Your Grace
9 Bon voyage
Elena caminhava sozinha pelos corredores do palácio. Ao contrário das suas amigas, ela não tinha qualquer problema em caminhar sozinha de noite pelo castelo, até lhe dava certa paz de espírito. Ela estava prestes a subir as escadas quando viu um vulto nas mesmas. Ela pensou em chamar os guardas mas quando o vulto grunhiu ela reconheceu-o.
— James?- perguntou ela para a escuridão.
O vulto voltou a grunhir e ela foi até ele. James estava deitado nas escadas de olhos fechados.
— Estás ferido?- perguntou Elena procurando por ferimentos.
James riu.
— Estás bêbado.- percebeu Elena afastando o bafo de James.- Eu vou chamar alguém.
Ela levantou-se mas James segurou-a pelo pulso impedindo-a.
— Ninguém me pode ver assim.- disse ele com os olhos suplicantes.
Elena pensou um pouco sobre o assunto e pensou que a saída mais segura seria chamar os guardas para escoltarem James até aos seus aposentos. Mas depois olhou para o olhar suplicante e percebeu que teria de fazer algo para o ajudar. Ela colocou o braço de James nos seus ombros e com dificuldade ergueu-o do chão.
— Vais ter de me ajudar.- pediu Elena subindo com dificuldade as escadas.
James tentava aliviar um pouco o peso que Elena suportava mas facilmente perdia o balanço arrastando-a consigo. Finalmente chegaram ao topo das escadas e Elena perguntou:
— Qual é o teu quarto?
— Quarta porta à esquerda.- respondeu James apontando para a porta.
Elena chegou lá com dificuldade abrindo a porta devagar para não acordar ninguém. James cambaleou para dentro do quarto enquanto Elena fechava a porta. Quando esta se virou viu James vomitar a carpete caríssima do quarto. Ela foi até ele, fazendo-lhe festas nas costas enquanto ele punha as tripas todas para fora. Quando terminou ele sentou-se no chão com a face nas mãos. Ele começou a soluçar e foi aí que Elena percebeu que ele começara a chorar. Ela ajoelhou-se ao pé dele, levantando-lhe a face das mãos de forma que pudesse ver as lágrimas escorrer-lhe pelas bochechas e abraçou-o enterrando as mãos nos seus cabelos enquanto ele enterrava a sua face molhada das lágrimas na curva do pescoço dela. Passaram poucos segundos até James voltar ao seu normal estado de bêbado e Elena disse:
— Vamos colocar-te na cama.
James foi a rastejar até à sua cama deitando-se nesta de barriga para cima. Elena subiu para a cama dele e, com dificuldade, tirou-lhe a camisola que o cobria revelando um abdómen definido. Ela olhava para o peito dele subir e descer e, só depois de algum tempo, é que se apercebeu que James adormecera. Descendo da cama dele, ela puxou o lençol para cima tapando James que disse alguma coisa no seu sono embriagado. Ela foi silenciosamente até à porta e foi até aos seus aposentos sem que ninguém a visse sair do quarto de James.
Vincent avistou o castelo de Gideon Benoit. Era um castelo demasiado grande para um homem que não possuía sangue azul. Os grandes portões abriram-se e a corte do rei entrou. Ao lado do grande portão estava a família Benoit: Gideon e a sua mulher e as suas três filhas. Vincent demorou-se a olhar para a mais velha; ela corou por estar a ser notada pelo delfim mas Gideon colocou-se na frente dela dizendo:
— Bem-vindos, vossas majestades. Tiveram uma boa viagem?
— Dadas as circunstâncias.- respondeu o rei, seco.
— Tive a liberdade de preparar um banquete para vós.- informou Gideon.- Poderão seguir a minha esposa e as minhas filhas até ao salão de jantar.
Vincent e o seu pai seguiram as donzelas até a um imenso salão com todo o tipo de comida enquanto Gideon seguiu na direção oposta. O rei sentou-se na grande mesa preparada especialmente para ele juntamente com os conselheiros que tinha trazido porém Vincent sentou-se numa outra mesa com alguns dos seus nobres favoritos. Na mesa à sua frente estava novamente a filha de Gideon. Ele sorriu para ela e ela voltou a corar, características que ele começava a achar bastante adorável. Ela era loira com olhos claros, uma verdadeira donzela francesa e o completo oposto de Jane. Ele esperava que a carta que tinha enviado a Jane informando que deviam alterar a data de casamento devido a assuntos políticos já tivesse sido entregue. O seu pai tinha ordenado isso pois decidiram que iriam ficar durante mais tempo no castelo de Gideon e inclusive iriam faltar ao “festival do mar” onde iriam ser representados por Jordan, a sua mãe e Jane. Vincent viu Edward entrar no salão e fez sinal para que ele se sentasse ao seu lado. Edward assim o fez e Vincent disse:
— Há aqui muitas donzelas interessantes.
Edward olhou para as donzelas que andavam pelo castelo de Gideon. Bonitas mas não chegavam aos calcanhares da sua noiva, Isabel.
