Your Blood Is My Wine
4 Shame or Fear?
Notas iniciais

Se existisse uma palavra para descrever aquelas últimas semanas era estranho. Depois de ser pego se alimentando daquela dama e firmarem um pacto de sangue, os dias que se seguiram foram totalmente conturbados. Sanji poderia sentir o nojo e desprezo daquele humano há milhares de quilômetros de distância, tanto que ele evitou ao máximo se aproximar do quarto de hóspedes enquanto o jovem estava acordado, parecia até meio bizarro e errado esse pensamento, já que estava fazendo as coisas apenas quando ele estava adormecido, não que estivesse fazendo algo. Apenas trocava as ataduras, enfaixando o corpo forte e a mão cortada do jovem caçador outra vez. Com o tempo ele já não estava mais sangrando, então os petiscos da madrugada passaram a ser inexistentes.
O problema do lanchinho noturno era que o loiro acabou viciado. Se antes apenas o cheiro do sangue o deixava em transe, agora que havia provado, queria cada vez mais e mais. Talvez fosse pelo pacto, talvez fosse apenas por ser delicioso e diferente de tudo que havia provado, o vampiro jamais saberia, mas um fato era que se viciou no humano... No sangue... Do humano...
Os pensamentos sobre aquele imbecil suicida eram estranhos, Sanji não se entendia e muito menos entendia o que o outro pensava. Ao mesmo tempo que durante tantos dias o moreno pareceu odiá-lo, agora, estavam convivendo em harmonia e nem sentia mais tanto desprezo em relação a sua pessoa. Era estranho, quase como se ele não se importasse de estar no mesmo quarto que um monstro sanguinário, algo dentro do vampiro implorava para que fosse isso, para que estivesse sendo aceito pela primeira vez. E aquela sensação o confundiu, fazendo-o achar coisas absurdas.
Enquanto o humano estava adormecido na cama, Sanji estava sentado em uma cadeira ao lado, observando-o dormir. Ele roncava alto e babava, mas aquelas características o deixavam tão humano que encantavam o vampiro. Conseguia ver as veias saltadas no pescoço grosso, e praticamente enxergava o sangue correndo por elas, tentadoramente. Às vezes se impressionava com seu auto controle para não enfiar as presas ali em momentos de guarda baixa. O garoto era tentador e por mais que desejasse devorá-lo por completo, o loiro precisava se conter.
Estendeu a mão até o pescoço delicioso e antes suas garras tocassem a pele, desviou seu caminho e tocou delicadamente sua testa, retirando os cabelos grudados dali. Seus dedos finos deslizaram pelo rosto com feições belas, tocando da testa até os lábios carnudos... Pensou que seria delicioso chupá-los... Sanji arregalou os olhos surpreso e recuou a mão, sentindo-se estranho por desejar fazer algo tão humano com alguém que deveria ser apenas seu alimento. Pensou em sair dali e se esconder, apenas deixar um prato de comida na cadeira como normalmente fazia, mas não saiu. Continuou ali observando-o até não aguentar mais vê-lo tão indefeso. Não que Zoro não soubesse que fazia aquilo. O caçador estava perfeitamente acordado e sentindo aquele estranho comportamento do vampiro consigo, embora não tenha feito nada para impedir.
— Ei, acorda... — Sanji segurou nos ombros largos e começou a sacudi-lo, tentando despertá-lo do sono profundo. Sua mão deslizou para o peitoral, sentindo-o levantar e descer calmamente, ainda enfaixado. O humano já estava bem o suficiente para não precisar mais parecer uma múmia e mais importante, bom o bastante para um banho. — Anda, você precisa de um banho urgentemente.
— Não faz tanto tempo assim. — Ele disse e era a primeira coisa que dizia ao loiro em muito tempo, já que antes apenas costumava ser extremamente rude com ele e depois apenas se manteve calado, deixando que o vampiro cuidasse dele sem reclamar.
