Your Blood Is My Wine

6 Are you trying to kill me?


Notas iniciais
Finalmente voltando com a atualização das longs depois da ressaca da ZoSan Week.

Era noite e Zoro se aproximava de um castelo familiar, as botas pesadas marcando a terra encharcada e o casaco pesado mal o protegendo das pancadas molhadas que recebia da tempestade. Ele poderia ter escolhido qualquer outro dia, mas tinha que ser um dia como esse. Talvez um simbolismo idiota para enfatizar o quão insatisfeito ele estava em ter de retornar àquele lugar.

Havia finalmente saído há apenas duas semanas, e nunca em toda sua vida deu mais valor ao ar puro, à grama verde e macia sob seus pés e principalmente ao calor aconchegante do sol. Parecia algo tão idiota, mas depois de ficar tanto tempo enclausurado, Zoro passou a respeitar um pouco mais aquele astro, e passava mais tempo deitado na relva apenas aproveitando os raios de luz, tal qual um gato faria.

O tempo que Zoro passou naquele castelo escuro foi a época mais agonizante de sua vida. Nunca havia se sentido tão fraco, tão patético. Não conseguia sair, na maioria das vezes não conseguia nem se colocar de pé. Agora já havia recuperado bastante seu vigor e treinava até seus músculos arderem excruciantemente todos os dias. Mas, naquele tempo, se a criatura desejasse poderia ter feito o que quisesse com ele naquele estado ridículo. E era o que mais espantava Zoro. Mesmo depois de tê-lo visto quase assassinar uma mulher, Zoro ainda tentava entender por qual motivo havia o mantido vivo daquela forma. Cuidado dele durante tanto tempo.

De todo modo, a cada passo que dava aproximando-se do castelo sentia vontade de dar meia volta. Não era um covarde, nunca foi, mas seus instintos apenas o diziam que era errado se arrastar até ali para oferecer seu sangue a um monstro. Todo dia se perguntava por que diabos havia feito aquele pacto de sangue.

Zoro suspirou e tentou afastar esses pensamentos. Mesmo em seu estado completamente desnorteado e fraco, aquela havia sido a decisão correta, já que não podia matá-lo. Então, espantando sua relutância, o caçador de cabelos verdes segurou na aldraba e bateu várias vezes contra a porta, aguardando uma resposta. Ficou frustrado porque, após vários minutos esperando, não havia nem sinal do vampiro e quase deu meia volta, quando finalmente a porta se abriu e uma mão pálida o puxou para dentro do castelo.

Sanji segurou com força na roupa do humano, forçando-o a entrar e nesse processo o derrubou no chão, montando por cima do corpo alheio. Em seu olhar só existia ódio, mas sua aparência estava patética e fraca. As mãos que deveriam ser fortes estavam tremendo em contato com os pulsos do menor e ele nem mesmo conseguia apertar.

Estava fraco. Uma semana sem se alimentar era seu máximo e nesse período já começava a sentir dores e uma fome mortal, mas, duas semanas era algo insano, nunca sofreu tanto em toda sua existência, era dolorido ele simplesmente andar, estar vivo. Exatamente por isso demorou para atender a porta, teve que se arrastar por todo o castelo até ali e só não demorou mais porque muito antes havia sentido o cheiro do sangue maravilhoso do caçador e já começou o processo da caminhada. Seus cabelos tão loiros pareciam desbotados e seus traços normalmente tão joviais e atraentes, não estavam mais assim.

Sanji sentia o ódio pulsar em seu interior e o arrependimento de ter feito aquele pacto, deveria saber que a intenção de um caçador seria sempre matar e aquele juramento não valia nada, ele havia feito apenas para matar lenta e dolorosamente o vampiro. Apesar de que, pensando bem, não seria uma má ideia…

— Desgraçado… — Sanji o xingou antes de abaixar o tronco até o pulso do outro e cravar os dentes o mais fundo que conseguia. Não estava realmente com raiva, só que a fome o deixava fora de si, ficar uma semana sem comer já era ruim, duas era para fazer todos seus instintos ficarem à flor da pele.

O vampiro estava agindo completamente diferente de como Zoro se lembrava. Até sua presença era diferente, muito mais fraca e frágil. Seus cabelos, antes presos num laço bem aprumado, agora estavam soltos e desgrenhados, cobrindo quase seu rosto todo enquanto estava abaixado concentrado em seu pulso. Sem contar que ele parecia estar seguindo o conselho de Zoro, pois o castelo estava com muito mais iluminação do que antes, o suficiente para Zoro notar esses pequenos detalhes sobre a aparência do vampiro.

Sua cabeça havia batido com força no chão e ser tratado daquela forma o irritava um pouco. Não é como se estivesse esperando que um vampiro pedisse licença para sugar seu sangue, mas da última vez era exatamente o que havia acontecido. Um dia antes de sua partida o vampiro loiro havia perguntado de maneira bastante polida, num tom quase inseguro, se poderia se alimentar novamente. Não fazia tanto tempo que Zoro tivera seu sangue sugado até desmaiar, mas, por algum motivo, não se viu inclinado a negar aquele pedido. De novo, mesmo que por um milésimo de segundo, pensou ter visto um vislumbre de humanidade naquele ser, talvez até um pouco de culpa.

A única coisa realmente problemática era que agora ele estava sugando mais do que deveria, assim como da primeira vez. Zoro sentia mais uma vez que estava quase perdendo a consciência. Aquele vampiro não tinha um pingo de controle, parecia que continuaria até secá-lo por completo se Zoro permitisse.

