Diferente de antes que estava quase morto, o vampiro parecia em plena saúde, com as forças recuperadas e rejuvenescido. O que, com certeza, não acontecia com Zoro. Ao sair do quarto, ele retornou com a mesma caixa de primeiros socorros que havia usado quando conheceu o garoto e a deixou no chão ao lado do corpo menor ainda ajoelhado, como se não tivesse entendido nada do que aconteceu nos segundos em que Sanji havia sumido.

— Posso trocar esses curativos? — Ele perguntou com os olhos fixos no chão, sem coragem de encarar o outro enquanto estava sendo tão invasivo.

— Faça. — Zoro estava exausto demais para ser desnecessariamente teimoso sobre algo que realmente precisava. Seus ferimentos mal haviam sido tratados desde que os costurou de qualquer jeito há dias, e ele sabia que vários deles haviam reaberto enquanto se esforçava para caminhar. Por isso, deixou sua mente aceitar que não era nada mais do que justo receber tal tratamento depois de dar seu próprio sangue e ficar fraco pela criatura.

O vampiro retirou suas camadas de roupa sujas de sangue, e pareceu observar seu sobretudo com desgosto, o que Zoro supôs que fosse pela quantidade de sangue existente nele, o que seria um desperdício, ou pelo estado imundo em que se encontrava. Seu estilo de vida recente com certeza havia contribuído para aquilo, embora aquela roupa já não fosse muito melhor quando ele roubou de um bêbado qualquer há algumas semanas. Ainda guardava o sobretudo que levou do vampiro amarrado perto de suas espadas, mas havia desistido de usá-lo. A razão era a mais ignóbil possível: O maldito casaco cheirava ao vampiro.

Cheirava às ervas que ele havia sentido na água quente do seu banho, ao aroma que sentia sempre enquanto estava de cama e Sanji o observava quase a noite inteira e principalmente ao cabelo loiro que Zoro segurou durante aquele momento de loucura e desespero no qual se enterrava no interior do loiro. Era inescapável porque quando usava o maldito casaco ele estava o dia inteiro cercado pelo cheiro que não queria sentir. À noite ele se agarrava ainda mais no casaco por causa do frio e era quando atingia o ápice de sua fraqueza, quando se deixava inebriar pelo cheiro, pelas lembranças que não conseguia esquecer, quando se tocava pensando naquele dia.

Quando o vampiro alcançou seus ferimentos suas mãos se moviam exatamente como ele se lembrava, com uma delicadeza ímpar exatamente como acontecera quando estava sendo cuidado naquela época. O que fazia os mesmos sentimentos de confusão voltarem à sua mente, mas ainda piores.

Se na época Zoro não fazia ideia de porque havia sido salvo por um vampiro desgraçado, agora fazia menos sentido ainda. Ele tentava raciocinar qual era a vantagem, o que ele tinha a ganhar com isso, mas não encontrava resposta alguma para a gentileza nos toques das mãos enluvadas.

— Por que você sabe fazer isso? — Zoro disse enquanto terminava de ser enfaixado. — Suturas e curativos, quero dizer.

— Aprendi como um passatempo, talvez? — Sanji mentiu descaradamente, mas não se conheciam bem o suficiente para enxergarem a mentira nas palavras um do outro. Era complicado falar sobre o assunto, explicar que algumas vezes machucava as pessoas que usava para se alimentar e precisava cuidar delas. Sentia vergonha por perder o controle de sua força. — Quando você tem toda a eternidade, consegue aprender a fazer muitas coisas que não teria tempo sendo apenas um humano mortal.

Ele sorria enquanto se explicava, mesmo que o tom de sua voz fosse melancólico. Assim que terminou de enfaixar o corpo moreno, colocou a mão no peitoral em cima de seu coração e sentiu os batimentos acelerados, tão diferente do ritmo de seu próprio coração.

— A mesma coisa com a comida? — Zoro perguntou, vendo o rosto do vampiro se iluminando com uma ideia.

Olhando nos olhos do menor e fazendo uma expressão séria, ele começou a falar, tentando escolher as palavras certas para não ofender a honra dele.

— Se quiser, pode passar a noite aqui… Sabe… Hmn… Eu gostaria de… Cozinhar… — O vampiro sentiu seu rosto esquentar um pouco, o que era muito estranho já que seu corpo costumava ser tão frio. Sem perceber ele desviou o olhar e afastou a mão do corpo alheio. — …Pra você…

Aquela deveria ser apenas uma desculpa para manter o garoto teimoso ali sem insinuar que ele estava fraco e precisava se recuperar. Mas, a verdade era que Sanji realmente desejava isso, cozinhar para ele, fazê-lo provar sua comida mais vezes e receber uma aprovação, que não tinha muitas esperanças, mas quem sabe um dia prepararia algo que fosse do agrado daquele humano.

