Notas iniciais
Capa: micaela-frojdh

Zoro chegou ao castelo razoavelmente cedo. Não se arriscaria novamente a presenciar a cena patética que viu da última vez. Mas não apenas por isso. Zoro havia se dado conta do estado deplorável em que se encontrava. Ele havia se acovardado ao procrastinar sua ida da última vez, de forma vergonhosa e desonrosa. Não tinha que temer nada, por mais raiva e confusão que sentisse.

Além do mais, fizera um juramento e estava determinado a cumpri-lo, não tentar esquecer suas obrigações como uma criança mimada e idiota. Nos últimos tempos estava vivendo apenas como uma sombra do caçador que costumava ser, a beber e ser enxotado de bares, dormindo na rua. Era uma desgraça e ele voltou ao trabalho assim que deixara o castelo da última vez.

Então, pela primeira vez, se dedicava em fazer a jornada o mais rápido possível. O que estava sendo mais prático depois que se matou de trabalhar o suficiente para comprar um cavalo. Não era o mais bonito, nem o mais veloz, mas era suficiente para seu propósito e Zoro não ficou descontente com seu progresso em chegar lá bem antes do esperado. Só não imaginava que chegaria antes do sol se pôr, o que ironicamente nunca havia acontecido antes.

O caçador franziu o cenho enquanto acomodava o cavalo do lado de fora do castelo. Entrou no lugar sem nem bater à porta, sabendo que de nada adiantaria àquela hora, e tentou se acomodar no salão principal.

Entretanto, ficar sentado esperando rapidamente se tornou entediante. Zoro já havia dormido e acordado tantas vezes que tinha perdido a conta e como não havia sequer um relógio ou uma janela, não fazia nem ideia de que horas era naquele momento. Se levantou e se pôs a andar pelo castelo, a fim de pelo menos esticar as pernas.

Zoro já conhecia quase todos os cômodos existentes ali, graças às suas andanças enquanto tentava se localizar no local, mas nunca havia observado muito detalhadamente nenhum deles. Geralmente estava ocupado praguejando e amaldiçoando o arquiteto do lugar, mas agora que não tinha um objetivo não se importava em vagar pelos cantos da casa, que basicamente eram quase todos quartos no mesmo estilo do seu. Seu quarto. Aquele era definitivamente um pensamento estranho.

Depois de passar pela cozinha algumas vezes, agora estranhamente sem vida sem seu anfitrião, e pela biblioteca, que tinha mais livros do que vira em sua vida inteira, Zoro se viu parado no mesmo cômodo que havia encontrado em sua última estadia ali. No centro do calabouço gelado estava o caixão e Zoro poderia sentir a presença de Sanji ali mesmo que não tivesse visto o objeto. O jovem caçador se aproximou do abrigo mórbido do vampiro e pôs a mão sobre a madeira, sentindo sua qualidade e imaginando quantas centenas de anos ela teria.

Ao invés de retirar a mão, no entanto, Zoro apenas continuou explorando o objeto até impulsivamente retirar a tampa para observar o interior, se deparando com Sanji num sono aparentemente profundo. Era interessante observá-lo daquela forma. Ele parecia tão sereno e vulnerável, bom, não era como se não tivesse testemunhado vulnerabilidade daquele vampiro antes. Mas o motivo maior pelo qual a situação lhe era peculiar, era que estava fazendo algo que o vampiro sempre fez consigo, mas ele nunca havia entendido direito a razão.

Nem mesmo sabia se agora, fazendo o mesmo, conseguia entender. Ele não tinha uma razão. Apenas continuava a observar o rosto tão pálido quanto a cera da vela que segurava relaxado no conforto da inconsciência, aparentemente tão inocente e imaculado que era difícil imaginar as presas que jaziam sob seus lábios e todo o sangue que já havia manchado aquela pele perfeita.

E Zoro talvez tenha ficado alguns minutos ou horas o observando, mas não estava mais entediado.

