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25 Capítulo 25
Felicity e Thea estavam na mesma loja de vestidos há pelo menos quarenta minutos, isso sem contar as outras pelas quais haviam passado. A loira sentia seus pés doerem de tanto andar e não aguentava mais provar roupas nem sapatos. Ao seu redor estavam espalhadas meia dúzia de sacolas com as coisas que a mais nova insistira em comprar para ela, e mais uns três copos de café que ela tomara enquanto Thea tentava decidir entre levar um vestido absurdamente caro com aplicações de pérolas na gola ou dois mais simples e não menos deslumbrantes que equivaliam àquele preço. Oliver desistira de acompanhá-las ainda no começo do passeio e resolvera realmente comprar um relógio novo.
— Felicity, o que acha deste? — Thea lhe mostrava um vestido azul aparentemente muito justo em todo o comprimento, que ia até abaixo dos joelhos e tinha um preço exorbitante.
— É lindo Thea, mas já não basta os outros três que lhe deixaram na dúvida? — Falou cansada e um pouco irritada.
— Não é para mim, tolinha. É para você!
— O que??? — Ela arregalou os olhos, a voz elevada. — Thea, você está maluca? Olhe o preço desse vestido! Acho que já comprei o suficiente para abastecer meu armário por uns dois anos, não preciso de mais nada.
— Fel! Deixe de ser chata. Prove só mais este, por favor! Aposto que vai ficar lindo.
— Não... Não é nem um pouco o meu estilo, vou parecer uma pata gorda enrolada na cortina!
Thea soltou uma gargalhada sonora atraindo todos os olhares na loja, mas ignorou como se nada tivesse acontecido.
— É o último, eu prometo! Depois disso pode apenas relaxar aí enquanto decido o que vou levar. — Ela falou, quase implorando.
— Está bem. Mas só vou provar! Sinto que se comprar mais um grão de milho vou falir a família Queen.
— Oh, deixe de ser boba. — Thea colocou o vestido nas suas mãos e continuou falando com uma voz autoritária. — E só volte aqui quando estiver vestida como uma pata fabulosa!
— Sim senhora. — Falou já entrando no provador.
Thea continuava andando pela loja e revirando as araras de roupas em busca de algo que a agradasse quando Oliver entrou e se dirigiu ao caixa.
— Maninho! O que faz aqui? — Falou, e ele se virou com uma expressão de alívio.
— Finalmente encontrei vocês! Já entrei em todas as lojas de vestido do quarteirão! Cheguei a pensar que tinham ido para casa sem mim!
— Tão cedo? Até parece... Já comprou o que queria?
— Sim. — Disse olhando ao redor. — Onde está Felicity?
— No provador. Há alguns bancos lá se quiser sentar para esperar.
Ele assentiu e estava indo até o provador quando Felicity saiu de lá e, sem ao menos notar sua presença, foi capaz de fazer seu mundo parar naquele exato momento. Ela estava deslumbrante, suas curvas delineadas pelo tecido justo do vestido, os olhos brilhando ao se olhar no espelho de corpo inteiro, os cabelos jogados por cima do ombro deixando as costas nuas... Ela tinha esquecido de fechar o zíper e Oliver agradeceu baixinho por isso. Estava de costas para ele, analisando sua silhueta de cima a baixo como se estivesse gostando do que via. Deu um pequeno rodopio e parou ao ver Oliver parado na sua frente.
Eles não haviam trocado nenhuma palavra desde o momento no corredor quando ela simplesmente saíra correndo, e ele ansiava por poder conversar com ela novamente para que pudessem esquecer aquilo.
Felicity corou assim que o viu, por isso olhou para baixo e virou novamente para o espelho.
— Então... O que achou? — Perguntou, evitando seu olhar no reflexo à sua frente. Oliver parecia abestalhado, com a boca um pouco aberta e os olhos arregalados. Ele estava encarando sua bunda??? — Oliver? — Chamou-o, e aquilo pareceu tirá-lo de seu devaneio.
— Você esqueceu de fechar o zíper. — Falou andando até ela.
— Oh, Deus!! Eu sempre esqueço. — Tentou alcançá-lo para que pudesse fechar mas suas mãos estavam tremendo e não foi possível. Oliver parou a poucos centímetros de distância, perto o bastante para que pudesse sentir a respiração dele me seu pescoço.
