Young Blood
25 Pra você lembrar de mim
Notas iniciais
Percy.
O dia seguinte não foi melhor.
Domingo costumava ser legal, apenas pelo fato de estar com meus amigos. Porém, Jay e Pips estavam sumidos.
Não tanto. Haviam mandado fotos do seu 'casamento' em Vegas, no Massacrados do WhatsApp. Não entendi muito daquilo, mas pareciam felizes, isso já me bastava. Poucas pessoas sabiam, até então as pessoas do grupo (Nico, eu, Lia e Annie). Rezava para as sites de fofoca não presenciarem o episódio. Eles estavam fudidos, já sendo positivo.
Hay e Frank tinham se mandado, depois de bancar a babá de nós quatro. Pensei em me desculpar na hora, e desisti por pura fraqueza. Falaria com eles depois, prometera a mim mesmo. Pelo menos para dar o tchau que não consegui dizer. Eu já sentia a falta deles, tinham se tornado comuns no meu dia a dia.
Nico não estava tão podre quanto eu. Parecia animado com o fato de ter dado certo com a nova irmã, trocaram telefones e conversaram antes dela partir. Não tinha com não gostar de Hay. Lembrei que hoje fazia 4 meses de gravidez.
Já nós dois suávamos frio, olhos mortos, pálidos e fracos. Bem, eu me sentia assim. Parte disso, acredito eu, era por causa de Annie e Lia.
Ela terminou com ele, o por quê? Ninguém sabe. Só falou que queria mais liberdade. Uma mentira das grandes. Não dei muita importância daqui a pouco estariam no cio de novo e tudo voltaria pro seu devido lugar. Isso fazia parte de relacionamentos, ainda mais um com Thalia. Ganhava dela Annabeth, me deixava completamente sem juízo.
Outra parte era Connor.
Ele não havia morrido. Não sei qual foi o milagre, mas foi poderoso. Tinha ingerido uma quantidade de LSD e Krokodil, e a reação do seu organismo foi a parada momentânea do coração. Não entendi muita. Só me importava se ele estava vivo ou não. Pelo ponto de vista dele, eu aposto, preferiria estar morto. O seu pai, Hermes, o colocou de castigo pelo resto da eternidade. Sem festas, bebidas, cigarros. Sexo, só depois do casamento.
Minha cabeça latejava tão forte que afetava minha visão. Os dedos premiam incansavelmente. Tive vontade de gritar. Tudo era incomodo e sem sentido.
Suspirei e dei outra colherada no chilli. Precisei de um cigarro, um não. Vários, tinha me controlar. Precisava parecer bem, ou melhor do que eu estava.
O almoço de família passou pra jantar, hoje. Com a família toda. Isso significava que Calipso estava presente. Pra confundir mais minha cabeça. Sentia sufocado com toda aquela gente em um lugar só.
Eu ainda gostava dela. Como amiga, no mínimo. Sentada ao meu lado, passava a mão na minha perna. Bateu um leve enjoo e a vontade de afastá-la apertou. Ela tentava se reaproximar de mim. Mas meu ser estava preso novamente tempestade loira.
Nunca negaria a importância que teve na minha vida, sem dúvida. Nos momentos de dor e de alegria, esteve ao meu lado. Meu grande "E se..." Ela era meu sol, eu a amei, mesmo não correspondido ou traído. Eu tinha certeza disso. Era uma parte de mim, bela e aconchegante.
Mas...
Annabeth era minha vida toda. Meu mundo. A pior parte dele, e a melhor. E isso me excitava. Tudo era propício a dar errado, a fragilidade consumia nossa relação. As coisas eram tão complicadas. Inclusive as simples, eu não queria uma romance efêmero. Não iria ser, eu acreditava, mas até chegar lá... Estava farto de tudo. Eu só queria ela. Triste ou feliz. Eu a queria mais que tudo.
Algo na noite passada fez com que toda a confiança que criamos no pouco tempo de reencontro descesse descarga a baixo. Eu tinha feito merda. Das grandes e nem me lembrava do que fiz. Coloquei a mão no bolso e senti o contorno do seu P.
Não entendia bem como ele foi parar ali. Apenas o porquê. Mas era doloroso pensar que ela tinha desistido.
Será que era tão difícil fazer a coisa certa? Ou as coisas entre nós não era pra ser? Eu não conseguia acreditar como consegui magoá-la de novo. Eu não podia ser tão estúpido.
Por mais defeituosa que fosse, era perfeita. Pra mim, só pra mim. Eu queria ser o seu tudo, e estava longe disso. É um clichê, mas ela era tão exótica de tudo que conhecia. Ela quebrava todos os meus parâmetros, limites, medos, éticas. Se tornou o meu ar. Me fazia voar e esquecer do mundo, do tempo. Conseguia clarear e enevoar minha mente. Ela era poderosa.
E dizem que o amor cura. Eu ficava cada vez mais doente.
Se resolvesse nunca mais falar comigo? E se tivesse desistido mesmo? O que eu ia fazer da vida? Só de pensar senti meu olhos marejarem. Tudo era tão escuro longe dela.
Lembrei da sua maneira de dizer meu nome, com o sotaque enrolado. Parecia que cantava ao falar, e eu me arrepiava todo.
— Percy!— tirei os olhos do prato em direção a minha mãe.
As conversas da mesa não pararam. E eu não me importava. Eu não ligava. Eu não tinha vontade de saber o que era. Só queria me deitar e chorar um pouco.
Me assustei. Não era assim. Annabeth fazia as coisas saírem de órbita.
— Tá tudo bem?— Bem? Quis rir. Como podia estar bem? Como podia sentir algo, a não ser dor?
Assenti, virando rapidamente o rosto. Dispenso interrogatórios de mães por hoje.
— Garotos... Me expliquem essa história da delegacia direito! Eu acordo hoje, com milhares de sites de fofoca apitando os nomes de vocês!— Si tagarelou, gesticulando. Sabia que ficaria nervosa com essa história.
Bufei, não queria falar sobre isso, não queria falar sobre nada.
— Me faltava essa... Uma filha criminosa— Zeus suspirou, decepcionado.
Annie, nem Thalia tinha descido ainda. Eu agradecia a todos os deuses por isso. Nico fez uma careta. Eu nem sabia o que esperar dele.
— Ela foi pega no momento errado. Poderia ser qualquer um de nós— murmurou rouco. Vi que escondia algo grande, mas não comentei.
— O que me preocupa é quantos momentos errados participou— retrucou, Zeus, implicante.
A veia do pescoço de Nico saltou, ele estava muito puto. O olhei em advertência.
— O que me preocupa é a porcentagem de toxina no sangue das duas...— Fred suspirou, derrotado.
