Notas iniciais
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O vento cortante agredia seu rosto enquanto Zoro cavalgava em direção à mansão de seu empregador numa velocidade moderada.

Não estava com muita pressa e detestava lidar com gente rica. Mesmo que pagasse bem, ele com certeza preferia chamados de pequenas vilas, de camponeses que pagavam com galinhas e padres que pagavam com bênçãos e vinho, tudo era melhor do que lidar com a alta classe. Ele detestava ser tratado como um criado, o que era inevitável vindo daquele tipo de gente e facilmente perdia a paciência. A única coisa boa é que lhe foi dito que haveria muita bebida no baile que o conde estava promovendo naquela noite, embora Zoro não fizesse ideia como alguém pudesse dar uma festa se havia suspeitas de um vampiro nos arredores. Não que Zoro fosse gastar algum tempo tentando entender a lógica deles.

Estava apenas tentando focar em atender muitos chamados e se manter ocupado, para afastar os pensamentos na cabeça até que a hora de retornar para cumprir o pacto voltasse, então estava aceitando qualquer coisa. Há muito tempo não ficava tão confuso e apreensivo por voltar ao castelo. Havia se acostumado tanto, que agora parecia estranho estar nervoso com a ideia de voltar lá. Não se sentia errado, não parecia errado. Não se sentia nojento como tantas vezes foi o caso.

Mas ainda assim estava inquieto. Era estranho. Por mais que tivesse se habituado à presença do vampiro, suas atitudes confusas, tudo sobre ele que deveria ser diferente do que os instintos de Zoro haviam ensinado, ainda era muito confuso. Como se Sanji fosse uma pessoa completamente diferente do que ele havia concebido em sua mente, e Zoro era teimoso e arrogante demais para aceitar calmamente que estivesse errado. Errar feria seu ego, e era uma ideia que precisava se estabelecer em sua cabeça dura.

Felizmente, ainda tinha alguns dias de calma sem encontrar o vampiro. Ou era o que Zoro achava. Mal acabara de entrar no salão e avistou os cabelos loiros de Sanji, que estava ocupado demais para notá-lo e provavelmente não sentiria sua presença tão fácil em meio a tantos outros humanos. Zoro, pelo contrário, conseguia discernir-lo tão fácil naquela multidão que chegava a ser cômico.

Realmente grande ideia a do conde de dar uma festa quando não conseguia nem diferenciar um vampiro de seus próprios convidados. Por um momento Zoro se perguntou se era possível que Sanji fosse o vampiro que havia sido avistado por aquelas bandas, que ele estava sendo pago para caçar. Mas a descrição que haviam dado era de vários corpos achados murchos e sem vida, alguns mutilados, muitas mulheres violadas e seus cadáveres descartados no meio da floresta. Não era Sanji, impossível. Zoro tinha certeza disso.

Recentemente, os dias de Sanji pareciam ter mais cor. Desde sempre estava acostumado com a escuridão que assombrava os vampiros e que costumava odiar, mas a cada vez que se encontrava com Zoro ele se iludia que as coisas estavam melhorando. No dia em que foi até a vila comprar mantimentos, soube que o conde daria uma festa e mesmo que não fosse convidado por não saberem de sua existência, Sanji resolveu se juntar. Era um ótimo momento para comemorar.

A beleza daquela mansão bem iluminada por milhares de velas em castiçais espalhados por diversos locais o deixava encantado. Não era a primeira vez que o frequentava, mas toda vez se sentia uma criança encantada com tamanha beleza. Por falar em beleza, as damas eram sempre belíssimas e estonteantes, como se fossem escolhidas a dedo para aquela festa ficar mais bonita.

Ele vestia seu mais belo e refinado traje de festa, que era ainda mais pomposo do que as roupas que normalmente usava em seu próprio castelo. Era fácil para ele se misturar, sempre muito sociável e galanteador, flertando incansavelmente com todas as mulheres, por mais que não existisse um real interesse nelas, era só natural. Ele gostava de mimá-las, agradá-las e enchê-las dos elogios mais exagerados.

Talvez para ele fosse mais fácil agir como um humano do que para outros. Costumava sempre comer durante as festas, fazendo com que qualquer suspeita sobre sua pessoa fosse diminuída, já que vampiros não costumavam se alimentar de comida humana, mesmo que pudessem. Estaria tudo bem, ele teria apenas continuado a festa e se divertido, comemorado a melhora recente de seu relacionamento com Zoro, se não tivesse sentido uma presença bastante conhecida.

Era um vampiro e caso fosse descoberto, caso encontrassem o castelo em que se escondia, teria sérios problemas que não só o envolveriam, como também ao caçador caso ele aparecesse por lá enquanto estivesse com uma visita indesejada e até mesmo sua própria família.

