Your Blood Is My Wine
7 I don't want your food
Notas iniciais

Zoro se levantou da cama com uma dor de cabeça tremenda e se sentindo muito abatido e medíocre. Seu pulso ainda ardia levemente por ter sido mordido pelo vampiro, e apenas olhar para aquelas marcas de presas em sua pele morena era nauseante. Parecia que estava revivendo aquele dia, vendo as marcas no corpo pequeno e sem vida de Kuina outra vez, chorando e gritando pela sua morte. E agora sabia que tudo era culpa daquele vampiro.
Ele quase desejava que o tivesse matado naquela hora mais cedo enquanto estava completamente irracional e puto. Talvez agora se arrependesse se o tivesse feito, mas pelo menos já teria acontecido, sua irmã estaria vingada.
Agora que estava minimamente raciocinando não conseguiria fazê-lo. Por mais que a mera ideia de olhar para a criatura o desse ânsia de vômito, não poderia matar alguém a quem devia a vida. Alguém a quem fez uma promessa com seu próprio sangue.
Desça para comer.
Era o que o bilhete dizia. E mais uma vez, Zoro nem compreendia aquelas palavras, o que apenas o deixava mais zangado ainda com o vampiro. Não é como se tivesse tido tempo para aprender besteiras como ler e escrever enquanto treinava para ficar mais forte. Zoro tentou levar as mãos até as bainhas de suas espadas com o pensamento e notou que haviam sumido e mentalmente se xingou por estar sempre tão fraco e vulnerável naquele local.
Saiu do aposento rapidamente e, agora que estava bem melhor do que em sua última vez naquele castelo, podia notar o quão estranhamente limpo ele era. Geralmente castelos daquele tipo costumavam ter uma grossa camada de pó cobrindo todos os móveis e artefatos macabros, assim como descomunais teias de aranha por toda parte. Mas aquele lugar era estranhamente arrumado, então Zoro concluiu que ele só podia ser o vampiro mais fresco que existia.
Mas, nenhum daqueles cômodos se comparava à cozinha. Zoro chegou nela depois de rodar por todo o castelo e ficou um pouco espantado com o local. Ela era completamente diferente de todas as cozinhas de vampiros que havia visto na vida. Geralmente o cômodo era abandonado nos castelos e às vezes apenas inexistente. Mas aquela cozinha não parecia abandonada de jeito nenhum. Os utensílios e louça estavam muito bem arrumados em grandes armários e no fogão a lenha havia panelas fumegantes e cheirosas, que espalhavam pelo ar o cheiro dos temperos e vitalidade. Era a parte mais aconchegante e calorosa daquele castelo de pedra fria.
Nunca havia parado para pensar na comida que recebera em seu tempo ali no castelo. Mas, se tivesse, com certeza não teria deduzido que o vampiro havia preparado aquilo com as próprias mãos, porque era um pensamento absurdo.
Sanji cozinhou uma refeição incrível para seu hóspede. Não era algo recente que ele gostava de fazer, desde antes mesmo de atingir a maioridade como vampiro já se aventurava na cozinha do castelo dos Vinsmoke, que foram obrigados a criar um local para prepararem comida humana já que a vergonha do clã necessitava daqueles nutrientes. Quantas vezes seus irmãos não pegaram um animal de grande porte e o obrigaram a comer a carne com o bicho vivo ainda? Usando a desculpa de que se ele precisava de comida humana, então não faria diferença se era crua ou não. O loiro sempre odiou aquilo e acabou pegando trauma de carne crua. Estava distraído em seus pensamentos e montando dois pratos que eram não só lindos como também deliciosos, mas conseguiu sentiu a presença do caçador se aproximando.
O vampiro se virou quase automaticamente assim que o caçador chegou, como se já esperasse a presença de Zoro ali, e serviu seu lugar à mesa com mais má vontade do que de costume. Zoro se enfureceu ao ver aquele monstro agindo como se fosse um cozinheiro humano. Como se ele soubesse o valor de um prato de comida. Como se o que ele chamasse de refeição não fosse drenar o sangue das pessoas até matá-las. Era repugnante.
