Your Blood Is My Wine
15 I thought I'd never see you again.
Notas iniciais

Fazia três semanas que Zoro não aparecia no castelo e isso estava deixando Sanji cada vez mais preocupado, fazendo-o achar que algo grave havia acontecido com o garoto. Se preocupava de que ele poderia ter se machucado em alguma luta contra um vampiro e estava jogado em algum lugar, ferido ou talvez até mesmo morto. Sentia uma angústia desesperadora toda vez que sua mente se perdia nessa possibilidade.
Apesar de que, eles haviam transado. Os corpos se chocaram com força um contra o outro, em um ato totalmente animalesco e por mais que na hora fosse a melhor sensação de todas, quando Zoro o abandonou sozinho, Sanji percebeu que fora um erro.
Não havia sentimentos naquele ato, na verdade, apenas existia ódio e isso machucava. Infelizmente, ele amava aquele garoto, não queria que a primeira vez deles fosse daquela forma, se pudesse voltar no tempo faria tudo diferente, mas era muito tarde e sem dúvidas o caçador havia se arrependido tanto quanto ele, pior, com certeza Zoro estava enojado de ter feito aquilo e preferiu sumir para sempre. E Sanji estaria de acordo com isso se fosse o caso, mas a possibilidade dele ter se machucado e estar sofrendo o aterrorizava, tudo bem se nunca mais fossem se encontrar, ou se precisaria continuar sofrendo devido a fome que sentia há tanto tempo, ele não se importava, contanto que o outro estivesse bem.
Sua garganta seca engasgou com o mínimo de saliva que a boca ainda conseguia produzir e ele quis rir de seu próprio estado patético. Era tão fraco, dava toda razão a Judge de sentir vergonha dele. Estava sofrendo, com dor e quase morrendo, se é que isso era possível, e o único pensamento que se passava por sua mente não era se alimentar para conseguir se manter em pé e retomar suas forças e sim saber se Zoro estava bem. Seus irmãos iriam rir de sua cara caso soubessem de seu estado deplorável.
Nos últimos dias, quando deu a costumeira uma semana e o garoto não retornou ao castelo, Sanji deduziu que ele não voltaria e foi caçar algum animal para se alimentar, pois já estava se sentindo muito fraco. Claro, isso não foi muito efetivo, animais jamais teriam o mesmo poder do que o sangue humano. Ainda conseguiu se manter dessa forma por algum tempo antes de colapsar.
Com o passar dos dias, seu cabelo tão dourado começou a perder a cor, tornando-se cinza, até virar totalmente branco. As rugas em toda sua pele eram bem visíveis e parecia que era um homem de mais de cem anos. A última vez que conseguiu se mover pelo castelo, Sanji não conseguiu retornar até seu caixão, caindo ao lado deste assim que tentou levantar o tronco do chão, por estar precisando se arrastar, mas seu corpo fraco não teve forças para se impulsionar, então ele estava apenas jogado apoiado na lateral. A posição machucava seu corpo, no entanto, todas suas forças haviam sumido. Durante alguns dias não teve escolha a não ser permanecer ali, sentindo cada vez mais a morte se aproximar.
Então, ele viu Zoro em sua frente e chorou. Não sabia de onde aquelas lágrimas surgiram, mas certamente eram de alívio por ver o outro bem… Na verdade, não tão bem, claramente, o corpo pingava sangue e isso desesperava Sanji, mas ele não se importou, ao menos seu amado estava vivo.
— Que bom que está vivo… — Sanji mostrou seu mais lindo sorriso, por mais que a aparência velha e acabada transformasse o rosto que costumava ser tão bonito em algo horrendo e bizarro.
Zoro realmente havia pensado em nunca mais retornar. O pensamento cruzou sua mente não apenas uma vez, mas diversas vezes após aquele dia. Estava bebendo muito mais do que o normal, esperando que o estupor alcoólico o anestesiasse, mas sabia muito bem que não aconteceria. A única coisa que fazia era perder ainda mais a noção e ficar mais violento, o que era a combinação perfeita para acabar sendo expulso de cada taverna que entrava depois de ficar tanto tempo e começar a causar problemas.
Por mais que se embriagasse diariamente com rum barato, não conseguia esquecer o que havia acontecido, o quão terrivelmente bem havia se sentido. Muito menos se convencer a parar de ir ao castelo. Assim que o álcool se diluía e ele acordava com a cabeça latejando e jogado no meio da rua, sabia muito bem o que acontecera e quais eram suas obrigações apesar de tudo. A realidade era rígida e inflexível, não poderia ser moldada aos seus caprichos, nem esquecida por mais que tentasse.
Assim, quando chegou o limite do seu prazo, Zoro partiu. Sabia que chegaria atrasado, mais atrasado do que nunca, mas achava que pelo menos a isso ele tinha direito. Estava exausto e enfurecido e seria mesquinho o suficiente para não se importar com isso. No meio do caminho, no entanto, Zoro se deparou com vampiros. O que não deveria ser novidade nenhuma, já que ele era supostamente um respeitável caçador de vampiros, mas fazia semanas que ele sequer havia tentado caçar algum, ocupado demais em gastar até o último tostão em bebida e se arrastar pela cidade como um mendigo.
