Young Blood
19 Ao nosso som
Notas iniciais
Percy.
O assunto Thalia grávida, pareceu nem existir. Todos evitavam ele. Nada saiu na mídia, só apenas que a Annabeth Chase havia tido 'casos' com as Jenner, era um escândalo, óbvio, mas Ann nem se importou. Como sempre, ela estava zen em relação a isso. Os meus tios aceitaram finalmente o shipper Thalico. Perceberam que um não vivia sem o outro. Já os dois, resolveram sumir, pra aproveitar seu romance recém-aceito, igual a dois cães no cio. Sem dúvidas.
Nada também de Jason e Piper, ela estava de castigo, trancada em casa. E, pelo que eu entendi, Jason estava lá com ela, sem tio Tristan saber.
O resto da semana se resumiu em mostrar a cidade pra Hazel e Frank. O que foi particularmente foda, nunca ri tanto. Eles eram, realmente, incríveis.
Eu e Frank estávamos em uma aposta de quem ganhava no Diablo. E, CLARO, que ele ganhou. O cara é um puta gamer, sabe todos os códigos e macetes de todos os jogos existentes. Tinha um canal fodástico, também, só que de jogos.
— Jason não vai ficar puto que vocês zeraram o jogo dele?— Annie e Hazel entraram no quarto do Jason.
— Vai— dei de ombros e deitei na cama.
— Você me deve um hamburgão, cara— apontou e se juntou a mim.
— Hoje tem IN-N-OUT— esfreguei as mãos salivando.
— Não perceberam nada de diferente?— Annie perguntou, em pé na beirada da cama balançando os cabelos, Hazel já tinha ido deitar do lado de Frank.
Olhei pra ela, nada de diferente. Franzi a testa.
— Eles são homens! Não percebem isso!— Hazel abanou a mão e continuou a ver Tv, que agora passava o programa da Ellen.
— JÁ SEI!— Frank gritou ao meu lado.
— Não grita, cara— o olhei reprovador, brincando.
— Cabelo roxo! Gostei— fez o sinal de positivo.
Voltei meu olhar pro seu cabelo, e continuei a não ver nada. Ela subiu no meu colo, colocando as pernas na minha cintura.
Hazel e Frank se divertiam com a Tv.
— Deuses, que lento. Não é na minha raiz. É uma californiana— colocou as pontas do cabelo na minha cara. Aí, eu ví o lilás nas pontas do seu cabelo. O soltou, e mexeu nele um pouco. Eu quase babava.— Gostou?
— Continua linda— tirei as mãos da cabeça e as passei na sua coxa, apertando.
Ela prendeu de novo, e fiz uma careta. Ficava mais bonita com o cabelo solto, mas preso seus olhos ficava mais impactantes e grandes. Ficamos nos encarando, sorrindo um pro outro. Estava tão linda que senti meu coração acelerar.
— Onde vamos...
Um barulho alto de algo se estilhaçando veio do corredor, juntos com outros barulhos abafados. Annie puxou minha camisa com medo, e não desgrudou seus olhos medrosos dos meus, estranhei um pouco sua reação. Agarrou o "P" pendurado na garganta.
— Deve ser o vento— Hazel nos olhou.
— Eu vou ver...— Frank fez menção de se levantar.
— Não,— falou alto, e depois abaixou a voz.— Você está ótimo aqui.
— Ei, tá tudo bem! Eu só vou ver o que é!— deu um beijo na têmpora da Annie e foi até a porta.
Hazel chegou mais perto. A olhei significativo, pedindo explicações. Tinha uma careta na cara. Annie deitou em mim e me abraçou forte.
— Com certeza não é o vento!— Frank riu e bateu na parede.— Isso é tipo... Um deboche? Se engolindo em cima de uma foto de família, tem alguma mensagem subliminar aí?
— CALA BOCA!
Thalia.
Ann diminuiu o aperto, e soltou o ar pela boca. Hazel riu ao meu lado, e eu continuava com cara de idiota que não entendendo porra nenhuma. Como sempre.
Os três entraram no quarto.
— Por onde andaram, casal liberdade?— perguntei.