Como se fosse possível, eu me sentiria um lixo ainda maior. Eu falhei com o tio Fred. A única coisa que tinha me pedido. Deixá-la longe das seringas, e o que eu faço? Eu me aproximo das delas.
Minha mente começou a escurecer e eu pensei que fosse vomitar. Obriguei-me a segurar as pontas, seguraria nelas e botaria pra frente. Daria certo, o que quer que fosse fazer ou estivesse planejando. Eu tinha essa esperança, muito perigosa por sinal, mas eu a tinha.
— Está estampado em todas as revistas o episódio da prisão. Com fotos exclusivas— Silena parecia desgastada, Charles, o seu noivo agora, suspirou.
— Pode parar de trabalhar um minuto— arrancou o IPhone da sua mão e colocou no bolso. Ele era um pouco assustador, o filho do tio Hefesto. Negro e fortão.
— Calma aí, Latrell! Tá muito estressadinho— Mal riu da cara exaustiva dele.
— Elas não se importam, Si— Katie, abatidíssima com o surto de Connor, tentava esconder a tremedeira das mãos cerrando os punhos.
— Disseram que até o Chris vai voltar da Austrália— Apolo comentou. Sua cabeleira dourada estava presa numa liga. Era um cantor e ator famoso, amigo dos nossos pais a décadas, achei estranho arranjar tempo pra vir aqui.
— Acho que não— Octavian falou com desdém. Ele era um merda, filho do Apolo, metido a playboy.
Ouvi o suspiro de Rachel. Por que tinha que ser tão entregada a ele? Nem namoravam! E Octavian ainda a desprezava.
E eu quase esqueci dela por um momento. Quase. Fiquei me perguntando quando desceria, e o que me falaria. Não via a hora de ver o estrago que fiz e tentar concertar, o mais rápido possível.
Thalia, de repente, entrou na sala. Tinha um IPad nas mãos e headphones pretos nas orelhas. Seu rosto vermelho, assim como os olhos de tanto chorar, soluçava alto e tremia muito mais que qualquer um na mesa. Murmurava algo sem sentido.
Todas as conversas pararam e a atenção foi dirigida a mal vestida e precária Lia. Ouvi o som arrastado da cadeira de Nico e Zeus, e em questão de milésimos ficaram de pé com rostos contorcidos por preocupação. Ela levantou os olhos vazios e encarou Fred.
— Tricia morreu— soluçou forte e caiu no choro de novo. Eu tomei um susto. O mal estar se impregnava em todo meu corpo. Deuses! Por que Lia estava assim?
— Por que eu nunca entendo nada nessa bosta— Ty bateu na mesa a cada palavra, farto. Nyssa, a irmã bonita de Charles não segurou o riso, molhando Malcom de água e baba.
Fred apoiou a cabeça nas mãos, com um sorrisinho. Aquilo não parecia sério ao olhá-lo. Mas era só virar a cara e contorcer de dor com o modo de agir de Lia.
— Ela te obrigou a assistir?— perguntou, se levantando. Lia respondeu com um aceno de cabeça, infantil. E bastou para Fred abrir os braços acolhedor, e do fundo da sala, ela correu para Fred, que estava do meu lado. Se espremeram um no outro em um abraço, sem que ela visse, virou a cabeça e falou mudo, explicando a todos o por que daquela cena tensa.
— É só uma série— Nico e Zeus caíram relaxados na cadeira.
O abraço foi quebrado, e Fred passou as mãos no rosto vermelho acharcado por lágrimas.
— Qual é a merda do problema do Mendez? Não se tranca um drogado com drogas— murmurou, limpando o nariz escorrendo. Seus lábios estavam inchados por causa do choro.
Minha cabeça ficou bagunçada. Havia algo por trás daquilo, muita coisa. Fred assentiu em concordância.
— Vai acontecer muita coisa ainda, a Diaz e o Bennet vão...
Lia colocou a mão no seu peito rapidamente.
— Sem spoilers.
Ele a abraçou mais forte e sussurrou em seu ouvido.
— Ele está vivo. Vai ficar tudo bem— acariciou seus cabelos. Também sacou aquela encenação, tive uma enorme necessidade de conversar com ela. Não tinha dúvidas que o negócio ia bem mais além. Mas me segurei, provavelmente, queria ver minha cara tanto quanto Annie.
— Onde está Annabeth?— houve risinhos e bufadas, e eu queria saber onde ela está! O olhar que me direcionou era amargo e cheio de más intenções.
— Lendo, não deve demorar pra descer— sentou próxima ao arco de entrada e continuou vendo a série, assoando o nariz de uma forma desagradável.
Peguei Nico a olhando. Apaixonados são muito otários mesmo.
Mas cada um se mata da sua maneira, certo?
E as conversas continuaram, sobre a nova reforma da Bolsa e novo cinema de Bevily Hills em construção, como se nada tivesse acontecido. Só que tudo acontecia naquele exato segundo. Fiquei absorto no meu próprio mundo.
— Eu queria pedir desculpas por ter sido boba, Percy— Cali falou doce.— Se nós pudéssemos voltar. Eu sinto tanto sua falta.
Olhei os olhos caramelo, pensativo. Eu poderia aceitar e seria por aquilo mesmo. Eu, Calipso e meu eterno sentimento de vazio. A voz cantante ecoou pelo salão.
— Salut! Salut! Bonsoir famille...
O fato de ouvir sua voz acelerou meu coração, sabia que meus olhos brilharam em expectativa, meus dedos formigaram. E ela estava tão linda. Como sempre. A juba loira, em um emaranhado só, os olhos negros como piche, nunca os vira assim, a deixava ameaçadora. Coberta da cabeça aos pés por um moletom. Fungava e tremia, sintomas completamente normais. Tudo se iluminou em mim quando vi suas covinhas. Ela me ignorou completamente.
— Você gosta dela— derrotada, Cali se encostou mais na cadeira.
— Eu a amo— não acreditei no que disse. Saiu com tanta naturalidade. E era verdade, eu amava mais que tudo nesse mundo. Eu... Eu a precisava mais que tudo. Era a verdade. A mais linda e tortuosa verdade.
— Ela mudou, Percy— Cali tentava me aconselhar do perigo, eu sabia no que me metia, não precisava de avisos.
— Continua a mesma Annie— encarei seus olhos tristes.
Lhe devia ao menos sinceridade. Merecia, depois de tudo que passamos juntos.
— Vai apostar todas as fichas nela?— não me encarou, cutucava a sopa apimentada com a colher.
— Por que não faria isso?— olhei Annie dar um beijo na têmpora de Thalia, pareciam cúmplices. Queria saber o que falavam uma pra outra.
— Boa sorte— falou sincera. Ou eu pensei isso.— Tia Esperanza!— chamou a esposa de Hefesto.— Onde Leo está?
Captei algumas coisas do tipo: viajou sozinho, tomar um ar e Springfield.
