Your Blood Is My Wine
5 I'm sorry.

Zoro entrou na banheira vazia e aguardou o vampiro preencher a banheira com a água. Sanji se preocupava em manter uma temperatura agradável que não machucasse a pele de um humano, não que ele soubesse o ideal já que infelizmente não era um. No entanto, para Zoro parecia estar bom e notar isso tirou um peso das costas do loiro. Às vezes ele se preocupava exageradamente.
À medida que a banheira se enchia, os músculos do caçador relaxavam, praticamente derretendo naquela quentura. Não imaginava que um banho quente poderia ser tão gostoso, completamente diferente dos banhos práticos e impacientes que ele tomava. Especialmente porque era uma mudança bem vinda de temperatura, após tantos dias naquele castelo gelado sem ver a luz do dia.
Mesmo assim, a situação não era muito mais confortável do que Zoro imaginou que fosse, apesar de seu corpo estar submerso na banheira, ainda havia algo que o fazia se sentir bastante exposto. Sanji se posicionou de frente às suas costas e aquela era a posição mais submissa em que Zoro poderia se imaginar. As mesmas costas que sempre se orgulhou de não ostentar nenhuma cicatriz sequer, e agora estavam expostas e sendo lavadas por um vampiro que esfregava sua pele com a água morna. Tentou não pensar muito naquilo, esquecer os movimentos que eram repetidos em suas costas e focar em outra coisa. Na banheira havia algumas coisas flutuando, pequenas folhas e elementos aromáticos que o vampiro havia adicionado ali e Zoro tentou se distrair pescando alguns com as mãos. O vampiro viu Zoro agindo como um gatinho e riu baixinho, o mais discreto que conseguia. O menor era fofo de uma forma que não sabia explicar.
As costas do moreno estavam sujas e encardidas, o vampiro precisava usar bastante força para esfregar e conseguir limpar minimamente, parecia que fazia meses que não tomava um banho de verdade. Sanji repetiu o mesmo processo demorado com os ombros, costas e braços, sempre esfregando bastante até a pele morena estar brilhando de tão limpa. Mas, ao chegar no peitoral e abdômen que antes foram feridos, a força diminuiu e ele tentava ser o mais delicado que conseguia, não só para não abrir os pontos, como também para não machucá-lo. Talvez estivesse se importando demais.
Ao aproximar um pouco da água a seu próprio rosto o rapaz de cabelos verdes percebeu algo interessante.
— É seu cheiro. — Ele disse, ainda farejando a água perfumada como um animal faria.
— Te agrada? — Sanji perguntou em um tom de brincadeira, não realmente esperando uma resposta positiva ou sequer uma resposta.
— Não me incomoda. — Zoro respondeu quase sinceramente enquanto ainda cheirava a cheirosa.
Era impossível para o vampiro não ficar surpreso com aquela resposta. Saber que seu cheiro monstruoso não incomodava um humano o deixava tontamente feliz. Droga, estava agindo de forma vergonhosa na frente daquele caçador, não poderia se mostrar tão fácil assim, a qualquer instante ele poderia simplesmente decepar sua cabeça... Talvez essa ideia de ser morto por ele o fazia agir de forma ainda mais fácil e entregue, com a guarda baixa, apenas esperando o inevitável.
O banho estava extremamente normal enquanto o vampiro esfregava suas costas com certa força, mas nada que Zoro não pudesse aguentar. Mas sentir a esponja passeando por sua nova cicatriz era agonizante. Não porque houvesse alguma dor, aquelas mãos se mexiam com suavidade demais para isso, mas porque o tecido ali era sensível de forma bizarra, como se todos os seus nervos estivessem trocados. Era difícil para Sanji não machucar o corpo moreno, aquele ferimento horrível ainda devia doer por ser muito recente. Ser cortado ao meio era algo sério e deveria ter levado Zoro a um médico, seu trabalho acabou sendo péssimo e nem conseguia evitar que sentisse dor. Era um inútil mesmo, sempre fazendo escolhas erradas. Seria impossível não se culpar por sua incapacidade. A cada novo dia ele concluía que as palavras de seu pai e irmãos estavam corretas.