— Eu não quero sua comida. — Zoro disse com repulsa de ter que comer algo preparado por aquele vampiro. — Quero minhas espadas de volta. Agora.
Quando o humano se aproximou cobrando as espadas e negando sua comida, Sanji franziu o cenho irritado, sentindo-se muito ofendido por alguém recusar algo dado de bom grado, era irritante.
— Estão escondidas. — Afirmou, dando de ombros. Não dava a mínima para o que o idiota queria ou deixava de querer, estavam em seu castelo, Sanji quem mandava. — Coma.
O vampiro praticamente ordenava, empurrando ainda mais o prato com aroma delicioso na direção oposta. Vendo outra negativa, Sanji teve que suspirar, parecia estar lidando com uma criança mimada e birrenta. Insuportável. Estava muito velho para isso.
— Assim que terminar eu devolvo suas espadas. — Sanji propôs, resolvendo ceder como sempre.
Então, viu a criança emburradinha sentando-se e agindo sem nenhum modo à mesa, enquanto ele estava todo fino e educado. Serviu duas taças de vinho e novamente empurrou para o outro, pensando se deveria mesmo já que ele não parecia ser adulto ainda, não que se importasse.
Dizer que Zoro já havia provado comida ruim era atenuar os fatos. Ele realmente não se lembrava a última vez que achou alguma comida verdadeiramente saborosa. Talvez quando era criança e seu padrasto costumava fazer onigiris depois do treino. Mas, desde seus doze anos quando saiu de casa ele basicamente só comia porcaria. Não tinha muito dinheiro e gastava quase todas as suas moedas em bebida, então não sobrava quase nada para comprar refeições mal preparadas nas pocilgas em que costumava passar suas noites. Pelo modo como vivia, Zoro já havia provado as comidas mais intragáveis e beirando o incomestível, mas ele nunca reclamava. Enquanto tivesse um teto acima de sua cabeça e algo para colocar no estômago, ele jamais se queixaria.
Naquele momento, entretanto, a situação era muito diferente. Zoro tinha um prato de comida à sua frente e preferia comer sua própria mão a ter que comer aquilo, tamanho era o asco que estava de quem o havia preparado. Mas, resolveu que teria que fazer aquilo de qualquer forma, para recuperar logo suas espadas e sair dali o mais rápido possível.
Zoro agarrou o garfo deselegantemente e, assim que começou a mastigar a comida não conseguiu deixar de sentir extremo prazer a cada mordida. Mesmo que seu cérebro estivesse com raiva e nojo, seu paladar não poderia se importar menos e sua boca se enchia de saliva mesmo ainda nem tendo engolido o que estava comendo. Talvez seu paladar estivesse péssimo enquanto estava se recuperando da doença, mas aquela comida parecia muito mais maravilhosa do que se lembrava.
A única coisa que conseguiu estragar aquele momento foi desviar o olhar do prato e reparar que o vampiro sorria em sua direção. Já havia visto aquele sorriso diversas vezes quando estava no castelo, mas nunca realmente se incomodou, na verdade, começara a quase achar que o outro estava fazendo aquilo genuinamente. Mas hoje era o oposto. Vê-lo sorrir para si só o deixava com mais nojo daquele vampiro. Ele não tinha o direito de sorrir. Zoro imediatamente voltou a olhar apenas para o próprio prato.
Sanji certamente havia ficado surpreso quando o moreninho deu a primeira garfada e fez uma expressão tão linda que imediatamente Sanji sorriu de volta com ternura. Sabia o que aquela expressão significava, ele havia gostado e isso o deixava muito feliz. Só não esperava que quando o outro visse seu sorriso, mostraria aquela cara de completo nojo, fazendo-o engolir a seco e se sentir intimidado, perdendo totalmente sua confiança, juntamente com qualquer expressão que um dia existiu em seu rosto.
Sentia-se tão patético por cogitar, por um único momento, que aquele caçador não o enxergava diferente de todas as outras pessoas, a expressão dele lembrava o de seu progenitor todas as vezes que olhava para ele e sentia nojo e desprezo, unicamente por ele existir e aquilo machucava mais do que ter a cabeça decepada. Era irônico, mesmo sentindo-se sempre tão humano, sempre tentando se passar por um, aquela era a realidade. Não era aceito na comunidade humana e por não ser um completo vampiro, não tinha nem mesmo o direito de estar próximo deles, uma existência inútil e sem serventia, que nem mesmo deveria estar vivo.
