Notas iniciais
Não revisei, qualquer erro me falem. Espero que gostem, esse está bem maior que o normal :)

Felicity e Oliver se dirigiam à sala de jantar, onde a família fazia todas as refeições, depois de ela ter se arrumado e colocado um vestido rosa salmão rodado e um pouco curto. Para ela, o simples fato de estar perto dele era muito difícil, ainda mais quando o assunto entre eles surgia de uma maneira agradável e fácil, mas fez todo o esforço do mundo para se manter calada e até mesmo um pouco fria. Isso fez Oliver notar que ela estava diferente, e mesmo sem conhecê-la tão bem ele sabia que não estava sendo ela mesma. Todas as suas tentativas de iniciar uma conversa eram recebidas inicialmente com animação, mas ela logo reprimia aquilo, como se lembrasse de alguma coisa, e então voltava a ficar distante.

Ele não gostou daquela Felicity, sabia que algo a estava segurando, como se ela estivesse impedindo uma parte de si mesma de se aproximar dele. Ficou incomodado, e até mesmo um pouco irritado, mas evitou fazer comentários. Seja lá o que fosse, esperava que passasse em breve.

Os dois entraram no cômodo em silêncio, Moira já estava sentada na ponta da mesa, e Thea ao seu lado. A menina se levantou assim que os viu, aproximando-se de Felicity com um sorriso.

— Bom dia Felicity! Boa tarde, da verdade. Sou Thea, muito prazer!

— O prazer é meu. — Trocaram um aperto de mãos rápido. — Ah, e obrigada pelas roupas! Oliver disse que foi você que as conseguiu para mim.

— Imagine! Não foi nada.

Oliver se acomodou do outro lado da mesa, perto da mãe, e Felicity sentou ao seu lado.

— Teve uma boa noite Srta. Smoak? — Moira perguntou de maneira formal.

— Sim, obrigada.

— Que bom. Eu estava pensando se gostaria de ir com Thea até o centro da cidade para um passeio, ou talvez algumas compras se estiver precisando de alguma coisa.

— Eu não sei...

— Sim!! — Thea a interrompeu. — E Felicity, devo dizer que sou a melhor amiga de compras que irá encontrar na cidade! Conheço todas as melhores lojas. — Se gabou.

— Acho que posso ir também. — Oliver disse, recebendo um olhar de Moira. — Quero comprar um relógio novo. — Inventou uma desculpa qualquer.

— Esperem, vamos com calma! — Felicity se manifestou, falando um pouco alto. — Desculpem-me. Eu agradeço a oferta Sra. Queen, mas você já está me oferecendo hospedagem, e eu não trouxe nenhum dinheiro... Não me sinto confortável estando às suas custas dessa maneira.

— Felicity, isso não nos fará falta, por favor... Considere apenas uma diversão para Thea. — Oliver falou revirando os olhos.

— Oliver está totalmente certo, pelo menos uma vez na vida. — Sua irmã concordou.

— Mas eu não preciso de nada... De verdade. E além disso vou me sentir na obrigação de retribuir de alguma maneira.

— Oh, eu insisto! Sei que precisa não somente das compras mas também do passeio, e se está se sentindo em dívida, apenas lembre do que conversamos na noite passada. — Moira sabia ser gentil e ameaçadora ao mesmo tempo, e aquilo fez um calafrio descer pela espinha de Felicity.

— Sim senhora! Quer dizer.... Está bem. — Acabou concordando por livre e espontânea pressão.

O almoço estava uma delícia, e a única que estava animada para falar era Thea. Entre uma garfada e outra ela tagarelava sem parar, o que contribuiu para aliviar a tensão de Felicity, embora a loira não prestasse muita atenção. A sobremesa era torta de sorvete, um pedido especial de Oliver, e estava divina! Ao fim da refeição Moira se retirou, alegando que ia para a empresa, e deixou os três sozinhos.

Thea notou que Felicity pareceu relaxar depois da saída de sua mãe, o que era estranho. Havia alguma coisa ali que ela prometeu a si mesma que iria descobrir, mais cedo ou mais tarde. Outra coisa que percebeu foi como Oliver parecia encantado com ela, por mais que tentasse disfarçar. Ele tinha um brilho diferente nos olhos, e era impossível ficar mais de alguns segundos sem direciona-los na direção da loira, principalmente quando pensava que ela não iria perceber.

