You Worth My Sacrifice
1 Kalena
Notas iniciais

O vento soprava forte pelas ruas escuras de Kalena, uma cidade nem muito tumultuada, nem muito conhecida. As pessoas não costumavam a visitar, algumas vezes nem mesmo costumavam a conhecer. As escolas, pouco frequentadas, pareciam lugares abandonados e assombrados.
As ruas sempre se encontravam vazias, as pessoas normalmente gostavam de ficar dentro de suas casas, com suas famílias tomando um chá, assistindo a um filme ou qualquer coisa que julgassem como relativamente importante. Nicolas era uma dessas pessoas, ficava sempre em casa, só saía para ir até sua escola.
Nicolas Henderson é o tipo de pessoa que, por mais que seja rodeada de amigos, aprecia muito bem o silêncio tranquilo e agradável de seu quarto – lugar onde passa a maior parte do tempo. Seus livros permanecem sendo suas mais fiéis companhias, além de serem extremamente divertidas, engraçadas e empolgantes.
Quando sua vida não é das mais animadas, é uma aventura sentar e ler um livro. Sua leitura atual não é das mais interessantes aos seus olhos. Está lendo Romeu e Julieta, pois terá em poucos dias uma prova oral sobre esse livro. Sua preferência mesmo são livros de aventura, livros recheados de coisas fantásticas, criaturas sobrenaturais e lugares consideráveis fantasmas.
Nicolas queria poder dizer que sua vida era cheia de aventuras como as que tanto amava em seus livros, mas nem mesmo luz havia em seu caminho. Sua vida não era cheia de luz, alegria e amor, ainda que fosse rodeado de pessoas incríveis, se sentia imensuravelmente vazio. Talvez essa tal luz que ele tanto procurava não fosse assim tão luminosa, pois quanto mais claridade obtivermos, mais coisas ruins iremos enxergar em nossa frente.
De que adianta um mundo cheio de luzes que mostram todas as dores, todas as tristezas, os sofrimentos, decepções e mágoas das pessoas? Isso além de suas ruindades, o egoísmo alheio, a falta de compreensão, carinho e respeito? O garoto acreditava que talvez, e só talvez, fosse melhor permanecer no escuro da sua própria ignorância. Era melhor fingir que tantas coisas cruéis não existiam do que as ver e ter que lidar de perto com elas.
Nicolas é um garoto comum, um garoto como qualquer outro. Ele tem dezesseis anos de idade, está no segundo ano do ensino médio e tem dois melhores amigos: Andrew e Brian – Nicolas os conhece desde o ensino fundamental e se apegou tanto a eles que nunca mais os largou.
Em aparência, o Henderson tem olhos verdes, pele clara, cabelo preto e liso, sempre arrepiado para cima. Tem cerca de 1,67 de altura, se acha incrivelmente baixo se comparado aos seus amigos e colegas. É magro e anda sempre com roupas comuns, que aparentam ser de alguém maior que ele. Suas calças sempre caindo e rasgadas em algumas partes, camisetas largas e, no frio, moletons igualmente grandes. Essa é a maneira que gosta de se vestir.
Ainda que Nicolas seja uma pessoa que acredita no irreal de seus livros, não é credor de coisas que as pessoas normalmente acreditam. Uma dessas coisas é Deus. Ele não julga quem acredita, ou os desrespeita, mas já discutiu com muita gente que tentou impor a ele suas respectivas religiões. Nicolas acredita que cada um tem o direito de decidir naquilo que vai crer ou descrer. Todos têm esse direito.
Outra coisa que ele simplesmente não acredita, é naquela frase de que “cada um faz o seu destino”. Não. Nicolas não acredita naquilo que não pode provar. O destino, pelo menos para ele, é a sequência de coincidências que se juntam, se fundem e, conforme o seu acúmulo, se transformam em novas ações. Tudo que você faz agora, pode – e com certeza vai – refletir no seu futuro.