As mãos trêmulas de Sanji aos poucos foram retornando ao normal, a pele enrugada sumia completamente de todo seu corpo, voltando a ser lisa e sedosa. Estava de olhos fechados sugando com vontade a carne do outro, tomando seu sangue e entrando em transe, era tão bom que parecia que assim pela primeira vez sentia o que era estar vivo. O líquido espesso descia pela sua garganta, escorria pelo canto de seus lábios, fazendo todo seu corpo tremer, mas diferente de antes era de excitação. Tomar aquele sangue era quase tão bom quanto um orgasmo.

O transe só passou ao sentir a bainha da espada sendo chocada contra sua cabeça, obrigando-o a abrir os olhos e afastar a boca do pulso suculento, deixando um rastro de saliva que conectava presa e predador. Notando sua posição, sentiu-se estranho e imediatamente saiu do colo do moreno, levantando-se e estendendo a mão para ajudá-lo a levantar também.

Zoro quase abriu a boca para dizer que só conseguiu achar o castelo naquele dia, mas quando olhou o rosto do vampiro ficou estupefato. Até aquele momento jamais havia visto seu rosto tão nitidamente e agora, graças à nova iluminação, uma parte dele o hipnotizou e ele perdeu completamente a fala.

Aquele vampiro tinha uma sobrancelha encaracolada. Não sabia como não havia notado aquilo antes. Talvez porque o outro sempre aparecesse como um vulto mal iluminado e Zoro estivesse com a visão fodida por causa do esforço que fizera enquanto estava ferido.

Zoro encarava o espiral completamente incrédulo, tentando se acalmar. Ele lembrava perfeitamente do dia em que Kuina fora atacada, embora ainda fosse muito criança e só tivesse visto o responsável por um milissegundo. A única coisa que tinha certeza, que marcava a aparência do monstro nojento que sugou até a última gota de sangue de sua amada irmã, era uma sobrancelha encaracolada como aquela num rosto emoldurado por cabelos dourados. Era ele.

Observou a mão que ele estendia até si e não quis encostar nela, o nojo e o ódio subindo à sua cabeça. Apenas se esgueirou pelo chão pateticamente na direção oposta e continuou encarando o espiral até o vampiro lhe dirigir a palavra.

— Você estava tentando me matar, seu idiota? — Sanji disse parecendo irritado, mas o ódio inicial havia sumido.

Não, Zoro não estava tentando matá-lo. Embora agora essa ideia soasse absolutamente fantástica. Sem nem pensar em usar suas espadas, movido automaticamente apenas por um ódio imenso, Zoro se levantou abruptamente e derrubou o vampiro na mesma posição em que o outro havia feito consigo há meros minutos, desferindo em seguida um poderoso soco naquele rosto monstruoso.

O vampiro apenas o olhou confuso e cuspiu um pouco de sangue pelo canto da boca. Mas Zoro não se sentia nem um pouco satisfeito. Queria arrancar aquela cabeça nojenta, cravar uma estaca naquele coração podre que só estava batendo naquele momento graças a seu próprio sangue, graças ao sangue da sua irmã mais velha há tantos anos.

A cabeça de Zoro latejava com o pensamento e ele socou o outro lado do rosto da criatura, fazendo com que sua franja saísse do lugar. O gesto acabou revelando outro maldito espiral que o encarava o que apenas fez com que ele repetisse a violência mais uma vez, enquanto sua visão enegrecia e seu braço perdia a força. E Zoro teria continuado a socar aquele rosto repulsivo se não tivesse desmaiado em cima do corpo do vampiro.

Sanji não entendia nada que estava acontecendo. A convivência entre os dois até que andava sendo calma e agradável, com exceção do acesso de raiva ao ser pego tomando sangue daquela dama, o humano durante todos os outros dias até o tratou relativamente bem... O que significava que não sentiu nenhuma aura assassina ou espadas apontadas em sua direção…

Mas toda a boa convivência pareceu ir aos ares a cada soco que o moreno desferiu em seu rosto. Eram confusas as reações das pessoas, mas se era para ser odiado daquela forma unicamente por ser quem era, iria retribuir na mesma moeda, odiando e desprezando aquele homem. Os socos machucaram seu rosto, fazendo o vampiro pensar no quanto aquele humano tão aparentemente fraco e frágil tinha força... Bom, ele parecia fraco apenas aos olhos de um vampiro, para humanos deveria ser bem forte. Mesmo tão jovem, a força e corpo dele nem se comparava a de outros humanos que Sanji conhecia. Era estranho.

Como ele não estava mais machucado, o loiro decidiu que não teria problema em revidar, nada mais justo. E teria chutado o infeliz até ele cair duro no chão se ele não tivesse desmaiado inconsciente em seu peito. No fim, era apenas um humano fraco. Sanji suspirou e envolveu o corpo menor em altura, mas maior em tamanho, em seus braços e se levantou, levando-o para o costumeiro quarto e o deitando na cama. Olhou para a figura fraca dormindo e sorriu de leve, por mais delicioso que o sangue fosse, precisava aprender a ter controle e não ser levado pelos instintos, não queria desmaiá-lo toda vez que se alimentasse.

O vampiro saiu do quarto e foi até a cozinha, provavelmente o cômodo mais arrumado e bem equipado de todo aquele castelo velho. Ficou distraído cozinhando por um tempo, um costume que sempre teve, especialmente depois de tomar sangue.

Sentia-se sujo e enojado, apenas um monstro assassino que necessitava atacar pessoas inocentes e sugá-las até a última gota. O gosto da comida humana ajudava-o a disfarçar aquele maldito gosto e tirá-lo de seu paladar. Por ser apenas metade vampiro conseguia sentir bem o sabor, mas não conseguiria viver apenas daquilo, infelizmente.