A irmã de Oliver, apesar de mais nova e aparentemente imatura, era exatamente o contrário. Sua facilidade em ler as pessoas era uma coisa que impressionava a todos, sem exceções. Nos poucos minutos que passou com Felicity foi capaz de notar que a moça se esforçava para esconder alguma coisa. Ela era naturalmente tímida, embora fosse divertida e simpática, mas por trás daquela face angelical havia uma mulher forte e inteligente. Estava claro que entre os dois havia uma tensão que ela ainda não sabia nomear. Era o início de um sentimento ao qual Thea foi se acostumando e se afeiçoando. A maneira como eles se entendiam e se comportavam um ao lado do outro era extremamente natural, e aquilo parecia fazer ambos felizes. Oliver sorria muito frequentemente e estava até mais falante, o que ela no via há muito tempo. Desde que seu irmão voltara da guerra ele havia se tornado solitário e introvertido, mas quando Felicity estava por perto ele parecia um jovem despreocupado novamente.

Diante de tudo aquilo ela resolveu deixá-los à sós. O que quer que sentissem um pelo outro ela torcia para que evoluísse para algo mais forte, e contribuiria para que isso acontecesse de todas as maneiras que conseguisse.

— Bom... Vou falar ao motorista que sairemos às 16 horas. Agora, se me dão licença, preciso tomar um banho antes de sairmos

— Ela foi até a porta e acrescentou. — Oliver, o que acha de mostrar a casa à Felicity? Vai evitar que se perca. — Com isso saiu sem esperar resposta.

— Era isso que eu estava planejando mesmo. — Oliver falou. — Vamos? — Ele levantou, lhe estendendo o braço para que enlaçasse o dela no seu.

— Claro.

Os dois andaram pela mansão passando por quase todos os cômodos. Felicity ficou encantada com tanto luxo, mal podia se imaginar morando em uma casa assim. Parecia mais um castelo, algum lugar que não havia sido feito para ser habitado, apenas admirado. No segundo andar havia pelos menos doze quartos, e isso só na área que era perto do seu. Uma três salas de estar, inúmeras sacadas, incontáveis banheiros, e uma biblioteca enorme. Até então aquele espaço fora o seu favorito. As paredes eram cobertas por estantes que iam do chão ao teto em uma madeira escura e bem polida. Uma infinidade de volumes encadernados em couro e com títulos em dourado as recheava completamente, deixando Felicity curiosa sobre tudo o que poderia aprender ali. Sua vontade era de sentar em uma das confortáveis poltronas à beira da janela com vista para o jardim e mergulhar a cara nos livros por horas e horas, mas o passeio não acabara. Ela tinha que admitir, Oliver era um ótimo guia. Sua voz era como música ao contar todas os momentos memoráveis da infância que passara ali.

— Então quer dizer que você era uma criança levada Queen? Bem a sua cara.

— Eu era uma criança curiosa, que adorava fazer descobertas! Não me julgue.

— Realmente, pular do segundo andar com um guarda-chuva aberto sobre a cabeça achando que era capaz de voar não é uma coisa que merece julgamento! — Falou com ironia.

— Não mesmo! É pura física.

— A física exige um material mais resistente e uma estrutura mais forte para aguentar o seu peso. Talvez se nos conhecêssemos naquela época eu poderia ter o alertado antes que quebrasse o tornozelo pulando daquela altura.

— Desde criança você é um prodígio das ciências exatas?

— Bom... Desde que me entendo por gente gosto de números e letras. Eles dão uma certa noção de como as coisas funcionam, e até mesmo a impressão de que temos algum controle sobre o mundo. Gosto de saber das coisas.

— Hmm... É, talvez naquela época fosse você a me salvar. — Os dois sorriram.

— Não tenho dúvidas!! — Felicity falou, se afastando um pouco dele. Ela pegou um porta-retrato da estante. Na foto havia duas crianças, um menino loiro de olho azuis e uma menina com feições orientais e cabelos pretos e lisos. — É você e quem mais?

— Shado. Fomos melhores amigos até os seis anos mais ou menos, então ela e os pais se mudaram para a China e nunca mais nos vimos.

— Hmm... Sente falta dela?

— Não. Para falar a verdade nem lembro direito, éramos muito pequenos. Depois disso conheci o Tommy e ficamos inseparáveis. Mas como já lhe contei antes, com toda aquela história do término do meu noivado ele se voltou contra mim e acabamos nos afastando. Hoje ele e Laurel, minha ex-noiva, são casados.

— Deve ser difícil... Perder um amigo assim. Não se incomoda de eles estarem casados hoje?

