Your Blood Is My Wine
19 Would you even believe me?
Notas iniciais
Já estavam caminhando há um tempo e Sanji pensou desesperadamente num assunto para conversar com o garoto. O primeiro que apareceu em sua mente talvez fosse arriscado, mas tentou mesmo assim.
— Por que você estava atacando o Conde Dracule? — Sanji tomou cuidado nesse momento, medindo e calculando bem suas palavras para não deixar explícito que não era bem Zoro quem estava atacando alguém no dia em que se conheceram…
— E por acaso um caçador de vampiros precisa de um motivo para atacar um vampiro? — Zoro respondeu sem olhar para trás, irritado por ser puxado pelas vestes a todo momento como uma criança que está a se perder da mãe no meio da rua. — Que pergunta mais idiota.
— Você é atrevido, pirralho. Falando nesse tom com alguém centenas de anos mais velho que você. — Sanji respondeu por impulso demonstrando estar bastante irritado com o tom do outro e se perguntando profundamente o problema de sua mente para ter feito com que ele começasse a nutrir sentimentos tão confusos e profundos por aquele garoto irritante. Talvez estivesse louco, iria culpar a fome de sangue.
Chegaram finalmente ao destino, que era aparentemente a biblioteca com a qual Zoro havia se deparado durante o dia. Zoro logo percebeu uma lareira no canto e direcionou um olhar expectativo à ela por um segundo. O vampiro, parecendo sobrenaturalmente ler sua mente ou algo do tipo, imediatamente se pôs a acender o fogo, acrescentando carvão novo junto às cinzas. Zoro não o agradeceu, mas talvez tenha olhado com uma expressão levemente simpática em sua direção por um segundo ou dois.
Às vezes Sanji esquecia que o corpo do outro era extremamente sensível e sentia frio facilmente. Não que o seu próprio também não sentisse, era óbvio, mas estava tão habituado com o corpo naturalmente gelado e o ambiente ainda mais que esquecia-se do frio. Era algo com o qual ele convivia há tantos anos que havia se tornado comum. Ou talvez apenas conseguia esquecer devido às várias camadas pesadas de suas roupas de pele, que eram quentes e bem cuidadas, mesmo já não sendo tão novas.
— Só não compreendo o motivo de ter atacado um caçador como você. — Sanji disse casualmente enquanto passava os olhos pelas altas prateleiras de incontáveis livros, a maioria de romance. — Afinal, se ele está caçando vampiros, mesmo sendo um, não seria um acréscimo à sociedade de caçadores?
— Ele não é como eu. — Zoro falou as palavras como se elas pudessem fisicamente feri-lo apenas por cogitar a possibilidade. — Ele é um vampiro nojento e vou tratá-lo como tal. Não importa que tipo de fachada estúpida ele tente montar.
Que pirralho idiota. Era inevitável Sanji pensar isso daquele garoto burro, nem fazia sentido aquela lógica. Talvez Sanji tenha dito seu pensamento em voz alta sem perceber, já que recebeu um olhar assassino do mais novo, não que se importasse. Claro que machucava sempre que ele ouvia aquelas crueldades saindo da boca do outro, mas como culpá-lo se ele mesmo concordava?
À luz da lareira, Zoro pôde ver perfeitamente a garganta do vampiro engolindo em seco ao ouvir sua explicação amarga. Não teria dado atenção para aquele detalhe se o pescoço desnudo não tivesse chamado sua atenção. Da última vez que estivera ali lembrava perfeitamente de ter visto aquela cicatriz e perguntado sobre ela, mas logo esqueceu o assunto já que a explicação óbvia era o vampiro ainda não ter se recuperado completamente da falta de sangue.
Agora aquilo já não fazia sentido, já que Sanji havia se alimentado há tão pouco tempo que nem tinha muita fome naquela noite. E estava incomodando o caçador. Muita coisa sobre aquele vampiro o incomodava na verdade, e aquilo deveria ser um detalhe desimportante, mas já havia decapitado monstros como ele o suficiente para saber que sua aparência jamais mudava, a pele continuava sempre imaculada como porcelana, não importava quantas batalhas sangrentas lutassem.
O olhar de Zoro era intimidador em todas as vezes que o encarava tão fixamente, o loiro por mais que não sentisse medo, o que deveria já que era um vampiro e estava sozinho no mesmo ambiente que um caçador de vampiros, mas o que ele costumava sentir de verdade era vergonha. Ter a atenção do jovem tão interessado em sua aparência, em algo específico de seu corpo, seus… Era inevitável não se lembrar de quando seus corpos estiveram em contato, em especial como o fez gozar em sua última estadia naquele castelo.