Voltei a minha Annie.
Os lábios vermelhos tremiam no sorriso, conversava com Thalia coisas inaudíveis. A felicidade dela era tanta que....
Pensei comigo. Como alguém podia ser feliz de uma ressaca? Depois de ter sido decepcionada e presa? Essa pessoa com certeza não seria Annabeth.
Então era falso. Falso. Um sorriso falso. Quantas vezes teve que fazer isso?
A observei mais detalhadamente. Suas veias roxas e verdes estavam saltadas em todo a pele exposta. Sorri internamente, linda do mesmo jeito. Às vezes, parava tudo e respirava fundo como se algo a incomodasse muito. Evitava mexer as mãos, quando Thalia lhe estendeu o tablet.
—... Votação dos indicados no Teen Choice— Katie sorriu, abraçando si mesma.
— Melhor canal, Ann. Está com mais votos: 39%!— Si falou.
Não desgrudei os olhos dos seus braços quase inertes. A manga do moletom levantou um pouco. E vi sangue. Muito sangue, um vermelho vivo.
Era como levar uma pancada. Fiquei desnorteado. Minha língua adormeceu e a cabeça girava. Meu estômago pesou. Eu não deixei fazer isso.
Deixei? Como pude?
Não conseguia acreditar que a minha baixaria a levou a se machucar. Não podia. Não queria. Eu...
Nossos olhos se encontraram, podiam dizer tanta coisa um ao outro por meio daquele olhar, e uma lágrima solitária correu minha bochecha. Senti pontadas agudas no peito. Desviou o rosto, ajeitou ligeiramente a manga da blusa e murmurou algumas palavras sobre estar cansada, e nem havia comido!
Saiu correndo da sala.
Sem pensar ou até respirar corri atrás dela. Isso que eu fazia, corria atrás dela. Segurei seu pulso no hall de entrada e involuntariamente gritou de dor. Quando se virou pra mim e eu desabei.
— Diz pra mim que isso é só um sonho ruim, Annabeth. E que eu vou acordar do seu lado, e você vai me dizer que tudo está bem— chorávamos juntos com respiração rarefeita, ela soluçava ruidosamente, ao contrário de mim. Toda minha força se esgotava a cada lágrima, toda minha essência. Eu suplicava para que minhas palavras fosse a verdade. Aquilo tinha que ser um pesadelo.
Franziu os lábios, evitando gritar. Olho no olho, sentimentos horríveis eram demostrados. Quis me enterrar.
— Essa sou eu! Eu não sou forte, ou divertida. É só uma ilusão. Uma farsa, uma mentira muito bem contada— sussurrou, os olhos injetados de sangue.
Gelei.
Quantas vezes já tinha chorado pelos pulsos?
— Não dói mais. Não tem o efeito necessário— como se aquilo fosse acreditável, sua careta era ainda mais devastadora. Ela estava tão fraca, parecia que cordinhas a sustentavam no ar.— O que dói,— subiu as mãos tremulas, cerradas e ensanguentadas até o peito— tá guardado aqui.
Completou baixinho, meu coração trincou. Puxei os cabelos, tentando arrancá-los. Meus ouvidos formigavam. Era como se toda sua dor fosse filtrada pra mim, a dor de todos esses anos, somadas com as minhas. Não que a deixasse descobrir isso.
Não sabia por onde começar, sabia que tinha que começar... Iria concertar o que quer que tinha feito para destruí-la dessa forma.
— Eu te amo— desviei da sua reação, olhando a escadaria.
— Por favor não faça isso— recuou para trás, negando, rapidamente.— Por favor.
E foi aí que meu mundo acabou. Meu chão subiu e meu céu escureceu. Escuridão, era isso que via. Tentei focar nela, na sua felicidade, ou pelo menos no seu bem. Botei a cabeça no lugar e ordenei os pensamentos. A missão de cuidá-la me fez voltar a realidade.
— Deixe-me apenas cuidar disso pra você— olhei seus braços. Suas mãos pingavam sangue no tapete felpudo branco.
Abaixou a cabeça em concordância, me aproximei e entrelacei nossos dedos. Ela não teve reação nenhuma. E a arrastei escada acima, mesmo tão próximos, eu sentia a distancia ente nós. O corredor parecia frio. Cogitei estar com febre.
Abri a posta vermelha do quarto. E a levei para o banheiro, a fazendo sentar na grossa beirada da banheira. Passei a vista por ela.
Quando vi lâminas e manchas escarlate, frio percorreu a espinha, virei o rosto, em busca de toalhas e cicatrizantes.
— No armário de baixo da pia— apontou com o queixo. Me agachei, pegando várias toalhas e uma caixa cheia de remédios e gazes numa cestinha de madeira.
— Eu não entendo!— a olhei curioso.— Mesmo depois de me magoar continua aqui. Não tem amor próprio? Vergonha na cara?
— Meu amor por você é maior. Esse é meu destino: cuidar de você— molhei a toalha na água quente, afastando maus pensamentos. Eu tinha que me manter firme, enxuguei uma lágrima teimosa. Coloquei a caixa e os panos ao seu lado.
Ajudei a tirar o moletom, um braço, depois o outro, a cabeça...
Estanquei ao ver seu antebraço. A situação era pior do que eu esperava. Cortes reabertos, novos, em todas as direções cobriam sua pele, assim como o sangue quente e viscoso. Respirei fundo, eu tinha que ajudá-la. Não por obrigação, meu estômago revirava, mas apenas porque eu tinha.
— Eu estou bem, ok?— sua voz fraquejou.
Ri em desgosto.
— Bem? Você está sangrando e... — encarei seu rosto, impassível.
— Bem melhor comparado a ontem quando...
— Para, tá? Eu não estou afim de saber o que eu fiz. Nem me esforçarei pra conseguir. Porque eu estava fora de mim. Aquele Percy, que fez o que fez, e não devia lembrar nem o próprio nome. Eu estou aqui, esse sou eu, agora— sentei a sua frente, e ela estendeu os braços hesitantes.
Com toda leveza e delicadeza, passei a tolha em seus braços, tentando secar a abundância de sangue.
— Por que você faz isso?— fechou os olhos, tentando dissipar a dor.
— Por que você faz isso?
— Responda minha pergunta.
Parei de limpá-la e pensei o por que de eu estar ali. Me humilhando. Ela devia me odiar tanto.
— Porque, por você, vale lutar até o último suspiro— falei sério mas ela riu, mais extasiada com minhas palavras do que de deboche. Abriu os olhos, agora claros e frios como gelo.
— Não adianta ser romântico agora.
Sorri de lado, dando de ombros e voltando ao meu trabalho.
— Eu tento— parei por um momento.— Agora responda minha pergunta.