Para Zoro, por mais que o vampiro tivesse completamente ignorado sua pergunta, o teor da sua resposta era mais relevante que aquilo agora. O estômago de Zoro implorava pela comida apenas pela mera menção dela e ele com certeza estava debilitado demais para andar a qualquer lugar, por menos que gostasse de admitir. Ele tentava se convencer de que não seria tão ruim assim, ele apenas comeria alguma coisa e descansaria o suficiente para sair dali, o que era uma opção melhor do que desmaiar no portão do castelo e passar por aquele tipo de humilhação novamente.

— Certo. — Zoro falou, sua voz saindo mais baixa do que ele gostaria, mas ele culparia o cansaço. — Mas apenas uma noite. Vou embora assim que o sol nascer.

O loiro levantou e bateu nas próprias roupas para tirar a poeira do chão enquanto Zoro se vestia, então estendeu uma mão coberta por uma luva em sua direção, certamente para ajudá-lo a se levantar. Zoro apenas ignorou o gesto e se apoiou desajeitadamente no caixão ao seu lado, se colocando de pé e começando a andar em direção à cozinha, mesmo que não fizesse a mínima ideia de onde fosse.

Sanji sorriu mais largo do que deveria com a aceitação do outro em permanecer no castelo por uma noite e consequentemente que cozinhasse para ele. Seu sorriso era radiante e provavelmente o mais caloroso que um dia esteve em seu rosto que normalmente só demonstrava dor e tristeza. Então, mesmo que sua ajuda tenha sido negada, ainda estava feliz.

Ambos saíram do calabouço e passaram a subir a longa escadaria, que terminava em dois corredores. Ele deixou que Zoro fosse na frente, por já ter notado que ele não gostava que mandassem nele, então apenas o seguiu, até notar que estavam indo na direção totalmente oposta. O garoto nunca havia visitado os cômodos do castelo, como ele saberia a direção correta?

— Ei. Está indo para meu quarto? — Sanji passou a frente e apontou para a direção correta. — A cozinha é para aquele lado.

— Você tem um quarto?

— Claro. Onde acha que guardo minhas roupas? — O loiro afirmou como se fosse óbvio, e talvez realmente fosse. Quem era louco o bastante para deixar roupas em um calabouço fechado e úmido? Não sentia nenhuma vontade de estragar o tecido do que costumava vestir.

No entanto, quando olhou para trás, o garoto ainda estava indo na direção errada, porém, agora parecia estar voltando para a escadaria que acabaram de subir. Franziu as sobrancelhas enroladas e andou rapidamente até ele, encostando de leve em seus ombros e o virando na direção correta.

— É para cá. — Sanji deixou que o outro fosse na frente, porém, toda vez que ele tentava sair do caminho certo, tocava sutilmente seus ombros e o endireitava na direção correta. Quando finalmente chegaram no salão principal, uma parte do castelo em que Zoro costumava ficar bastante, foi impossível para o loiro não notar que o problema não era que ele não conhecia o castelo e sim que ele não sabia mesmo qual direção tomar, como se não tivesse nenhum senso. — Você é meio perdido, não?

— Eu nunca me perco, vampiro. Sempre chego exatamente aonde pretendo chegar. — Zoro disse, embora seu tom de voz irritado e exagerado o tornassem impossível de ser levado a sério.

— Claro, claro. — Sanji não insistiu no assunto e apenas continuou conduzindo o humano pelo castelo.

Ao chegarem na cozinha, Zoro se sentou imediatamente em uma das cadeiras, o que foi algo bom pois a caminhada excessiva pelo castelo já estava fazendo com que perdesse o equilíbrio. Definitivamente ter aceitado a refeição e o abrigo havia sido a melhor ideia, embora não fosse demonstrar nenhum tipo de gratidão pela criatura.

Enquanto descansava, o vampiro já estava juntando tudo que precisava para cozinhar, e aquela visão fazia Zoro arquear um pouco as sobrancelhas. Sabia há muito tempo que era o vampiro quem cozinhava tudo que já havia provado naquele castelo, mas nunca realmente o havia visto preparar uma refeição do zero, escolher os ingredientes com cuidado, cheirar as ervas perfumadas e sorrir para si mesmo. Era surreal ver um vampiro agindo daquele jeito, como se o mundo estivesse de ponta-cabeça.

— Trabalhar na cozinha não parece ser algo que você faça por mero capricho ou obrigação. — Zoro disse após uma breve reflexão. — Já visitei algumas cozinhas de estalagens e até de mansões, mas as criadas que lá trabalhavam nunca pareciam tão satisfeitas assim.