E quando ele se aproximava, sua mente gritava para que fugisse, por saber que não se controlaria caso ficassem próximos outra vez. Sanji seguiu o que sua mente gritava, o corpo quase se movendo sozinho, até esbarrar as costas nas estantes e não ter mais para onde fugir. Ele desviou o olhar sem saber como agir, estava confuso com aquela atitude, até ouvir as palavras que o deixaram em choque.
— Ei. — Antes que Zoro controlasse sua curiosidade lá estava ele se aproximando mais do que deveria do espaço pessoal do vampiro junto às estantes imensas da biblioteca. — Por que diabos seu pescoço ainda está assim?
O vampiro havia se esquecido completamente daquele detalhe, deixando exposta sua cicatriz por tanto tempo.
— Porque é… Uma marca de nascença… — Sanji mentiu descaradamente, não conseguindo nem disfarçar o quão óbvia era aquela mentira.
— Você não saberia mentir nem para salvar sua vida, pelo visto.
— Não é uma mentira! — O vampiro aumentou um pouco o tom de voz, demonstrando estar quase desesperado para que o outro acreditasse naquelas palavras, mesmo não sendo nada crível.
Zoro encarou o olho azul que tentava de todas as formas desviar-se dos seus, como se aqueles livros velhos fossem interessantíssimos e demandassem toda sua atenção. Ele só não entendia o porquê do vampiro insistir tão veementemente em não lhe falar nada a respeito daquilo. Sanji se afastava de si até finalmente bater as costas numa das estantes, derrubando alguns livros no processo. Como se fosse pessoal, como se Zoro não pudesse saber...A não ser que...
— Isso fui eu que fiz? Como? — Zoro perguntou, mas era como se simplesmente estivesse afirmando. Observava exatamente onde havia sido o corte e podia ter praticamente certeza. Não contornava o pescoço inteiro, então não poderia ter sido uma decapitação, era apenas um corte peculiar no meio da garganta, como uma ameaça inacabada. Apenas para confirmar o que dizia, retirou uma de suas espadas, ainda embainhada, do quadril e encostou no pescoço cicatrizado do loiro, mimetizando a posição em que estiveram há meses. — Responda e pare de mentir para mim.
Sanji suspirou profundamente, sentindo-se intimado com aquela ordem. Como negar algo a seu mestre? Ainda que não gostasse da ideia de se mostrar tão frágil em sua frente. Só não queria que o outro sentisse alguma culpa em algo que no fim nem fora quem causara, mesmo que tenha sido a mesma espada encostada outra vez em sua pele que deixara a marca. Ele colocou a mão no pescoço, tentando esconder a cicatriz e falou baixo ainda sem coragem de olhar o outro nos olhos.
— Eu disse que não era um vampiro normal… Porque eu não sou inteiramente um. — Confessou sincero e o silêncio se instalou entre os dois corpos. Por alguns segundos ele ainda ficou olhando para o lado, envergonhado por ser tão fraco que nem as feridas conseguia curar. Conseguia ser uma aberração ainda maior do que qualquer outro vampiro que Zoro odiava, se perguntava o quão nojenta ele acharia de sua situação.
Zoro apenas guardou a espada no lugar e ficou olhando para Sanji como se ele tivesse duas cabeças ou algo do tipo. O caçador não sabia do que diabos aquele vampiro estava falando. Ele parecia muitíssimo sério e não parecia que estava inventando aquilo, mas Zoro ainda achava frustrante que respondesse com frases cujo significado ele não conseguia desvendar. Não conseguiu responder nada àquilo, apenas se afastou um pouco e ficou encarando o loiro com uma expressão de dúvida permanente, talvez a mesma expressão que fazia ao encarar algum dos bilhetes escritos pelo loiro e que nunca conseguiria ler.
A falta de reação do caçador deixou Sanji deixou curioso, então reunindo todas suas forças para se virar, ele olhou no rosto do garoto e viu estampado em sua cara de tacho que ele não havia entendido. Céus, tão fofo. Não conseguiu conter o riso, ficando bem menos relaxado que antes.
— Eu sou filho de um vampiro e uma humana. Meio humano, meio vampiro.
Isso com certeza era inesperado. Então era por isso que Sanji era tão...estranho. Zoro realmente nunca tinha pensado que tal criatura pudesse existir. Não era como se fosse difícil de encontrar relatos de relacionamentos entre humanos e os sanguessugas, mas procriação era uma coisa completamente diferente. E nenhuma mulher deveria poder sobreviver com um monstro parasitando o próprio corpo.
— Eu nunca vi algo do tipo em todos os meus anos como caçador. E olha que eu já matei muitas centenas de vampiros. — Zoro falou casualmente, ainda um pouco pasmo.