A ouvi respirar fundo, e uma longa pausa foi posta na conversa. Concentrei nos cortes, o antebraço direito estava quase limpo.
— Quando nos reencontramos, naquela tarde, eu estava tão chapada... — suspirou.— Mas lembro que me fez prometer que, se estivesse mal, não importa por o que seja, falaria com você. E o que eu faço se o motivo for você?
Absorvi a frase com uma facada. Talvez a mesma tivesse doído menos.
— Auto-mutilação não está na lista de opções.
Troquei de braço e de tolha, repetindo os mesmos movimentos com cautela.
— Então em dê uma lista de opções. "O que fazer quando Percy Jackson destroça, pisa e cospe no seu coração"— riu sem graça. Outra facada. Comecei a duvidar se um dia receberia seu perdão.
— Me desculpe...
— Só me diga uma coisa. Por que agora?— olhou o banheiro, depois fitando meu rosto em grande desgosto.— Estou mais bonita? Mais gostosa? Por que tanto tempo pra dizer as três palavrinhas? Mas daquele jeito? Por que tão difícil?
Lembrei de quando éramos crianças. E do modo em que eu me perdia tão facilmente nela. Seus olhos eram chamativos, geralmente ficava babando por eles um bom tempo. Recordei da saudade que sentia quando nos despedíamos no aeroporto, prontos pra mais um verão, de que não fazia nada sem ela me acompanhar e vice-versa, de todas as brigas e de todos os acertos também. Lembrei de com tentava ser certo, ou mais sofisticado à medida que os anos que se passavam e ela amadurecia cada vez mais. Se tentava comer melhor... Me sujava. Tentava falar algo inteligente, gaguejava ou errava. Tentava nadar ou andar direito, e me atrapalhava. Mas ela sempre esteve lá pra me concertar e me ajudar. Ela era meu porto seguro e minha âncora. Era areia demais pra minha Saveiro. Eu sempre seria menos pra ela, nunca chegaria aos seus pés. Eu não era suficiente. Nunca era bom pra ela.
— Fui tolo o bastante pra perceber tarde demais— abaixei o olhar. Procurei cicatrizantes, gaze e esparadrapo.
— Eu não quero o fim da nossa história, Percy— pousou uma das mãos, suja de sangue seco no meu rosto. Fechei os olhos e apreciei o momento. Havia esperanças, em algo a acreditar e esperar.— Quando eu voltar de viagem vemos isso, ok? Eu preciso respirar...
Esperar? Outra facada. E outra. Morto por dentro. Um cadáver. Não restou nada.
— Pega, morde pra descontar a dor, pode arder um pouquinho— entreguei-lhe uma toalha limpa, e colocou na boca. Espirrei o liquido nas feridas até a pele ficar bem úmida e vermelha. Sinal que faria efeito. Annabeth jogou a cabeça pra trás de dor e soltou gritos abafados.
Ficamos calados, constrangidos demais para palavras.
Enrolei a gaze nos seus braços, infinitas vezes, fazendo uma camada grossa e prendi com um generoso pedaço de esparadrapo.
— Você leva jeito— falou ofegante, olhando para as ataduras.
Me levantei e fui até o lixo jogar as coisas manchadas de sangue. Inclusive as lâminas dentro da banheira. Nunca mais precisaria disso.
— Não conte a ninguém. É um segredo...— a olhei, segurando o sorriso.— Quero ser médico.
Seu rosto se iluminou, sinceramente. Sorriu orgulhosa. Mas sorriu de verdade.
— Isso é incrível.
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"CHEGA DESSA PUTARIA, VEMHAM AQ PRA CSA, AGR"
Jason já estava farto. Assim com eu e, provavelmente o Nico. Depois daquele domingo voltamos pra casa e ficou por isso. Não nos falávamos, ou víamos. Eu estava num estado vegetativo tão profundo que ao me levantar, me surpreendi que lembrava como andar. Mais alguns dias na cama e ficaria doente, ou criaria raízes.
Na verdade eu já morria lentamente por causa dela. Toda aquela expectativa do futuro me consumia. E o que ia acontecer quando ela chegasse? Amigos ou mais do que isso, menos que isso? Me sentia corroído por dentro, tinha vontade de entrar no seu quarto e a puxar apenas pra mim, domar a fera. E não podia, ela pediu tempo, o máximo que eu faria era esperar. Já Nico saía que eu sei. Nunca desperdiçaria seu tempo numa cama, a não ser que seja pra transar.
Levantei e fui até o closet trocar de roupa, tão devagar que quase dormi no caminho.
Por que tinha que ser complicado?
Entrei no banheiro pra escovar os dentes e pensei em Jay. Eu tinha sido tão egoísta ao ponto de ignorá-lo quando chegou precisando apoio?
Ah, deuses, o que acontecia comigo?
Isso tudo era amor?
Nunca mais quero amar de novo. Ela vai ser a última. E única.
Jason havia voltado, depois de Tristan arrancar Pips de LV. Sabia pouca coisa, esperava descobrir agora.
Um pouco mais desperto, caminhei pela casa e, logo ao sair, sendo queimado pelo sol e pela vida, avistei um buggy preto no jardim da minha casa. Eu ri da cena, descendo os degraus principais. Nico estava lá dentro, se achando o dono do conversível. Foi bom ouvir minha risada de novo. Foi bom vê-lo.
— Vai entrar ou vai ficar me olhando. Sei que tem uma queda por mim— bagunçou os cabelos e tirou os óculos, apoiando o braços pra fora do mini-veículo.
— Tu nem é preguiçoso, né bichona? Não dá tem 500 metros a pé.
Ligou o buggy, estressado.
— Então vai a pé, fodão.
— NÃO! Pelo amor de Zeus! Já ta aqui vamos aproveitar a carona— corri e pulei ao seu lado sentando no buggy.
Ele acelerou pela Chantilly Drive. O vento bagunçava meus cabelos Explodimos em gargalhadas. A cena deveria ser hilária.
— BUGGIES SÃO INCRÍVEIS!— gritou.
— BUGGIES SÃO DEMAIS!— gritei.
— AMAMOS BUGGIES!— gritamos.
Éramos dois primatas num mini-veículo.
Nico por pouco não atropelou um jardineiro e uma velhinha nesse nosso surto buggótico. Vimos os grandes portões de ferro abertos, e numa curva fechada entrou na estradinha de pedra do jardim. Estacionou em cima da grama e saltamos em direção da mansão.
"3º andar, sl dos games, se demorarem, corto suas bolas"
Subimos as escadas, até o terceiro. Passamos pelo paredão de vidro que dava vista pro jardim e algumas partes da casa. Quase saltitava agora, até cantarolava Highway to Hell. Essa música era tida minha vida.
Nico pôs a mão no meu peito pra parar e por pouco não cai de cara no chão.
