Notas iniciais
Capa: ectology

Zoro levantou a sobrancelha e olhou naquele olho azul que parecia suplicar. Não era aquilo que estava esperando. Mas, também não queria dizer que ficava menos bravo por isso. De novo aquelas atitudes confusas, que faziam o cérebro de Zoro se cansar de tentar entender. O azul cristalino daquela íris transparecia tanta sinceridade que Zoro não podia nem cogitar o fato do outro estar mentindo. Apenas não conseguia entender.

— Eu já disse. Não me trate como se fosse fraco. — Zoro repetiu as palavras que usou em outra ocasião. Às vezes realmente não entendia. Talvez aquilo não fosse exatamente preocupação. Talvez o vampiro só o considerasse um humano frágil e indefeso. O que fazia certo sentido já que o conheceu enquanto estava patético depois de perder feio uma luta. Por mais sentido que fizesse, era irritante.

Zoro apenas cedeu e estendeu o braço para ele, exatamente como havia feito assim que entrou no castelo. E esperou. Pela mordida, não por aquilo.

Sanji soltou no chão a faca, segurando o braço automaticamente com as duas mãos, sujando algumas partes com filetes de sangue. O vampiro puxou calmamente o pulso até sua boca e ao invés de apenas enfiar as presas como o monstro sedento que era, Sanji primeiramente beijou a palma da mão morena e dali até o pulso deslizou a língua molhada, voltando a beijar levemente mais algumas vezes. Passou a língua pelo local que morderia, sentindo o gosto da pele e ao levantar o olhar e ver os de Zoro o encarando, sorriu de leve e com cuidado penetrou as presas no pulso, começando a sugar o sangue delicioso sem tirar os olhos do menor em nenhum momento.

Zoro não via qual era o ponto em Sanji beijar sua comida. Não que o caçador quisesse considerar a si mesmo daquela maneira. Mas era o que ele era para o loiro, o alimento, só isso. Encarava o olho azul o tempo inteiro, tentando enxergar algo ali que nem mesmo sabia o que era. Sua mente estava distraída por aquilo, tão distraída que a mordida foi uma surpresa para ele.

Por não estar preparado, aquela dor tão familiar fez sua voz quase escapar de sua garganta e Zoro precisou morder seu lábio inferior para impedir que isso acontecesse. Não sabia o que diabos havia de errado com seu corpo. Era só uma mordida. Ele não deveria ser tão mole. Mas, Zoro sabia muito bem que não se tratava daquilo. Sabia que a dor não incomodava, muito pelo contrário.

Enquanto se alimentava, em momento algum Sanji deixava de observar o rosto do moreno, prestando atenção em suas reações, em cada expressão que demonstrava. Ele tomava o saboroso sangue com os olhos fixos no rosto do outro, em especial seus lábios tão expressivos. Viu quando ele mordeu o lábio para conter um gemido, quando os dentes fizeram um corte nos lábios que tanto desejava beijar, a forma que a expressão mudou e em como Zoro parecia sentir prazer naquele ato. Se fosse pensar bem, não deveria fazer sentido, mas o vampiro entendia e compartilhava daquele sentimento, a dor era agradável às vezes, por mais que a dor de ambos fosse diferente.

Zoro odiava o fato de que o vampiro não parava de encará-lo. Como se fizesse parte de sua refeição, como se precisasse observá-lo enquanto drenava sua vida. Queria escapar daquele olhar azul, mas se fechasse os olhos seria ainda pior, ficaria vulnerável. Então continuou a aguentar, a dor cada vez mais intensa, o vampiro claramente adorando aquilo e o azul em seu olho se transformando em vermelho lentamente.

Mas aquilo não estava sendo rápido como das vezes em que o loiro estava descontrolado. Zoro queria que acabasse logo. Que ele drenasse o necessário e o deixasse em paz. Mas, mais que isso, queria odiar aquilo tanto quanto deveria. Aquilo deveria ser nojento, desprezível, por isso havia tentado parar, tentado tirar seu próprio sangue para ele, para nunca mais ter que sentir. Seu corpo, entretanto, parecia discordar completamente. Estava morrendo de tesão.

Os lábios de Sanji moviam-se lentamente conforme fazia os movimentos de sucção, drenando o sangue lentamente, de pouco em pouco. Junto às sugadas, ele beijava a pele e se continha para não deixar um chupão possessivo. Eram movimentos eróticos, sensuais e completamente inconscientes. A pele de Zoro tinha um sabor que agradava seu paladar, não se incomodaria em lamber cada milímetro dele.