Zoro não se enojou? Sanji estava confuso com a reação do outro, ou a falta dela. Ele esperava que fosse ser insultado e considerado uma aberração ainda mais terrível, mas Zoro não pareceu se importar nem um pouco. O que o deixava um tanto… Aliviado. Não queria pensar que talvez apenas não havia como achar que ele era pior, já que aos olhos do caçador ele já era o pior tipo de criatura existente.
No entanto, aquelas palavras o fizeram gelar completamente. Muitas centenas. Ele engoliu a seco, percebendo que esse número era só um número para o garoto, não vidas que foram retiradas. Era assustador e talvez fosse a primeira vez que sentisse um pouco de medo.
— Nossa, é… Bem mais do que eu… — Sanji disse em um tom quase inaudível, abaixando o olhar para o chão e fitando seus sapatos como se fossem a coisa mais interessante de todas. — Você não se sente… Mal?
— Por livrar o mundo deles? Nem um pouco. — Zoro disse tão calmo quanto se estivessem conversando sobre algo trivial, se abaixando para resgatar alguns livros que Sanji havia derrubado, empilhando todos com as mãos e colocando nos devidos lugares conforme as indicações do vampiro com as mãos.
— Ah, eu… Nunca vou esquecer tudo que fiz… Todo mal que causei a tantas pessoas… — Sanji estava desconfortável com aquilo. Ser o culpado por ter tirado a vida de apenas uma pessoa não afetava apenas ela, na verdade quem morria era quem menos sofria, mas a morte de um afetava dezenas, centenas de outros e ele jamais se esqueceria de tudo aquilo em que era culpado e nunca se perdoaria por ser um monstro assassino terrível.
Sanji definitivamente era estranho e Zoro mais uma vez o fitou como se não entendesse. Talvez ele fosse uma pessoa simplista, mas as coisas geralmente eram para ele como preto ou branco, sem intermediários, sem escala de cinza. Por isso nunca conseguiu compreender o comportamento gentil de um sanguessuga como Sanji. Por isso não conseguia compreender muito bem a ideia de um ser que fosse metade vampiro e metade...humano. E por isso que não compreendia essa conversa. Ele imaginaria que vampiros apenas se alimentavam sem nenhum remorso, as palavras e a hesitação no tom de voz do vampiro eram estranhas.
— Você não parecia se sentir tão mal assim quando eu interrompi sua refeição antes de fazermos nosso pacto. — Zoro o lembrou com a sobrancelha arqueada. — Ou a culpa só iria corroê-lo depois de beber todo seu sangue e deixar um corpo sem vida?
O loiro realmente achou que estavam começando a ter uma relação amistosa, sem insultos ou ódio envolvido, e obviamente estava errado, se iludindo em uma fantasia que ele mesmo havia criado em sua mente, enxergando um Zoro que não era o real.
— Nós estávamos… Nos amando. — Sanji afirmou meio hesitante, sentindo a garganta ficar seca. Então era isso que o garoto achou que aconteceria caso não interrompesse. — Eu não faço isso. Não preciso drenar todo o sangue de um humano para me alimentar, eu tenho autocontrole.
— Amando? Como se pudesse existir tal coisa entre um humano e um vampiro. — Zoro riu em deboche ao ouvir aquela declaração completamente fora da realidade. — Acho que ficar lendo essas histórias fantasiosas de romance nesses seus livros velhos acabou influenciando demais sua cabeça.
— Você é um moleque idiota e irritante que não sabe nada da vida. — Sanji disse calmo, usando o último pingo de paciência que tinha.
— Vai dizer que em todos os seus sei lá quantos séculos de existência costumava poupar a vida de quem se alimentava? — O cômodo havia ficado um pouco quieto, apenas com o som do fogo estalando na lareira, e Zoro resolveu insistir na pergunta depois de um tempo. Aquela conversa acabava o irritando um pouco, e com muita razão, embora ele de jeito nenhum quisesse entrar no espiral de ódio que aconteceria se ficasse remoendo seus pensamentos mais profundos sobre aquilo.
Mas o que mais o irritava era que por mais absurdas que as coisas que dizia fossem, o vampiro não parecia estar mentindo. E Zoro saberia se estivesse.
— E se for exatamente assim? — O tom de voz do vampiro aumentou consideravelmente e sem pensar muito antes de agir ele segurou com força o colarinho do casaco do mais novo, puxando-o com força e o encarando com a expressão séria e alterada, mesmo que seus olhos ainda se mantivessem azuis e puros. — Mesmo se eu falar que em toda minha vida eu matei apenas uma pessoa, você sequer acreditaria?