— Caralho, elas não estão fazendo isso— sentou de pernas cruzadas no chão, num movimento e ficou observando algum ponto no horizonte, babando, parecia uma criança em vitrine de doces. Segui o que fez e encontrei o que ele via. Saltei em susto. Me mexi, já desconfortável.
Era a janela do banheiro de Thalia. Só que a vista... Gemi alto.
Annabeth estava de quatro toda ensaboada na banheira cheia de espuma, com a cabeça enterrada no meio das pernas de Lia e as mãos apertando os seios da mesma. A iluminação era precária, mas dava pra ver o rosto de Thalia contorcido de prazer, não ouvíamos, mais parecia gritar em satisfação, puxava forte o cabelo molhado de Annie. A pele das duas pareciam brilhar.
Mexi nas calças apertadas. Nico não estava melhor.
— Essa é a coisa mais excitante que eu já vi em toda minha vida— mordi o lábio.
A cena era melhor do que todo pornô que já vi a vida toda, e provavelmente, todo que iria ver. O ritmo delas era tão intenso.
— Eu quero muito ir lá em baixo— assenti em concordância.
De repente, vi que Ann nos viu babando a cena, ela sorriu, sem parar se chupar Lia e deu uma piscadela. Se virou e subiu pra beijar a mesma.
— Você viu isso?— perguntei em êxtase, apontando pra janela, incrédulo. Como isso era possível? Essa garota!
— É melhor a gente ir— Nico se levantou com muito esforço. Vi Ann sentar no rosto de Lia.
— Vamos, cara— sai dali correndo.
ELAS NÃO TINHAM LIMITES, NÃO?
Fiquei em choque. Mas que diabos? Merda. Aquilo só fez com que eu a desejasse mais.
Entrei no sala de games gigante, só do Jay. E o vi jogando GTA5, no sofá preto de couro. Nico caminhou para a parede oposta, onde tinha uma geladeira vermelha e pegou uma cerveja, virando de uma vez só.
— Calma aí! São 11h, cara— Jay pausou o jogo e nos olhou com uma careta.— Puta merda! Estão piores que eu.
Sentei ao seu lado pegando o bacia de Doritos da mesa de centro.
— Porque você não presenciou suas ex's transando.
Arqueou as sobrancelhas, enquanto enfiava uma mãozada de batatinha na boca.
— Lia e Ann?
Nico se jogou num puff e assentiu.
— Eu sabia que elas estavam se pegando!— bateu na própria perna vitorioso, e parou de comemorar quando sentiu nossa reação.— Qual é! Que caras são essas? Por Zeus! Nico, Thalia vai voltar pra você, como sempre. Dois otários e cabeça duras, daqui a pouco estarão transando nos almoços de família, gemendo para todos nós ouvirmos. E Percy, irmão... Fica difícil se você não fazer toda aquela parada de 'expressar seus sentimentos'
que as garotas tanto gostam.
— Vaaain! Guru do amor!— Nico brincou.
Jay subiu a mão e apontou pro anel na mão esquerda, cantarolando Single Ladies e imitando a dancinha do clipe.
Não me aguentei de tanto rir, deixei os Doritos caírem no chão, joguei a cabeça pra trás gargalhando. Bati no sofá de couro, tentando aliviar a dor na barriga. Nico correu até a porta do banheiro, segurando o próprio pinto pra não mijar nas calças.
— Deuses, você é ridículo— tentei controlar minha voz por causa do riso. Pigarrei um pouco.
— Não, querido. Eu sou engraçado, é diferente.
Ponderei em dizer a verdade sobre fim de semana passado.
— Só tu, Superman— Nico entrou na sala, já voltando ao normal.— É verdade o que ele falou, Percy— apontou inquisitivamente em minha direção.
— Eu falei pra ela...— murmurei, fitando o jogo pausado.
Abaixei a cabeça e recebi olhares incrédulos.
— O que exatamente falou?
— O que ela respondeu?
Fui bombardeado de perguntas.
Deitei no sofá, supostamente cansado.
— Que eu a amava mais que tudo nesse mundo.
— Ui, romântico— Jay fez uma vozinha de mulher.
— E...— Nico pressionou.
— Ela falou que não era pra fazer isso. Mas me perguntou por que eu não disse antes. E me falou pra depois da viagem resolvíamos isso.
Respirei fundo, Nico e Jay riram.
— Vocês são iguaizinhos— o primeiro falou.
— Inseguros e indecisos.
Bufei.
— Relaxa, irmão— Nico sentou na mesa de centro junto com Jay.— Precisa fazer alguma coisa pra não a deixar esquecer de você nessa viagem.
Me senti num psicólogo.
— É sua chance hoje à noite, na festa da mamãe— Jay falou, animado.
Lembrei da festa da Tia Meg que teria hoje. Não dava pra não ir. Tinha que ser lá, elas viajariam amanhã à noite.
— Já transou com ela?— Nico perguntou, evasivo.
— Não— me apressei em dizer.
Me lançaram olhares acusadores, eu sentei os olhando, um pouco culpado.
— Só oral. Nada demais, mas o boquete dela...— salivei, e eles riram.
— Piper não gosta de boquetes, apesar de ser muito boa. Isso é muito triste.
— Tá ai, cara! Transa com ela!— Jay apontou pra Nico de acordo com sua sugestão troglodita.
— Tipo um 'gata não se esqueça de mim'— Jay continuou.
— Não!— neguei até as unhas do pé.
— Por quê?— Nico perguntou rejeitado.
— Ela tem problemas com sexo. Tenho minhas teorias— fiz uma careta, rejeitando esses pensamentos com todas as forças.
De repente ficaram interessados nos seus chilenos. E tive a certeza de que estava certo. Puxei os joelhos e enterrei minha cabeça nos mesmos, tentando controlar os sentimentos.
Era horrível ela não ter me contado. Era horrível ter pensado no que pensei. Era horrível estar certo.
Era... Cenas de alguém fazendo isso e... Um gosto ruim subiu a garganta.
— Mamãe disse que foi o namorado dela— Nico esfregou as mãos nervoso.
Me encolhi, recusando aceitar as palavras. O enjoo estava bem mais forte. Eu tremia e me sentia esquentar.
— Ela era virgem, por isso esse medo— Jay murmurou.
A respiração começara a ficar pesada, e meus ouvidos zuniam. Com que finalidade uma pessoa faria isso? Prazer, não é! Contei até cem, e mesmo assim não me senti calmo. Queria socar tudo a minha volta, e estuprar o merda que machucou minha Annie.
A mão dos meus primos pousaram na minha costa, uma afagando e a outra dando batidinhas. Tentei arrancar os cabelos pra ver se a dor no coração aliviava.
— Está tudo bem agora, cara— Jay falou. Ergui a cabeça, meus olhos ardiam, prontos pra chorar.