— Não, nem um pouco. Acho que Tommy sempre foi apaixonado por ela, e foi esse o motivo de ter ficado do seu lado quando terminei tudo. Se pudesse restauraria a amizade com ele, mas Laurel não é uma grande fã minha nem eu dela, se é que me entende.

— Entendo sim...

— E quanto a você, tem uma melhor amiga?

— Não. Quando deixei Starling queria recomeçar a vida, por isso cortei relações com todas as pessoas que conhecia. Mas tenho um grande amigo onde moro, o nome dele é John Diggle e é policial. Falei dele a você... Me abrigou, cuidou de mim como um irmão mais velho... Ele é um dos motivos pelos quais me arrependo de ter casado com Ray.

Oliver ouviu aquilo com certa suspeita. Será que ela gostava desse John Diggle mais do que apenas como amigo?

— Ah... Você... Gosta dele?

— Claro que sim, somos amigos. — Ela respondeu, demorando para perceber o real significado da pergunta. — Ah, mas não desse jeito!! Me arrependo porque sou muito grata a ele, mas Ray tinha ciúmes e não me deixava ir vê-lo com frequência. E sua mulher, Lyla, também é muito simpática. Eles têm uma filhinha chamada Sarah, é uma graça!

— Você quer ter filhos um dia? — Aquela pergunta era inesperada, para os dois.

— Eu... Não sei. Depois de toda essa coisa com Ray acho que não terei a oportunidade novamente. Mas sim, sempre pensei em uma casa, duas crianças, um cachorro... E você?

— Não faço ideia. Nunca convivi muito com crianças para saber se gosto ou não, a não ser Thea. Mas quem sabe... Talvez eu encontre uma mulher que faça surgir esse desejo em mim. — Oliver falou aquilo olhando profundamente nos olhos de Felicity, que corou e lhe dirigiu um sorriso sem graça, sem falar mais, — Bom... Tem mais um lugar que quero lhe mostrar.

— Qual?

— Você gosta de arte? — Respondeu com outra pergunta.

— Sim.

— Então vamos.

A mansão dos Queen possuía uma galeria de arte, por assim dizer. Era um corredor largo com os mais variados quadros pendurados nas paredes. Havia pinturas realistas, naturalistas, impressionistas, clássicas... Era simplesmente divino. Uma coleção digna de um museu.

Felicity olhava cada quadro com uma atenção quase hipnótica, reparando em todos os detalhes. Aquilo tudo deveria custar uma fortuna!

— Qual o seu favorito?

Oliver apontou para um quadro grande que retratava uma tempestade em alto mar com barcos e pessoas em meio às ondas.

— É "O naufrágio", de William Turner.

— Por que esse?

— Meu pai morreu em um acidente de barco. Embora seja uma pintura triste, me lembra ele. — Felicity se aproximou de Oliver, um homem tão novo que carregava tanta tristeza em seus olhos, e afagou seu ombro em um gesto de carinho. — E você, de qual gostou mais?

Ela pensou um pouco e foi até um quadro na outra parede.

— Este aqui, qual é o nome?

— "Le Moulin de la Galette", de Renoir, 1876. É lindo, realmente.

Ela sorriu.

— Tenho bom gosto.

Oliver soltou uma gargalhada audível, voltando a acompanhá-la no caminho de volta aos quartos.

— Não seja tão convencida. — Ela, ao invés de lhe responder, mostrou a língua como uma criança. — Sabe o que dizem sobre as pessoas que mostram a língua?

— O quê?

— Que elas estão pedindo beijo. — Ele terminou a frase mordendo o canto do lábio, provavelmente sem nem saber a que lugar os pensamentos de Felicity iam com aquele simples gesto.

— Eu... Não estou pedindo um beijo seu. Não... Não que eu não queira beijá-lo, porque eu quero. Quero dizer, NÃO! Não quero! É só... Te beijar não é uma opção ruim. Por exemplo, se eu fosse a branca de neve e você o príncipe, ficaria feliz em receber um beijo seu. Mas isso é uma situação platônica... E hipotética. — Terminou a frase com a face da cor de um tomate. Oliver não sabia se ria ou se ficava envergonhado. — Eu acho melhor ir ao meu quarto, me arrumar. — Ela falou antes que ele respondesse e saiu pelo corredor quase correndo.

— Espere, posso acompanhá-la! Também vou ao meu quarto...

— Mas ela já não estava mais em seu campo de visão, e a única coisa que ele ouvia eram seus passos apressados.