Thalia com a maquiagem borrada de sempre, e saia longa, coisa que faz tempo que não vejo, e Nico de bermuda e blusa não pretos. E pareciam bem macucados, com roxos e vergões. Ok, não quero mais saber onde estavam.
— Por aí— Nico deu de ombros.
— Que inveja— Hazel bufou.— Devem ter transado mais que atores pornôs em especial dia dos namorados.
Gargalhamos escandalosamente.
Thalia se jogou, desajeitada no nosso lado, rindo como nunca. Annie soltou uma "au" abafado.
— Me sinto aberta, prima.
— Não fale isso! Agora vou ficar imaginado vocês transado! ECA!— cerrou os olhos evitando a cena.
Nico riu e deitou nas minhas pernas.
— Ai veado!— fez mais peso na minha perna.
— Que salada é essa?— Frank e Annie riram.
— Hay— Nico chamou.
— Chore, bê!
— Quero te levar em um lugar.
— Onde?— Annie perguntou.
— To falando com minha irmã!— bufei, indignado, Nico era muito irritante!
Thalia deu um chutão nele.
— Porra, cê é chato!
Hazel revirou os olhos.
— Brincadeira!
— Fala logo, véi!— Frank falou sem desgrudar os olhos da entrevista com o Zack Efron e Dave Franco. Gays.
— É surpresa! É o lugar, Percy.
O lugar? Pensei um pouco... Ainda acariciando os cabelos loiros arroxeados.
Ah, o lugar. O melhor, nós íamos lá pra fumar. E Thalia e Nico se pegarem quando éramos mais novos. Sorri divertido.
— Hum,— Thalia gemeu— o lugar— sorriu muito maliciosa.
— Caralho, tua buceta coça pra dá?— Annie perguntou, olhando sua cara com falso nojo.
— Odeio bolhas!— Hazel falou.
— Nem te conto que nós fazemos bolhas, amor!— Frank deu palmadinhas na sua bunda.
— Eu sei lá onde é isso!— Annie se explicou.
— Por isso que vamos levá-los!— Nico sentou, tirando seu hipopótamo interior das minhas pernas.
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— Caralho, que lugar lindo!— Annabeth saiu apressada do carro, e se escorou no para-peito de madeira. Sai, a seguindo. O vento fustigava nossos cabelos, o chão de terra batida, e espalhados por ai, tufos de mato. A vista era o incrível, dava pra ver quase toda LA, que se perdia ao horizonte e até a onde os olhos podiam alcançar. Virando de costas, dava pra ver o letreiro de HOLLYWOOD. Era maravilhoso.
Sentei no batente, junto com Ann. Umedeci os lábios, a vontade de um cigarro me consumia. Não falamos uma palavra, não precisávamos.
— Por não me trouxe aqui antes?
— Não é aqui, ainda. Vamos esperar os outros— não desgrudei o olhar do longe.— Tenho uma surpresa pra você!
— Ah, nem vem! Odeio surpresas, vai falar o quê é!— me encarou sorrindo.
A olhei, não entendia como conseguia ser tão linda. O rosto fino, e magro, digno de uma modelo, o nariz arrebitado; os olhos grandes e cinzas claros, pequenas sardinhas e as juba loira. Nem percebi nossos lábios se aproximando e as respirações se tornando em uma só...
Ecoou o barulho de uma derrapada e de uma buzina...Thalia. Sempre era a porra da Thalia.
Logo Chloe apareceu. Suspirei, a sua boca me fazia falta. Muita falta. Nos olhamos significativos.
— Vamos casal magia, tem caminho pela frente ainda— Nico gritou, ainda comendo seu hambúrguer.
Degraus, degraus, mais degraus... Todos de pedra, e mato, muito mato. Isso nunca acaba, ainda mais quando você parece um burro de carga com estômago cheio. Estava derretendo, e não chegávamos no lugar.
— Alguém pega o vio...LÃO, VAI CAIR ESSA PORRA!— Senti o violão escorregar dos meus braços, logo Thalia se pôs a pegá-lo.
— Juro, que se tivesse quebrado, eu quebrava sua cara— falou, vermelha de raiva e acariciou o violão velho, cheios de letras de músicas e adesivos.— Jonh, tudo bem, minha razão?