Ele falou claramente irritado e alterado, com uma mágoa que poderia ser facilmente enxergada em seu olhar. Era sempre assim, por mais que afirmasse incontáveis vezes alguma coisa, Zoro não acreditava, então porque mentiria ou tentaria esconder, fingindo ser alguém que não era? Não queria pensar que caso falasse o oposto, afirmando que havia matado milhares, o outro acreditaria.
— Eu só… — Zoro começou mas qualquer coisa que ele falasse seria uma grande mentira. Ele só o quê? Estava querendo entender? Estava curioso? Não. Ele perguntou porque não acreditava e na realidade achava aquilo tudo muito absurdo.
Mas a reação do vampiro quase o fez se sentir um pouco desconcertado com o que disse e pensou. Sentia suas convicções testadas toda vez que o loiro falava, mas principalmente toda vez que fitava o redemoinho de emoções que eram aqueles olhos azuis. Que eram ainda menos capazes de mentir do que seus lábios.
Sanji recuou ao perceber que talvez tivesse ultrapassado alguns limites, deixando-se levar pelo instinto, algo que odiava quando acontecia. Estava envergonhado por agir como um animal descontrolado, por mais que Zoro merecesse muito mais que aquilo pelas coisas que falou, ainda que o loiro tenha se iludido ao pensar que talvez ele tenha ficado um tanto arrependido por ser tão rude.
Quando o costumeiro silêncio voltou a reinar entre os dois, nada restou além de encarar o outro observando seus livros com um possível interesse. E claro que se deixaria levar pela situação, sorrindo de leve ao ver alguém tão insensível guardando os livros que há pouco havia criticado, parecendo até um pedido de desculpas.Ao menos para ele era isso que estava enxergando.
Zoro havia terminado de guardar todos os livros, mas agora era ele quem fitava as prateleiras como se fossem algo interessantíssimo. Fazia algum tempo que não ouvia o vampiro se dirigindo a si com aquele tom de voz. E nem soava como raiva. Soava como uma tristeza tão profunda que Zoro não conseguia deixar de se envergonhar um pouco. Mesmo achando teimosamente que estava certo.
— Uh… Então...Sobre ser meio-vampiro… — Zoro começou ainda passeando os olhos pelos
livros, ainda que não entendesse nada que estivesse em nenhuma lombada. — É por isso que você consegue comer comida?
— Não exatamente. Os outros também podem, só não necessitam e costumam não sentir vontade também. Enquanto eu preciso dos nutrientes ou acabaria morrendo… Acredito. — Os livros sobre vampiros costumavam sempre ser muito fantasiosos na maioria das coisas, e como não conhecia outros mestiços, nem ouviu histórias sobre, era difícil afirmar qualquer coisa. Ultimamente ele também não sentia mais muita vontade de colocar em teste aquela teoria.
— Isso é.... Estranho. — Zoro disse de forma pouco eloquente depois de refletir um pouco sobre o que ouvia. A ideia de um ser que precisava tanto de comida, assim como humanos, assim como ele, quanto de sangue humano era absurda. — Mas agora faz certo sentido te ver comendo sempre, eu acho. Antes parecia só que você era um vampiro esquisitão que adotava hábitos de humanos.
Zoro refletiu e continuou a observar as estantes enormes e cheias de livros.
— Você gostaria de ler algum? — Sanji disse se referindo aos livros que o outro tanto encarava, um tanto curioso em saber qual escolheria.
— Livros são inúteis. — Zoro falou tentando soar debochado para esconder a vergonha de uma pergunta estúpida daquelas tão direta. Não é como se ele quisesse ler. Mas admitir que não sabia alguma coisa era um tanto humilhante e o caçador apenas escondia aquilo atrás de escárnio por aqueles objetos.
— Se você tivesse a eternidade pela frente, teria que arrumar formas de distrair sua mente antes de enlouquecer. Agradeça não ser o caso. — Sanji rebateu um tanto ácido, por mais que não fosse sua intenção. Livros eram conhecimento, descoberta, imaginação. Te levavam a mundos que sozinho jamais conseguiria imaginar. Zoro apenas não havia descoberto o quão mágica uma leitura era e não era o loiro que o forçaria a gostar de algo.
Ele apenas deu de ombros, pegando um dos últimos livros que estava lendo e se sentou, percebendo o garoto se afastar e sentar-se em frente a mesa, deitando a cabeça na madeira e jurou que o viu perder a consciência em um segundo, chegando a ser irritante o quão fácil e rápido ele havia dormido. Talvez tenha se perdido observando-o por alguns minutos antes de começar a prestar atenção no livro de culinária japonesa em que estava testando algumas receitas nos últimos dias, em especial o dito onigiri…
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