Zoro enfrentou todos eles, mesmo um tanto fraco e cansado, o que era inteiramente sua culpa por não fazer seu trabalho por tanto tempo. Ganhou alguns ferimentos profundos graças a isso, parando para costurá-los grotescamente e descansar um pouco, o que tornou sua caminhada até o castelo muito mais vagarosa. Tudo que conseguia pensar durante o caminho era em continuar consciente e em comprar um maldito cavalo depois disso.
Diferente da última vez, Zoro não estava com a menor paciência para esperar o vampiro aparecer de sabe-se Deus onde estava se escondendo. Procurou pelo loiro em cada cômodo daquele maldito castelo labiríntico até finalmente se deparar com uma forma patética no chão de um quarto. Havia um caixão ao seu lado e o cérebro de Zoro não conseguia processar direito o porquê de Sanji estar no chão, até aproximar o fogo e conseguir observar seu rosto envelhecido.
Era ainda pior do que havia visto antes, tão horrível e frágil que o sentimento de pena não conseguia evitar em emergir da sua garganta. O vampiro sorriu naquele corpo estranho e todos os pensamentos que Zoro não queria que voltassem chegaram à sua mente.
Lembranças do quanto haviam se machucado, do quanto o vampiro quis tocá-lo e Zoro permitiu tudo, inebriado com uma luxúria que o enfraquecera. Lembrava dos detalhes e aquilo era o pior, de como aquele corpo que havia conhecido tão intimamente estava completamente acabado, fazendo seu estômago afundar um pouco com uma culpa que ele nem achava que deveria ter.
— Já você não parece tão vivo. — Zoro não sabia o que era, mas a sensação em seu estômago só piorava cada vez mais com aquelas palavras. Ele queria fingir que o vampiro tivesse dito que ficava feliz que Zoro porque ele era seu alimento, mas sabia que não era verdade. Alguma coisa naquele rosto enrugado e nos olhos marejados e leitosos o diziam isso.
Sanji queria rir de seu estado patético, mas nem mesmo forças para isso ainda possuía. A última coisa que desejava era que Zoro o visse com aquela aparência horrenda, ele já era enxergado como um monstro, dessa forma então nem gostaria de imaginar o que se passava pela cabeça do outro. Ele tinha razão, estava quase morto, não que em algum momento de sua vida estivesse realmente vivo.
— É uma ótima oportunidade para me matar. Aproveite. — Sanji o incentivou, afinal, não havia motivo para que Zoro não voltasse, pela lógica ficava óbvio que o real desejo do outro era matá-lo, então apenas facilitaria as coisas. Zoro era um caçador, ele era um vampiro, era só ligar os pontos e tudo terminaria bem.
— Beba depressa. — Zoro esticou o braço quase automaticamente na direção do rosto do outro, ficando de cócoras no chão ao seu lado.
Diferente da espada cortando sua cabeça, o que Sanji sentiu foi o calor do braço tão próximo, as veias pulsando e estava tão faminto que até enxergava o sangue circulando ali. Era impossível evitar que seus olhos brilhassem no tom escarlate, estava faminto e havia um banquete em sua frente. No entanto, usou suas últimas forças para empurrar o braço para longe evitando abocanhá-lo. Zoro estava ferido, poderia matá-lo se perdesse o controle e tomasse muito de seu sangue.
— Não! — O tom rouco não conseguia enfatizar muito aquela negativa, por mais que tivesse tentado. Aparentemente, de nada adiantou, porque sentiu o braço quente sendo forçado em sua boca e a mão do outro segurar seu queixo, apertando sua mandíbula na carne e o obrigando a morder.
— Eu tenho uma palavra a cumprir. — Sabia que não era mais só por isso, sabia que o sentimento nojento de pena ainda corroía o fundo das suas entranhas, mas ainda assim não conseguia compreender. Ele estava mais faminto do que Zoro jamais vira, naquele estado fraco, definhando e mesmo assim se recusava. Mas já era complicado o suficiente Zoro se obrigar a voltar àquele castelo, ele não entendia porque aquele vampiro tinha sempre que tornar tudo mais difícil. Quem sabe havia começado a odiar aquele pacto tanto quanto Zoro odiava e a ideia de morrer parecia mais agradável do que a de tomar seu sangue.
Sanji chorou quando sentiu as presas penetrando a pele do outro, sofrendo com a dor que estava causando nele. Mesmo assim, ainda fazendo uma força inexistente para afastá-lo, Zoro continuou segurando seu rosto e o obrigando a tomar seu sangue, fazendo-o ceder aos poucos.