Paramos e olhamos sua doidice, Hazel, Annie e Frank caíram na gargalhada. Ela tinha mania de dar noves pras coisas que mais amava. O carro e o violão era um delas.
— Não vamos chegar nunca— Nico não estava em uma situação melhor.
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"Seems like your heart stops working
The minute they close the curtain
And take off your mask
And take off your costume
And if anyone asks you're
Taking a small break
Drinking some coffee"
Eu tocava junto com Nico, e Thalia ao nosso meio, cantava. A voz grossa e rouca era hipnotizante, me cutucou. Mandando uma indireta, essa era a nossa música.
"Everyone knows what you're doing
Seems like the bus moves slower
Just cause you got somewhere to go"
Apontou pro chão de terra e virou pra câmera, Annie insistiu tanto em filmar, então aceitamos. Ao fundo ela fumava um cigarro, passando os dedos no pingente (tinha adquirido esse cacoete), nos olhando com Frank e Hazel. Me concentrei nos acordes, na batida. Não era um Ed Sheeran, mas me saia muito bem. Uma forma de esquecer do meu mundo assim como surfar. Fechei os olhos, sentindo a música em minhas veias aumentando a velocidade que tocava. Aquela era uma das melhores sensações, as cordas do Jonh machucavam meus dedos prazerosamente.
Se virou para Nico, dirigindo a ele. Incrível como cada pedacinho da música se parece conosco.
"So you take a few pills in Beverly Hills
But if anyone asks you've got a prescription
You got an addiction"
Fez uma careta de tristeza e desdém pra filmadora.
"Who do you think that you're fooling?"
Cantamos o resto da música juntos. E sentamos debaixo de uma árvore. A câmera ainda nos filmava. Olhei o letreiro, não muito longe, extasiado.
— Desde quando escolhemos o tema drogas, pro vídeo?— Annie perguntou, sentada entre minhas pernas.
Não fiquei confortável com o assunto. Tentei me controlar para parecer o mais indiferente possível. Esperava que ela mudasse logo esse tópico de hoje.
— Com medo?— Hazel perguntou do nosso lado, agarrada a Frank.
— Como se drogas possam me assassinar no meio da noite...— revirou os olhos.
— Na verdade, elas podem— Thalia falou a nossa esquerda, com um sorrisinho de lado e seu violão.
— E você se importa?— eu a desafiei.
— Claro— arqueou uma sobrancelha.
Frank ajeitou os óculos quadrados, entendendo o clima.
— Calma, eu não sabia que tinha essa putaria de drogas, justo com vocês. Thalia e Nico tudo bem, mas Percy?— senti o rosto esquentar.
E ouvi risadinhas.
— Nem te conto; foi o Percy que nos levou pro mal caminho— Nico me encarou.
— A diferença é que eu consegui sair dele, antes que desse merda— falei puto, eu tinha nojo de mim mesmo no passado, era um viciado babaca. Vivia pra droga, e morria cada vez mais. Odiava falar sobre isso mais que tudo, eles sabiam disso e insistiam.
Ann se virou pra mim
— E você me proíbe. Não faz sentido— semicerrou os olhos.
— Percy era o mais viciado de todos— Nico falou, maldoso. Mandei o pior olhar assassino.
— Vínhamos todos os dias de ônibus pra cá, fumar ou...— Thalia contou.
— Ônibus?— Hazel fez uma careta.— Não tinham carro?
— Éramos novos. Não tem como dirigir com 13 anos por aí, né?— Nico passava as mãos no pescoço de Thalia, como se aquilo fosse normal. Crianças e drogas. Quis espancá-los.
— TREZE ANOS? Não me surpreende— Ann se sentou de frente pra mim, sua cara era de decepção e tristeza. Uma interrogação se formou em minha mente, o que quis dizer com "não me surpreende"? Bani esse comentário da minha cabeça.
— Não me venha dar lição de moral! Você, há dois minutos atrás, fumava um cigarro— lambeu os lábios, sentindo falta, confirmando o que dizia.