Sanji começou a agir estranho, forçando ao máximo o desaparecimento de sua presença, como se ele não existisse. Quando criança ele costumava fazer o mesmo, tentar invisibilizar sua aura de vampiro para não ser encontrado pelos irmãos, mas ele não sabia se conseguiria enganar um monstro treinado. Era visível o terror em seus olhos, mas se fizesse qualquer movimento suspeito, se fosse embora, certamente seria seguido e tudo seria ainda pior.

Zoro conseguia perceber de longe que Sanji estava agindo estranhamente. Como se tivesse se assustado com alguma coisa, então Zoro sentiu a aura de outro vampiro e deduziu que só podia ser isso, embora o caçador não entendesse porque ele deveria temer outro da sua espécie. Sanji já havia lhe dito que não se relacionava com os demais, mas Zoro imaginava que era uma escolha pessoal, ou talvez ser um meio-vampiro no meio de vampiros puro-sangues não fosse bom. Mas Sanji parecia assustado demais pela mera presença de um deles ali. Era estranho.

O caçador provavelmente deveria ir em direção à outra presença vampiresca e esquecer que havia visto Sanji, mas o que o loiro fez em seguida impediu que Zoro apenas saísse em busca do vampiro: Sanji tirou uma das mulheres que antes o rodeavam para dançar. Por um milésimo de segundo o pensamento de Zoro foi em direção à quebra do pacto deles, no loiro bebendo o sangue de outro humano, mas sabia que não era o caso.

Então tentava entender o que era aquilo, por que o loiro a cortejava e conduzia com tanto empenho. Uma mão enluvada na cintura da mulher e a outra na dela, por vezes casualmente levando a mão da mulher aos lábios num beijo breve, arrancando risadinhas dela e das amigas que observavam.

Era uma cena absolutamente normal, Zoro tentava dizer a si mesmo. Entretanto não conseguia deixar de comparar, de perceber como dançavam, a forma como o vampiro a abraçava tão delicada e amorosamente quando a música se tornava lenta e romântica e era retribuído com igual delicadeza. Zoro abaixou o olhar em direção às próprias mãos rudes e calejadas e se perguntou se aquilo era o que Sanji buscava, em todas as suas tentativas de tratá-lo gentilmente e ser retribuído com violência na pior hipótese e rudeza na melhor.

— Mesmo assim... Esse idiota não deveria... — Zoro murmurou para si mesmo enquanto continuava a encarar o par valsando com o olhar furioso.

Nem sabia porque estava assim. Se era porque aquele vampiro ficava distribuindo seus sorrisos e galanteios para qualquer um, como se não fosse nada, se era porque queria decepar a mão da mulher que encostava na dele.

Enquanto isso, Sanji tentava se acalmar bailando com as estonteantes damas pelo enorme salão, sempre mantendo o máximo de distância que conseguia do vampiro depois de finalmente identificá-lo. Por não conhecê-lo, era mais fácil de esconder sua presença, mas ver aquele imbecil rodeado de mulheres que deveriam estar correndo perigo ao ficar perto dele deixava o loiro com um nó na garganta, querendo ir até lá ajudá-las. Não hesitaria se apenas sua vida estivesse em jogo, mas um passo em falso e envolveria todo o clã que havia abandonado, precisava pensar muito bem antes de agir por impulso.

Zoro continuou observando por longos minutos, seus olhos quase perfurando as costas dos dois enquanto rodopiavam pelo salão e ele sabia que estava sendo indisciplinado e idiota, mas durante aqueles minutos de loucura aquilo parecia mais importante que o trabalho dele, observar uma dança pela qual ele nunca se interessou ao invés de aproveitar a oportunidade de matar um vampiro. Parecia absurdo.

Sua atenção só foi desviada quando o dono da festa o cumprimentou e começou a falar sobre o trabalho, e perguntar se ele havia suspeitado de algo já que parecia estar observando tão concentrado. Imediatamente, Zoro tirou os olhos de Sanji para que não recaíssem suspeitas sobre ele e tentou sentir a aura do outro vampiro, que parecia mais fraca, se afastando do baile. Maldição. Provavelmente já havia capturado sua vítima enquanto Zoro estava distraído. O jovem caçador se despediu rudemente do seu empregador e rumou em direção à floresta.

Sanji relaxou um pouco ao saber que o conde havia contratado um caçador. Ele estava muito nervoso para conseguir identificar, mas sabia que se alguém estava ali para cuidar do caso, ele só precisaria se meter em último caso. Ainda assim, no momento que a presença do vampiro foi sumindo, se afastando, ele preferiu se despedir de suas amadas e voltar para seu castelo na surdina, tentando evitar que fosse seguido ou visto. Claro, apenas depois de verificar se todas as damas estavam bem.