Sanji acordou com uma estranha claridade e calor em seu rosto, o que normalmente deveria apavorá-lo, mas se fosse a luz do sol ele não teria muito tempo de sentir qualquer coisa que não fosse uma dor insuportável. Ele abriu os olhos devagar, recuperando a consciência aos poucos, até se dar conta de que aquela situação não era nada normal e imediatamente ficar de guarda para seja lá o que fosse encontrar ao abrir os olhos. Porém, quando sua visão se normalizou, ele viu apenas uma mão segurando a vela e, ao reconhecê-la, baixou a guarda, voltando a ficar tão tranquilo quanto estava quando inconsciente. Era Zoro, o que fazia sentido já que ele era o único ser a saber de sua residência naquele lugar. Mas por quê?

Mesmo sem saber o motivo ou entender, um leve sorriso surgiu no canto de seus lábios. Então ele levantou o tronco, ficando meio sentado no caixão e olhou bem para o outro, analisando-o. Diferente da última vez, ele não estava ferido, o que era um grande alívio. Nem fazia tanto tempo que se viram, na verdade bem menos do que uma semana. Aquele dia ainda trazia lembranças agradáveis, a forma que o garoto estivera tão entregue enquanto o chupava o fez sorrir bobamente nos últimos dias, iludindo-se de que talvez estivesse conquistando a confiança do outro.

Zoro era diferente dos outros humanos, ele não o temia, não sentia medo e muitas vezes até o desafiava. Sanji admirava sua força, ainda que odiasse o quanto ele não se cuidava. Era claro que não se alimentava direito, que vivia de álcool e mal cuidava de seu próprio bem estar, usando roupas rasgadas e parecendo uma pessoa que só esperava pela morte, o que não era a verdade, sem contar no quanto Zoro não se importava com sua segurança, havia notado isso desde o momento em que o viu abrindo os braços e se entregando ao Dracule, completamente inconsequente. E algumas vezes sentia vontade e necessidade de cuidar e protegê-lo, mesmo claramente não precisando. Era óbvio quem era mais fraco entre os dois.

— Desculpe, acho que dormi muito. — A voz sonolenta de Sanji ecoou fraca no lugar praticamente vazio enquanto se levantava. Não entendia o que o garoto estava fazendo ali, mas achava que seria muito invasivo perguntar.

— Não. — Zoro disse simplesmente, fazendo o vampiro franzir as sobrancelhas encaracoladas. Percebendo que não havia sido muito eloquente, Zoro continuou a explicação. — Quero dizer, eu que cheguei cedo demais.

O vampiro claramente não parecia estar esperando sua visita. Zoro se indagava se o loiro imaginara que ele só fosse aparecer por lá daqui a semanas novamente e tentou imaginar como seria se ele tivesse que aguardar com fome pacientemente até que o trouxessem comida, sem ter certeza de quando. Era bizarro imaginar as coisas sob essa luz, se imaginar como comida. Mas era apenas uma realidade factual.

— Mas você dorme realmente a noite inteira? Metade das horas do dia todos os dias? — Zoro perguntou e se fosse realmente verdade ele imaginava que não era muito diferente do que ele próprio fazia, se somasse todos os seus cochilos diários, mas ainda assim era bastante tempo para qualquer pessoa normal. Exceto que Zoro se esquecia que não se tratava de uma pessoa.

— Seria bem mais fácil assim, eu acho. — Sanji disse pensativo, não parecendo fazer sentido e a expressão confusa no rosto do outro provava isso. — Dormir facilmente, sabe? Costumo demorar algumas horas até conseguir dormir de verdade, por isso venho para esse lugar obscuro e me tranco no caixão para resistir a tentação de passear durante o dia.

Ele parecia estranhamente à vontade falando de algo tão fora do comum para um monstro, como se tivesse alguma humanidade em seu interior. Depois disso eles ficaram no mesmo silêncio constrangedor de sempre, como se nunca nenhum dos dois conseguisse continuar uma conversa. Sanji sempre ficava se refreando, tomando cuidado com cada uma das palavras que usava para não ofender o humano, e Zoro, bem, Zoro era Zoro.

Parecendo ter desistido de um diálogo e ficando desconfortável em deixar o garoto naquele lugar macabro, Sanji o levou até a cozinha e preparou uma refeição para ambos, apreciando um jantar incrível enquanto compartilhavam a bebida, que novamente Zoro não quis dividir. O vampiro realmente não se importava com isso, mesmo que uma veia saltasse em sua testa toda vez que ele agia daquela forma egoísta. Não queria pensar nisso, mas Zoro era bem irritante algumas vezes.