— Bem? Como pode estar bem?! Você é cego ou o quê? Não vê as ataduras nos seus braços?— argumentei revolto.
— Tão bem que está transando com minha namorada em uma banheira— não quis rir do modo que Nico falou, foi inevitável.
— É só que... Eu não consigo acreditar. Agora entendo o por que dela não falar essas coisas comigo.
— Sabe que te afetaria muito mais do que afeta ela hoje. Não conseguiria controlar o que quer que esteja sentindo— Nico disse.
— Vamos comer comida tailândesa!— Jay mudou completamente de assunto. Eu o agradeci milhões de vezes por isso.
...
— Nada de comida tailândesa! Vão comer frango e salada— Tia Meg parecia séria, com aquela roupa, era a verdadeira figura de uma imperatriz. O cabelo em coque e o vestido liso e preto, jóias que não acabavam nunca.
Jason, sentado na banqueta da cozinha com o telefone na mão, não entendia nada. Estava pronto pra pedir um arroz bem condimentado com carne de cordeiro e menta.
— Mas...
— Hoje é meu aniversário. Me obedeça. Terá comida o suficiente mais tarde.
— Feliz aniversário, tia— desejei, vendo crescer um sorriso no seu rosto, que logo desapareceu.— Comida tailândesa, Jasão— ordenei a Jay.
— Percy!— advertiu.
Cai na cadeira derrotado, ao lado de Nico.
— Tá!
— Eu vou pegar as mães de vocês pra irmos no salão, volto em 30min, nada de comida tailândesa— apontou inquisidora, pegou sua bolsa e saiu pelo arco da cozinha.
— Não quero comer frango— murmurou Nico, igual a uma criança.
Mal entrou na cozinha, segundos depois.
— Fala, cambada!
— Mal— comprimentamos tristes.
— Quem tá vivo sempre aparece— dirigiu o olhar a mim e Nico.
— É.. bateu saudades...— cuspi sarcasmo.
— SANDUÍCHÃO— Annie e Thalia apareceram gritando e pulando com a boca em 'O' e os olhos arregalados.
Senti meu coração acelerar e frio na barriga. Parecia feliz de verdade naquele momento. Ela ainda nem tinha nos notado nessa algazarra toda. Olhei seus braços e vi as marcas já cicatrizando. Sorri comigo mesmo.
As duas de camisolas com longas da VS, descabeladas, mas radiavam alegria. Lembrei da cena de mais cedo.
— Gente acho, que vou botar preenchimento bundal, like Nicki Minaj...— Annie falou, com as narinas dilatadas e pegando na sua bunda, do outro lado da bancada. A olhei cético.
Mal mandou uma careta esquisita.
— Faz isso não. É feio!
Annie e Thalia riram.
— Deviam ter visto a cara de vocês— Lia se engasgou de tanto rir.
— Papo— Annie abanou a mão, indiferente.— Já pensou ter uma bunda igual a da Punk?
Nico e Jay não se aguentaram. Assim como eu. Lia trocou os pesos da perna e mandou um olhar 'quer morrer, bitch' com os braços na cintura, piscando várias. Annie só fez mandar um sorrisinho. Thalia a encarou por uma tempo.
— Invejosa— concluiu e virou a cabeça, entrando na dispensa.— Minha bunda tem 720 cavalos, caralho. Tá doida? Aguenta tudo.
— Tudo— Nico completou pausadamente.
Vi o braço de Thalia saindo da salinha e apontando pra Nico.
— Quer ver? Pergunta!
Ele inflou o peito orgulhoso, senti por trás de mim a mão de Jason lhe dar uma pescotapa.
Mal suspirou.
— Bons tempos esses...
Eu e Annie caímos na gargalhada.
— Vá lá, múmia— fiz graça.
— O que eu to falando,— Lia abraçou o batente da porta e cruzou as pernas, concentrada nas palavras da loira— é que todos vocês— percorreu os olhares por nós— menos o Malcom...
— Ei!
— Calado! Eu to falando— ralhou.— Vocês são tudo parrudos. Altos, fortes, bundões, peitões, piroc...— gesticulou o último com mais intensidade.— E eu sou um Hobbit— se encolheu, fazendo questão de demonstrar.
Sorriu patética.
— E como você sabe o tamanho?— Jay provocou. Lia despejou uma monte de comida na mesa, e caminhou até a geladeira.
Ri, esperando sua resposta. Nem se quer ficou encabulada.
— Ah, é que eu espio vocês no banho também!— eu e Nico estancamos, e a olhamos medrosos.
Thalia se enfiou do nosso lado, e cuspiu uma embalagem de presunto. Jay e Mal gargalhavam da nossa cara.
— Muito boa, Ann! Bate aqui— Jay e Annie trocaram um toque.
— Dois tarados! Estão na seca?— Thalia virou, especialmente pra Nico.— Se fosse ficar tão carente assim, não tinha terminado com você.
— WOW— exclamamos em uníssono.
— Faça o favor de se foder, Lia— virou a cara irritado, com um bico.
— Hoje estou esfolada. Amanhã eu te chamo. Você está precisando mais do que eu— deu um selinho nele, que sorriu bobo.
Neguei, esses dois não existiam.
— Quero um pedaço de Sanduíchão!— Mal pediu.
Annie revirou os olhos.
— Thals, vamos ter que fazer na baguete pra dar! Meninos vocês vão querer?
Nos olhou sorridente e não pude deixar de retribuir.
— Melhor que frango e salada— dei de ombros.
— Eu quero ajudar— Jay falou.— Pego a baguete.
Lia e Jay mergulharam na imensidão de armários bege da cozinha, pegando mais condimentos. Mal se sentou no lugar vago, ao meu lado. E Annie arrumava o que tinha na mesa. Vi iorgute, M&M e bacon.
— Annie?— Nico chamou, murmurou em para que ele falasse.— Por que não posta um vídeo ensinado a fazer esse sanduíche?
Ela parou e observou a mesa pensativa.
— Boa ideia! Não tinha pensado nisso ainda. Pode pegar a GoPro em cima da minha cama, lá no meu quarto?— pediu, o olhando.
Nico assentiu, e sumiu arco a fora. Então só tinha nós dois ali, Mal estava perdido no Candy Crash, minhas mãos começaram a suar.
— O que vai?— quebrei o silêncio. Dirigido-me ao sanduíchão.
Me mandou um sorriso contido.
— Tudo que tiver na cozinha.
A observei enquanto o movimento ali continuava. Quis tocá-la, afagar seus cabelos; sentia sua falta na hora que acordava, que dormia, a toda hora. Um nó se formou na minha garganta.
— Por que está olhando pra mim?— sussurrou e sorriu, me encarando.
Suspirei.
— Sinto muita sua falta— respondi no mesmo tom.
