You Worth My Sacrifice
2 Elieser e Gabriela
Notas iniciais

Nenhum resquício de claridade se emergia na completa escuridão do quarto de Nicolas. Algo na inexistência de luz e no silêncio incomodava o menino, que não havia ainda parado de pensar sobre a voz que escutou e no fato de que não havia ninguém no quarto.
O garoto olhava para todos os cantos enquanto estava deitado em sua cama. Já era madrugada, estava perto das três da manhã e ele simplesmente não conseguia fechar seus olhos em paz. Sentia que algo – ou alguém – o observava e tinha medo de isso atormentá-lo enquanto tentava dormir.
As horas passavam-se de uma maneira incrivelmente lenta, como se até elas estivessem conspirando contra Nicolas. Quando os primeiros raios de sol entraram em seu quarto, passando por sua cortina, ele finalmente percebeu que não haviam motivos para seu medo persistir e, assim, acabou fechando os olhos e, em seguida, dormindo tranquilamente.
Foi acordado por sua mãe no horário em que ela estava servindo o almoço. Era domingo, por isso lhe foi permitido dormir por mais tempo. Sentia que as poucas horas dormidas apenas o haviam deixado com mais sono e levantou com uma dor de cabeça o infernizando.
Quando sentou para almoçar, seu pai o encarou como se percebesse que algo estava errado com o filho, que se encontrava demasiadamente aéreo, provavelmente flutuando em seus pensamentos.
— Filho, aconteceu alguma coisa? Você parece um pouco abatido. – Matthew o encarou preocupado, vendo que o filho o olhou um pouco assustado. – Você está bem?
— Eu não dormi direito, só isso, pai. – Nicolas disse de maneira convincente, mas aquilo não era o suficiente para seus pais.
Porém nada mais foi dito durante a refeição, pelo menos não sobre a estranheza do filho. Falaram sobre coisas banais, coisas que não eram tão importantes na visão de Nicolas – mesmo que ele não se importasse muito com a maioria das coisas do mundo.
A mãe de Nicolas o encarava como se esperasse por uma explicação ou pelo menos uma resposta decente, algo melhor do que ele não ter dormido direito, mas nada foi escutado vindo do menino. Ele permaneceu em silêncio o tempo inteiro, sem nem prestar atenção no que os pais falavam. Por que algo que poderia ter sido apenas uma ilusão de sua mente estava o incomodando tanto?
Não sabia dizer o motivo, apenas sabia que não estava com uma boa sensação sobre aquilo. Qual era a razão de ele ter escutado uma voz que o causou um arrepio? Qual o motivo de ter levado um susto com algo que nem mesmo tem certeza de ter escutado?
Após comer e ajudar sua mãe com a louça, Nicolas voltou ao seu quarto, sentando-se de qualquer maneira na frente de seu computador. Queria distrair sua mente, então procurou por uma série ou filme para assistir. Como tinha ainda que terminar de ler Romeu e Julieta, resolveu ver uma adaptação do livro.
Na metade do mesmo já não aguentava mais, estava quase dormindo, até que caiu da cadeira com o susto que levou ao sentir alguém sussurrar em seu ouvido:
— Podemos viver um romance como o deles se quiser.
O coração de Nicolas batia forte, seus sentidos pareciam ter ido embora e sua respiração estava quase o abandonando também. Por que aquela voz o estava perseguindo? Por que aquela voz estava o deixando tão aflito e curioso? Mais uma vez as coisas saíam do controle e sua mente parecia traí-lo, não conseguia tirar aquilo de seus pensamentos.
— Quem está aí? – A voz de Nicolas quase fez eco no quarto e ele sentiu alguém soltar uma risada ainda perto de seu ouvido, o fazendo mais uma vez se arrepiar.
— Alguém que te deseja.
Nicolas se remexeu, sentindo-se incomodado com os arrepios que lhe estavam sendo proporcionados por conta da proximidade daquele ser com voz masculina.
— Eu não ligo. Quero saber por que está me atormentando. – Tentou o menino, ouvindo uma gargalhada em resposta.
— Estou te protegendo, Nicolas. Apenas isso. – A voz apenas deixou o garoto ainda mais assustado. – Eu não vou te ferir, mas não pense que sou um ser apaixonado por você, pois eu claramente não sou. Apenas te quero, mas para que você me conheça e eu possa te ter, você terá que ampliar seus horizontes. Porque, caso não tenha percebido, sou um homem.
— E por que me deseja?
— Suas dúvidas logo serão sanadas, desde que você faça o que solicitei. Você saberá quem eu sou quando me ver.
Nicolas agora se encontrava ainda mais confuso porque, de repente, o ar em seu quarto ficou mais leve e ele não mais se sentia ser observado. Ainda se sentia estranho, mas agora tinha plena certeza de estar sozinho no pequeno quarto, o qual agora parecia tão enorme.