Quando estavam saindo da cozinha, sentiu a mão pesada o interrompendo e olhou em sua direção, ficando desconfortável com as palavras do outro.

— Preciso sentar-me para que você possa beber o que precisa.

Sempre acabava sendo assim, ele era o monstro e o garoto seu alimento, ao menos era assim que a relação era enxergada aos olhos do humano e acabava sendo isso mesmo, por mais que o loiro tentasse negar.

— Eu não estou realmente com fome nesse momento… — Sanji disse meio hesitante, sem pensar que aquilo poderia dar abertura ao outro ir embora e deixá-lo passando fome mais uma vez. — Mas eu posso tomar agora se sua vontade é partir.

— Não estou com pressa. — Disse Zoro sem hesitar. — Só vou pôr um pouco de água para o cavalo, então.

Nem ele sabia como tinha dito aquilo tão naturalmente. Mas era a verdade e Zoro não estava contando os segundos para se ver livre daquele lugar, como em outras tantas vezes. Não sabia o que havia mudado exatamente, mas amargamente talvez tivesse que refletir que possivelmente tenha sido sua própria atitude. Desde sua última visita acabou descobrindo que manter a calma diante do vampiro e conversar normalmente tornava tudo mais leve do que seus olhares de desprezo e o silêncio que era exigido em sua presença. Não era como se agora quisesse ser amigável. Ou que havia se esquecido de porque começara a tratá-lo mal para começo de conversa.

Mas só… Teve o vislumbre de características que ele havia visto enquanto morou com o vampiro ali. Coisas que iam além da pré-concepção unidimensional de monstro que Zoro enfiou nele quando viu sua aparência de assassino. E aquilo tornava a convivência mais fácil, ainda que tudo ficasse muito mais confuso em sua mente. Porque pensar nele como um mero vampiro monstruoso era muito mais fácil e intuitivo. Qualquer coisa além disso fazia a cabeça de Zoro doer pela falta de compreensão.

Ele divagou em seus pensamentos enquanto aguardava Sanji trazer-lhe um balde cheio d'água. O vampiro fez menção de ajudá-lo e mencionou que gostava de lidar com cavalos, ao que Zoro respondeu que era melhor poupar o animal que já era traumatizado o suficiente com a raça dele. Então levou a água ao cavalo que parecia infeliz de ficar amarrado do lado de fora do castelo. Zoro acariciou a crina preta do animal como um pedido de desculpas fajuto não muito bem recebido pelo cavalo que relinchou em desdém, e entrou novamente.

— Talvez ele esteja traumatizado comigo também. — Disse o caçador ao entrar, aceitando o castiçal que o vampiro o oferecia. — Não gosta de ficar sozinho à noite e tem pavor de estar comigo em alguma caçada. É um covarde.

Enquanto observava a cena hilária, para não dizer trágica, da porta do castelo, Sanji franziu as sobrancelhas encaracoladas ouvindo aquilo e chegando rapidamente à conclusão que não só Zoro não sabia lidar com um cavalo, como também ele era horrível tratando o animal, tanto que irritava o loiro.

— É compreensível o motivo dela estar traumatizada com você. — Sanji disse com a voz bem menos tranquila do que de costume quando lidava com o humano, fazendo questão de dar ênfase no pronome feminino. Céus, como Zoro não notou aquilo e estava tratando-a como se fosse um macho bruto? Era a primeira vez que via alguém tão desligado para um detalhe completamente óbvio, não havia chance de uma pessoa confundir um cavalo com uma égua.

Sanji então o deixou sozinho por alguns momentos enquanto ia até a cozinha buscar alguns legumes para a égua, retornando mais rápido do que qualquer humano poderia fazer. Sem medo, Sanji saiu do castelo e esticou a mão até a égua, percebendo-a recuar a primeiro instante, mas após sentir o cheiro de sua mão, ela deixou que a tocasse e se tornou mansa e carinhosa, fazendo o vampiro sorrir e passar um tempo acariciando a crina elegante da dama. A alimentou com algumas cenouras e outros legumes, dando em sua boca sem medo, enquanto distribuía elogios e a tratava como uma rainha.