Zoro, que antes estava acocorado, foi perdendo as forças até as pernas cederem e ele se deixar ajoelhar no chão. Estava fraco e cansado e sabia que realmente não era a melhor coisa do mundo perder sangue nesse estado. Fazia muito tempo que não se sentia tão sem forças ao ter o vampiro se alimentando de si, parecia que estava tendo sua força vital esvaziada lentamente do seu corpo, quase igual a quando havia sido apunhalado no peito por Mihawk e achava que iria sangrar até morrer. Não estava sentindo frio, entretanto, mesmo com as mãos geladas o tocando.
O gosto era ainda mais saboroso do que Sanji se lembrava e ele tomou muito do sangue do moreno, mesmo que não fosse nem metade do que realmente precisava. Sua aparência mudou radicalmente, os cabelos voltaram ao dourado natural, lisos e enormes, cobrindo toda suas costas. O rosto perdeu quase todas as rugas, tornando-se bem mais jovem do que antes, por mais que ainda não fosse a aparência habitual. Assim, se Sanji fosse um humano, pareceria ter por volta de 40 anos.
Suas forças também foram recuperadas, então ele segurou com força o braço do outro, mas não o afastou. Havia parado de morder, agora apenas seus lábios estavam colados na pele, enquanto ele se acalmava e as poucas lágrimas secavam. Suas mãos estavam trêmulas e não era por falta de força e sim por medo e felicidade, sentimentos misturados e estranhos. Durante todos aqueles dias ele temeu que nunca mais pudesse sentir o calor de quem amava e agora que finalmente poderia tocá-lo outra vez, estava feliz e não queria mais deixar que fosse embora.
— Achei que nunca mais ia te ver. — Sanji levantou os olhos molhados e havia medo neles, mas não se importava em demonstrar, Zoro estava ali e ele não queria perder nenhum segundo longe dele. Nunca sentiu seu coração bater tão acelerado quanto naquele momento, nem mesmo quando notou que estava apaixonado pelo garoto.
— Você subestima meu comprometimento, vampiro. — Zoro disse levemente ofendido, já que odiava que questionassem suas promessas, mas não poderia realmente culpar a criatura por pensar aquilo. Ele atrasou muito desta vez.
E não é como se o pensamento não tivesse atravessado sua mente. O pensamento de nunca mais voltar depois do que aconteceu. Aparentemente o vampiro estava muito ciente de que havia sido uma linha muito inapropriada a que cruzaram. Zoro só não sabia o que exatamente o loiro pensava sobre aquilo e nem tinha certeza se queria refletir a respeito.
O vampiro que antes estava se recusando a beber do seu sangue, agora agarrava seu braço como se fosse um salva vidas. Zoro não tinha certeza se era por estar fraco demais para ser rude, ou se seu ódio havia diluído um pouco graças ao cansaço, mas apenas deixou que o loiro o fizesse, imóvel no chão ao lado daquele caixão. Observando Sanji de tão perto Zoro não podia deixar de se admirar em como sua aparência estava mais bela. Não que ele quisesse usar uma palavra como aquela para descrever um vampiro.
Mas, o fato era que havia mudado da água para o vinho, era como se tivesse rejuvenescido cem anos. Embora, se observasse bem, talvez não anos o suficiente. Não parecia nem de longe tão jovial quanto antigamente e Zoro tinha certeza que o maldito não havia bebido todo sangue que precisava, embora não tivesse a mínima vontade de oferecer mais. Já havia feito muito se arrastando até ali quando sequer deveria voltar e ainda insistido para que o loiro imbecil o mordesse.
Sanji ainda se agarrava no braço quente como se sua vida dependesse disso. Parecia querer roubar seu calor, mas na verdade só precisava ficar um pouco em contato com o garoto, sem brigar, sem que estivessem tentando se matar ou se odiando enquanto fodiam como aconteceu da última vez em que se encontraram. Infelizmente, aquilo durou menos do que desejava, apenas até sentir o dedo deslizando pela cicatriz em seu pescoço, fazendo-o se dar conta de que a marca do corte feito com a espada de Zoro estava exposto.
— O que foi isso? — Zoro abaixou os olhos do rosto e observou que seu pescoço ainda parecia estar num estado pavoroso, coberto de marcas e tecido mal cicatrizado. Tocou a pele de aspecto repulsivo com o polegar para enfatizar sua pergunta, nem sabendo porque estava curioso sobre alguma coisa que tivesse acontecido com aquela criatura na sua ausência. Talvez aquele vampiro realmente ainda precisasse de mais um pouco de sangue para se revitalizar completamente, o caçador deduziu.
Imediatamente, Sanji se afastou e colocou a mão no pescoço, tentando esconder a cicatriz como se ela não existisse.
— Nada... — Ele respondeu com a voz fraca e desviou o olhar. Por um segundo ele sumiu e quando retornou o costumeiro lenço estava amarrado no pescoço, escondendo aquilo da visão de ambos.
A resposta evasiva apenas aprofundou as suspeitas de Zoro de que o vampiro ainda precisava de mais sangue, mas iria se manter calado. Não era como se aquilo importasse muito.
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