolver os problemas daquela zona.
— Eu quero ir a andar.- comentou Jane.
— Perdeste o juízo?- gritou Elizabeth.
— Estou a ordenar.- avisou Jane.
Seth sorriu abrindo a porta da carruagem e saindo. Em seguida estendeu a sua mão para Jane. Jane esperou que Seth entrasse novamente na carruagem mas ele não o fez.
— O que estás a fazer?- perguntou Jane.
— Não te posso deixar desprotegida.- explicou Seth.
Jane entrou pelos portões atrás dos seus cavaleiros e com Seth atrás de si. Uma multidão juntava-se para ver pela primeira vez um membro da realeza. Ainda por cima a futura rainha de França. À medida que Jane passava, a multidão empurrava-se tentando ter a oportunidade de olhar para ela pelo menos uma vez na vida. Alguns faziam vénias, outros simplesmente sussurravam mas ninguém ousava tocar-lhe. Seth sorriu comovido com aquela atitude de Jane. Ela dava cada passo com uma imensa confiança e as pessoas pareciam confiar nela também. Não demorou muito até que chegassem ao castelo. Na entrada do castelo, já havia um rapaz mais ou menos da idade de Seth esperando por eles.
— Seja bem-vinda, sua alteza.- disse o rapaz fazendo uma vénia para Jane.
— És tu quem comanda esta cidade?- perguntou ela calmamente. Ele não parecia do tipo que queimava casas e começava guerras.
— Não, sua alteza. Esse seria o meu pai.- respondeu o rapaz com um olhar estranho.
— Onde está ele?- perguntou Jane.
Foi então que um homem de aparência rústica e com os seus quarenta anos apareceu na porta do castelo. Aquele sim era capaz de começar uma guerra. Ele tinha o típico olhar de um homem louco nos seus olhos e Jane percebeu que eles não se iriam dar bem.
— Sua alteza.- disse o homem com um ar irónico.- Não esperávamos a sua visita.
— Decidi surpreende-los.- respondeu Jane.
— Não devia.- retrucou o homem, seco.
— Vamos falar melhor lá dentro.- aconselhou o rapaz puxando todos para dentro do castelo.
Ele conduziu-os até a um grande salão onde estava uma grande mesa semelhante à mesa do conselho do castelo real. Eles sentaram-se e Seth e Jane fizeram o mesmo enquanto Isabel e Elizabeth passeavam pelo castelo.
— É realmente necessário que ele fique aqui?- perguntou o conde apontando para Seth.
Jane sabia que o conde era originalmente um dos apoiantes do Valois apesar de já não saber se isso era verdade. Mas Jane precisava de Seth ao seu lado independentemente da família a que ele pertencia.
— O Seth é o meu principal conselheiro, então sim, é necessário que ele se sente nesta mesa connosco.- respondeu Jane marcando bem as suas palavras.
O conde bufou e o seu filho tentou esconder um sorriso.
— O que os traz aqui num momento de tão grande aflição para a minha cidade?- perguntou o conde.
— Ouvimos sobre algumas histórias sobre algumas ações condenáveis pela parte de sua graça.- comentou Jane lembrando-se da história do senhor cuja filha tinha morrido queimada.
— Perdas necessárias.- respondeu ele sem dar importância ao assunto.
— Perdas de vidas eram necessárias?- retrucou Jane azeda com aquele comentário.
— Quando estamos em guerra, são.- disse ele levantando o tom de voz.
— Porque é que está em guerra?- perguntou Seth pronunciando-se pela primeira vez.
O homem parecia que não ia responder mas Jane fez um olhar que deu a entender que ele devia.
— Eles queriam a minha terra pois diziam ser deles.- contou o conde.- Então, eu queimei-a.
— Queimou a terra deles?- perguntou Jane chocada.
— Cada ultimo pedaço dela.- respondeu o homem com um sorriso assustador.
— Parece que terminamos aqui.- disse o filho do conde.
Seth levantou-se também da cadeira mas Jane ficou por uns momentos a encarar o conde. Ela sabia que aquelas ações não pertenciam às de um homem são. Seth tocou-lhe no ombro para que ela se levantasse e, após uma última olhada, Jane levantou-se. Eles estavam prestes a sair pela porta quando Jane viu, pelo canto do olho, o filho do conde passar um papel para a mão de Seth de forma discreta.
— Os criados irão levá-los até aos seus aposentos.- disse ele antes de desaparecer pelo corredor.
Jane e Seth foram rapidamente conduzidos até a uns quartos que ficavam lado a lado sendo o de Jane maior. Eles fingiam estar a ficar confortáveis no quarto até que os criados se foram embora. Levou trinta segundos até que Seth entrasse de rompante nos aposentos de Jane.
— Lê isto.- pediu Seth dando o papel para que Jane lesse.
— “Ala oeste, segundo corredor à direita, terceira sala, em uma hora- Michael”.- leu Jane em voz alta.
— O que achas que ele nos quer dizer?- perguntou Seth sentando-se na cama de Jane.
— Não sei, mas temos de descobrir.- respondeu Jane.
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