Zoro passou muito tempo aborrecido por ter feito aquele pacto estúpido e por ter sangrado tanto de novo e ter que passar ainda mais tempo naquele lugar. Mas, estranhamente, o vampiro passara a ser ainda mais cuidadoso depois do ocorrido, evitava passar muito tempo e importunar Zoro, e eles raramente realmente se viam, embora tivesse a certeza de às vezes sentir a presença do outro quando estava tudo escuro e Zoro estava tentando dormir. Mas o loiro nunca fazia aquilo quando sabia que Zoro estava acordado. Era quase como se o vampiro soubesse que sua presença era incômoda, e isso fazia Zoro se sentir confuso na maior parte do tempo. De alguma forma o fazia querer não ser tão rude quanto estava sendo a princípio. Era quase como se estivesse começando a sentir pena dele, o que era um completo absurdo.
Zoro ainda estava deitado fitando o teto e sabia que estava mentindo descaradamente sobre o banho. Fazia quase um mês que estava naquele castelo e antes disso já fazia algumas semanas que não se banhava. Não que sua frequência de banhos fosse exatamente primorosa, mas até alguém como ele, estava começando a sentir necessidade de se lavar. Especialmente por causa do seu ferimento, mesmo que aquele vampiro limpasse o corte diariamente.
O garoto de cabelos verdes se sentou na cama para indicar que faria o que o vampiro queria e o loiro imediatamente entendeu o recado, deixando Zoro no quarto por alguns instantes enquanto levava tudo para o banheiro e depois voltando para buscá-lo.
Zoro agradecia o fato de estar se sentindo bem melhor, porque odiaria ser carregado pelo trajeto. Pelo visto, seguir o conselho do vampiro e não tentar se mexer ou se levantar desde a última vez em que teve uma hemorragia estava dando certo. Seu corte mal incomodava agora e as febres haviam passado, Zoro se sentia bem melhor.
O vampiro foi na frente e Zoro o seguiu segurando o castiçal que pegou no quarto. Aparentemente o maldito não precisava de iluminação para enxergar no escuro, devia ser por isso que tudo era tão mal iluminado.
— Você deveria investir numas velas. Nem todo mundo é um maldito morcego.
— Normalmente eu não recebo visitas, então não havia motivos para iluminação. — O vampiro disse em meio a um sorriso inocente e um tanto triste. — Verei o que posso fazer para providenciar.
Sanji não era um vampiro ruim, na verdade ele sentia-se mal só por ser metade um monstro, então agir como um estava fora de cogitação. Ele era gentil, tanto que se vivesse em uma sociedade muitos iriam querer se aproveitar desse seu lado. Às vezes ele pensava que se fosse para ser normal e poder conviver com as pessoas em harmonia, ele gostaria de ser usado.
Ao chegar no banheiro, Zoro viu que havia apenas uma pequena banheira e alguns baldes com água fumegante trazidos pelo vampiro. Não tinha tido oportunidade de tomar um banho daquele jeito muitas vezes. Geralmente apenas se lavava com um pano ou se banhava em algum rio. Era uma mudança um tanto interessante, embora com certeza preferisse estar sozinho. Aquele ambiente não tinha nenhuma vela, então Zoro apenas deixou o castiçal no chão em um lugar que deixasse a banheira mais ou menos iluminada.
O caçador tentou tirar as ataduras do corpo sozinho, mas logo sentiu a mão do vampiro o impedindo, como se estivesse pedindo para fazer por ele silenciosamente. Zoro não era um maldito inválido, não é como se o vampiro precisasse fazer tudo por ele, ora. Mas, mesmo com esse pensamento, Zoro não protestou e apenas deixou com que fizesse aquilo. No entanto, era estranhamente íntimo.
O vampiro só costumava trocar suas ataduras quando Zoro estava dormindo. Ou quando achava que ele estava dormindo, porque desde que ficou melhor, Zoro de vez em quando estava acordado durante aqueles momentos. Ele podia sempre sentir a gentileza e cuidado com a qual o vampiro fazia aquilo toda vez, mesmo que não conseguisse enxergar nada no escuro. E naquele momento também era assim, as mãos tão pálidas quanto as ataduras desprendiam seu tórax do enfaixamento, revelando seu peito moreno. Sanji ajudou o moreno a retirar as bandagens não por achar que ele precisasse de ajuda, era óbvio que não, só queria evitar que o ferimento se abrisse outra vez e qualquer movimento brusco poderia dar problemas.