Zoro estava com uma vontade absurda de coçar o ferimento depois de tanto ter sido tocado pelo outro e sua mão começou a fazer exatamente isso com rudeza. Doía, mas Zoro não estava ligando porque a cicatriz coçava muito. Ao ver o outro mexendo no ferimento, Sanji paralisou, sua mente o fazendo achar que aquilo era uma forma de nojo, como se tivesse sentido que estava infectado por um demônio. Mas, ao ignorar sua mente insana, notou que o idiota estava coçando desesperadamente e que aquilo acabaria com os pontos e abriria o corte outra vez. Então segurou as duas mãos e acabou machucando a pele sensível do humano com suas unhas compridas e com certeza aquilo também não era sua culpa, Zoro que insistiu em mover as mãos mesmo com as do loiro já o segurando, mas não era isso que a mente de Sanji o fazia enxergar.
Zoro cessou os movimentos quando a mão pálida do vampiro o impediu, arranhando as costas da sua mão com uma de suas unhas compridas. O corte era mínimo, fazendo com que um filete minúsculo de sangue caísse da sua mão até a banheira. A água antes transparente agora tinha um mínimo tom de vermelho espalhado por um pequeno local, que se dissolvia até ficar invisível outra vez. E aquilo não seria realmente nada demais se o vampiro não tivesse agido de forma completamente exagerada.
— Desculpe, não foi minha intenção. — O loiro pediu de forma sincera, a culpa que sua mente o fazia sentir sempre o obrigando a agir de forma exagerada e se culpar por tudo que acontecia. Sua voz era baixa e demonstrava uma tristeza que um vampiro não deveria sentir de forma alguma. Um monstro não deveria fingir ter sentimentos.
— É só um arranhão. Pare de me tratar como um fracote. — Zoro disse ríspido pela primeira vez aquele dia. Ele não queria aquela delicadeza toda, não precisava daquilo.
— Não é isso… É só que você é um espadachim, suas mãos são preciosas. — Ele disse com a voz baixa sem conseguir encarar o outro. De cabeça baixa, secou o corpo moreno, como se fosse um servo. Sua família se envergonharia ainda mais dele se o visse agindo dessa forma.
Quando chegaram ao quarto, sua posição submissa piorou ainda mais. Após Zoro sentar-se na cama, Sanji se ajoelhou, sempre de cabeça baixa de forma exageradamente respeitosa e segurou a mão que antes havia ferido por ser um monstro. Ele encostou os lábios relativamente frios, pressionando-os por cima da ferida.
— Sinto muito… Eu não queria te ferir. — Se desculpou verdadeiramente mais uma vez, se curvando diante seu mestre. Era vergonhoso e errado enxergá-lo assim, mas não era de toda mentira. Sua vida estava nas mãos do outro, era ele que decidia seu destino e, honestamente, não via a hora de ser encerrado. A mão quente em contato com a sua causava um contraste irritante que enojava o loiro de si mesmo, sua pele era péssima de ser tocada.
Zoro não conseguiu responder àquilo. Quanto mais tempo passava com aquele vampiro mais sua mente ficava absolutamente confusa. Sentia o tecido secando todo seu corpo e ainda pensava nas palavras do vampiro. Quando o conheceu, Sanji apenas parecia extremamente condescendente, além do fato de ser um monstro sanguessuga, claro. Mas ele o salvou. Cuidou dele aquele tempo todo. Não de qualquer jeito. Com muito esmero e atenção. E, ultimamente, depois de Zoro conviver tantos dias com ele, passou a perceber o quão melancólico o vampiro soava. Às vezes, parecia que se desprezava mais do que Zoro o desprezava, o que fazia seu cérebro ficar em parafuso, porque nada daquilo fazia sentido. Aquela criatura não era boa, não podia ser boa. Nem ter sentimentos, nem nada daquilo.