— Posso? — A interrogou com um olhar.
— Sim, claro. — Ele arrastou o zíper para cima com uma lentidão tortuosa que arrepiou Felicity da cabeça aos pés. Se aquilo era ele fechando o vestido, imagine só como seria abrindo! "Ah meu Deus, pare de pensar nisso sua pervertida!" — Ela repreendeu-se em silêncio. — Obrigada. — As palavras saíram em um sussurro.
— Agora sim. — Ele se afastou para ter uma visão melhor. — Você está deslumbrante! — Felicity lhe deu um sorriso sincero, e antes que pudesse responder Thea entrou no provador como um furacão.
— AI MEU DEUS! Você está linda!! Felicity, se você não comprar esse vestido por vontade própria eu juro que te obrigo a fazer isso!
— Thea! Eu disse que ia apenas provar, e você prometeu...
— Mas isso foi antes de eu vê-lo em você!
— Não interessa! Já comprei coisas de mais, pare de insistir!
— Você que escolhe, ou vai por bem, ou vai por mal. — Thea cruzou os braços com uma expressão teimosa.
— Não vai de jeito nenhum!!! — Felicity entrou novamente no provador com passos pesados e parecendo muito irritada.
— Isso é o que veremos. — Ela se virou para o irmão. — De que lado você está Oliver?
— Eu... — Ele a fitou atônito, sem saber o que respondia. Era óbvio que queria que ela comprasse o vestido, mas não queria falar sabendo que podia ouvir do outro lado da cortina. Por isso escolheu mudar de assunto. — Felicity, o que acha de irmos tomar um sorvete?
— Acho ótimo! Thea não sairá dessa loja tão cedo e eu já estou sem paciência. — Ele ouviu a voz irritada da loira responder.
— Estou te esperando na porta.
— Está bem.
Oliver saiu em direção à porta arrastando Thea consigo.
— Compre o vestido assim que ela sair. — Disse à irmã que abriu um sorriso vitorioso. — E embale para presente, mas não diga nada a ela. Eu quero entregar.
— Como quiser!!! — Ela já ia sair saltitando quando tomou coragem para fazer uma pergunta bem direta. — Oliver, você gosta dela? — Foi possível perceber o nervosismo dele ao ouvir aquilo.
— De quem? — Thea revirou os olhos.
— Felicity!!! Ora bolas... Quem mais seria?
— Eu... — Ele pareceu ponderar antes de responder. — Gosto de tê-la por perto, só isso. — Ela estreitou os olhos com um olhar suspeito. Conhecia-o por uma vida inteira e sabia quando estava escondendo algo, ainda mais quando se esquivava de suas perguntas. — Speedy, cuide da sua vida, está bem? Felicity e eu somos apenas amigos!
— Você não me engana Queen. — Dessa vez foi Oliver quem revirou os olhos.
— Continue olhando seus vestidos okay? E nos encontre na sorveteria em uma hora no máximo! — Felicity já caminhava em sua direção, alheia ao assunto da conversa dos dois.
— Uhum. — Thea concordou insatisfeita.
— Vamos? — A loira disse para Oliver.
— Claro. — Ele respondeu lhe estendendo o braço.
Eles caminharam tranquilamente de braços dados e tiveram a oportunidade de esquecer o momento constrangedor de mais cedo. Chegaram à sorveteria e Felicity se mostrou a pessoa mais indecisa do mundo quando o assunto era sorvete. Foi obrigada a pegar um pote de tamanho grande pois as duas bolas que a casquinha suportava não eram o bastante. Conversavam animadamente quando Thea chegou com mil e uma sacolas nos braços e uma expressão nada satisfeita no rosto.
— Você poderia ao menos ter carregado algumas das suas sacolas não é Felicity? — Falou irritada sem esperar uma resposta e já se dirigindo aos freezers para escolher o seu sorvete.
Eles caminharam de volta ao carro, Thea alegre com sua casquinha e Oliver encarregado das sacolas pois, segundo ela, era obrigação dele ser um cavalheiro. No caminho de volta à mansão as duas moças fizeram as pazes e voltaram a se divertir com todas as histórias compartilhadas sobre suas infâncias, e até mesmo Oliver contou algumas das suas, coisas que Thea esperava não ouvir nunca mais saindo de seus lábios.