Zoro ainda não havia visto a cicatriz que ganhou aquele dia e ficou espantado por ter realmente quase sido cortado no meio. Mal dava para ver direito na penumbra, então ele passou os dedos grossos um pouco por cima dela para senti-la do peito até o ventre, percebendo uma sensibilidade esquisita no tecido deformado.
Zoro nunca havia vestido uma camisa na frente do vampiro, então ficar com o torso exposto não era grande coisa. Mas, depois do vampiro tirar suas ataduras, Zoro precisou se desfazer do resto das roupas do corpo, o que era muito esquisito. Não era o tipo de pessoa que sentia vergonha do corpo, mas simplesmente achava que era uma posição muito vulnerável para se colocar. E ele já estivera exageradamente vulnerável àquele vampiro aquele tempo todo.
Sanji sorriu ao vê-lo hesitando tirar a parte de baixo de sua roupa, como se o próprio loiro já não tivesse tirado no dia que o tirou da floresta todo ensanguentado e ainda lavou aquela peça. Pensando bem, talvez ele nem soubesse disso.
— Vergonha ou medo? — O vampiro perguntou em um tom irritantemente provocador e desafiador. Não resistia vê-lo dessa forma, sem conseguir provocar. Por algum motivo, irritar o humano o excitava. — Não precisa disso tudo, veja, vou tirar a minha também.
O loiro terminou de falar com um sorriso discreto nos lábios, enquanto retirava as várias camadas pesadas de suas peças superiores e resolveu retirar as botas e a parte inferior também, sabendo que o que o outro sentia definitivamente não era vergonha e muito menos medo, só não desejava se expor daquela forma na frente de um monstro, Sanji entendia muito bem aquele sentimento.
— Eu não tenho vergonha. Muito menos medo. — Zoro falou franzindo sua testa avantajada em resposta àquele absurdo. Tudo bem que aquele vampiro deveria ser alguns séculos mais velho que ele, mas detestava ser tratado como fraco ou criança.
O fato do outro estar tirando sua roupa também deveria fazer Zoro se sentir irritado por ser tratado daquela maneira infantilizada. Mas, Zoro acabou suavizando sua expressão diante daquilo. Mesmo com a provocação, o objetivo do vampiro parecia querer mantê-lo confortável, como sempre parecia, e aquele padrão de comportamento confundia o caçador demais.
Sem nenhum pudor, Sanji retirou a calça, ficando apenas com a peça de baixo. Ergueu as mangas e sentou-se na beirada da banheira, teria que dar banho no moreno, mesmo que claramente o outro não desejasse isso, mas não estavam em um momento que poderiam escolher, quanto mais idiota fosse, mais tempo teria que ficar naquele castelo escuro sem tomar sol, o que obviamente não faria bem ao humano.
— Venha, err... — Se interrompeu, ao notar que nem mesmo sabia o nome do garoto e sentiu-se estranho por isso, fazia quase um mês que se encontravam diariamente e nem mesmo o próprio nome disseram ao outro. — Meu nome é Sanji.
— Zoro. — Ele disse e hesitou por dois segundos antes de estender a mão recém cicatrizada do corte e da mordida em direção a Sanji. Era a segunda vez que fazia aquele gesto, embora nem de longe fosse tão dramático quanto da primeira vez, também significava certa confiança, ainda que mínima.
Então, o nome dele era Zoro. Sanji sorriu ao descobrir, era estranho ficar no mesmo lugar com alguém por tanto tempo sem nem saber seu nome, mas até então ele nem mesmo havia notado que não sabiam o nome um do outro. Por impulso, costume ou burrice, Sanji disse seu próprio nome outra vez e ao se dar conta soltou uma baixa risada, rindo de si mesmo.
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