Seu sorriso pareceu aumentar, tanto que teve de morder os lábios pra conté-lo.
— Eu também— falou mais pra si mesma que pra mim.
— Pronto— Nico apareceu com a câmera e Lia e Jay com as baguetes.
...
— Isso,— gesticulei pro sanduíche— tá muito, muito bom— minha voz saiu abafada, quase incompreensível. Eu tinha um quilo de comida na boca.
— Obrigada— Annie falou na mesma situação, segurando o cabo prateado da câmera.
Dei mais uma mordida e senti o gosto de Nutella e salsicha.
Mal deixou queijo cheddar cair na sua camisa.
— Ah, merda— levou a parte da peça à boca e começou a chupar.
Mordi mais uma vez, revirando os olhos de prazer.
— Melhor que sexo— Thalia falou de boca cheia.
— Melhor de quando te dou orgasmos mútiplos?— Nico arqueou a sobrancelha, e abocanhou seu pão.
— Quase tão bom— os dois riram. Juro que nunca vou entende-los.
Jay urrou de prazer, com a boca aberta. Poxa, o dele tinha Kit Kat. Balançou a cabeça, com as bochechas esticadas de tanta comida.
— Eu vou me casar com esse sanduíche— o beijou.
— Você quer casar com tudo que vê a frente, Jason— Annie falou, arrancando risos.
— Tá sujo— indiquei a bochecha de Annie.
— Limpa aí— quis pular de alegria. Me aproximei de sua pele, e lambi seu queixo. Já estávamos acostumados com essa tipo de limpeza facial. Sem que os outros olhassem lhe dei um beijo, me segurei para não agarrá-la ali.
— Babaca— sussurrou, me olhando maliciosa.
— Nem deixou pra mim— Fred e Zeus entraram com pastas, na mão.
— Digam oi— Annie balançou a câmera.
— Oi— Zeus deu um sorriso estranho, e nós caímos na gargalhada pela milésima vez aquela tarde.
— Tem comida no meu nariz— Thalia gritou dando pulinhos. Ia presunto e cebola pra tudo que é canto.
Malcom arregalou os olhos, surpreso. Abanei a mão suja de barbecue e molho de chilli.
— Problema de família.
— Essa cozinha parece um zoológico.
Annabeth paquerava um pedaço de bacon do meu sanduíche.
— Não mesmo— o abocanhei.
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— Onde elas estão?— um Nico de terno, perguntou impaciente.
O aniversário da Tia Meg estava sendo da casa dos Di Angelo. Não sei por quê. Talvez a tara da aniversariante na mansão negra emadeirada. Ao longo da comprida piscina retangular, juro que vi Elton John e Francis Lawrence.
Da área de fora da casa, via-se o Getty View Park. Era completamente magnífica aquelas árvores todas. E pelas grandes janelas, dava pra ver dentro da mansão as pessoas conversando com taças de bebidas na mão e a decoração doentia meio italiana da casa. A iluminação não deixava de ressaltar a beleza da casa.
— Sentiu saudades, Niquito?— Lia o abraçou pelas costas e mordeu o lóbulo de sua orelha.
Desviei o olhar pra minha bebida, enquanto se beijavam. Ótimo, passei de solteiro a vela.
Até Jason e Piper haviam sumido. Tristan permitiu que Pipes vinhesse, só porque Meg pediu muito.
Encostado numa palmeira procurei Annabeth. Estava nervoso, iria ter que fazer alguma coisa. Mas o quê?
Ofegantes Nico e Lia se viraram pra mim. Levei um susto com o decote do vestido preto de Lia, como conseguia usar aquilo.
— Para de olhar pros meus peitos, Percy— a olhei e parecia radiante.
Nico é o culpado.
— Então vocês voltaram?
— É, cara. A gente supera— Nico abraçado a namorada deu um gole no seu martini.
Bufei, indignado e sorridente.
— Nós sabemos! Somos impossíveis— falaram juntos, adiantando meu comentário, e rimos.
Corri os olhos mais uma vez pela multidão de convidados e garçons.
Thalia de aproximou de mim, alisando meu paletó e a gravata preta. Encarei seus olhos destacados pela maquiagem preta.
— Ela está no lavabo, parede com foto enorme de Veneza. Vai lá, garanhão— tomou minha taça de champanhe e bateu na minha bunda.
Nico sussurrou um 'confia'.
Tomei coragem e sai dali, passando pelas as pessoas. A adrenalina percorreu meu corpo, e quase corria em direção a entrada da casa. Estanquei por um momento. Não podia ser. Tina Fey estava no mesmo ambiente que eu, lutei contra a vontade de conversar com ela. A loira estava me esperando no banheiro.
— Tina— gritei, virou e me olhou, estranha. Queria cair na gargalhada, ela era incrível.— Você é demais.
Ela sorriu.
— E você um tesão— gritou de volta, com as mãos em concha.
A confiança me subiu a cabeça, seria hoje que a teria só pra mim. A faria minha. Continuei a correr, desviando dos grupos de conversa. Entrei na casa e, de imediato, vi a parede e a porta que Lia falou. Respirei fundo, e caminhei decidido até lá.
Abri a porta e me deparei com um coque loiro retocando o batom. O lavabo era todo espelhado.
— Percy?— Annie fez uma careta surpresa.
E ao contrário de todas as coisas sujas que pensei em fazer com ela, eu, simplesmente a abracei. Forte, como se pudesse escapar a qualquer momento. Soltou os objetos que tinha nas mãos e retribuiu o abraço, passando os braços nos meus ombros e apertando tão forte quanto. Sentia nossos corações baterem descompassados, juntos, como se pudéssemos vomitá-los. Podíamo-nos fundir em um só. Beijei seus cabelos e cheirei seu pescoço a sentindo arrepiar. Ri fraquinho.
— Tá tudo bem?— se separou, ainda abraçada a mim, fitando meus olhos, nervosa. Sorri, e passei as mãos nos seus braços, apertando de leve.
Sua pele era tão macia e lisinha, ficaria anos a acariciando. Cheirei seu braço, nunca desviando do seus tempestuosos olhos. Mordi o lábio, passei os mãos no seu pescoço, pela tatuagem ali, esfreguei o lóbulo da sua orelha, suas bochechas, estranhamente rosadas. O que nunca acontecia. Apreciei cada pedacinho da sua pele como uma jóia rara. E era a minha jóia rara. Voltei minhas mãos para sua cintura e apertei, num sentido de posse.
— Suas bochechas estão coradas— não conseguia controlar meus olhos, levando-os de um lado para o outro tentando catar cada detalhe de Annabeth.
— É blush— fez uma careta, ficando vesga. Linda. Meu rosto doía de tanto sorrir. Abracei mais forte sua cintura.— O que ta fazendo?