— Drogas...— Frank chamou a nossa atenção, olhando pros cachos da namorada.— É uma coisa boa, eu acho! Dependendo de como for usar. Numa festa, só por curtição— lançou um pesado olhar pra Annie.— Não como um 'anti-depressivo'!
Levantou as mãos pro alto, se rendendo.
— Já pedi desculpas, e nem tem como usar nada, porque o Sr. Hipocrisia aqui, confiscou tudo.
Ri da sua implicância.
— Eu adoro a sensação de viajar— Thalia falou.— Ajuda a fugir dos problemas— se ajuda, né Lia?
— Todo adolescente tem que ter esse tipo de experiência. É bom pra caralho. É como sexo— Nico falou.
— Mas tem que saber se controlar— acrescentei e concordaram.
— E estar consciente do que se faz. Desde do meu primeiro cigarro, eu soube que poderia morrer com um desses na boca— Annie falou sombria.
— Pensei que você queria morrer de diabete— Hay sorria pra Annie, divertida.
— E você morta em cativeiro— me parecia que as duas planejavam as coisas juntas, tipo a como morrer.
Frank suspirou alto, como se estivesse ouvido muito esse papo de morte.
— Olha o tipo de doidice que vocês falam... O melhor jeito de morrer é com um tiro na testa— gesticulou o tiro, infantilmente, e soltamos um riso esganiçado.
Hazel riu, e colocou as mão na barriga.
— Anna ta se mexendo— ria debilmente.— Faz cócegas.
Todos a olharam radiantes, Frank abaixou e deu um beijo na sua barriga e depois em seus lábios. Ouvi Annie fungar.
— Minha bebezinha— colocou a mão na boca.
— Posso tocar?— Lia perguntou, com uma voz tão fraca que parecia explodir em lágrimas. O misto de emoções na sua expressão era visível. Alegria e dor, muita dor.
Frank tirou a mão da barriga de Hay para Lia. Que a acariciava com tanto cuidado, como se fosse machucá-lo com movimentos mais fortes, sorria muito, parecia que suas bochechas rasgariam. Nico deu um beijo no seu braço a reconfortando-a por dentro.
Me senti mal como Lia. Eu queria desaparecer com ela.
— Voltando a conversa— Frank bateu as mãos, percebendo o quanto afetava todos nós.
— É! Quero saber mais podres...— Hay falou. Adoravam me detonar.
— Espero que minha mãe nunca veja esse vídeo— sussurrei.
Eu realmente odiava meu passado.
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Tinha ficado apenas eu e a Annie, já estava bem escuro, sentamos em um dos parapeitos na beirada do morro. Olhávamos o movimento falando sobre coisas banais...
— Por que, de verdade, começou a usar drogas?— Annie me olhou, sem expressão.
Suspirei.
— Sei lá...
— Ah, pelos deuses!— bufou, impaciente.
A olhei.
— Não estou brincando, eu só vi e quis experimentar. E acabei me viciando... Meus pais nunca souberam disso— abracei-a, a mesma se encaixou no meu corpo.
— Drogas são pra idiotas— ela sorriu de lado.
— Exatamente, nós somos idiotas— passei a mão nos seus braços frios.
— Qual é a surpresa?— se remexeu nos meus braços, batucando os dedos na minha perna.
— Quer ir agora?— perguntei a contra gosto.
Mal pude pensar e ela já estava atrás de mim, preparada pra ir embora. Virei pra olhá-la e dei um risinho da sua expressão travessa, me bateu uma nostalgia dos bons tempos. Onde só era eu, ela e o mundo a ser descoberto. Tive uma ideia.
— Só se me contar por que foi embora!— sorri amarelo.
Arregalou os olhos e caiu sentada, depois sua expressão se iluminou.
— Oh, você tá brincando!— riu escandalosamente e se apoiou no chão.
Meu interior se converteu pra raiva, por que ela não confiava em mim?
— Não, não estou— falei grosso. E ela se aquietou, me olhando assustada.
— Percy...
— Por que não me conta nada? Não confia em mim?
Seus olhos marejaram, contudo, nenhuma lágrima caiu. Me senti um babaca por isso. Era como se cutucasse com uma faca uma ferida cicatrizada. Eu queria me esmurrar. Enterrou a cabeça nas mãos.