— Para... — Zoro pediu, sem saber como agir direito quando Sanji agia daquela forma tão bizarra. O que Zoro entendia era violência e honra, sua mente jamais poderia compreender tanta delicadeza e subserviência. Preferia que o vampiro lutasse consigo àquilo, pelo menos uma briga ele entenderia.
Os instintos de Sanji afloraram inconvenientemente naquele momento com a mísera gota de sangue que atingiu sua língua, obrigando-o a engolir a seco. Era desesperadora a vontade de chupá-lo. Seus olhos estavam brilhando em vermelho e isso o fazia se sentir o ser mais sem controle e detestável de todos.
— Eu posso... — O loiro não era forte o suficiente para concluir a frase, preferia morrer a pedir algo tão egoísta e terrível a um humano. Infelizmente seus olhos o denunciavam completamente e ele olhava para o rosto do mais novo, implorando por seu sangue. No fim, era só um monstro descontrolado.
Zoro observou o olhar do vampiro, tão escarlate quanto o próprio sangue que corria em suas veias, e não precisou de mais palavras para entender aquele pedido. Não fazia tanto tempo assim que Zoro havia cedido seu sangue, durante aquelas últimas semanas se sentia um animal criado para abate naquele lugar. Mas, mesmo assim, não pensou em negar o pedido. Não quando era feito daquela forma. Não quando aqueles olhos vermelhos e monstruosos escondiam um brilho de mansidão e honestidade.
— Beba. — Ele falou com a voz firme. E quase imediatamente pôde sentir o quão desesperado o loiro estava.
Ao receber a permissão, Sanji fechou levemente os olhos e tentou delicadamente cravar as presas na mão calejada do moreno, no mesmo local que havia o machucado antes e se culpado imensamente. Nem fazia sentido machucá-lo ali depois de tanto drama por um minúsculo corte por engano, mas vampiros com sede não agiam de forma consciente. No entanto, dessa vez estava agindo diferente de todas as outras. Por mais que tenha fincado as presas profundamente na pele, o vampiro logo as retirou e deixou que apenas seus lábios fizessem o trabalho de sugar o sangue e a língua se juntou aos lábios, fazendo movimentos lentos, recolhendo cada gota de seu alimento.
Para Zoro, aquilo era mais fácil de compreender do que o beijo gelado em sua ferida. Por mais que o outro certamente quisesse morder delicadamente, não havia gentileza no ato de cravar presas afiadas na carne de alguém. Aqueles dentes perfuravam sua pele, assim como sua espada faria com a pele de um inimigo e aquilo Zoro entendia muito bem. Sentia o sangue quente escapando e escorrendo pelo seu braço, a língua molhada angustiadamente capturando todo o líquido que transbordava, lambendo seu braço moreno pintado de escarlate.
Seu estado de frenesi não permitia que Sanji notasse que os movimentos que fazia com a boca e especialmente com a língua não eram apropriados, era tudo muito inconscientemente sensual e erótico, causava até alguns barulhos indecentes e obscenos, especialmente quando o sangue deslizou até os dedos e Sanji seguiu o caminho, deslizando a língua lentamente até a ponta e ousando abocanhá-los para chupar. Estava fora de si, o prazer que sentia ao tomar o sangue de Zoro era indescritível. Os dedos quentes em sua boca fizeram com que desse mais uma pequena mordida na pontinha de um para deixar o sangue escorrer até sua boca. Com as duas mãos ele segurava o braço do humano, como se fosse uma joia rara que ele endeusava, enquanto sugava só a pontinha de um dedo e o penetrava totalmente na boca quando alguma gota escorria.
A parte que mais deveria enojar o caçador, era a que seu corpo reagia mais estranhamente. A mordida em si. Mas, desta vez, o vampiro estava fazendo aquilo de forma muito diferente. Ao invés de devorá-lo insaciavelmente como a última refeição que faria na vida, estava saboreando cada gota como um aperitivo. Melando os lábios desajeitadamente com o líquido vermelho. Limpando o sangue de toda sua pele e melando tudo com a saliva que transbordava de sua boca faminta no processo.