Quando chegaram em casa já havia anoitecido, e Moira os esperava com o jantar pronto. Todos os advogados que encontrou ao seus dispor iriam fazer a refeição com eles para que pudessem discutir sobre o caso de Felicity.
Para ser bem sincera, a loira pensou que seria muito pior, mas até que não foi. Ficou combinado que eles enviariam a Ray o pedido de divórcio por meio de um dos advogados na manhã seguinte, e em seguida marcariam uma audiência no tribunal para justificar a decisão e explicar sobre as agressões e o comportamento abusivo de seu futuro ex-marido. Com Oliver como testemunha ela não precisaria se preocupar com qualquer coisa que Ray dissesse para negar os fatos, e além disso fariam o pedido de uma ordem de restrição para que ele não se aproximasse mais dela.
Também disseram que Ray ainda estava hospedado no apartamento da sogra, e se o estavam espionando para saber disso ela pouco se importava. A única parte que não gostou daquilo tudo foram as acusações que usariam contra ele. Eram todas verdadeiras, e em parte ela queria que ele fosse punido pelo que a fez passar, mas mesmo assim... Ela o amara o bastante para casar-se com ele, e por algum tempo foram muito felizes juntos. Não queria vê-lo atrás das grades ou ser responsável por arruinar sua vida. Seu único desejo era estar longe dele, depois que isso acontecesse esperava que ele seguisse sua vida e fosse feliz.
— Eu concordo com quase tudo o que disseram senhores. Posso perceber que em pouco tempo já fizeram um ótimo trabalho, mas preciso pensar se quero mesmo acusar Ray de todas essas coisas. O que ele fez foi imperdoável mas não quero que, além de me perder, ainda sofra com isso. A separação por si só já é o bastante. — Falou ao término das explicações. Moira, na ponta da mesa, deu um suspiro audível mas não falou nada, aquilo era uma decisão dela, mas Oliver que estava ao lado de Felicity foi totalmente contra.
— Como você pode falar isso? — Falou exaltado. — Felicity, eu vi o que ele estava fazendo com você!!! Ele a agrediu!! Vi as marcas dos dedos dele no seu pescoço! Você consegue imaginar o que aconteceria se eu não estivesse lá?
— Eu sei muito bem o que teria acontecido, mas você tem que entender que ele não estava em seu juízo perfeito! Ray tem problemas com a bebida e esse é o único motivo para ter agido daquela maneira. — Felicity rebateu.
— Ele pode até ser um homem bom quando não está sob o efeito do álcool mas eu vi o olhar de maníaco que ele tinha quando rasgou seu vestido! Ele a teria violentado! Será que entende isso? Não pode achar que um homem desses deva sair impune. — Ele havia levantado e jogado o guardanapo sobre a mesa
— Eu acho Oliver! No fim das contas sou eu que o conheço, está lembrado? Sou eu que estou tomando as decisões aqui, então sou eu que devo decidir acusá-lo ou não, e eu estou dizendo que preciso pensar! Está claro? — Ela também se levantou, devolvendo a ele o mesmo olhar teimoso que dirigia a ela.
— Você ainda o ama, mesmo depois de tudo! — Ele falou aquilo como se fosse uma acusação.
— Isso não lhe diz respeito Sr. Queen! — Felicity sentia toda a sua raiva naquelas palavras. — Com licença, preciso de ar. Acho melhor continuarmos essa discussão outro dia. — Falou se dirigindo à todos no cômodo e se retirou sem saber ao menos para onde ia.
Tanto os advogados como Thea e Moira estavam boquiabertos com aquela discussão, e Oliver tremia de raiva. Ele também se retirou, indo na direção oposta de Felicity, direto para o quarto e batendo a porta ao entrar. A única coisa na qual conseguia pensar era no rosto de Felicity ao ouvir a última frase que pronunciara. Havia magoa, raiva, desprezo, mas acima de tudo havia uma verdade inegável estampada em seus olhos que fora capaz de abrir um buraco em seu peito. Ele não podia suportar aquilo.
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