Sanji estava mais empolgado do que de costume. Não que naturalmente ele já não ficasse animado ao cozinhar, mas naquele momento em específico ele iria cozinhar para Zoro e ainda ficaria sendo observado pelo garoto. Ele sentiu uma vergonha atingir seu rosto ao pensar que cada passo que dava estaria sendo fiscalizado por quem ele gostava. Talvez tenha ficado um tanto nervoso ao se dar conta, ainda assim, nem isso era o suficiente para atrapalhar suas habilidades na cozinha.

— Você acha que eu pareço satisfeito? — O vampiro sorriu ao fazer aquela pergunta retórica, mas não se deu ao trabalho de virar-se na direção do outro. Ainda se sentia envergonhado e sem coragem de encarar Zoro. — Acredito que seja diferente fazer algo por amor e por obrigação. Mesmo precisando me alimentar, eu apenas cozinho porque gosto.

Ele gostava de fazer aquilo, exatamente como Zoro havia imaginado. A princípio não deveria parecer nada demais, mas ainda assim inquietava o caçador. Nunca havia refletido sobre os hobbies de um vampiro, sobre algo que gostassem de fazer. Talvez fosse uma falha em sua percepção como caçador, mas costumava imaginar aqueles seres como criaturas unidimensionais, pragas cujo único propósito era assolar a Terra com dor e sofrimento. Para um deles usar a palavra amor era algo que estava além da compreensão de Zoro, especialmente por nem mesmo ele acreditar na existência de algo assim.

Naquele momento, sob a luz das velas na cozinha e preparando tudo com evidente afeto, Zoro poderia jurar que o vampiro parecia mais humano que ele próprio, mesmo com sua pele cor de mármore e sua aura claramente sobrenatural. Zoro não poderia dizer que usaria a palavra amor para nada em sua vida. Claro, um dia ele já amara sua falecida irmã e seus pais. Hoje, as únicas coisas que fazia era beber, caçar vampiros e brigar na rua, atividades que certamente não mereciam um rótulo tão puro.

— Então, costuma cozinhar para os outros da sua raça? — Zoro perguntou enquanto levantava e andava em direção à adega, porque álcool certamente cairia bem para afastar seus pensamentos estranhos no momento.

Vampiros geralmente viviam em clãs, então Zoro achou que a pergunta era natural. Também ficou um pouco apreensivo com a reflexão, já que certamente o desagradaria encontrar outros vampiros ali quando fosse ao castelo. E poderia ser uma situação desagradável, já que o único vampiro que fazia questão de não matar era aquele loiro a quem devia a vida.

— Não. — Sanji balançou negativamente a cabeça, enquanto cortava alguns legumes rapidamente e os preparava do jeito que mais lhe agradava. — Não costumo me envolver com outros da espécie.

O vampiro disse da forma mais vaga que poderia existir, não querendo entrar em detalhes sobre estar há séculos fugindo da própria família e evitando arrumar problemas para não chamar atenção de outros clãs. Ele olhou com o canto dos olhos o humano observando as bebidas em sua adega e acabou sorrindo de leve, Zoro realmente gostava de beber. Se lembrava perfeitamente da única vez em que viu um sorriso no rosto dele e era apenas por uma bebida, chegava a ser adorável.

— Pode pegar qualquer uma que desejar. — Afirmou gentilmente, voltando o olhar para a panela em que preparava o jantar. Pensar no gosto do outro por álcool o lembrava de seu próprio gosto pelo fumo, que mesmo não sendo exatamente um vício, ele apreciava ter um charuto na boca. — Posso fumar?

— Faça como quiser, não me incomoda muito. — Zoro estava acostumado a frequentar bares, então tinha certa tolerância à fumaça do tabaco.

Com a permissão, Sanji pegou um dos charutos guardados em um armário acima do fogão e o acendeu na chama, levando-o aos lábios e tragando profundamente, sentindo toda a droga invadindo seus pulmões e o acalmando levemente.

O cheiro do charuto logo se misturou ao cheiro da comida e, de fato, não era desagradável para Zoro. Ele escolheu um vinho qualquer na adega, já que infelizmente aquele vampiro parecia ter algo contra destilados, e voltou a se sentar, abrindo a garrafa e bebendo do gargalo até finalmente o vampiro servir ambos com uma porção generosa de comida, especialmente a de Zoro. O loiro pôs uma taça na mesa para ele próprio e olhou para a garrafa que o garoto segurava como se esperasse que ele fosse compartilhar a bebida, o que obviamente não aconteceria, então apenas desistiu e buscou outra.