Zoro começou a se sentir desconfortável na cama. Geralmente depois da dor da mordida, ele só precisava aguentar mais alguns minutos e o vampiro sempre o drenava em demasia, fazendo com que ficasse completamente sem forças e apagasse. Mas, agora não era apenas aquilo, não eram apenas suas presas, mas também sua língua, seus lábios que sugavam cada pedaço de si com devoção.
Era um tipo diferente de tortura. Bem mais lenta e estranhamente sensual, embora soubesse que o loiro não o fazia de propósito, só devia estar em transe com o seu… Alimento. Ainda enojava um pouco Zoro em pensar nesses termos. Mas, os estímulos em seus dedos não permitiam nem que se enojasse coerentemente. Como se sua mente estivesse em branco, apenas sentindo a boca em sua pele. Zoro só conseguia encarar a cena abismado, enquanto o outro chupava seus dedos completamente submisso.
Sentia sua calça cada vez mais apertada e o sangue que ainda não havia sido drenado do seu corpo era bombeado ensurdecedoramente em seus ouvidos. Tudo aquilo estava além da compreensão de Zoro. Aqueles gestos, suas reações a eles, não entendia o que estava acontecendo.
Sanji abriu os olhos, vendo o olhar cinzento do garoto o encarando. Seus próprios haviam retomado a cor azul intensa, mostrando que já estava mais calmo, mesmo assim ele continuou chupando o pequeno corte na pontinha do dedo, até não conseguir mais sugar nenhuma gota, então voltou a dar atenção para o resto da mão, sempre olhando nos olhos do jovem e a expressão dele estava o encantando, fazendo seu coração acelerar de uma forma que não era normal para uma aberração e o loiro se deixou levar por essa emoção. Ele deslizou a língua pela extensão da mão morena, até seu pulso e terminou de lamber ao chegar no último vestígio de sangue que se encontrava no braço.
Estava hipnotizado pelo olhar acinzentado e, mesmo depois de afastar a boca da pele morena, o vampiro continuou seguindo na linha do braço, até estar de frente para o humano. Sem pensar muito, ele segurou o outro pela nuca e começou a se aproximar como se fosse fazer algo. Estava tão próximo, podia sentir a respiração dele tocar seus lábios e algo que durou um segundo, pareceu ser mais um terrível século, era loucura.
Zoro continuava estático. Mesmo com aquela aproximação, mesmo com sua boca vermelha cheirando ao ferro do sangue dele, Zoro continuou não fazendo nada. Não o afastou, seus reflexos pareciam mortos e inúteis, apenas deixou que ele se aproximasse naquela distância tão perigosa. Seus instintos, que o fariam jamais ficar tão vulnerável a um vampiro, a qualquer pessoa na verdade, simplesmente desligados.
Sanji queria beijá-lo e estava prestes a fazer isso, mas a expressão confusa no rosto de Zoro o dizia que não deveria, então repentinamente Sanji se afastou, desistindo daquela ideia absurda e estúpida, mesmo que antes estivesse a pouquíssimos centímetros daquela boca tão tentadora.
Sem dizer nada, ele saiu do quarto e possivelmente sussurrou mais um pedido de desculpas, sabendo que tinha feito algo errado, mesmo não tendo concluído o ato, apenas a forma que agiu era o suficiente para condenar-se.
Zoro estava absolutamente confuso com tudo aquilo e principalmente consigo mesmo e com sua falta de reação patética. Por sorte, o vampiro apenas deu meia volta sem fazer absolutamente nada consigo, enquanto Zoro ainda encarava o lugar onde ele estivera e seu braço inteiro ainda formigava pela lembrança dos toques do outro e sua calça continuava apertada. Zoro foi dormir ainda com aquelas sensações esquisitas, esperando que no dia seguinte, quando finalmente fosse embora daquele castelo, tudo voltasse ao normal.
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