— Na hora certa— falou rouca. Seu sotaque me dava arrepios bons. O vento fustigava, e uma tempestade vinha aí.
— Quando vai ser a hora certa?— perguntei, sem forças pra continuar.— Olha, só me fala isso, não é nada demais. Quer dizer, é tudo. Eu não podia estar pior quando você não voltou no outro verão. Me fala só isso. Acho que me deve.
Encarou-me, frustrada por minha curiosidade.
— Ok, foi você— foi rápida e bruta, como se tirasse um band-aid.
Franzi a testa, achando que ouvi errado.
— E o que eu fiz, exatamente?
— Nada de errado. Eu sou uma imbecil, falow?
— Não, não falow? Por que foi embora?— me levantei e sentei a sua frente, pegando sem suas mão tremulas e frias.
Respirou fundo.
— Eu meio que... Me apaixonei por você, meio não, completamente— um tiro doeria menos que o passado usado na frase por ela dita. Meu coração murchou. Sorriu de leve— não deixe esse fato estragar nossa amizade de agora, eu sou bem superada. Eu juro.
Estragar?, pensei.
Não acreditei em suas palavras, ou não quis acreditar.
— Talvez eu faça você se apaixonar de novo— nós rimos.
— É serio, não faça— ela mordeu o lábio.
— Não acredito que foi embora porque gostava de mim— eu também gosto de você, muito, tanto que dói, complementei mentalmente.
— Bem, eu meio que vi umas coisas aí, e vazei— não me olhava nos olhos, mas não desgrudei os meus dela, até o resto da explicação, não sabia aonde queria chegar.— Me poupe, que você não lembra do que você fez?
— Hm, não?
— Eu ia te chamar pra ir no Museu de Rock em NY e vi você no quarto quase transando com aquela asquerosa da Calipso, com DOZE ANOS, doze— ela se levantou rápido. Mudando totalmente seu tom de voz.— Vamos comer sushi?
Confuso, culpado, um lixo... Foi como me senti, meu rabo que ela sabia disso! O pior que era minha ex. Mas eu nunca deixei de amar Ann. Nunca, nenhum segundo se quer. Entendi o 'não me surpreende'. Eu sinceramente não sabia o porquê que fiz aquilo, se eu a amava. Amava? Eu não a amo? Eu estava confuso e perdido, como tinha feito isso com a garota que amo? Sentia vontade de chorar, queria pedir desculpas, mas minha língua parecia dormente. Não consegui me entender? Queria lembrar o motivo e do dia que a cena acontecera. Mas do meu passado na minha memória só havia Annabeth e drogas.
Seus olhos, cansados e tristes me encaravam, era dor ali. Eu era a porra do motivo de ela nos abandonar. Um merda, eu queria me dar um tiro, e ela ainda me perdoou, como era capaz de tanta...
— Nunca tivemos nada, eu não devia ter fugido como uma garotinha apaixonada— ela riu sem graça.— Mas eu era uma.
Levantei, e sem nem mesmo pensar a puxei para um beijo, tentando expressar meus sentimentos. Lento e nostálgico, agarrei os seus cabelos macios, ela apertava minha cintura contra a dela. Tinha gosto de cigarro, por mais que detestasse assumir isso, estava maravilhoso, colei mais nossos corpos, chupei sua língua e mordi seu lábio vermelhinho, assim como seu nariz. Seu olhar selvagem e desejoso, me fez esquecer a menina, que eu beijei toscamente na chuva. Ela crescera, amadurecera e estava irresistível. O curioso, era minha paixão por ela ter apenas aumentado. Enterrava minhas mãos na juba loira, e passei o polegar na sua bochecha cheia de sardinhas.
— Eu te...— sussurrei e fui interrompido por um selinho longo.
— Eu não vou me apaixonar por você de novo— me deu outro beijo rápido.— Vamos esquecer isso, ok? — sorriu.— Ainda quero descobrir a surpresa!