Fazia muito tempo que não compartilhavam uma refeição, mas não era tão ruim assim, estavam em silêncio e Zoro não poderia mentir para si mesmo sobre a qualidade daquela comida. Porém, o incomodava um pouco o fato do vampiro ficar o encarando o tempo inteiro, como se estivesse assistindo ele comer, era esquisito ser observado daquela forma. Lembrava um pouco a ele de quando o vampiro costumava observá-lo dormir.

— Vai ficar encarando? — Zoro disse sem desviar os olhos da comida, comendo e bebendo compulsivamente.

Por mais agressivo que Zoro parecesse, Sanji não se importou, não naquele momento em que ele apreciava com tanta vontade sua comida. Ele gostava de ficar observando-o comer, na verdade, observando de qualquer forma.

— Eu gosto de você. — O vampiro disse sem se dar conta por um segundo, até perceber que havia dito errado. — Quero dizer, observar você…

Zoro quase engasgou com a comida antes do vampiro corrigir sua afirmação. Não que fosse menos suspeita. Não que o fizesse se sentir menos estranho. Ele não sabia o que havia imaginado na época, durante todas aquelas noites, mas talvez tivesse mais a ver com algum tipo de curiosidade ou até de desejo pelo seu sangue. Com certeza nada tão descabido quanto simplesmente gostar.

Claramente Sanji ficou sem jeito depois disso e não o observou mais, sentindo o rosto mais quente devido à vergonha. Ele focou em comer, dessa vez impedindo-se de levantar o olhar para admirar o outro, por mais que estivesse com muita vontade. O silêncio constrangedor estava o deixando inquieto, então disse a primeira coisa que surgiu em sua mente.

— Qual sua comida preferida? — Talvez fosse uma pergunta idiota, especialmente por se tratar de alguém que apenas enfiava tudo na boca sem modos parecendo que nem tinha a capacidade de sentir o sabor dos alimentos, tão diferente de Sanji.

— Eu não costumo comer refeições muito boas…Tem tudo quase o mesmo gosto, então eu nunca parei para pensar a respeito. — Zoro disse pensativo enquanto mastigava. — Só tem uma coisa, mas talvez você não saiba o que é… Onigiri.

Zoro sabia que era mais uma memória afetiva e circunstancial, provavelmente uma associação com uma época pacata da sua vida, com sua família e seus treinos, não exatamente a comida em si. Mas era a melhor resposta que tinha a oferecer. Porque realmente não comia mais nada de que se lembrasse muito, exceto por ser extraordinariamente ruim ou estragado. Claro, ultimamente ele tinha uma refeição impecável a cada semana preparada pelo vampiro, mas não iria mencionar aquilo em sua resposta obviamente.

Sanji ficou pensativo por alguns segundos, tentando se lembrar de uma comida com aquele nome. Talvez já tivesse ouvido falar, ou lido em algum livro, mas sua mente naquele instante não colaborou e ele desistiu.

— De fato, não conheço. — Ele confessou sincero, se sentindo até mesmo um pouco envergonhado por se considerar cozinheiro e não conhecer. Para infelicidade de Zoro, Sanji voltou a encará-lo de forma curiosa, dessa vez não tanto interessado nele comendo como um ogro e sim para saber mais daquela comida misteriosa. — Quais ingredientes são usados e como é preparado?

Inocentemente, ele perguntou, acreditando que por ser a comida preferida do outro, ele saberia como preparar, mesmo que Zoro não parecesse saber cozinhar alguma coisa. Sanji pegou a taça de vinho branco e levou aos lábios para bebericar levemente, enquanto observava o garoto várias vezes bebendo goles enormes direto do gargalo.

Zoro franziu as sobrancelhas com a pergunta do loiro. Nunca havia se interessado por esse tipo de coisa, e cozinhar era trabalho para mulheres. Ou ao menos era aquele seu pensamento quando era criança e foi ensinado assim. Nunca nem havia visto um onigiri sendo preparado antes, mas imaginava que não devia ser algo tão complicado devido à simplicidade.

— Não é nada especial, nem pomposo, você provavelmente não gostaria muito. É só arroz, moldado assim. — E Zoro complementou sua explicação com uma tentativa quase bem-sucedida de mostrar o formato triangular do onigiri com as mãos. Que durou um segundo pois logo se sentiu estranho com o olhar do vampiro sobre seu gesto. — É um bolinho com alguma coisa dentro.

Sanji sorriu ao ver o garoto tentando demonstrar o formato de sua comida preferida. Deveria ser proibido alguém agir de forma tão fofa. Sentiu seu coração aquecer e não disfarçou sua admiração, mesmo que o momento adorável do outro tenha durado quase nada.

Ele manteve o silêncio, mas tentaria fazer o tal onigiri e principalmente descobrir o que era essa “alguma coisa” que era colocada dentro.