— Sim há.- concordou Edward.- Mas eu sou um homem comprometido. Tal como tu.
Vincent bufou.
— Como se isso alguma vez tivesse impedido um homem.- comentou ele dando um golo no seu vinho e voltando a sorrir para a mesma rapariga.
Rosemary encostou a sua testa à janela fria da carruagem. Sentada ao seu lado estava a sua dama de companhia, Anna. Rosemary olhou para a barriga grávida de Anna; ela parecia estar já muita avançada na gravidez.
— Quando é que o bebé nasce?- perguntou Rosemary a Anna.
Anna virou a sua face para ela tal como Robert que também olhava pela janela.
— Não sei, sua graça.- confessou Anna.
— Nunca visitou um médico?- perguntou Rosemary, chocada.
— O meu pai não permitiu, sua graça.- contou a dama de companhia.
Robert fez um som com a garganta que relembrou Rosemary da presença dele na carruagem. Ela sabia que ele preferia estar fora desta cavalgando ou com os seus amigos na corte em vez de a estar a levar até às terras do seu pai e incomodava-a o facto de ser um incomodo tão grande.
— Quando é que iremos parar?- perguntou Rosemary a Robert.
— Devemos pernoitar numa vila que fica a apenas algumas horas daqui.- contou Robert ainda olhando pela janela.
Rosemary assentiu mas continuou a olhar para Robert sem que ele notasse. Ela parecia não ficar cansada de fazer tal coisa.
Elena entrou no quarto de James com estrondo. Ele abriu os olhos devagar devido à dor de cabeça que estava a sentir. James podia ver duas criadas a levarem a carpete que parecia ter algo manchando-a. Ele olhava para elas quando Elena decidiu abrir as cortinas do seu quarto deixando a luz do sol entrar e queimando os olhos dele. James reclamou da ação e Elena sorriu dizendo:
— Bom dia.
James arqueou a sobrancelha não percebendo a razão daquela energia toda pela manhã.
— Como te sentes?- perguntou Elena.
— Como se tivesse sido atropelado por uma carruagem.- respondeu James caindo na sua almofada.
Elena esperou que as criadas saíssem do quarto com a carpete para perguntar:
— Lembras-te de ontem à noite?
— Mal.- respondeu James sentando-se na cama.
Elena sentou-se na poltrona que James tinha perto da janela enquanto ele se levantava e vestia uma camisola limpa. Ela olhava para ele esperando que ele dissesse algo sobre o assunto que o tinha deixado tão transtornado a noite anterior. James viu que Elena o observava e perguntou:
— Porque é que olhas assim para mim?
— Estou à espera que tu me contes.- respondeu Elena quase como se dando uma ordem.
— Contar o quê?- retrucou ele sem perceber de onde aparecera aquela conversa.
— O assunto que te deixou tão transtornado ontem à noite.- respondeu Elena.
De repente tudo veio à memória de James e ele voltou a ficar triste.
— Não foi nada.- mentiu ele.
— Eu sei que estás a mentir.- contou Elena levantando-se da poltrona.- Talvez eu possa ajudar.
— Duvido.- respondeu James indo em direção à cómoda onde estava a sua espada.
— Não saberás se não me contares.- apontou Elena andando atrás dele pelos aposentos.
— Tu não me vais largar se eu não te contar, pois não?- perguntou James parando de repente e quase fazendo com que Elena esbarra-se nele.
— Não.- disse Elena olhando profundamente nos olhos castanhos de James como se para provar que estava a falar a sério.
— Pronto.- concordou ele.- O meu tio está preso no castelo de um conde espanhol, acusado de matar o herdeiro dele.
— O que pretendes fazer?- perguntou Elena curiosa.
— Eu tenho que o tirar de lá.- respondeu James andando outra vez pelo quarto.
— Eu posso ajudar.- comentou Elena.
— Não podes.- apontou James parando repentinamente outra vez.
— Sim, eu posso. Eu conheço o delfim de Espanha.- contou Elena lembrando-se da relação que tinha com Louis.
— Isso não me vai ajudar, pelo tempo que conseguíssemos uma audiência com ele o meu tio já estaria morto.- apontou James.
— Olha, eu sou espanhola, isso tem de valer para alguma coisa.- argumentou Elena.
James pensou no que Elena dizia. Os contactos dela no país poderiam realmente ajudar o seu tio.
— Deixa-me ir contigo.- pediu Elena.
— Está bem.- concordou James finalmente.
Elena abriu um grande sorriso.
— Vou preparar-me para partirmos.- disse ela saindo do quarto dele.
Ela mal podia esperar para ver Louis novamente.
Jane releu a carta. Vincent queria adiar o casamento? Ela pousou a carta e começou a escrever uma nova carta. Teria de informar o seu pai sobre o adiamento. E também teria de informar a sua mãe, eventualmente. Um toque na sua porta fez com que Jane parasse de escrever e dissesse:
— Pode entrar.