Meu coração apertou, eu realmente achei meu complemento, a minha razão. E ela sorria na minha frente. Eu a amava! Tanto, eu nunca deixei de amá-la. E eu a perdi. Culpa minha. Mas não a deixaria ir embora, que ficasse por perto como amiga, colega. Que eu só a visse de longe, mas não deixaria que que escapasse dos meus dedos nunca. A agarraria com força, pra sempre.
Eu perdi. E iria ganhar de novo.
Forcei um sorriso.
— Eu vou te mostrar.
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— Pode abrir os olhos— Annabeth estava no meio do palco, e eu nas colchias vermelhas.
— Onde você está? Tá muito escu...
Liguei os interruptores e me aproximei.
— MAIS QUE MERDA, ISSO É UM SONHO!— deu um giro, cética.
O teatro mais famoso de LA, Dolby Theatre. O lugar era uma imensidão de vermelho, a decoração moderna, o palco preto e os infinitos andares.
— Eu estou no palco do Oscar? Estou no... Palco... Do OSCAR? Como isso? Como...?— a cara de mais ingênua e natural alegria.
— Dois mil dólares pra um dos zeladores...— fiz uma careta de quem fez merda, e mostrei as chaves pratas dos fundos.
Ela correu e pulou em mim, se pendurando pelo meu pescoço.
— Louco— ela me olhou infantil, e saiu de perto de mim fazendo estrelinhas.
Queria gritar de tanta felicidade. Vê-la assim...
— Queria tirar fotos, mas acho que podemos ser presos— rimos juntos, coloquei as mão no bolso, envergonhado.
— Temos apenas 9 minutos, até que alguém venhas nos fiscalizar... Desculpe, enrolamos muito...
— Tá louco? Sim, você está, mas não se desculpe. Olhe isso, onde você me trouxe, é extraordinário e excitante— corria de um lado pro outro, descia as escadas e rodopiava.
Parou no centro do palco e segurou um objeto desconhecido e invisível.
— Obrigada! Obrigada— forçou uma voz nobre.— Eu queria agradecer a mim mesma por essa estatueta. E também ao meu eu, porque sem mim... Isso não existiria— caiu na gargalhada. Presa ao seu mundo. Virou pra mim. Eu só sorria abobalhado com seu jeito.
E me puxou pela mão.
— Vamos dançar— neguei, mas continuava me puxando para o meio do palco.
Fiquei bem nervoso e incomodado.
— Coloca a mão na minha cintura— segui suas instruções, ela colocou os braços no meu ombro.
— Annie, eu não sei dançar— sussurrei, corado.
Annabeth me fazia sentir tudo, desde raiva e impaciência a conforto e constrangimento. Eu era um louco apaixonado. Sorriu compreensiva.
— Dois passos pra trás, e dois pra frente, não tem mistério.
Começamos a nos mexer, é não era difícil.
— Você é bom!— sem querer pisei no seu pé.
Rimos juntos da ironia do destino.
— Continua!
— Não tá doendo?
Negou, e continuamos. Sua voz ecoou pelo teatro.
"Cause all of me
Loves all of you"
A girei, e entrelaçamos as nossas mãos, sentindo a música, que pra mim mandava mensagens subliminares e a acompanhei.
"Love your curves and all your edges
All your perfect imperfections
Give your all to me
I'll give my all to you"
Não desgrudamos olhares, intensos. Nossos movimentos entrando cada vez mais no ritmo. O contraste de nossas vozes, a rouca e a afinada. Me arrepiei, e senti um frio na barriga. Era o momento mais perfeito.
"You're my end and my beginning
Even when I lose I'm winning
'Cause I give you all of me
And you give me all of you"
Encostamos nossas testas, ofegantes...
— Mais quem são vocês?— perguntou uma voz áspera, tomei um susto, e puxei Ann comigo, pros fundos.— Eu vou ligar para polícia, vândalos... Voltem aqui!— gritou.
Saímos correndo, sem nem mesmo saber onde estávamos indo, a chuva havia desabado, e nós corríamos pela Boulevard Hollywood, nos perdendo do estacionamento. Esqueci do frio e a beijei, no meio da calçada, precisava sentir sua boca. E ela retribuiu, sem hesitar dessa vez.
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