O gosto da comida depois disso pareceu mais amargo e durante toda a refeição eles permaneceram em silêncio e o loiro com a cabeça abaixada.
O clima estava desconfortável naquela mesa de jantar. Diferente dos vários e longos minutos em que, durante o tempo que Zoro estava ferido, ficavam em silêncio, o atual era insuportável, fazendo o vampiro apenas desejar sair dali e isolar-se, afogar seus sentimentos confusos e estranhos bem fundo em mar de lágrimas e nunca mais retirá-los de lá. Sentia-se tão fraco e pateticamente carente por ter se apegado nas poucas demonstrações de gentileza que recebeu do humano. Por se sentir aceito e agora, mesmo com ele socando-o e ofendendo-o com palavras, não conseguia parar com os pensamentos indevidos. Sanji só desejou voltar atrás e ignorar as gentilezas do outro e as conversas que tiveram, ainda que tudo estivesse apenas em sua cabeça.
Zoro estava focado em terminar sua refeição depressa, enfiando grandes quantidades de comida na boca de uma só vez e engolindo com pressa. Enquanto comia, reparou que aquela criatura também estava comendo daquela comida, o que fez Zoro ficar absolutamente confuso.
Seres como ele não deveriam se alimentar como humanos, eles tomavam sangue para viver, aquela era literalmente a definição de vampiros. Na verdade, Zoro se lembrava muito bem de já ter escutado repetidas vezes que comida humana fazia mal ao estômago de um deles. Mesmo que aquilo não fizesse nenhum sentido, Zoro não falou nada a respeito. Não tinha tempo para ficar conversando com aquele ser, só queria sair logo dali.
— Pronto. — Assim que terminou a última garfada, Zoro engoliu todo o conteúdo de sua taça de uma vez e se pôs de pé.
Passou a encarar o vampiro que ainda comia calmamente, seu prato ainda pela metade. O loiro parecia estar se fazendo de surdo, pois apenas continuou a bebericar da sua taça de vinho tinto, que parecia desconfortavelmente com sangue para o gosto de Zoro. Aquilo enfurecia o garoto de cabelos verdes, que já não estava com paciência nenhuma.
— Minhas espadas, vampiro. — Ele disse secamente enquanto o olhar perfurava o outro.
Sanji sentia o olhar de ódio o intimando e não era forte o bastante para levantar o olhar e encará-lo de volta, então apenas continuou pacientemente comendo, degustando de sua deliciosa refeição. Era a primeira vez que se sentava na mesa com alguém, com vampiros não era possível, humanos o achavam nojento. Quantas vezes não se imaginou nessa situação? Fantasiando que estaria aproveitando um jantar romântico com uma bela dama e depois fariam amor até o quase amanhecer. Mas, estava sendo exatamente o oposto e ele nunca se sentiu tão mal, era óbvio que qualquer humano acharia desprezível dividir uma refeição com um monstro, era bom senso, Sanji entendia perfeitamente, era possível que se fosse um humano se sentiria da mesma forma.
Pouco depois do outro terminar de comer, Sanji também o fez por se apressar, mesmo fingindo estar em seu normal e se levantou, deixando os pratos e taças na mesa, retiraria depois que o outro fosse embora, no momento, só desejou que Zoro partisse logo antes que ele desabasse, antes que aqueles sentimentos indesejados fossem vistos e fosse ainda mais humilhado.
Caminhou até outro cômodo em que havia deixado as espadas e as pegou, levando-as de volta ao dono. Sem olhar no rosto do outro, sempre fitando o chão, Sanji estendeu as espadas e sentiu as mãos violentas pegarem-nas bruscamente.
Depois disso só viu o moreno saindo sem falar mais nada e assim que ele sumiu de sua visão, o vampiro suspirou, se perguntando qual seu problema por ter começado a nutrir sentimentos por alguém que o desprezava daquela forma.
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