— Viu? Não precisa tratá-la mal só por ser um animal. Se respeitá-la, será retribuído. — Ele continuou fazendo carinho mesmo quando se virou para o garoto e sorriu, mostrando que ele deveria ter mais cuidado com o animal.

No momento de distração, a égua deu uma longa lambida em seu rosto e tentou mastigar seu cabelo, fazendo-o rir alto, divertindo-se com a situação. Talvez pela cor ela tenha confundido com feno.

Era surreal para Zoro ver Sanji se dando tão bem com o cavalo. Talvez porque nunca havia visto o vampiro interagindo com nenhum outro ser vivo além dele próprio. Aquele cavalo, ou melhor, aquela égua, tinha pavor de vampiros e, no entanto, deixava que Sanji a tocasse e parecia muito satisfeita com toda a atenção e mimo que estava recebendo. Talvez nunca tivesse sido muito bem tratada, já que a comprou tão barata que duvidava que vivesse em ótimas condições.

Da mesma forma que a égua parecia se regozijar com aqueles carinhos como se fosse a primeira vez que os recebia, Sanji agia da mesma forma ao ser retribuído. Satisfeito, radiante, até mesmo sorrindo ao ter seus belos cabelos apanhados por uma boca babada que queria comê-los. Zoro poderia até ter se aquecido um pouco por dentro com a cena, caso não tivesse ficado ofendido pelas palavras da criatura.

— Eu não a trato mal. — Zoro disse irritado. Ele não sabia ser daquele jeito excessivamente carinhoso e afetuoso que o vampiro era sem o menor esforço. Mas não queria dizer que era um mau dono. Nunca a deixava passar fome e nem sede e nunca a agredia desnecessariamente e isso era suficiente para uma maldita montaria.

Bufou irritado entrando no castelo e ouvindo uma risada e um relincho que se assemelhava demais a um riso equino para seu gosto.

— Que posso fazer se é amedrontada? — Zoro falou ainda despeitado assim que Sanji entrou e fechou a porta atrás de si e começou a conduzi-lo por um caminho qualquer do castelo. — Não falo isso porque estou propositalmente sendo cruel, mas porque é verdade. Eu precisava de um cavalo para me ajudar a caçar os vampiros. Se ela tem medo, não me serve. Mas estou preso a ela por não ter moedas o suficiente.

— Caso a treine bem, ela vai se tornar de grande ajuda. É belíssima, tem grande potencial. Uma bela dama estonteante que só precisa ser cuidada da forma devida. — O vampiro voltou a insistir naquilo, sabendo que por mais que um animal tenha recebido maus tratos durante muito tempo, em algum momento da vida, se fosse tratado com amor e carinho, enxergado como uma criatura importante para a vida de alguém, sabia que o animal abriria seu coração quando se sentisse confortável. Ironicamente, ele se identificava. Mesmo que a história não fosse exatamente assim, mas em sua cabeça romântica e iludida era.

Zoro até estava dando um pouco de crédito às palavras do loiro no início da frase, mas percebeu que aquilo era apenas um cavalheirismo exagerado e pomposo próprio de alguém irritantemente pedante como ele. E fruto de fantasias ingênuas certamente. Como se alguém pudesse transformar o joio no trigo, algo frágil e quebradiço em um alicerce forte e durável. Essa visão de mundo desnecessariamente otimista não apetecia Zoro.

Os olhos do vampiro encaravam o ombro largo do outro que tentava andar em sua frente como se tivesse total conhecimento do castelo, obrigando Sanji a vez ou outra passar a frente para endireitá-lo e direcionar ao caminho correto que dava em seu quarto. Ele precisava de um tecido para limpar seu rosto e cabelo pingando a saliva de cavalo.

Então, chegando em seu quarto, ele secou o rosto babado e tentou ajeitar os longos fios dourados de volta no rabo de cavalo justo em sua nuca, sentindo necessidade de um banho, mas era um bom anfitrião, não deixaria seu convidado de lado para algo tão mundano. Logo voltaram a caminhar pelo castelo, com Sanji corrigindo o caminho do moreno a cada segundo.