Quando por fim levantou-se do chão, voltou a sentar-se na frente do computador e foi assistir o resto do filme, para mais uma vez usar o intuito do início: distrair seus pensamentos.
O que aquela pessoa queria dizer com desejar Nicolas? O garoto sentiu tamanho incômodo com tais palavras, mas, ao mesmo tempo, elas pareceram despertar algo em si, algo além de seu coração disparado. Descobrir o que era seria um grande desafio, mas quem não gosta de desafios, não é?
Nicolas não gosta. Olhava para o filme, mas tudo que vinha à mente era aquela frase do ser misterioso:
"Podemos viver um romance como o deles se quiser."
O que aquilo queria dizer? Afinal, o homem — como ele mesmo se autodenominou — disse que não estava apaixonado, que o que estava a sentir era desejo. Mas o que tinha de atraente em Nicolas para alguém desejar? O menino simplesmente não conseguia enxergar isso e tinha quase certeza de que realmente não tinha nada de atraente em si.
As horas passavam tão lentamente, que Nicolas queria ter o poder de acelerá-las. Queria que a segunda-feira, no caso amanhã, chegasse rápido, assim iria para a escola e se distrairia.
Ele não poderia estar mais errado.
No momento em que acordou no primeiro dia letivo da semana, sentiu sua cabeça latejar como se Nirvana estivesse tocando "Smells Like Teen Spirit" dentro de seu cérebro e essa, com certeza, não era uma sensação agradável.
Mesmo que sua vontade fosse ficar atirado em sua cama sob as cobertas, levantou-se e foi para o banheiro tomar um bom banho. A água quente o fazia sentir uma enorme vontade de permanecer infinitamente ali, mas mesmo assim se limitou a breves dez minutos. Quando voltou ao seu quarto, com uma toalha enrolada na cintura, passou a escolher uma roupa e se vestir para a aula.
Optou por uma calça preta e caindo, ela continha alguns rasgos na altura dos joelhos e em suas coxas; vestiu uma camiseta branca com um desenho de caveira em preto; para finalizar, vestiu seu all star – também preto – e amarrou seu casaco na cintura.
Arrumou a mochila em suas costas e desceu as escadas indo de encontro a cozinha. Seu pai já havia saído para o trabalho e sua mãe, embora estivesse pronta, tomava tranquilamente seu café da manhã.
— Vem comer comigo, Nic. – Falou a mais velha, encarando o filho revirar os olhos. – Já disse para não revirar os olhos para mim, mocinho. Essa sua postura de rebelde não combina e nada com o seu jeito.
— Vou pegar uma maçã e vou para a escola. – Avisou ele, fazendo o que havia dito.
— Não ganho nem um beijo?
Nicolas mais uma vez revirou os olhos e gritou um "até mais, mãe, eu te amo", saindo pela porta e a batendo em seguida. Durante seu percurso até a escola, que ficava bem perto de onde morava, botou os fones e ligou uma música em seu celular.
Pessoas passavam em sua frente e ele observava todos de maneira desconfiada, sentia que, a qualquer momento, aquela voz voltaria para o perturbar. Não se sentia psicologicamente preparado para ouvir aquela voz novamente. Só de pensar naquela voz tão próxima ao seu ouvido e a risada abafada em seu pescoço, um arrepio passou por seu corpo inteiro.
O que ele queria dizer quando mandou Nicolas expandir seus horizontes? Aquilo tinha algo relacionado a sexualidade de Nicolas? Porque, se tivesse, não era um problema. O menino sempre fora muito aberto a novas sensações e nunca soube dizer se sua preferência eram meninos ou meninas. Já beijou meninas, mas também já sentiu uma vontade de beijar um garoto. No entanto, ficou apenas na vontade.
Encontrou Brian e Andrew no portão da escola, os cumprimentou como sempre e seguiu com eles para suas devidas salas de aula, a sala dos três era a mesma: bloco B, segundo andar, sala 304.
A maioria da turma ainda não estava presente e isso resultou em uma conversa bem alta entre os amigos. Nicolas até ria com eles, mas, por algum motivo que ele não entendeu, o garoto sentiu que aquela pessoa estava ali. Claro que ele não podia falar isso para os amigos, eles iriam rir dele e o chamar de louco.
Nicolas já era considerado um pouco louco por conta de suas paixões literárias, imagina se os amigos descobrissem que ele anda ouvindo vozes? Vozes não. Uma voz. Não seria nada bom, não é mesmo?
O professor de química chegou na sala, parou em frente a todos e disse que para iniciar bem a semana, eles fariam um trabalho, que poderia ser em duplas ou individual. Claro que Nicolas acabou ficando sozinho, já que seus colegas da frente fizeram juntos.