Mesmo quando estava satisfeito, Sanji ainda continuou se demorando no local, colando os lábios na pele morena, passando a língua molhada e banhada em sangue pelas minúsculas marcas de feridas. O olhar de Zoro ainda o encarava, a boca ainda estava com um filete de sangue, e Sanji não aguentou.

Após dar o último beijo no pulso grosso, ele se levantou e segurou o rosto jovem, deslizando os dedos até a nuca e começou a acariciar. Antes que o outro reagisse, o vampiro se inclinou para frente até que seus lábios se colaram. A língua imediatamente encostou no lábio manchado de sangue, recolhendo o líquido, mas não estava fazendo aquilo pelo sangue e sim por querer beijá-lo.

Zoro sentia a língua quente, graças a seu sangue, acariciar seus lábios. O cavanhaque de Sanji roçava de leve em seu queixo e a mão fria em sua nuca não o forçava, apenas se mantinha leve, acariciando os fios verdes. Ele podia se mover sem nenhum esforço, podia evitar, mas não o fez.

Seus reflexos novamente entorpecidos, deixando Zoro pateticamente imóvel e à mercê do vampiro. Sentia os beijos suaves em seus lábios e eram os mesmos que ele sempre recebia de Sanji em sua pele, gentis e cuidadosos, numa leveza que contrastava com as presas que sempre o rasgavam.

A língua passeava pelo interior do seu lábio, e aos poucos foi explorando toda sua boca lentamente, pedindo por permissão que vinha na forma de silêncio e imobilidade. Sua própria língua não evitou a curiosidade e brevemente se chocou com a outra, molhada de sangue.

Por um único instante, Sanji achou que o humano estava o correspondendo e retribuindo seu beijo e ele pensou que finalmente alguém estava enxergando quem realmente era. Ficou feliz, o coração acelerou e uma explosão de sentimentos agradáveis inflava em seu peito, tanto que ele queria chorar de alegria. A pele quente do moreno em contato com seus dedos frios parecia queimá-lo, a nuca era macia e havia apenas uma pequena quantidade de cabelo bem ralo e curto, parecendo até algumas vezes espetá-lo. Não percebeu, mas estava sorrindo. A língua de Zoro pressionando a sua, os lábios se movendo contra os dele, até a respiração em contato com sua pele o deixavam em êxtase. O sangue do moreno era bom, mas aquele ato não havia comparação, era a melhor coisa que havia acontecido em todos seus séculos. Era a primeira vez que se beijavam e era perfeito.

Sanji era forte, as chances de ser mais forte que o garoto caso se descontrolasse eram imensas e caso fosse esse seu desejo, ele poderia usar a força e fazer Zoro apenas dele. Forçar-se nele. Tomá-lo. Mas não o faria. Jamais. Não teria sentido algum ter algo à força, sendo que ele não estava em busca apenas de prazer carnal, ele queria um amor. Queria ser amado pela primeira vez na vida, sentir o calor de uma pessoa que desejava sentir o seu, mesmo que em seu corpo mal existisse alguma quentura e Zoro, talvez, pudesse amá-lo de verdade. Ele estava se iludindo.

Zoro já estava sentindo o gosto ferroso do seu próprio sangue antes, mas desde que uniu sua própria língua à molhada de escarlate do vampiro o sabor inundava sua boca como uma onda morna. A boca mais fria do loiro agora se conectando à sua pelo calor entorpecente daquele líquido.

Talvez Zoro por um milésimo de segundo entendesse aquele calor, e a necessidade de se alimentar diretamente das veias, de sugar aquele alimento ainda quente. Ter esse pensamento o fez ter nojo de si mesmo e voltar à realidade, se desprendendo do vampiro, cuspindo saliva e seu próprio sangue no chão limpo da cozinha.

A felicidade e ilusão de Sanji haviam durado míseros segundos. Quando o menor o empurrou daquela forma rude e violenta, qualquer pensamento feliz que pudesse habitar sua mente desapareceu. Ao vê-lo cuspindo enojado, Sanji entendeu. Por mais que seu cérebro tenha feito com que acreditasse não estar se forçando no outro, obrigando-o, seu corpo havia feito exatamente o oposto. Ele obrigou Zoro a beijá-lo, forçou a língua em sua boca sem permissão e era desprezível agir assim sem nenhum controle. Estava apenas se aproveitando de sua força para ter o que queria, exatamente o contrário de como idealizara.