— Sei lá— estava ofegante.— Precisei te tocar.
Riu beijando minhas bochechas repetidamente, bagunçou meus cabelos bagunçados.
— Quero te falar uma coisa também...— nos desgrudamos devagar, ela passou as mãos dentro do meu terno.
Prestei atenção na sua roupa. Um vestido nude rodado sem alça. E um saltão preto.
— É a coisa mais linda que já vi— gargalhamos juntos.
— Você ta fazendo o clichê todo errado. Era pra chegar e me beijar. Não me abraçar...
Pensei no que descobri hoje mais cedo. Eu tentaria fazer as coisas darem, pelo menos, um pouco certas com nós. Sorri de lado.
— Cheguei aqui pensando exatamente em fazer isso, e depois te fuder de jeito— ela gemeu, sem pensar e tampou a mão com a boca a repreendendo. Sorri, orgulhoso.— Mas quero conversar com você antes.
Arqueou as sobrancelhas.
— Que tipo de preliminar é essa?— passou o braço por mim e trancou a porta.
Sentamos com pernas estendidas no chão lado a lado. Entrelaçamos nossos dedos, e nos olhamos no espelho.
— Então...
Como começaria o assunto? Cavaquei na minha mente inúmeras maneiras. E optei começar com pela verdade.
— Soube sobre seu ex, Luke— ao contrário de tudo que pensei, ela suspirou. E pareceu envelhecer, vi nos seus olhos, terror. E quase me arrependi.
— Isso não é muito excitante, sabe?
— Não! É perturbador e doentio e desagradável e...— percebi que comecei a ficar vermelho de raiva.
— Para! Onde quer chegar com isso? Sim, eu fui violentada. E o que vai fazer com isso?— me olhou magoada.
Meu coração falhou, ouvir as palavras da sua boca era pior. Muito pior. Virei a cabeça e fitei seus olhos.
— Eu só quero te fazer minha... Mas do jeito certo— apertei sua mão.
Seus olhos enevoaram, não soube o que sentiu. Isso me incomodou.
— Você quer uma transa comigo?— perguntou sem expressão.
Suspirei, e as palavras começaram a jorrar sem controle.
— Eu quero todas. Não só transar... Quero fazer amor com você— sua pose falhou, sua testa estava franzida em confusão e medo.— Ser oficialmente seu primeiro homem.
O banheiro ficou silêncio.
— Amor?— sussurrou indefesa.
— Amor— assenti. Engolindo o seco e aproximei nossas bocas.
— Não tem que ser especial? Não em um banheiro?— sabia que ela tentava se controlar.
— Qualquer lugar com você é especial.
Nos levantamos.
— Adorei esse seu romantismo.
— Tem que fazer o migué...— dei de ombros e a encurralei na parede de espelho. A beijei e meu estômago congelou. Suguei sua língua deliciosamente, explorei cada canto da sua boca, em movimentos lentos e precisos. A saudade por sua boca era grande. Desci os beijos pelo seu pescoço. Puxando sua cintura pra mim, e sentindo alguns fios de cabelo serem arrancados do meu coro cabeludo.
— Estou com medo— sussurrou. Subi meu rosto, roçando no dela.
— Não irei te machucar, é uma promessa. Mas não precisa fazer isso,ok?
Puxou minha gravata, arregalando os olhos e mordendo os lábios com um lindo sorriso.
— Mas eu quero. Muito— procurei o zíper nas suas costas, enquanto a beijava proveitosamente, abaixei até o fim, e o deixei escorregar pelas suas pernas. Sem sutiã. Ri comigo mesmo.
Ela agarrou os peitos, achatando um nos outro, enquanto deslizava a calcinha por sua bunda.
— Não são lindos?— fez um bico. E o mordi, assim como nos mamilos rosas e durinhos.
— Perfeitos.
Antes se enterrar meu rosto no seus seios, ela puxou meu cabelo.
— Hoje não, gato— tirou meu terno e minha gravata em dois movimentos.— Quero te ver todo— umedeceu os lábios.
Desabotoou minha camisa, mais rápido que eu. E a arrancou do meu corpo. Desafivelou o cinto, abrindo minha calça e a abaixando, junto com a box.
Gemeu alto, sem mesmo ser tocada. Eu já estava bem ereto.
— Vai caber?— perguntou risonha.
Ri da sua cara ingênua.
— Enfia que cabe, loira— ela agarrou meu membro.
— Tem que caber— mordeu meu lábio inferior forte, roçando meu pênis na sua barriga. Rosnei baixo.
Lacei uma das suas pernas em mim, com a mão esquerda, juntei nossos dedos, servindo de apoio do lado da cabeleira loira, que em algum momento havia se soltado, e com a outra segurei meu membro estimulando seu clitóris. Esfreguei-me rápido na entrada molhada, a provocando.
— Me ame logo— choramingou.
A penetrei, tão devagar, que era uma tortura. Ela era muito apertada. E quente. Suspirei, tentado chegar ao fundo dela. Tinha uma careta de dor no rosto, sua boca em 'O'. Deixou a cabeça cair no meu peito.
— Ahhh, Deuses— falou rápido e alto.— Caralho...— cravou as unhas no meus ombros, franzindo os lábios e urrando abafado.
— Você é pequena— rimos.
Estava inteiramente dentro dela.
— Agora você é toda minha— movimentei num vai e vem contido.
Queria aproveitar cada sensação, cada toque, cada beijo. Queria poder lembrar de cada textura e gosto dela. Nossos corpos formando um só, um cheiro, um ritmo, um sentido. Só nosso. Riamos e suspirávamos. O prazer não cabia no meu corpo, nem naquele cômodo. Se isso era prazer, antes daquela noite era casto. Nos abraçamos, sentindo cada vez um ao outro, gemidos e beijos cálidos. Suando, o espelho se embaçando. O tempo, parado. Só existia nós e nosso amor. Lambuzávamos com nossa própria falta de santidade, tudo e nada faziam sentido. Mãos bobas percorriam o corpo todo. Importante era ela, soltando risadinhas e gemidos baixos e sexys. Nossa essência ficaria marcada ali, como uma velha história a contar.
Tínhamos um magnetismo indiscutível e incontrolável. Olhamo-nos, completamente perdidos um no outro. Sexo e amor, uma experiência tão nova pra ela quanto pra mim. Não saíamos daquele ritmo, olho no olho. O verde e o cinza casando o perfeito. Ela roçava seus lábios abertos na minha boca, enfiei minha língua na sua boca. Eu não aguentava. Seu beijo me deixou tonto
Continuei a estocar, sem pressa, sem relógio. O corpo de Annie tremia forte, senti me apertar cada vez mais, e precisava fazer força pra entrar. Meu corpo contraiu, e gozamos juntos pela primeira vez.
A noite nem começava...
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