A porta abriu-se e Seth colocou a cabeça dentro dos seus aposentos.
— Está tudo preparado para partirmos.- contou ele.
— Ainda bem.- respondeu Jane um pouco rudemente.
— Está tudo bem?- perguntou Seth entrando no quarto e fechando a porta atrás de si.
Jane deu a carta a Seth para que este a pudesse ler também. Depois de uns segundos, Seth disparou:
— Eles querem adiar o casamento?
— Pelos vistos.- respondeu Jane.
— Isso é uma atitude estúpida da parte deles.- comentou Seth tentando animar Jane.
— Eu não estou incomodada com o adiamento, aliás, isso até me dará a oportunidade de conhecer melhor o Vincent antes de estar unida a ele pelo resto da minha vida.- explicou Jane.
Seth engoliu a seco. Ele não conseguia imaginar Jane e Vincent vivendo felizes para sempre. Ele conhecia o seu melhor amigo e sabia que ele não seria capaz de ficar apenas com uma mulher pelo resto da sua vida; mas ele também já começara a conhecer Jane e sabia que ela não iria tolerar outra mulher na sua casa. Isso metia os futuros reis de França numa situação complicada.
— Então o que te incomoda?- perguntou Seth.
— O facto de ter de escrever todas estas cartas a mudar a data do casamento fazendo com que eu pareça uma pobre coitada.- contou Jane.
— Tu nunca serias uma pobre coitada.- disse Seth.- Até porque tu nunca poderias ser pobre.
Jane riu verdadeiramente. Ultimamente Seth tinha sido a única pessoa capaz de a manter feliz naquela terra que ficava tão longe da sua casa. Ela olhou para ele sorrindo e fazendo com que ele sorrisse também. Eles começaram a aproximar-se, os lábios quase tocando, até que uma batida na porta os interrompeu. Eles afastaram-se abruptamente.
— Entre.- disse Jane.
Elena entrou nos aposentos de Jane mas ao vê-la com Seth perguntou:
— Estou a interromper algo?
— Não.- responderam eles ao mesmo tempo dando origem a desconfiança.
— Bem, eu só vinha pedir-te permissão para viajar.- disse Elena.
— Claro que podes ir. Mas para onde?- perguntou Jane curiosa.
— Espanha. Com o James.- disse Elena devagarinho.
Jane levantou uma sobrancelha e Seth fez uma cara de incrédulo.
— Ele precisa de ajudar para resolver uns problemas.- comentou Elena.
— Está bem. Podes ir. Mas chama a Margaret no teu caminho. Preciso que ela faça algo para mim.- pediu Jane.
— Está bem.- disse Elena saindo dos aposentos de Jane.
Jane iria pedir a Margaret que espiasse a rainha para ela. Havia algo que fazia com que Jane desconfiasse das intenções dela. Para além disso, Margaret iria escrever as restantes das cartas sobre o adiamento do casamento. Quando às restantes das damas, Adele iria ficar com Margaret na corte para a deixarem a par dos acontecimentos enquanto Isabel e Elizabeth iriam viajar com ela. Margaret entrou nos aposentos da princesa e esta deu-lhe todas as informações necessárias antes de partir com a sua corte para a aldeia perdida.
Robert bufou. Uma das rodas da carruagem tinha-se partido no meio da floresta e agora eles estavam lá presos.
— Vamos montar as tendas.- ordenou Robert.
— Vamos dormir aqui?- perguntou Rosemary em pânico. Ela nunca tinha dormido fora de uma cama nem um uma vez na sua vida.
— Não temos outra hipótese.- explicou Robert.- Os meus soldados só conseguem ter a carruagem pronta amanhã.
— E não há outra opção?- insistiu ela.
— Fica aqui enquanto eu monto as tendas.- ordenou Robert fazendo com que Rosemary se sentasse num tronco velho.
A mente de Rosemary depressa viajou. Ela começou a pensar como seria a sua vida com o duque. Iria ele tratá-la bem? Ele parecera simpático todas as vezes que Rosemary falara com ele. Mas ele era um homem velho. Inclusive tinha um filho mais velho que Rosemary e já havia sido casado quatro vezes. O que acontecera às suas mulheres? Ela devia perguntar a Robert? Rosemary foi bruscamente trazida de volta à realidade quando viu Robert vir com a sua espada na direção dela. Ela entrou em pânico. Porque é que Robert a tentaria matar? Ela paralisou com medo mas viu a espada de Robert ser enterrada no chão trazendo consigo uma cobra da grossura do braço dele. Repugnante. Rosemary respirou pela primeira vez no que parecera uma eternidade e levantou-se bruscamente do tronco sacudindo todo o seu vestido e cabelo com medo de ter algum bicho no seu corpo. Quando ela parou ficou parecida a uma mulher que acabara de sair de um bordel e Robert até que achou piada a esta imagem. Porém ele não riu. Simplesmente pegou na sua espada e voltou a montar as tendas como o fazia anteriormente deixando Rosemary a encará-lo.
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