Muitos dizem para Nicolas que ele não deveria ler tanta coisa irreal, pois isso está implicando com suas crenças verdadeiras, que de certa maneira nunca chegaram a existir. Ele não mudou seu pensamento, simplesmente nunca acreditou nessas coisas. E, ao contrário do que todos pensam, não é porque ele lê livros de fantasia que vai começar a acreditar nas coisas que constam nesses livros.
Ele não vai entrar em seu guarda-roupa para tentar ir para outro mundo, muito menos irá tentar atravessar a parede da estação de trem para ir até uma escola de magia. Ele gosta do sobrenatural, mas sabe que é de verdade apenas em sua imaginação, que cria imagens para as palavras existentes naqueles papeis que são como a mais pura e verdadeira magia para ele.
Não é porque ele lê essas coisas que espera andar pela rua e encontrar um vampiro, um zumbi ou um alienígena. Ele não espera encontrar uma bruxa, um demônio, um anjo, um Deus, nada disso. Ele lê para se divertir e entrar em mundos diferentes em sua imaginação. Nada além.
Naquela tarde de sábado, Nicolas estava sentado em sua cama, lendo o tal livro obrigatório, com a forte luz do quarto acesa e uma xícara de café no criado-mudo ao seu lado. Sua mãe, Cassandra, estava na sala de estar; o pai de Nicolas, Matthew, estava no escritório que havia dentro da casa, cuidando de assuntos relacionados ao seu trabalho. Cassandra trabalhava, era gerente de uma loja de roupas, enquanto Matthew era um publicitário de respeito na pequena cidade de Kalena e até mesmo nas vizinhas da cidade citada.
O jovem Henderson revirava os olhos a cada palavra que lia. Estava odiando aquele tipo de escrita, odiando ler um romance que julgava tão sem graça. Não conseguia entender como tantas pessoas achavam tanto glamour em um livro como aquele. Nicolas não sabia também de quem sentia mais ódio, se era de Romeu ou de Julieta, ou ainda de William Shakespeare por ter um dia escrito esse livro.
Era deprimente ter que passar seu sábado lendo algo que fora obrigado. Preferia muito mais estar escrevendo seus contos diferentes ou lendo algum de seus livros. Queria ir até a livraria do centro da cidade para comprar um novo exemplar, já que recentemente tinha dado por encerrada a leitura de todos os seus atuais livros. Dava uma pequena vontade de chorar, pois estava sem ter o que ler quando acabasse essa história tão “chata” ao seu ponto de vista.
Talvez até olhar para o teto fosse mais interessante do que aquela história. A fim de desligar-se um pouco da monotonia que aquela leitura o passava, largou o livro de canto e andou até sua escrivaninha, sentando-se em sua cadeira no momento seguinte. Ligou seu computador, digitou o site onde costumava ouvir músicas e botou Black And Yellow do Wiz Khalifa para tocar. Começou a cantar a música assim que a mesma começou, espairecendo um pouco.
Levantou da cadeira e deixou a música invadindo o seu quarto enquanto arrumava sua cama, que estava com as cobertas bagunçadas e seus cadernos atirados, antes de iniciar sua leitura estava fazendo alguns deveres de casa. Sentiu que estava sendo observado e olhou em direção à porta: a mesma se encontrava fechada.
Estranhou aquilo, pois não lembrava de tê-la fechado. Dando de ombros e voltando a cantar, encarou a janela por onde antes entrava um vento frio. Era engraçado, já que ela também estava fechada e trancada, mas Nicolas não a havia fechado.
— Eu adoro essa música! – Alguém exclamou. Nicolas olhou para todos os lados de seu quarto. Não tinha ninguém ali além dele.
Será que havia lido tanto que agora estava fantasiando coisas ou alucinando? De uma coisa ele tinha certeza: não tinha ninguém que pudesse enxergar naquele quarto.
Mas será mesmo que ele estava sozinho em seu quarto?
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