Daniel, o professor, passou a fazer a chamada e, por seu nome ser para o final da chamada, Nicolas desligou um pouco seus pensamentos. Mas uma manhã que havia começado tranquila, havia acabado de entrar no mundo da fantasia.
— Elieser Chermont. – Chamou o professor e todos começaram a cochichar. Não conheciam ninguém com aquele nome.
— Presente!
O pulo que Nicolas deu foi, no mínimo, algo estranho para todos os ali presentes, que o encaram como se ele fosse uma aberração. Elieser, que estava sentado atrás do menino, abriu um sorriso, sabendo que já havia sido notado.
— Assustei você? – Perguntou a Nicolas, que então se virou para trás e encarou o rapaz. – Acredito que não fomos devidamente apresentados.
Nicolas, ainda assustado, apenas virou-se para frente, mas tomou um segundo susto e dessa vez foi ainda mais forte que o primeiro.
— Gabriela Chermont. – Chamou o professor, encarando os alunos e vendo os dois novatos. – São irmãos? – Perguntou confuso.
— Estou aqui! – A garota respondeu cheia de graça. De onde ela tinha surgido? – E sim, somos irmãos. Gêmeos.
— Você não estava aqui antes. – Nicolas disse ao olhar na direção dos dois alunos que estavam atrás de si.
— Olha, que incrível, o garoto fala. – Disse a tal Gabriela, rindo.
— Só com você, aparentemente. – Elieser franziu o cenho para o Henderson, que o encarava inexpressivo e sem saber o que dizer.
Mais uma vez Nicolas sentou de qualquer jeito e ficou encarando o professor. Estava bem óbvio que ele tinha reconhecido aquela voz e agora sua mente era um turbilhão de pensamentos, perguntas e confusões. Nem sabia se queria mesmo entender o que estava acontecendo.
A aula nunca pareceu tão distante de onde a mente de Nicolas se encontrava. Viu Elieser pedir licença para sair da sala e acabou indo atrás dele. Precisava de pelo menos algumas respostas e precisava delas o mais rápido possível.
Saiu em disparada e viu que ele arrastou um garoto para o banheiro junto com ele. Esperou alguns minutos antes de ir atrás dele.
[...]
Elieser encarava o garoto assustado que se encontrava em sua frente. Tão cheio de vida, tão esperançoso, cheio de sonhos... Cheio de desejos que não chegaria nem mesmo a sentir o prazer de começar seus planejamentos.
— O que vai fazer comigo? – Perguntou o garoto um pouco assustado.
— Ora, por que eu faria algo? Não está vendo minha face angelical? – A voz de Elieser saiu cheia de ironia e aquilo apenas deixou o garoto mais assustado. – Como estou de bom humor, já que acabei de me alimentar, vou deixar passar... Daqui alguns dias já não garanto tanta bondade.
O garoto apenas saiu correndo o mais rápido possível e, nesse momento, Nicolas entrou no banheiro e encarou o Chermont. Por um medo incomum, sentia que encarava a própria morte ali em sua frente. Era assustador. Elieser estava vestido todo de preto: Calçado, calça, camiseta e jaqueta.
— O que é você? – Nicolas foi direto, arrancando uma risada de Elieser. – Eu sei que você estava me atormentando, sei que é você.
— Andou vendo filmes de fantasia, é? – A voz do mais velho permanecia sendo irônica, sarcástica. – Não faço ideia do que você está falando. Apenas vim para a aula.
Em aparência, ele era incrivelmente lindo e sim, esse é o ponto de vista de Nicolas. Ele realmente achou o garoto incrível.
...NICOLAS HENDERSON...
Ao encarar ele em minha frente, ainda mais após ouvir sua voz, a certeza de que ele era aquele que havia falado comigo no fim de semana, apenas se confirmava. Ele transpirava ironia e aquilo, por algum motivo, me incomodou imensamente. Eu tinha mil e uma perguntas para ele, mas agora que ele falou tão próximo a mim foi como se tudo que eu quisesse saber não importasse mais. Ah, qual é, ele é lindo. Não posso negar uma coisa tão óbvia.
Seus cabelos castanhos, seus olhos escuros e seu sorriso sarcástico eram encantadores. Por um motivo sem explicação, fiquei pensando que, mesmo que eu quisesse, não poderia beijá-lo. O cara deve ter dois metros de altura.
Ok, estou sendo exagerado. Ele deve ter pelo menos 1,80 e isso já é consideravelmente muito mais alto que eu.
— Por que tanto me olha? Está interessado? Não me importo de matar aula para me divertir com você. – Perguntou me encarando e o olhei incrédulo.
Mas não fiquei incrédulo pelo que ele disse e sim por eu ter tido vontade de aceitar sua proposta.
Chego a uma única conclusão com tudo isso...
Elieser com certeza é um enigma que quero desvendar.
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