Zoro estava com raiva. O ódio de estar tão ridículo e vulnerável e do loiro se aproveitar disso para realizar aquele ato grotesco o fez imediatamente desembainhar a espada, tentando tomar o controle, tentando ficar protegido.

Empurrou a criatura até que batesse as costas num armário de madeira e encostou a lâmina que brilhava à luz das velas no pescoço pálido. Zoro arfava, seu tórax subindo e descendo aceleradamente, enquanto observava aquele rosto branco como mármore, manchado apenas pelo sangue que escorria de sua boca. Pressionava com rispidez a espada, e a lâmina afiada já machucava um pouco a pele do vampiro, mas Zoro não se importava.

Sanji se sentia extremamente mal com a realização de que tinha feito algo errado e, quando o moreno avançou em sua direção e encostou a espada em sua garganta, Sanji soube que era o correto, o que merecia e teve a confirmação de que havia se aproveitado do garoto e isso o tornava pior até mesmo que um vampiro. Então ele sorriu. Não da forma gentil e calorosa que sempre costumava mostrar ao outro, mas de um jeito um tanto doentio.

Com as preciosas mãos que tanto estimava, ele segurou a lâmina cortante e abusando de sua força sobrenatural, puxou a espada até tê-la atravessada em seu pescoço. De suas mãos cortadas jorrava sangue, assim como da ferida enorme e profunda em sua carne.

— Apenas faça logo. — O vampiro loiro ordenou, a voz bem mais alta e grave do que o normal, fria e sem nenhum sentimento. Estava bem difícil de falar com aquilo na garganta, um humano normal com um golpe daqueles teria morrido rapidamente.

Estava suplicando, terminar com sua eternidade era o melhor a ser feito, libertaria não só ele, mas mais importante, deixaria Zoro livre, sem ter a obrigação de visitar um monstro e se oferecer como alimento. Era uma relação doentia mesmo. A ideia do moreno nunca mais precisar olhar alguém com tanto asco e ódio o deixava bastante aliviado. Sanji não possuía nenhuma força para acabar com sua própria vida, mas morrer nas mãos de quem amava parecia perfeito, especialmente por aos olhos do outro ele ser apenas só mais um vampiro e isso não o faria sofrer. Cenário melhor não havia.

Os olhos estavam vazios e sem emoção, tão diferente de como sempre era, expressivos e brilhantes, mas ele não os fecharia, não desviaria o olhar. Queria admirar o rosto bonito do outro pela última vez.

— Eu... — Zoro nem conseguia dizer nada. Esperava qualquer coisa, que ele revidasse, que debochasse dele, que tivesse raiva, qualquer coisa, menos aquilo.

Se Zoro tinha alguma vontade de realmente fazer o que estava insinuando, de realmente matá-lo de uma vez e descontar todo seu ódio e frustração, mesmo que tivesse que quebrar seu juramento e seus princípios pra isso, essa vontade havia evaporado e desaparecido por completo ao ver o comportamento de Sanji.

A melancolia estampada no rosto pálido era dolorosa. Ver aquela cena era uma coisa perturbadora. Era como se ele realmente quisesse aquilo. Quisesse morrer. O que era absurdo porque vampiros não deveriam ter sentimentos, eram apenas criaturas sanguinárias, um cadáver com presas.

Zoro já havia matado incontáveis daquelas criaturas, nunca deu a mínima para isso, nunca hesitou nem por um segundo, naquele mesmo dia ficou coberto da cabeça aos pés pelo sangue de um. Agora mal conseguia olhar para o pescoço ensanguentado do loiro. Para o sorriso doentio que ostentava. E, principalmente para o olho vermelho que já começava a retornar à cor azul. Desde o princípio, Zoro achava que aquela era a parte mais bizarra de Sanji, a parte que mais fazia ele se assemelhar a um humano. Seu olho azul visível, de uma cor pura e cristalina, no qual às vezes jurava ter visto um brilho de bondade.

Aquele olho parecia realmente suplicar pelo fim, implorar para que Zoro realmente fizesse aquilo. O que apenas tinha o efeito contrário no caçador que aproximou a mão dos dedos ensanguentados do vampiro e tentou desfazer o aperto que eles faziam na lâmina, para que pudesse afastar a espada sem decepá-los no processo.

Sentia o sangue morno que jorrava do pescoço do vampiro melando suas mãos e estava desnorteado, precisava mais do que nunca sair dali, então assim que conseguiu libertar sua espada, deu alguns passos para trás, afastando-se de Sanji, e procurando a saída daquele lugar para que pudesse ficar bem distante daquele castelo e daqueles sentimentos confusos.

Notas finais
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